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Meu Antônio

Do A Terra É Redonda, 25 de agosto 2026
Por IVANA JINKINGS


Apresentação do livro recém-lançado

1.

Era pra ser uma biografia. Juntamos documentos, fotografias e a fonte principal seria, claro, a companheira de toda uma vida: Isa Jinkings, minha mãe. O plano, ter o volume sobre o dirigente comunista, jornalista e livreiro Raimundo Jinkings, meu pai, pronto para ser publicado nos dez anos de seu falecimento.

Nascido no povoado de Turimirim, banhado pelo rio Turiaçu, no Maranhão, ele teve uma infância simples. Trabalhou desde menino, enquanto aprendia, com o pai, as primeiras letras. Mudou-se para São Luís e, no fim da adolescência, para Belém do Pará, onde completou os estudos. Ali se estabeleceu em definitivo, constituindo uma vida marcada pela generosidade e pela luta firme, mas serena, em prol da emancipação humana.

Isa, filha de pai português e mãe brasileira, conheceu Antônio aos quinze anos e com ele viveu uma história das mais bonitas. Tiveram cinco filhos e, depois que a quinta (eu) já estava crescida, ela voltou a estudar – tinha se formado professora antes. Cursou a faculdade de letras, deu aulas e segurou o sustento da família durante a prisão do companheiro, na ditadura.

Em 1995 ele partiu e ela foi deixando de cantar – até hoje sei de cor músicas que entoava, como “Chão de estrelas”, “A banda”, “Alecrim dourado” –, mas não perdeu o interesse em aprender coisas novas. Sempre leu muito, adora teatro, procura acompanhar as reviravoltas políticas que este mundo dá e ainda se indigna com injustiças. Foi dela a ideia deste livro.

Contratamos, para dar forma ao projeto, uma profissional. Que ouviu por horas e horas minha mãe, vasculhou documentos e começou a entregar o material. Isoca – como é chamada carinhosamente em família – lia aquelas páginas e não se reconhecia nelas. “Não foi assim que falei.” Ia reescrevendo e aos poucos assumiu a redação do texto, no estilo romântico que os leitores logo conhecerão. O título inicialmente previsto, “Jinkings, um comunista”, foi atualizado, e assim nasceu este Meu Antônio.

Como editora, procurei tornar o texto direto e objetivo. Como filha – que papel difícil! –, terminei por me render ao formato que, neste caso, fazia mais sentido. Talvez justamente por isso o livro tenha ficado “estacionado” durante tantos anos em minha mesa de trabalho. A mistura de fotos familiares e políticas, por exemplo, não é mero acaso; resulta do intrincado dessas facetas que compõem um todo só, do Jinkings e do Antônio, tornando indissociáveis as várias esferas de sua vida.

2.

O que temos aqui é, antes de tudo, o relato amoroso de uma existência compartilhada por mais de quarenta anos. Dando voltas no tempo, Isa vai do encontro com Antônio à morte dele, aos 68 anos. Namoro, casamento, militância. De sindicalista a dirigente político, primeiro no PSB, depois no PCB, partido ao qual Isa viria também a se filiar. Sua atuação política, a perseguição sem tréguas e as prisões nos tempos sombrios inaugurados em 1964 – foi um dos responsáveis pela reorganização do PCB –, o duro recomeço profissional e a batalha para construir do zero uma referência da vida cultural paraense: a Livraria Jinkings. Foi também fundador da primeira Boitempo – de vida curta, mas que serviu de inspiração para a casa que agora lança esta obra.

Meu Antônio reúne textos, cartas, artigos, fotografias e reproduções de documentos. Com prefácio de um dos principais marxistas brasileiros, José Paulo Netto, camarada de Jinkings no Comitê Central do PCB, e posfácios do companheiro dos tempos de sindicato, o economista Roberto Corrêa, e da professora Amarílis Tupiassú, além de depoimentos dos filhos e de alguns amigos. O texto carinhoso de capa é do escritor Marcelo Rubens Paiva.

Retomar a edição foi como suspender o tempo. Com direito a recorrentes sonhos com meu pai, ora na casa da nossa infância, onde ele surgia sen-tado no sofá conversando com autores da Boitempo, como se fosse hoje; ora ao meu lado em eventos políticos que minha memória matutina não conseguiu identificar.

No centro da cidade, vou a um dos restaurantes que ele gostava de frequentar em São Paulo, um árabe tradicional. O lugar, o cheiro, o sabor me arremessam ao final dos anos 1980, quando escapávamos para comer, conversar. Eu o recebia num apartamento minúsculo, cedia meu quarto, sob protestos (ele insistia em dormir com as crianças ou no sofá da sala).

Lembro também as viagens com toda a família para a praia, para Rio e São Paulo, quando íamos a shows, ao teatro; de quando em Belém saíamos, só os dois, para tomar sorvete; das frutas de que ele mais gostava, como bacuri, sapoti, biribá; de quando cantávamos e dançávamos juntos uma adaptação de “Tico-tico no fubá”, com uma coreografia engraçada, inventada por ele. Que fez ainda uma versão de “Boiadeiro”, cantada assim: “De manhazinha quando eu venho pela estrada, minha Ivaninha vem correndo me abraçar. É tão pe-quena, é pequenina, é quase nada, mas não tem outra mais bonita no lugar”.

Procurando imagens e documentos para este livro, li parte da correspondência trocada entre meus pais, durante os meses em que ele esteve preso. Comovente perceber como a dureza do período em nada abalou o carinho com que se tratavam. Uma dessas cartas foi escrita no dia em que ele decidiu se entregar aos militares, para terminar com as recorrentes notícias de sua captura ou assassinato, apresentando-se no Banco da Amazônia, onde trabalhava.

Num bilhete aos cinco filhos, na véspera do Dia das Mães, há um trecho dirigido especialmente aos quatro maiores: “Ajudem a Isa a cuidar da minha Vanoquinha querida, de quem estou separado no momento mais importante de sua vida. Ela, que era minha maior distração, a minha grande alegria nas horas de folga. Ah, se pudesse tê-la aqui comigo! O meu amor por ela não é maior do que o que sinto por qualquer um de vocês, é que ela está na fase em que as crianças representam o que existe de mais puro, tudo o que fazem é espontâneo e cheio de tanta naturalidade e beleza”.

3.

Ele nos mostrou as letras, ensinou desde cedo o que era injustiça, esquerda, direita. Sua presença constante, apesar da militância intensa, talvez explique por que sua atuação política foi sempre, para nós, motivo de orgulho e inspiração. Escutava, aceitava e acho que até se divertia com as filhas “desviantes” – Nise próxima do PCdoB, Leila na Convergência Socialista e eu no MR-8 –, apos-tando que um dia as três terminariam no PCB, o que de fato aconteceu no meu caso e no da Leila. Relevava nossas críticas ao “reformismo” do Partidão e ao mesmo tempo permitia que o segundo andar da livraria fosse aparelho para reuniões de diversos grupos políticos. Tento imaginar o que diria dos recentes “rachas” do partido, do atual governo petista e tanto mais.

A nossa era uma casa onde a leitura e o conhecimento tinham enorme valor. Nos criaram dando exemplos cotidianos de generosidade. Da livraria, ficaram famosas as histórias dos furtos, e alguns dos responsáveis já eram conhecidos dos funcionários. Quando entravam, papai era avisado de que fulano estava lá, com uma pasta na mão. Ele, em geral, ria e falava “deixa”…

Havia também os que mantinham uma conta infindável, iam comprando, a dívida só crescia. Lembro-me de uma vez – quando adolescente, costumava ajudá-lo aos sábados – tentar enquadrar um conhecido professor universitá-rio, possuidor de uma dessas contas. Ele me olhou e apenas disse: “Chama teu pai”. Pronto, lá se foi para casa com mais livros fiados. Recebo até hoje relatos de pessoas conhecidas ou desconhecidas contando que só puderam estudar graças à Livraria Jinkings. O que vale como registro para a história do livro e da leitura no Brasil.

Quando adoeceu, veio para São Paulo. Minha mãe ao lado em tempo integral, os filhos se revezando de modo a ter sempre um de nós com ela. Sua valentia não conseguiu vencer aquela batalha. Morreu em Belém, no Sítio dos Netinhos, de mãos dadas com seu amor. E cercado de tantos que reconheciam nele o homem que dedicou toda a sua vida para que a vida fosse melhor para todo o mundo.

Nos deixou quando preparávamos o primeiro lançamento da Boitempo. Não chegou a ver o livro impresso. Gosto de pensar que, se vivo fosse, estaria orgulhoso dessa continuidade, como mais uma marca deixada, e de me fazer sentir que, de algum modo, sigo as pegadas que ele fincou.

Uma vez meu sobrinho Yuri deixou-me comovida ao comparar, num grupo de mensagens da família, os ensinamentos do avô com os de outro Antonio, o sardo que condenou a indiferença como “o peso morto da his-tória”. Ali me dei conta de que esse talvez tenha sido o principal legado de meu pai. Independentemente de serem mais ou menos militantes, dessa ou daquela tendência ou linha política, seus filhos – e depois os netos – buscam, por caminhos diversos, fazer deste mundo um lugar melhor. Que o ódio aos indiferentes de Antonio Gramsci continue germinando pelas próximas gerações, na nossa pequena aldeia e pelo mundo afora.

*Ivana Jinkings é diretora-geral da Boitempo e organizadora, entre outras obras, de Armas da crítica (Boitempo) e A verdade vencerá (Boitempo).

Referência



Isa Jinkings. Meu Antônio. São Paulo, Editora Boitempo, 2026, 272 págs. [https://link.amazon/B0eZYaqXB]


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