Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR*
Lula e o bolsonarismo condensam memórias políticas opostas, mas o eleito encontrará a mesma armadilha: um orçamento em parte sequestrado pelo Congresso e pelo circuito financeiro, e uma sociedade exausta de esperar
As eleições presidenciais de 2026 não podem ser compreendidas apenas como disputa entre candidatos, partidos ou programas. Elas condensam um processo histórico mais longo, no qual se encontram a formação peculiar do Estado brasileiro, a permanência das elites políticas e econômicas, a transformação recente do capitalismo, a crise da representação, o crescimento da extrema direita e a crescente dificuldade do Estado nacional de controlar as condições materiais sobre as quais pretende governar. O presidente eleito em outubro de 2026 assumirá em 1º de janeiro de 2027 não simplesmente a administração federal, mas um país submetido a restrições econômicas, políticas e internacionais que reduzem sua margem de autonomia.
Quem vencer encontrará um Congresso fortalecido, orçamento mais disputado pelas emendas parlamentares, dívida pública elevada, juros reais altos, demandas sociais reprimidas, estrutura produtiva vinculada à exportação de commodities, pressões ambientais crescentes, organizações criminosas que ultrapassaram os limites tradicionais da segurança pública e uma sociedade politicamente dividida. Governará também em um mundo mais instável do que aquele encontrado pelos governos brasileiros no início deste século. Por isso, a pergunta fundamental de 2026 não é apenas quem vencerá as eleições, mas o que ainda significa vencer uma eleição presidencial no Brasil.
Uma independência que preservou a ordem
O Estado brasileiro nasceu de uma transição política profundamente distinta das rupturas que produziram boa parte das repúblicas hispano-americanas. A Independência de 1822 preservou a monarquia, manteve a escravidão, conservou estruturas econômicas coloniais e acomodou os interesses das elites proprietárias. Mudou-se a relação formal com Portugal sem que se produzisse transformação equivalente nas estruturas sociais.
Essa característica marcou profundamente a história brasileira. A Abolição extinguiu juridicamente a escravidão sem realizar reforma agrária nem integrar a população negra à cidadania econômica. A República derrubou a monarquia sem democratizar profundamente a sociedade. A Revolução de 1930 modernizou o Estado e impulsionou a industrialização, mas preservou estruturas oligárquicas. O golpe de 1964 interrompeu um processo de reformas sociais quando a modernização econômica produzia pressões por transformações estruturais.
Há, portanto, uma continuidade importante: o Estado brasileiro modernizou-se inúmeras vezes sem romper integralmente com as estruturas de poder que o sustentavam. O país tornou-se moderno sem deixar de ser dependente.
A Constituição de 1988 representou a maior tentativa histórica de construir uma cidadania social universal no Brasil. O Sistema Único de Saúde, a seguridade, a educação pública e a ampliação dos direitos políticos estabeleceram um pacto constitucional de enorme alcance. Entretanto, esse pacto nasceu quando o capitalismo mundial caminhava para a financeirização, a liberalização dos fluxos de capital e a crescente subordinação dos Estados às expectativas dos mercados financeiros. Essa tensão atravessou toda a Nova República.
Os governos Lula, iniciados em 2003, operaram dentro dessa estrutura institucional, mas encontraram condições internacionais favoráveis. A expansão chinesa elevou a demanda por commodities, ampliou as exportações brasileiras e permitiu combinar crescimento, políticas sociais, valorização real do salário mínimo e ampliação do consumo. Milhões de brasileiros foram incorporados ao mercado consumidor; universidades federais expandiram-se; programas de transferência de renda produziram resultados sociais relevantes; o desemprego diminuiu.
A crise internacional de 2008 marcou transformação mais profunda. A expansão extraordinária da liquidez financeira, o crescimento do capital fictício, a ascensão dos fundos de investimento, das plataformas digitais e dos grandes conglomerados tecnológicos alteraram a própria temporalidade do capitalismo. Empresas, governos, universidades e indivíduos passaram a organizar decisões mediante expectativas permanentemente atualizadas. O futuro tornou-se objeto de apropriação no presente.
Para países dependentes como o Brasil, essa transformação produz efeitos particulares. A política econômica precisa considerar expectativas de investidores, taxas internacionais, movimentos cambiais e fluxos de capitais capazes de se deslocar em segundos. A soberania política formal permanece, mas a capacidade de controlar o próprio tempo econômico diminui.
A eleição de 2022 mostrou até onde essa dinâmica poderia chegar. A vitória de Lula encerrou eleitoralmente o governo Bolsonaro, mas não eliminou o bolsonarismo. Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 demonstraram que uma parcela radicalizada da sociedade deixara de considerar a alternância eleitoral como mecanismo suficiente de legitimidade política. A democracia sobreviveu, mas não voltou ao ponto anterior.
O que está em disputa em 2026
A eleição de 2026 não será mera repetição de 2022. Jair Bolsonaro não está pessoalmente na urna, mas sua força política permanece organizada e procura transferência eleitoral para seu campo. Lula chega à disputa carregando simultaneamente a força histórica de sua liderança e o desgaste inevitável de quem governa.
As pesquisas divulgadas no início de agosto confirmam uma disputa competitiva e mostram que a polarização continua organizando o sistema eleitoral. Mas há uma diferença substantiva. Em 2022, a defesa das instituições democráticas teve papel central na construção da frente que sustentou Lula. Em 2026, a democracia continua importante, porém o cotidiano econômico, a segurança pública, o custo de vida e a capacidade de oferecer perspectivas de futuro ganham peso maior. Não basta defender a democracia. Será necessário responder à pergunta sobre o que a democracia consegue entregar socialmente.
O vencedor receberá uma economia contraditória. O mercado de trabalho permanece forte e as projeções para 2026 indicam crescimento positivo e moderado. Não será necessariamente uma economia em recessão que chegará às mãos do novo governo.
Mas os obstáculos aparecem quando se observa a estrutura fiscal. A dívida bruta encontra-se em patamar elevado e deverá continuar pressionando o governo seguinte. O resultado nominal permanece negativo e a despesa com juros absorve parcela expressiva da riqueza produzida no país. O novo presidente terá de investir em infraestrutura, saúde, educação, ciência, defesa, transição energética e segurança pública ao mesmo tempo que enfrentará pressão permanente pela estabilização da dívida.
O problema não é apenas contábil. Uma dívida elevada numa economia que opera por períodos prolongados com juros reais altos transfere quantidade extraordinária de recursos ao circuito financeiro. Mesmo com eventual redução da Selic, os juros continuarão condicionando investimento e orçamento.
Parte importante das decisões do próximo governo dependerá, portanto, de variável que o presidente não controla diretamente: a política monetária conduzida por um Banco Central autônomo. Temos aqui uma transformação fundamental do poder presidencial. O presidente será eleito por dezenas de milhões de cidadãos, mas parcela decisiva das condições econômicas de seu governo será determinada por estruturas institucionais e expectativas financeiras que não estão submetidas ao mesmo ciclo eleitoral.
Indicadores macroeconômicos e experiência social não são equivalentes. A inflação pode diminuir sem que os preços retornem ao patamar anterior. O cidadão não compara apenas índices; compara o dinheiro que recebe com aquilo que consegue comprar. Moradia, alimentação, planos de saúde, medicamentos, transporte e serviços constituem a experiência cotidiana da economia.
Por isso, um país pode apresentar desemprego relativamente baixo e, simultaneamente, produzir percepção de insegurança econômica. Essa será uma das heranças de 2027: uma sociedade empregada em proporção relativamente elevada, mas insegura quanto ao futuro.
A expansão do trabalho por plataformas, a informalidade, a automação e a inteligência artificial tornarão ainda mais importante discutir a qualidade do trabalho, não apenas a quantidade de empregos. O próximo governo precisará enfrentar uma pergunta que vai além dos indicadores conjunturais: como organizar proteção social numa economia em que as fronteiras entre emprego, trabalho autônomo e prestação de serviços digitais tornam-se cada vez mais instáveis?
O Congresso não será coadjuvante
O presidente eleito receberá uma Presidência distinta daquela dos anos 1990 ou do início dos anos 2000. O Palácio do Planalto continua poderoso, mas perdeu parte da centralidade sobre a execução do orçamento. O presidencialismo de coalizão não desapareceu; foi reorganizado em bases mais favoráveis ao Legislativo.
Há nisso um paradoxo. A sociedade continuará atribuindo ao presidente responsabilidade quase absoluta pelo desempenho do governo. Entretanto, parcela crescente dos recursos estará submetida a negociações com um Congresso que possui agenda própria e interesses territoriais. O presidente de 2027 poderá vencer a eleição nacional e, ainda assim, começar o mandato politicamente minoritário.
A composição da Câmara e do Senado será, portanto, tão importante quanto o resultado presidencial. Governar não será simplesmente executar o programa legitimado pelas urnas. Será reconstruí-lo permanentemente dentro de uma correlação parlamentar que poderá ter orientação distinta daquela do presidente. A velha questão brasileira reaparece sob nova forma: quem governa efetivamente o Estado?
O próximo presidente terá de tratar a segurança como política nacional sem destruir o federalismo. Será necessário integrar inteligência financeira, Polícia Federal, Receita Federal, forças estaduais, controle de fronteiras e investigação patrimonial. A resposta exclusivamente repressiva pode produzir efeitos eleitorais imediatos, mas não desmonta a estrutura econômica das organizações criminosas.
O país necessita manter relações estratégicas com Washington sem romper com Pequim, defender o multilateralismo numa ordem cada vez menos multilateral, participar dos BRICS sem transformar essa presença em alinhamento automático e recuperar capacidade de liderança latino-americana num continente politicamente fragmentado.
A dependência ganhou nova forma
A dependência contemporânea já não pode ser compreendida apenas como relação comercial entre países industrializados e exportadores de matérias-primas. Ela incorporou dimensões financeiras, tecnológicas, cognitivas e temporais.
O Brasil exporta alimentos, minérios e energia em escala extraordinária, mas depende das grandes plataformas internacionais para comunicação, circulação de informações e processamento de dados. Depende de tecnologias externas em setores estratégicos e de cadeias internacionais para componentes industriais complexos. Parcela importante de seu horizonte econômico é condicionada pela movimentação do capital financeiro internacional.
A inteligência artificial torna essa questão ainda mais urgente. Nos próximos quatro anos, sistemas de inteligência artificial deverão alterar profissões, pesquisa científica, administração pública, indústria, serviços e educação. Um país que não possuir infraestrutura computacional, energia, formação científica e domínio sobre seus dados poderá tornar-se consumidor de tecnologias produzidas em outros centros.
A dependência, nesse caso, não será apenas econômica. Será dependência sobre a produção do conhecimento e sobre as condições de imaginar o futuro. Desenvolvimento, portanto, não significa apenas ampliar o PIB. Significa possuir capacidade de decisão. Um país pode crescer enquanto perde autonomia tecnológica, industrial e científica.
A ciência, entretanto, não obedece ao calendário eleitoral. Uma universidade não é construída em quatro anos. Um sistema científico não amadurece em uma legislatura. Um pesquisador leva décadas para formar-se.
Essa é também uma disputa sobre o tempo. O capitalismo contemporâneo exige retorno cada vez mais rápido; a ciência exige duração. O mercado financeiro reorganiza expectativas diariamente; a universidade trabalha com gerações. Se o Estado se submeter integralmente à temporalidade imediata do mercado, perderá a capacidade de produzir aquilo que somente pode existir no longo prazo.
O bolsonarismo demonstrou capacidade de sobreviver à derrota de 2022 e à impossibilidade de candidatura de Jair Bolsonaro. Isto significa que não se trata apenas da biografia de um homem. Existe uma base social conservadora que encontrou representação política duradoura.
Da mesma maneira, o lulismo não pode ser reduzido ao Partido dos Trabalhadores. Lula conserva vínculos com parcelas importantes dos trabalhadores, setores populares, Nordeste, movimentos sociais e segmentos que associam seus governos à ampliação do consumo e das políticas sociais.
A eleição ocorrerá entre identidades políticas que possuem memória. O vencedor assumirá um país no qual dezenas de milhões terão votado contra ele. Se interpretar maioria eleitoral como autorização para negar a existência política da minoria, aprofundará a crise. Governar o Brasil exigirá governar também aqueles que perderam a eleição.
O país que será entregue em 2027
O presidente eleito receberá um Brasil economicamente relevante, dotado de enorme capacidade agrícola, energética e ambiental; uma das maiores democracias eleitorais do mundo; sistema público de saúde de dimensão continental; universidades e instituições científicas consolidadas; reservas internacionais importantes; matriz elétrica relativamente limpa; grande mercado interno e posição geopolítica singular.
Não receberá um país arruinado. Mas receberá um país bloqueado por contradições. A dívida pública estará elevada. Os juros continuarão pressionando as contas públicas e o investimento. O Congresso administrará parcela relevante do orçamento. A sociedade permanecerá polarizada. A criminalidade organizada exigirá coordenação nacional. A indústria enfrentará problemas de produtividade e competitividade. A transformação tecnológica pressionará o mercado de trabalho. E a disputa entre Estados Unidos e China reduzirá as possibilidades de neutralidade passiva.
Ao mesmo tempo, inflação, preços e custo de vida continuarão influenciando a experiência cotidiana da população. O presidente poderá mostrar indicadores positivos e ainda assim enfrentar descontentamento social. Porque o problema brasileiro já não pode ser medido apenas pela presença ou ausência de crescimento. A questão é quem participa desse crescimento, quais serviços consegue acessar, quanto de sua renda é consumido pela sobrevivência e que expectativa possui para os filhos.
A história brasileira demonstra isso de maneira quase pedagógica. A Independência alterou o centro político sem destruir a estrutura social colonial. A República mudou o regime sem democratizar imediatamente a sociedade. A industrialização modificou a economia sem eliminar a dependência. A Constituição de 1988 ampliou extraordinariamente os direitos sem garantir permanentemente os recursos necessários para financiá-los.
O risco de 2026 é repetirmos a mesma forma: uma eleição intensíssima, capaz de mobilizar milhões de pessoas, seguida por um governo obrigado a negociar dentro de estruturas que permanecerão essencialmente inalteradas.
Se Lula vencer, não poderá simplesmente reproduzir 2003. O mundo das commodities em expansão, da globalização relativamente cooperativa e do crescimento chinês acelerado não existe mais da mesma forma. Se vencer a oposição, também não haverá liberdade para uma ruptura simples. Será necessário construir maioria parlamentar, administrar a dívida, conviver com o Banco Central, preservar relações internacionais, negociar com governadores, manter políticas públicas nacionais e responder às instituições de controle.
O presidente que subir a rampa do Palácio do Planalto em 1º de janeiro de 2027 encontrará uma sociedade ansiosa por respostas rápidas para problemas construídos ao longo de décadas. Essa diferença entre o tempo das expectativas e o tempo necessário às transformações será uma das principais fontes de instabilidade do novo governo.
A população exige resultados imediatamente. As redes sociais julgam diariamente. Os mercados reagem em minutos. O Congresso negocia semanalmente. Pesquisas de opinião transformam-se rapidamente em avaliação de governo.
Está aí talvez a questão mais profunda do Brasil contemporâneo: o país perdeu parte da capacidade de administrar o próprio tempo. Governos tornaram-se gestores de urgências. Administram orçamento, juros, crises ambientais, preços, conflitos políticos, redes sociais e emergências sucessivas. Pouco tempo resta para construir aquilo que ainda não existe.
É nesse sentido que a dependência contemporânea pode ser compreendida como controle do tempo histórico. Uma sociedade dependente não é apenas aquela que transfere riqueza para o centro do sistema. É também aquela cuja capacidade de decidir sobre o próprio futuro se encontra limitada por estruturas econômicas, financeiras, tecnológicas e cognitivas que não controla.
A eleição de 2026 colocará projetos políticos em confronto. Mas, qualquer que seja o resultado, permanecerá uma pergunta anterior aos candidatos: o Brasil ainda consegue produzir um projeto histórico próprio?
Essa pergunta não pode ser respondida apenas por uma eleição. Ela exige recuperar a capacidade do Estado de planejar, da universidade de pensar, da ciência de investigar, da sociedade de debater e da política de olhar além da próxima pesquisa eleitoral.
O presidente eleito herdará uma democracia resistente, mas tensionada; uma economia capaz de crescer, mas submetida a severas restrições financeiras; um país socialmente moderno, mas ainda profundamente desigual; uma potência ambiental sem pleno domínio tecnológico; e uma sociedade que deseja futuro enquanto suas instituições são obrigadas a funcionar na temporalidade permanente da urgência.
Administrar esse Brasil será difícil. Transformá-lo será ainda mais. O verdadeiro desafio do governo iniciado em 2027 não será apenas equilibrar orçamento, formar maioria no Congresso ou produzir crescimento. Será reconstruir a possibilidade de que decisões tomadas no presente possam produzir efeitos duradouros no futuro.
Talvez seja justamente aí que as eleições de 2026 adquiram sua dimensão histórica. Não estarão em disputa apenas quatro anos de governo. Estará em disputa a possibilidade de o Brasil recuperar, ainda que parcialmente, o controle sobre seu próprio tempo histórico.
*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP].

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