De Outras Palavras, 6 de agosto 2026
Por Eduardo Giordano, no El Salto | Tradução: Rôney Rodrigues
Um olhar rápido sobre o mapa político da América Latina mostra que a maioria dos países da região, sobretudo os andinos, deu um giro recentemente à extrema-direita, precedendo ou em seguida a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Desde a América Central até a Terra do Fogo, praticamente todos os países atravessados pela cordilheira dos Andes – que somam uma área conjunta de oito milhões de quilômetros quadrados, equivalente à do Brasil – passaram a ter governos com acentuado viés direitista e, em quase todos os casos, decididamente ultradireitista. O processo começou com a eleição de Javier Milei na Argentina, mas acelerou-se nos últimos meses com as eleições da Bolívia, Chile, Peru e Colômbia. Na América do Sul, apenas Brasil e Uruguai resistem a submeter-se às políticas de segurança coercitivas dos novos profetas do populismo ultraconservador.
Depois de consolidar o poder de seus aliados de extrema-direita no continente, influenciando as eleições nacionais por meio de fraudes ou da promoção e financiamento de seus candidatos, os Estados Unidos convidam seus aliados a adotar um preocupante arsenal jurídico baseado em sua nova legislação antiterrorista, para que esses governos possam perseguir, reprimir e, se for o caso, exterminar abertamente os opositores. Um novo Plano Cóndor de perseguição a inimigos (antes chamados de subversivos), que agora seria aplicado em escala global. E como os inimigos fantasmagóricos não são terroristas nem guerrilheiros, mas esquerdistas democráticos, associar as ideias de esquerda à qualificação de extremistas é o coquetel perfeito para angariar o apoio dos grandes meios de manipulação de audiências, começando pelos novos meios digitais.
Resurgimento do terrorismo político?
No dia 16 de julho passado, os Estados Unidos convocaram mais de 60 países para uma cúpula de alto nível em Washington, a fim de coordenar com eles – a lista completa permanece em segredo – sua nova estratégia antiterrorista. Referida cúpula, denominada Reunião Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político, contou com uma representação de nível inferior do governo espanhol, o que sugere que nem todos os participantes compartilhariam, a priori, os planos da Casa Branca. A convocatória institucional pretende legitimar internacionalmente a cruzada ideológica anticomunista lançada por Marco Rubio e pelo presidente Donald Trump.
O discurso inaugural foi proferido pelo Secretário de Estado, Marco Rubio, alimentando fantasmas do passado como as Brigadas Vermelhas ou os Tupamaros, organizações extintas há mais de meio século, e confundindo-as com entidades fantasmagóricas inventadas pela Administração Trump, como uma suposta rede transnacional interconectada de “militantes da Antifa”, que, assim como o fantasmagórico “Cartel dos Sóis”, nunca existiu.
Uma cruzada ideológica contra o conhecimento científico, a consciência social e a insubmissão; contra qualquer forma de organização coletiva que coloque em risco os privilégios das elites políticas e econômicas por meio da crítica. Batalha cultural contra noções e conquistas há muito assentadas na civilização ocidental, tanto europeia quanto latino-americana: justiça social, liberdade de expressão, respeito pelas diferenças, debate político sereno; todas substituídas por seus opostos: desigualdade extrema, censura, homofobia e perseguição às minorias, disputa política exacerbada. Cruzada religiosa (puritana) contra a ordem social e os valores historicamente propugnados pela Igreja Católica com sua doutrina social, adotada por movimentos políticos latino-americanos como o peronismo, para substituí-la pela ética reacionária do judaísmo sionista (Milei) ou das igrejas pentecostais (De la Espriella).
O escritor estadunidense Quinn Slobodian define a “direita alternativa” ou extrema-direita como “uma tentativa de desarmar a obra do humanismo liberal igualitário dos últimos 200 anos e restaurar uma ordem hierárquica”. O programa político dessa extrema-direita ultrarreligiosa que vai tomando corpo globalmente nos Estados Unidos inclui, entre outras regressões antidemocráticas, retirar o direito ao voto das mulheres.
Essa mística obscura conecta-se diretamente com a nova classe dirigente dos Estados Unidos, a dos tecnooligarcas. Entre eles, Peter Thiel, fundador do PayPal e presidente da Palantir, que afirmou em uma conferência que a ativista climática Greta Thunberg é uma “legionária do anticristo”, assim como aqueles que se opõem ao desenvolvimento irrestrito da IA. Thiel, que financiou a campanha eleitoral do vice-presidente JD Vance, ministrou em outubro de 2025 várias conferências nas quais combinou seu investimento tecnológico em IA para uso militar com sua busca pessoal de alcançar a imortalidade e suas reacionárias ideias religiosas.
Não nos enganemos. A batalha cultural que os ultradireitistas travam consiste em construir a trama simbólica de uma nova forma de dominação, a dos senhores tecnooligarcas que conseguiram cooptar muitos governos. Incluídos os de muitos países da UE, que já lhes permitem controlar o conteúdo de nossas comunicações: dados, mensagens, fotos, vídeos e conversas. E isso é feito com o consentimento explícito do poder político à mercantilização de nossos dados, sob o argumento de proteger os menores nas redes sociais. A polícia do pensamento tomou forma, seja interceptando nossas comunicações, seja restringindo nossa liberdade de expressão ao nos forçar a internalizar as restrições impostas para não sermos catalogados como “terroristas de extrema-esquerda”.
O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, anunciou a nomeação de uma ex-senadora uribista, Paola Holguín, como ministra da Cultura de seu governo. Holguín possui mestrado em Segurança e Defesa Nacional, e realizou estudos especializados em Política e Estratégia de Segurança e em Terrorismo e Contrainsurgência no Centro de Estudos Hemisféricos de Segurança e Defesa (CHDS) da Universidade de Defesa em Washington. Com tais credenciais, além de sua formação como “comunicadora social”, Holguín levará adiante a batalha cultural no terreno específico da criação e da arte. Seus detratores já antecipam que ela imporá uma férrea censura e comandará um dispositivo de perseguição política aos criadores dissidentes. Seu trabalho complementará o de uma nova ministra da Educação, Viviane Morales, cujo objetivo manifesto é a evangelização do país, inspirada na ideia reacionária de “reconstrução moral da pátria” formulada por De la Espriella e que propugna um retorno aos valores tradicionais nas salas de aula.
A extrema-direita, encorajada pelos resultados eleitorais, empreendeu na Colômbia a caça às bruxas antes mesmo de chegar ao governo. Professores da Universidade Tecnológica de Pereira receberam e-mails intimidatórios, em suas contas de correio institucionais, enviados pelo Movimento Defensores da Pátria. Em um comunicado intitulado “Acabou a alegria, comunistas”, o selo político de extrema-direita que apoiou De la Espriella ameaçou os professores assim: “EXTERMINAR O COMUNISMO É UMA MISSÃO SAGRADA. Vamos limpar todas as universidades deste país, vamos eliminar o Ministério da Educação e não vamos permitir que os guerrilheiros terroristas continuem se formando nesses centros-lixo”. No parágrafo anterior, que também não tem desperdício, afirmam que seu objetivo é “erradicar todo aquele que pense a partir do marxismo e faça apologia a ideologias-lixo que não servem à Pátria Milagre. (…) O TERRORISMO NA COLÔMBIA NÃO TEM MAIS VEZ COM O TIGRE”.
Este panfleto descontrolado resume com perfeição a proximidade ideológica desta nova extrema-direita com o pensamento imperial de Donald Trump e Marco Rubio. A ideia de “missão sagrada” e a menção à programática Patria Milagro fornecem o enquadramento do fanatismo ideológico que justifica as ameaças. A menção ao marxismo é uma precisão crucial para identificar o que estes exterminadores entendem como o núcleo mais perigoso da esquerda internacional: uma filosofia da história e a sua economia política, não movimentos ou organizações desta ou daquela cor. E a associação desta ideologia com o terrorismo remete diretamente para a Estratégia de Contraterrorismo dos Estados Unidos divulgada em maio de 2026, que identifica e diz enfrentar os “três maiores tipos de grupos terroristas”: narcoterroristas e gangues transnacionais, terroristas islâmicos reciclados e extremistas de esquerda violentos, incluindo anarquistas e antifascistas.
Ao explicar esta estratégia, Marco Rubio diz: “Podem chamar-se anticapitalistas, anti-imperialistas, comunistas, anarquistas ou marxistas. Mas a sua natureza fundamental é sempre a mesma: um ressentimento peçonhento, disfarçado com a linguagem da igualdade, da justiça e da libertação”. Numa aceleração das narrativas de regresso à Guerra Fria, estigmatiza-se um conjunto de conceitos que, por agora, exclui cuidadosamente o termo “socialistas”, para não ofender os aliados da OTAN com governos nos quais participam partidos social-democratas. Com esta única exclusão, toda a ideologia que explique e questione o capitalismo seria punível.
Embora esta exceção possa ser precária e apenas temporária, como comprova a perseguição obstinada dos ultras (a começar pelo próprio Donald Trump) contra o presidente espanhol Pedro Sánchez. Como na Alemanha de Bismarck, quando o crescimento do Partido Social-Democrata, temido por liberais e conservadores, ameaçava a estabilidade nacionalista burguesa e se chamou de “espectro vermelho”. A invocação do vermelho como cor do inimigo de classe faz-se sentir um século após a ascensão do nazismo como argumento dos carrascos da extrema-direita para espancar os seus adversários. Um exemplo recente é a agressão física que sofreu em Cádis o jornalista e militante antifascista Fonsi Loaiza, autor de livros de denúncia sobre as práticas mafiosas das classes dominantes, tais como Oligarcas: Los dueños de España (Akal, 2024) e muitos outros sobre as máfias do futebol, a quem gritaram “vermelho” como insulto antes de o espancarem de forma selvagem e o deixarem inconsciente. Após a agressão, que denunciou como “violência de extrema-direita”, declarou nas suas redes sociais: “Aos que usam o terror e o ódio fascista: não me vão calar”.
Cabe assinalar que uma de suas publicações mais recentes celebrava a vitória eleitoral da prefeita comunista da segunda maior cidade da Áustria: “A prefeita comunista Elke Kahr varreu as eleições municipais de Graz, na Áustria. Suas medidas: habitação social e proibir a privatização do solo. Doa 75% de seu salário”. Essa exaltação do “comunismo” em um país democrático é absolutamente inaceitável para a polícia do pensamento que pretende impor a ditadura do neoliberalismo a sangue e fogo.
A narrativa desdobrada por Marco Rubio acusando a esquerda de agir por ressentimento “disfarçado com a linguagem da igualdade, da justiça e da libertação” expande o plano de atuação dessa estratégia antiterrorista a qualquer forma de crítica ao poder. Levanta-se a proibição da perseguição de “inimigos” políticos, concebidos segundo os parâmetros do neoimperialismo extrativista e suas exigências de controle territorial e dominação social.
Com efeito, a ofensiva teórica vem acompanhada de políticas abertamente intervencionistas. Após o sequestro do presidente Nicolás Maduro, Marco Rubio tornou-se o “Vice-Rei” de Trump para gerir os assuntos da Venezuela, aprovando os fluxos econômicos e de hidrocarbonetos que entram e saem daquele país. O próximo passo seria derrubar o sistema comunista cubano, contra o qual sempre fez boicote. Um documento do Departamento de Estado de 107 páginas divulgado em 20 de julho, intitulado “Cuba, capital do comunismo do século XXI”, inverte os termos do conflito entre os dois países, ao colocar Cuba no lugar de agressor e os Estados Unidos como vítima, devido a uma suposta campanha de “espionagem e subversão” organizada dentro dos Estados Unidos durante as últimas sete décadas. Curiosamente, o país que quase todas as nações do mundo consideram vítima do bloqueio estadunidense, e que agora se tenta estrangular, aparece na narrativa de Rubio como o algoz que se vale do terrorismo para agir contra seus concidadãos.
A República de Cuba está ameaçada pela geopolítica do choque de Donald Trump. Para falar da situação no terreno, ligamo-nos a Havana pela mão da jornalista Mariana Camejo e do historiador Fabio Fernández Batista.
O relatório contra Cuba implica figuras da esquerda internacional, como o ex-líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn (que foi acusado por Israel de antissemitismo por seu apoio à causa palestina) e o ex-vice-presidente do governo espanhol Pablo Iglesias, fundador do Podemos. Iglesias manifestou-se, pelo Canal Red, contra essa “fascistização das direitas que controlam dispositivos de Estado” e decretam “a proscrição de ideias políticas”, “uma criminalização das ideias e das organizações políticas”, já que “você é um terrorista por sua maneira de pensar”, por ser de esquerda ou comunista, o que o torna “um perigo para a segurança dos Estados Unidos”. Iglesias e Corbyn participaram em março de uma missão de ajuda humanitária a Cuba denominada Nossa América, Comboio a Cuba.
Polícia internacional de criminosos e narcotraficantes
Embora Donald Trump tenha feito campanha prometendo concentrar-se nos assuntos nacionais dos Estados Unidos, seu governo desperdiça tempo e recursos fazendo guerras inúteis e intervindo nos assuntos internos de quase todo o mundo. A ingerência dos Estados Unidos em países latino-americanos sob o argumento de perseguir terroristas teve outro momento de destaque no final de maio de 2026, quando o Departamento de Estado se envolveu em questões de política interna do Brasil, designando como organizações terroristas estrangeiras o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC), as duas maiores organizações criminosas do país, uma com base no Rio de Janeiro e a outra em São Paulo, que se financiam por meio do narcotráfico, sequestros, assaltos, extorsões e pistoleiros. Ambas contam com dezenas de milhares de integrantes, muitos dos quais atuam desde as prisões. Nenhuma das atividades dessas gangues, apesar de sua extrema violência, pode ser considerada terrorista.
Associar o tráfico de drogas ao terrorismo jihadista como causas do terrorismo é, sem dúvida, um enorme absurdo. Mas vincular ambas as condutas puníveis às convicções de anarquistas e antifascistas que se expressam por meio do protesto pacífico, ou de uma legítima reivindicação anti-imperialista, equivale à imposição de um regime de perseguição cidadã em escala global. Um sistema de vigilância panóptico com epicentro nos Estados Unidos, mas com ramificações europeias que se manifestam, por exemplo, no aval dado às grandes empresas de tecnologia norte-americanas para “supervisionar” as nossas comunicações.
O investimento em publicidade política no exterior tornou-se prioridade da Administração Trump. Após o escândalo provocado pelas indiscrições do ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, narcotraficante condenado nos Estados Unidos a 45 anos de prisão e perdoado por Donald Trump, o Departamento de Estado decidiu subsidiar diretamente os propagandistas da nova ordem imperial. Uma “bolsa” de até três milhões de dólares permitirá comprar talentos (jornalistas, influenciadores) para promover a simpatia pelo MAGA na Europa.
Neste ponto, convém recordar a noção de narcoestado de que os Estados Unidos se têm valido para violar a soberania de outros países, principalmente na América Latina. Um país define-se ou não como narcoestado dependendo dos interesses geopolíticos de Washington. O Panamá foi um suposto narcoestado quando os interesses de Noriega entraram em conflito com os do centro de comando imperial. Nem antes nem depois do violento golpe esse país foi uma ameaça vinculada ao narcotráfico. O Afeganistão, por outro lado, tornou-se, durante mais de duas décadas de ocupação da OTAN liderada pelos Estados Unidos, o maior “narcoestado” não reconhecido do mundo, e deixou de o ser quando os talibãs os expulsaram do poder. Por sua vez, a Colômbia não foi considerada um narcoestado sob os governos de Álvaro Uribe, quando a prioridade de Washington era a luta contra as guerrilhas, embora disfarçada nos documentos do Plano Colômbia como guerra contra as drogas.
Os Estados Unidos sempre se consideraram a “nação escolhida”, “a Nova Israel”. Na mística fundacional, desde as primeiras colônias puritanas, os recém-chegados converteram esta região do mundo em “a terra prometida para o povo escolhido por Deus”, como afirma Jim Cullen em seu livro O sonho americano. Os passos seguintes foram atribuir a si mesmos o nome de América, tomando a parte pelo todo, e desenvolver a doutrina Monroe e atribuir a si mesmos o papel de salvadores dos demais países do hemisfério. E agora, as mesmas formas de fundamentalismo religioso que têm um papel relevante na cultura política doméstica dos Estados Unidos projetam-se como uma nova cultura de massas por meio da política externa.
Por Eduardo Giordano, no El Salto | Tradução: Rôney Rodrigues
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| Foto: Reuters |
Um olhar rápido sobre o mapa político da América Latina mostra que a maioria dos países da região, sobretudo os andinos, deu um giro recentemente à extrema-direita, precedendo ou em seguida a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Desde a América Central até a Terra do Fogo, praticamente todos os países atravessados pela cordilheira dos Andes – que somam uma área conjunta de oito milhões de quilômetros quadrados, equivalente à do Brasil – passaram a ter governos com acentuado viés direitista e, em quase todos os casos, decididamente ultradireitista. O processo começou com a eleição de Javier Milei na Argentina, mas acelerou-se nos últimos meses com as eleições da Bolívia, Chile, Peru e Colômbia. Na América do Sul, apenas Brasil e Uruguai resistem a submeter-se às políticas de segurança coercitivas dos novos profetas do populismo ultraconservador.
Depois de consolidar o poder de seus aliados de extrema-direita no continente, influenciando as eleições nacionais por meio de fraudes ou da promoção e financiamento de seus candidatos, os Estados Unidos convidam seus aliados a adotar um preocupante arsenal jurídico baseado em sua nova legislação antiterrorista, para que esses governos possam perseguir, reprimir e, se for o caso, exterminar abertamente os opositores. Um novo Plano Cóndor de perseguição a inimigos (antes chamados de subversivos), que agora seria aplicado em escala global. E como os inimigos fantasmagóricos não são terroristas nem guerrilheiros, mas esquerdistas democráticos, associar as ideias de esquerda à qualificação de extremistas é o coquetel perfeito para angariar o apoio dos grandes meios de manipulação de audiências, começando pelos novos meios digitais.
Resurgimento do terrorismo político?
No dia 16 de julho passado, os Estados Unidos convocaram mais de 60 países para uma cúpula de alto nível em Washington, a fim de coordenar com eles – a lista completa permanece em segredo – sua nova estratégia antiterrorista. Referida cúpula, denominada Reunião Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político, contou com uma representação de nível inferior do governo espanhol, o que sugere que nem todos os participantes compartilhariam, a priori, os planos da Casa Branca. A convocatória institucional pretende legitimar internacionalmente a cruzada ideológica anticomunista lançada por Marco Rubio e pelo presidente Donald Trump.
O discurso inaugural foi proferido pelo Secretário de Estado, Marco Rubio, alimentando fantasmas do passado como as Brigadas Vermelhas ou os Tupamaros, organizações extintas há mais de meio século, e confundindo-as com entidades fantasmagóricas inventadas pela Administração Trump, como uma suposta rede transnacional interconectada de “militantes da Antifa”, que, assim como o fantasmagórico “Cartel dos Sóis”, nunca existiu.
Uma cruzada ideológica contra o conhecimento científico, a consciência social e a insubmissão; contra qualquer forma de organização coletiva que coloque em risco os privilégios das elites políticas e econômicas por meio da crítica. Batalha cultural contra noções e conquistas há muito assentadas na civilização ocidental, tanto europeia quanto latino-americana: justiça social, liberdade de expressão, respeito pelas diferenças, debate político sereno; todas substituídas por seus opostos: desigualdade extrema, censura, homofobia e perseguição às minorias, disputa política exacerbada. Cruzada religiosa (puritana) contra a ordem social e os valores historicamente propugnados pela Igreja Católica com sua doutrina social, adotada por movimentos políticos latino-americanos como o peronismo, para substituí-la pela ética reacionária do judaísmo sionista (Milei) ou das igrejas pentecostais (De la Espriella).
O escritor estadunidense Quinn Slobodian define a “direita alternativa” ou extrema-direita como “uma tentativa de desarmar a obra do humanismo liberal igualitário dos últimos 200 anos e restaurar uma ordem hierárquica”. O programa político dessa extrema-direita ultrarreligiosa que vai tomando corpo globalmente nos Estados Unidos inclui, entre outras regressões antidemocráticas, retirar o direito ao voto das mulheres.
Essa mística obscura conecta-se diretamente com a nova classe dirigente dos Estados Unidos, a dos tecnooligarcas. Entre eles, Peter Thiel, fundador do PayPal e presidente da Palantir, que afirmou em uma conferência que a ativista climática Greta Thunberg é uma “legionária do anticristo”, assim como aqueles que se opõem ao desenvolvimento irrestrito da IA. Thiel, que financiou a campanha eleitoral do vice-presidente JD Vance, ministrou em outubro de 2025 várias conferências nas quais combinou seu investimento tecnológico em IA para uso militar com sua busca pessoal de alcançar a imortalidade e suas reacionárias ideias religiosas.
Não nos enganemos. A batalha cultural que os ultradireitistas travam consiste em construir a trama simbólica de uma nova forma de dominação, a dos senhores tecnooligarcas que conseguiram cooptar muitos governos. Incluídos os de muitos países da UE, que já lhes permitem controlar o conteúdo de nossas comunicações: dados, mensagens, fotos, vídeos e conversas. E isso é feito com o consentimento explícito do poder político à mercantilização de nossos dados, sob o argumento de proteger os menores nas redes sociais. A polícia do pensamento tomou forma, seja interceptando nossas comunicações, seja restringindo nossa liberdade de expressão ao nos forçar a internalizar as restrições impostas para não sermos catalogados como “terroristas de extrema-esquerda”.
O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, anunciou a nomeação de uma ex-senadora uribista, Paola Holguín, como ministra da Cultura de seu governo. Holguín possui mestrado em Segurança e Defesa Nacional, e realizou estudos especializados em Política e Estratégia de Segurança e em Terrorismo e Contrainsurgência no Centro de Estudos Hemisféricos de Segurança e Defesa (CHDS) da Universidade de Defesa em Washington. Com tais credenciais, além de sua formação como “comunicadora social”, Holguín levará adiante a batalha cultural no terreno específico da criação e da arte. Seus detratores já antecipam que ela imporá uma férrea censura e comandará um dispositivo de perseguição política aos criadores dissidentes. Seu trabalho complementará o de uma nova ministra da Educação, Viviane Morales, cujo objetivo manifesto é a evangelização do país, inspirada na ideia reacionária de “reconstrução moral da pátria” formulada por De la Espriella e que propugna um retorno aos valores tradicionais nas salas de aula.
A extrema-direita, encorajada pelos resultados eleitorais, empreendeu na Colômbia a caça às bruxas antes mesmo de chegar ao governo. Professores da Universidade Tecnológica de Pereira receberam e-mails intimidatórios, em suas contas de correio institucionais, enviados pelo Movimento Defensores da Pátria. Em um comunicado intitulado “Acabou a alegria, comunistas”, o selo político de extrema-direita que apoiou De la Espriella ameaçou os professores assim: “EXTERMINAR O COMUNISMO É UMA MISSÃO SAGRADA. Vamos limpar todas as universidades deste país, vamos eliminar o Ministério da Educação e não vamos permitir que os guerrilheiros terroristas continuem se formando nesses centros-lixo”. No parágrafo anterior, que também não tem desperdício, afirmam que seu objetivo é “erradicar todo aquele que pense a partir do marxismo e faça apologia a ideologias-lixo que não servem à Pátria Milagre. (…) O TERRORISMO NA COLÔMBIA NÃO TEM MAIS VEZ COM O TIGRE”.
Este panfleto descontrolado resume com perfeição a proximidade ideológica desta nova extrema-direita com o pensamento imperial de Donald Trump e Marco Rubio. A ideia de “missão sagrada” e a menção à programática Patria Milagro fornecem o enquadramento do fanatismo ideológico que justifica as ameaças. A menção ao marxismo é uma precisão crucial para identificar o que estes exterminadores entendem como o núcleo mais perigoso da esquerda internacional: uma filosofia da história e a sua economia política, não movimentos ou organizações desta ou daquela cor. E a associação desta ideologia com o terrorismo remete diretamente para a Estratégia de Contraterrorismo dos Estados Unidos divulgada em maio de 2026, que identifica e diz enfrentar os “três maiores tipos de grupos terroristas”: narcoterroristas e gangues transnacionais, terroristas islâmicos reciclados e extremistas de esquerda violentos, incluindo anarquistas e antifascistas.
Ao explicar esta estratégia, Marco Rubio diz: “Podem chamar-se anticapitalistas, anti-imperialistas, comunistas, anarquistas ou marxistas. Mas a sua natureza fundamental é sempre a mesma: um ressentimento peçonhento, disfarçado com a linguagem da igualdade, da justiça e da libertação”. Numa aceleração das narrativas de regresso à Guerra Fria, estigmatiza-se um conjunto de conceitos que, por agora, exclui cuidadosamente o termo “socialistas”, para não ofender os aliados da OTAN com governos nos quais participam partidos social-democratas. Com esta única exclusão, toda a ideologia que explique e questione o capitalismo seria punível.
Embora esta exceção possa ser precária e apenas temporária, como comprova a perseguição obstinada dos ultras (a começar pelo próprio Donald Trump) contra o presidente espanhol Pedro Sánchez. Como na Alemanha de Bismarck, quando o crescimento do Partido Social-Democrata, temido por liberais e conservadores, ameaçava a estabilidade nacionalista burguesa e se chamou de “espectro vermelho”. A invocação do vermelho como cor do inimigo de classe faz-se sentir um século após a ascensão do nazismo como argumento dos carrascos da extrema-direita para espancar os seus adversários. Um exemplo recente é a agressão física que sofreu em Cádis o jornalista e militante antifascista Fonsi Loaiza, autor de livros de denúncia sobre as práticas mafiosas das classes dominantes, tais como Oligarcas: Los dueños de España (Akal, 2024) e muitos outros sobre as máfias do futebol, a quem gritaram “vermelho” como insulto antes de o espancarem de forma selvagem e o deixarem inconsciente. Após a agressão, que denunciou como “violência de extrema-direita”, declarou nas suas redes sociais: “Aos que usam o terror e o ódio fascista: não me vão calar”.
Cabe assinalar que uma de suas publicações mais recentes celebrava a vitória eleitoral da prefeita comunista da segunda maior cidade da Áustria: “A prefeita comunista Elke Kahr varreu as eleições municipais de Graz, na Áustria. Suas medidas: habitação social e proibir a privatização do solo. Doa 75% de seu salário”. Essa exaltação do “comunismo” em um país democrático é absolutamente inaceitável para a polícia do pensamento que pretende impor a ditadura do neoliberalismo a sangue e fogo.
A narrativa desdobrada por Marco Rubio acusando a esquerda de agir por ressentimento “disfarçado com a linguagem da igualdade, da justiça e da libertação” expande o plano de atuação dessa estratégia antiterrorista a qualquer forma de crítica ao poder. Levanta-se a proibição da perseguição de “inimigos” políticos, concebidos segundo os parâmetros do neoimperialismo extrativista e suas exigências de controle territorial e dominação social.
Com efeito, a ofensiva teórica vem acompanhada de políticas abertamente intervencionistas. Após o sequestro do presidente Nicolás Maduro, Marco Rubio tornou-se o “Vice-Rei” de Trump para gerir os assuntos da Venezuela, aprovando os fluxos econômicos e de hidrocarbonetos que entram e saem daquele país. O próximo passo seria derrubar o sistema comunista cubano, contra o qual sempre fez boicote. Um documento do Departamento de Estado de 107 páginas divulgado em 20 de julho, intitulado “Cuba, capital do comunismo do século XXI”, inverte os termos do conflito entre os dois países, ao colocar Cuba no lugar de agressor e os Estados Unidos como vítima, devido a uma suposta campanha de “espionagem e subversão” organizada dentro dos Estados Unidos durante as últimas sete décadas. Curiosamente, o país que quase todas as nações do mundo consideram vítima do bloqueio estadunidense, e que agora se tenta estrangular, aparece na narrativa de Rubio como o algoz que se vale do terrorismo para agir contra seus concidadãos.
A República de Cuba está ameaçada pela geopolítica do choque de Donald Trump. Para falar da situação no terreno, ligamo-nos a Havana pela mão da jornalista Mariana Camejo e do historiador Fabio Fernández Batista.
O relatório contra Cuba implica figuras da esquerda internacional, como o ex-líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn (que foi acusado por Israel de antissemitismo por seu apoio à causa palestina) e o ex-vice-presidente do governo espanhol Pablo Iglesias, fundador do Podemos. Iglesias manifestou-se, pelo Canal Red, contra essa “fascistização das direitas que controlam dispositivos de Estado” e decretam “a proscrição de ideias políticas”, “uma criminalização das ideias e das organizações políticas”, já que “você é um terrorista por sua maneira de pensar”, por ser de esquerda ou comunista, o que o torna “um perigo para a segurança dos Estados Unidos”. Iglesias e Corbyn participaram em março de uma missão de ajuda humanitária a Cuba denominada Nossa América, Comboio a Cuba.
Polícia internacional de criminosos e narcotraficantes
Embora Donald Trump tenha feito campanha prometendo concentrar-se nos assuntos nacionais dos Estados Unidos, seu governo desperdiça tempo e recursos fazendo guerras inúteis e intervindo nos assuntos internos de quase todo o mundo. A ingerência dos Estados Unidos em países latino-americanos sob o argumento de perseguir terroristas teve outro momento de destaque no final de maio de 2026, quando o Departamento de Estado se envolveu em questões de política interna do Brasil, designando como organizações terroristas estrangeiras o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC), as duas maiores organizações criminosas do país, uma com base no Rio de Janeiro e a outra em São Paulo, que se financiam por meio do narcotráfico, sequestros, assaltos, extorsões e pistoleiros. Ambas contam com dezenas de milhares de integrantes, muitos dos quais atuam desde as prisões. Nenhuma das atividades dessas gangues, apesar de sua extrema violência, pode ser considerada terrorista.
Associar o tráfico de drogas ao terrorismo jihadista como causas do terrorismo é, sem dúvida, um enorme absurdo. Mas vincular ambas as condutas puníveis às convicções de anarquistas e antifascistas que se expressam por meio do protesto pacífico, ou de uma legítima reivindicação anti-imperialista, equivale à imposição de um regime de perseguição cidadã em escala global. Um sistema de vigilância panóptico com epicentro nos Estados Unidos, mas com ramificações europeias que se manifestam, por exemplo, no aval dado às grandes empresas de tecnologia norte-americanas para “supervisionar” as nossas comunicações.
O investimento em publicidade política no exterior tornou-se prioridade da Administração Trump. Após o escândalo provocado pelas indiscrições do ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, narcotraficante condenado nos Estados Unidos a 45 anos de prisão e perdoado por Donald Trump, o Departamento de Estado decidiu subsidiar diretamente os propagandistas da nova ordem imperial. Uma “bolsa” de até três milhões de dólares permitirá comprar talentos (jornalistas, influenciadores) para promover a simpatia pelo MAGA na Europa.
Neste ponto, convém recordar a noção de narcoestado de que os Estados Unidos se têm valido para violar a soberania de outros países, principalmente na América Latina. Um país define-se ou não como narcoestado dependendo dos interesses geopolíticos de Washington. O Panamá foi um suposto narcoestado quando os interesses de Noriega entraram em conflito com os do centro de comando imperial. Nem antes nem depois do violento golpe esse país foi uma ameaça vinculada ao narcotráfico. O Afeganistão, por outro lado, tornou-se, durante mais de duas décadas de ocupação da OTAN liderada pelos Estados Unidos, o maior “narcoestado” não reconhecido do mundo, e deixou de o ser quando os talibãs os expulsaram do poder. Por sua vez, a Colômbia não foi considerada um narcoestado sob os governos de Álvaro Uribe, quando a prioridade de Washington era a luta contra as guerrilhas, embora disfarçada nos documentos do Plano Colômbia como guerra contra as drogas.
Os Estados Unidos sempre se consideraram a “nação escolhida”, “a Nova Israel”. Na mística fundacional, desde as primeiras colônias puritanas, os recém-chegados converteram esta região do mundo em “a terra prometida para o povo escolhido por Deus”, como afirma Jim Cullen em seu livro O sonho americano. Os passos seguintes foram atribuir a si mesmos o nome de América, tomando a parte pelo todo, e desenvolver a doutrina Monroe e atribuir a si mesmos o papel de salvadores dos demais países do hemisfério. E agora, as mesmas formas de fundamentalismo religioso que têm um papel relevante na cultura política doméstica dos Estados Unidos projetam-se como uma nova cultura de massas por meio da política externa.
As batalhas judiciais
A batalha cultural da extrema-direita internacional é também uma guerra judicial que não se vale apenas do lawfare para encurralar as figuras políticas mais proeminentes do progressismo internacional. Há também outro objetivo de caráter sistêmico: desmantelar as instituições internacionais que historicamente representaram alguma forma de contenção às ambições desmedidas dos estados “bandidos”, aqueles que se dedicam impunemente ao saqueio de terras e recursos naturais invadindo e bombardeando países soberanos. Uma dessas instituições é o Tribunal Penal Internacional (TPI). Em um artigo publicado por Marco Rubio no The Wall Street Journal, o Secretário de Estado afirmou que os Estados Unidos nunca aceitaram a existência de um tribunal mundial com competências que pudessem “prevalecer sobre nossos próprios tribunais e a Constituição”.
Mas não fica numa posição defensiva. Aqui, como em outras ordens, os Estados Unidos se sentem chamados a desbaratar os sistemas de acordos internacionais: “Queremos destruir o Tribunal, tijolo por tijolo”. Dado que os Estados Unidos não reconhecem a jurisdição do TPI para seus cidadãos, essa ofensiva é outra forma de ingerência direta nos assuntos das demais nações. Marco Rubio convidou os países aliados de Washington a também se desvincularem do TPI. Por outro lado, o governo estadunidense sancionou os sete juízes do Tribunal e os três procuradores por terem participado da aprovação de uma ordem de captura contra Benjamin Netanyahu por crimes contra a humanidade. Todos eles foram incluídos na lista de “metecos” financeiros em fevereiro de 2025, conhecida como lista Clinton, e desde então não podem acessar serviços (bancários) estadunidenses, nem cartões de crédito (os mais usados na Europa são estadunidenses), nem aplicativos de reserva de hotéis ou voos, entre muitas outras restrições.
Este é o mesmo tratamento que o presidente dos Estados Unidos dispensa à relatora especial da ONU para a Palestina, Francesca Albanese, ou ao presidente colombiano Gustavo Petro e vários de seus próximos. O castigo aos seus contraditores inclui sempre duríssimas sanções para que não possam gozar de nenhuma liberdade econômica. Além disso, não contente com essas restrições, os Estados Unidos empreenderam uma perseguição velada ao procurador-chefe Karim Khan, até conseguir que 82 dos 125 países que compõem o TPI votassem a favor de sua destituição em uma recente Assembleia dos Estados Partes.
O desconhecimento e o boicote às instituições jurídicas multilaterais estendem-se aos aliados dos Estados Unidos. O extremista de direita colombo-americano Abelardo de la Espriella, que segue em tudo os passos de Donald Trump, sugeriu na sua campanha que a Colômbia poderia abandonar a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), uma instituição respeitada na América Latina como tribunal de última instância, que revisa as arbitrariedades da justiça estatal de cada país. Esta proposta tornaria impossível dar continuidade a mais de 1.400 processos relacionados com o Estado colombiano que permanecem sob a lupa da Corte. Alguns casos foram resolvidos com a condenação do Estado após mais de 30 anos de denúncias e investigações judiciais infrutíferas no foro estatal.
Desafios à democracia no mundo
A professora estadunidense Shoshana Zuboff, que desenvolveu o conceito de “capitalismo de vigilância” para retratar o momento atual da humanidade, caracterizado pelo domínio universal dos tecnooligarcas digitais que atentam contra a democracia pela própria natureza de seu negócio, publicou um livro intitulado Capitalismo da vigilância ou democracia? no qual dá conta dessa contradição, em sua opinião irresolúvel.
A informação “corrupta” que recebemos por meio dos gigantes tecnológicos gerou, nas últimas duas décadas, um “totalitarismo com fins lucrativos”. Ao mesmo tempo, produz-se uma concentração ilícita de dados que depois deriva em concentração ilícita do conhecimento nas mãos das elites tecnooligárquicas. “O que o economista vê como um domínio oligopolista do mercado revela-se, do ponto de vista sociológico, como uma oligarquia do conhecimento que institucionaliza os privilégios da governança privada sobre a divisão da aprendizagem na sociedade”.
A propaganda política da extrema-direita se espalha pelas redes por motivos econômicos: o algoritmo se alimenta mais e mais rápido com informação corrupta, tendenciosa e polarizadora. Shoshana Zuboff documentou essa tendência do oligopólio tecnológico de inclinar a balança para a direita: “como a maior parte da desinformação é produzida por representantes da extrema-direita, seu valor econômico superior significa que a desinformação de extrema-direita tem um privilégio consistente com cada otimização algorítmica” do sistema.
O economista grego Yanis Varoufakis refere-se como “tecnofeudalismo” à mutação atual do sistema capitalista, um capitalismo de plataformas no qual desaparecem a concorrência e o mercado tal como os conhecemos. No topo do sistema estão os donos da “nuvem” (Amazon, Google, Facebook-Meta, Apple e Microsoft) e as grandes empresas de IA (Open AI, Anthropic, Palantir), e no estrato inferior, a maior parte da humanidade, que alimenta o sistema com a servidão de gerar dados apenas pelo uso dessas plataformas. Há quem sugira que o termo “tecnofeudalismo” é mais uma metáfora do poder hiperconcentrado das companhias tecnológicas do que uma categoria analítica útil. Shoshana Zuboff afirma que o capitalismo de vigilância é a forma que adquire esta nova fase do capitalismo de caráter antidemocrático.
O neoimperialismo estadunidense está desenvolvendo uma nova forma de dominação política que habilita o presidente dos Estados Unidos a intervir nas eleições de outros países e pender a balança em favor de “seus” candidatos. Já o fez de maneira ostensiva nas eleições da Argentina, Honduras e Colômbia, e presumivelmente também no Peru.
Como enfrentam os progressistas e democratas de todo o mundo este enorme desafio que se abate sobre as democracias?
Em uma conferência proferida por Varoufakis no final do primeiro governo Trump, em 2020, o economista e político grego perguntava-se como dinamizar o funcionamento da Internacional Progressista, fundada para contrapor o ressurgimento do “nacionalismo autoritário”, e sugeria “planificar e realizar ações coletivas” como forma de enfrentar a internacional reacionária (nacionalista ou fascista) que os partidos de extrema-direita articulam. “Os progressistas também precisam de um programa comum”, assegurava. A necessidade de estabelecer uma agenda comum e um plano de ação coletivo “implica que a Internacional Progressista deve incluir uma organização internacional”.
Por outro lado, em uma conferência que o ativista estadunidense Mark Bray ministrou no dia 23 de maio passado em Barcelona, o autor do livro Antifa: o manual antifascista, perseguido por Donald Trump e exilado de seu país, afirmou: “Precisamos criar alternativas. A história das vitórias da extrema-direita é também a dos fracassos da esquerda”.
A extrema-direita estadunidense de matriz ultraconservadora que se expande por toda a América Latina e Espanha pelas mãos das igrejas evangélicas aspira a consolidar um movimento doutrinário que propugna a regressão a valores tradicionais em todos os âmbitos de convivência, desde as relações trabalhistas até as relações de gênero e identitárias. Suas políticas contra a esquerda woke (um termo escorregadio como poucos) baseiam-se em uma matriz ideológica que apela à renúncia de direitos adquiridos pela civilização ao longo de quase um século. Assim como um setor ultraconservador hoje apela à renúncia das mulheres ao direito ao voto e a outros direitos conquistados pelo movimento feminista, impondo um renovado patriarcado, é imaginável que queiram retroceder o mundo aos tempos tenebrosos da escravidão ou de qualquer outra forma de dominação do ser humano já superada pela evolução de nossas sociedades.
O principal recurso propagandístico da extrema-direita são seus agitadores e publicitários que atuam no universo das redes sociais. Redes essas, por sua vez, controladas pelas grandes plataformas tecnológicas estadunidenses. Mas essas narrativas de ódio que miram a esquerda também se difundem nos meios de comunicação tradicionais, incluindo a imprensa menos direitizada. Demarcar o território que separa o aceitável do inaceitável tornou-se um exercício jornalístico espúrio cada vez mais frequente que denigre a esquerda e prepara o terreno para sua perseguição política ao rotulá-la como “extrema”. Por exemplo, em uma entrevista ao dirigente e fundador da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon (El País, 11 de junho de 2026), o entrevistado é qualificado como “líder do partido de extrema esquerda França Insubmissa”, e essa qualificação se repete pelo menos três vezes nesse mesmo dia, inclusive na capa.
Cabe esclarecer que o Ministério do Interior francês adotou em fevereiro de 2026 a decisão de considerar o partido de Mélenchon como de “extrema esquerda”, decisão confirmada mais tarde pelo Conselho de Estado, poucos dias antes das eleições municipais e a um ano de eleições presidenciais que poderiam dar o poder à extrema-direita de Marine Le Pen. E dado que Mélenchon é, até agora, seu principal adversário, equiparar o qualificativo de “extremista” para uma e outra força política não é uma decisão gratuita. Pelo contrário, acarreta um estigma para o partido esquerdista, tanto quando aplicado por políticos e juízes como quando amplificado pela imprensa.
Além dos meios de comunicação, as organizações patronais frequentemente qualificam de extremistas de esquerda determinados governos — nacionais ou regionais — que aplicam políticas contrárias aos seus interesses. Por exemplo, quando o governo da Generalitat da Catalunha, dirigido pelo socialista Salvador Illa, pactuou com os Comunes algumas iniciativas para travar a especulação com o preço da habitação, a patronal catalã qualificou essas medidas (criticadas pelo Sindicato dos Inquilinos como insuficientes) como “filocomunistas”.
Será preciso recordar que a terminologia macartista não é gratuita? Tal como ocorreu em outros momentos da história, hoje o uso de uma linguagem depreciativa e desqualificadora na esfera pública aplicada a medidas progressistas opera como uma porta facilitadora para a caça às bruxas.

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