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Dowbor: A quem serve a intermediação digital?

Das infraestruturas às políticas sociais, ela é indispensável. Porém, foi privatizada pelo rentismo e big techs para capturar riqueza e manipular a sociedade. De que forma um novo arranjo pode garantir vida digna à população?


De OutrasPalavras, 12 de agosto 2026
Por Ladislau Dowbor, em seu blog | Tradução: Rôney Rodrigues




Imagem: Kevin Fales

À medida que nossas crises globais convergentes – desigualdade, desafios ambientais, violência, caos financeiro – atingem uma dimensão catastrófica, além de apresentar as estatísticas sobre os dramas, precisamos reconsiderar o processo decisório que as gera e nos impede de enfrentá-las. A questão da governança como um todo deve ser reduzida a soluções práticas. – Ladislau Dowbor, 18 de abril de 2026

Os bilionários não prestam contas a ninguém – Sebastian Mallaby – The Infinity Machine¹

Ao pensar sobre as engrenagens econômicas, é útil compreender como seu encaixe gera produtividade geral. Trata-se de uma questão de complementaridade organizada e da sinergia resultante. A manufatura, por exemplo, pertence às atividades diretamente produtivas, basicamente empresas privadas em mãos privadas e reguladas predominantemente pelos mercados. Mas essa área produtiva depende fortemente de outra área, as infraestruturas: ter boas estradas e ferrovias, sistemas energéticos confiáveis, infraestruturas de comunicação digital, bem como redes sólidas de água e saneamento – elas tornam todas as atividades mais produtivas. As infraestruturas são melhor organizadas como suporte público, dependendo de planejamento estrutural de longo prazo e construção de redes. Expandir ferrovias, identificar como conectar regiões dentro de um país e além, não depende de flutuações de preços e não deveria depender do oportunismo privado. Xangai tem mil quilômetros de metrô subterrâneo, a China tem 50 mil quilômetros de ferrovias de alta velocidade: é mais barato e mais eficaz para todos. Produtividade sistêmica.

Podemos usar a mesma abordagem para as políticas sociais. Como visto em outros artigos, essa área, que envolve saúde, educação, segurança e outros serviços básicos de consumo coletivo, funciona melhor quando organizada não como corporações privadas em busca da maximização do lucro, mas como políticas públicas que garantem a inclusão de todos. Não é como comprar seu sabonete favorito no supermercado: são políticas às quais todos deveriam ter acesso, e representam investimento, não despesas. No Brasil, a privatização da educação, da saúde e da segurança levou a deformações dramáticas. Os EUA são atualmente um exemplo negativo extremo. Onde funcionam, garantindo acesso universal gratuito como serviços públicos, provaram ser muito mais eficientes quando descentralizados e adaptados de forma flexível às particularidades locais. É simplesmente mais produtivo. E não se pode justificar que pais pobres não tenham acesso a escolas e atendimento médico para seus filhos. A ética é uma parte essencial das decisões econômicas, por mais distorcidas que sejam as interpretações do “liberalismo”.

Mas as áreas de produção, infraestruturas e políticas sociais dependem todas de uma quarta área, os serviços de intermediação. Envolve a intermediação do dinheiro, um grande negócio atualmente; ele não está mais em nossos bolsos, é digital. Envolve também o gigantesco oligopólio comercial digital, os enormes sistemas de comunicação, e até mesmo os advogados em quem precisamos confiar, um grande negócio hoje em dia. Todos esses intermediários, ou negócios intermediários, cobrando todos os tipos de pedágios, nos mantêm em um redemoinho de drenos pequenos ou maiores, em permanente atualização. O marketing, por exemplo, que antes nos informava sobre produtos, tornou-se uma gigantesca área de manipulação, baseada em nossas informações privadas. Profundamente transformada pela revolução tecnológica, com acesso direto à nossa atenção, essa área exige novas formas de regulação e inovações institucionais. Caos é uma palavra suave para o que estamos enfrentando.²

Finanças


O dinheiro atualmente é apenas informação em computadores ou celulares; raramente vamos a um banco, e ele não tem pilhas de dinheiro em papel em cofres gigantes. Os bancos tornaram-se essencialmente centros digitais e pertencem ao enorme e complexo sistema de intermediação financeira do qual todos dependemos. Nada que você possa esconder debaixo do colchão. E o banco não tem problemas em emprestar dinheiro que não possui. Com limites, é claro; em 2008, o Lehman Brothers havia emprestado 31 vezes mais do que o dinheiro disponível em caixa, e a catástrofe baseou-se nesse uso generalizado do que chamam de “alavancagem”. Ganhar dinheiro com dinheiro que você não tem tornou-se uma prática geral. Junto com tantas práticas obscuras, isso tem sido chamado de financeirização.

Os serviços financeiros antes se concentravam em financiar atividades produtivas e podiam ser vistos como serviços úteis quando eram razoavelmente regulados pelo Glass-Steagall Act, que foi revogado durante a administração Clinton. Atualmente, representam um sistema enormemente confuso, com bancos paralelos (shadow banking), instituições de gestão de fortunas pessoais, paraísos fiscais, todos montados no dinheiro imaterial que vagueia pelo mundo em busca da maximização da renda com o dinheiro de outras pessoas. Com a chamada negociação de alta frequência, as transferências de dinheiro representam cerca de 70 vezes o volume efetivo de bens e serviços negociados. Pagando pedágios em cada troca. O dinheiro imaterial permite que a BlackRock, uma gigante da gestão de ativos, busque a maximização do lucro em todo o mundo, usando o poder dos algoritmos para gerenciar atualmente US$ 14 trilhões. O orçamento federal do governo dos EUA é de cerca de US$ 7 trilhões, apenas para comparação. O PIB brasileiro é de cerca de US$ 2,3 trilhões. A financeirização obedece à maximização global do lucro, fora do alcance de qualquer regulação.

Não é nosso objetivo aqui descrever a enorme complexidade dos sistemas financeiros globais ou nacionais, mas sim enfatizar a necessidade de mecanismos gerais de regulação nessa dimensão da intermediação monetária. Sendo apenas uma notação em computadores, e com tanto poder no topo, o que deveria financiar o investimento produtivo e as necessidades privadas tornou-se um enorme dreno. Os fluxos monetários são globais, e não temos um banco central global, mesmo que Trump tenha como objetivo impor o império do dólar. As instituições de Bretton Woods têm 80 anos e estão desdentadas. As instituições nacionais dificilmente conseguem enfrentar as finanças globais. Na ausência de capacidade regulatória e com o poder geral da concentração global de ativos financeiros, estendendo seu domínio sobre tantas partes do mundo, os resultados são catastróficos. As dez maiores corporações de gestão de ativos têm AUM (Ativos Sob Gestão) equivalente a aproximadamente metade do PIB mundial.³

Um relatório sobre a situação dos países em desenvolvimento nos dá uma ideia geral: “Um novo banco de dados do Debt Service Watch preparado para este relatório mostra que, quando medido pelo peso do serviço da dívida nos orçamentos, esta é a pior crise da dívida global de todos os tempos. Em 2024, o serviço da dívida está absorvendo 41,5% das receitas orçamentárias, 41,6% dos gastos e 8,4% do PIB, em média, em 144 países em desenvolvimento: números muito superiores aos anteriores ao alívio concedido à América Latina na década de 1980 e aos HIPCs (Países Pobres Altamente Endividados) a partir de 1996. Mais importante, o serviço da dívida excede todos os gastos sociais, e é 2,7 vezes os gastos com educação, 4,2 vezes a saúde, 11 vezes a proteção social e 54 vezes a adaptação climática.”⁴

São países que têm necessidades desesperadas de investir em educação, saúde, indústria e afins. Políticas financeiras de maximização do lucro no curto prazo são o que podemos esperar se os fluxos financeiros estiverem em mãos privadas. Temos exemplos importantes de fluxos monetários regulados de modo a estimular o desenvolvimento, particularmente na China. A economia chinesa superou a americana em 2014, e atualmente é cerca de 25% maior. Garantir que o dinheiro seja produtivo certamente compensa. E é o nosso dinheiro, nossas poupanças nos bancos, nossos impostos no serviço da dívida pública.

Informação


De modo geral, os sistemas de comunicação sofreram uma revolução semelhante, com transformações tecnológicas aceleradas que não foram acompanhadas pela correspondente capacidade regulatória. Alphabet, Meta, Amazon, Microsoft, Tesla e outras gigantes tornaram-se manipuladoras globais de nossas informações, tanto extraindo detalhes privados individuais quanto nos alimentando com conteúdo que maximiza a atenção. Antes conhecido como marketing, tornou-se a indústria da atenção, gerando as maiores fortunas do mundo. A revolução digital abriu novos potenciais impressionantes por meio da conectividade global em uma sociedade do conhecimento, mas o poder corporativo assumiu o controle. O Facebook atinge mais de 3 bilhões de usuários. Parece gratuito, mas cobra seus custos e lucros dos anunciantes, que por sua vez incluem esses custos nos produtos que pagamos. Isso é estudado como inflação de lucro.

Aproximadamente 10% do preço que pagamos por tantas de nossas compras destina-se a financiar a publicidade, atualmente chamada de marketing comportamental, pois se baseia nas informações privadas que extraem de nós. É invasiva, custosa e sistemicamente negativa, pois toma nosso tempo e gera necessidades artificiais. Não preciso de marketing para as coisas que não me interessam, e para as coisas que preciso, buscarei informação. Isso significa a apropriação efetiva da IA e da tecnologia de comunicações, com a IA me ajudando a alcançar o que quero, e não sendo invadido pelo que as corporações querem. Tim Berners-Lee, em seu livro This is for Everyone, detalha esse desafio fundamental, entre a IA manipuladora e custosa a serviço do interesse corporativo global, e as oportunidades de acesso ascendente à informação e ao conhecimento que buscamos.⁵

Assim como na regulação dos fluxos financeiros globais, regular a informação é um enorme desafio. Quando Elon Musk compra o Twitter, permitindo-lhe propagar suas opiniões para centenas de milhões, ou quando vemos como compensa maximizar a atenção por meio da pornografia, ou mesmo as mensagens estupidamente repetitivas que invadem nossas vidas e intimidade, é óbvio que isso não se trata de “liberdade”; trata-se de manipulação. E o fato de que isso rende às corporações privadas e seus donos fortunas gigantescas, dinheiro que resulta do monopólio – para nos comunicar, precisamos usar o que os outros usam, isso se chama monopólio de demanda – fica claro que o que precisamos é de acesso público gratuito, não de conteúdo invasivo. O acesso público gratuito e a regulação referente ao conteúdo são a estrutura institucional básica que devemos buscar.

A abordagem geral que sugiro é que devemos ir além das simplificações ideológicas do século XIX. Nesta sociedade complexa e em rápida mudança, devemos construir diferentes sistemas de gestão em diferentes áreas de atividade. Negócios e serviços produtivos, de carros a barbearias, podem contar com os mercados num contexto de regras básicas sociais e ambientais. As grandes infraestruturas que interligam todas as atividades devem estar em mãos públicas e buscar a produtividade geral e o equilíbrio ambiental. As políticas sociais devem ser essencialmente públicas; algumas coisas, como acesso à educação, serviços de saúde, um teto sobre sua cabeça, e até mesmo uma renda básica, devem ser garantidas a todos. E os serviços de intermediação devem ser fortemente regulados, pois as novas tecnologias permitem um nível de concentração de riqueza e subsequente controle político que está nos levando para o buraco, tanto em termos de desigualdade quanto de dramas ambientais.

Não estou sonhando. Trabalhei em países pobres e ricos, em diferentes continentes, e vi como as coisas podem funcionar de maneira diferente se você buscar o resultado geral básico: uma vida melhor para todos. Podemos apenas olhar para as experiências positivas, e não se trata apenas de dinheiro. O Banco Grameen em Bangladesh mostra as conquistas possíveis se você colocar o dinheiro nas mãos certas. Podemos olhar para as soluções de gestão pública no estado de Kerala, na Índia, as políticas de infraestrutura na China, as soluções financeiras descentralizadas nos países nórdicos, e tantas outras soluções concretas.

Mas isso significa que, de modo geral, começamos a pensar que a economia deve nos servir, ajudar-nos a construir uma vida rica e próspera para todos, e o fato é que, graças a tanto progresso tecnológico, com o que produzimos atualmente, podemos garantir que ninguém fique para trás. Se todos puderem ter certeza do apoio social, podemos construir uma sociedade colaborativa e pacífica, não a bagunça em que estamos. Como reorganizar os processos decisórios para o bem comum, esse é o desafio.⁶
Notas

1 Sebastian Mallaby – The infinity Machine – Penguin Press, 2026.
2 Ladislau Dowbor – The new economic and political gears – Revista Pesquisa e Debate, v. 37, n. 2(68) 2025 ISSN 1806-9029 Pontifical University of São Paulo.
3 Peter Phillips – Titans of Capital: how concentrated wealth threatens humanity – The Censored Press, 2024. Book review.
4 Matthew Martin and David Waddock – Debt Service International – 2024.
5 Tim Berners-Lee – This is for everyone: the unfinished story of the World Wide Web – Farrar, Straus and Giroux, New York, 2025. Book review.
6 Ladislau Dowbor – The Age of Unproductive Capital – Cambridge Scholars, Cambridge, 2021.


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Ladislau Dowbor
Economista e professor titular de pós-graduação da PUC-SP. Foi consultor de diversas agências das Nações Unidas, governos e municípios, além de várias organizações do sistema“S”. Autor e co-autor de cerca de 45 livros, toda sua produção intelectual está disponível online no website www.dowbor.org.

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