Por EMIR SADER*
Considerações sobre o livro recém-publicado de José Luís Fiori
1.
Para que, como eu, que trata de ler todas as análises publicadas por José Luís Fiori, que considero o melhor analista político brasileiro, reencontrar suas interpretações neste livro é um ótimo exercício de pensamento e de compreensão dos maiores fenômenos contemporâneos.
Do sistema mundial, Brasil e o sistema mundial, do império americano, do declínio da Uniao Europeia, da ressurreição russa, da ascensão da Ásia, do Oriente Médio e a África até a América Latina – todos os maiores fenômenos para a compreensão do mundo contemporâneo estão no novo livro de José Luís Fiori.
São 97 artigos selecionados de um total de 450 que ele escreveu e publicou ao entre os anos de 1990 a 2025, em vários jornais, revistas e meios eletrônicos, com suas analises sobre a conjuntura nacional e internacional dos últimos 35 anos.
Segundo José Luís Fiori, o livro reconstrói o caminho através do qual foram testadas e falsificadas as hipóteses sobre o poder e a luta pelo poder dentro do sistema mundial. Os artigos estão organizados nos oito tópicos temáticos mencionados acima, para que seja possível acompanhar as mudanças e a evolução do pensamento do José Luís Fiori.
Na entrevista contida no livro, José Luís Fiori diz que teve dois exílios, que marcaram sua vida intelectual, profissional e pessoal. O primeiro quando teve que se asilar no Chile, no momento da ditadura militar no Brasil. O segundo, quando teve que se asilar do Chile, no momento do golpe militar de Augusto Pinochet.
A partir dali viveu em vários países, da América Latina e da Europa. O primeiro foi o que mais o marcou, porque, saindo do Brasil, segundo ele foi “obrigado a viver toda minha juventude como ‘apátrida’”, quando os militares brasileiros tiraram sua identidade brasileira.
Foi no Chile que ele fez sua formação acadêmica, onde estudou sociologia, economia e filosofia. Quando teve, com tristeza, de sair do Chile, deixou para trás sua juventude e sua segunda pátria.
A experiência reformista da democracia-cristã chilena e, depois, a experiência frustrada o socialismo democrático de Salvador Allende, atraíram para o Chile muitos intelectuais do mundo todo, das mais variadas correntes teóricas e políticas. Tudo isso fez do Chile naquele momento uma verdadeira universidade aberta e pública, um verdadeiro caldeirão de ideias, uma experiencia intelectual única.
2.
Essa trajetória favorece a compreensão da formação e da capacidade de análise que José Luís Fiori foi forjando ao longo desses dois exílios. No seu retorno, José Luís Fiori publicou um primeiro texto, “Para uma economia politica do tempo conjuntural”, que teve, segundo ele, uma importância seminal com relação a quase tudo o que ele escreveu depois.
Seus vínculos com Maria Conceição Tavares foram muito profícuos, primeiro como aluno dela no Chile. Depois como colaboradores, tendo os dois publicados livros conjuntos.
As teorias do imperialismo do início do século XX, segundo José Luís Fiori, foram as grandes precursoras da atual economia política internacional, que só se assumiu como disciplina acadêmicas nas ultimas décadas do século passado.
Ele foi tomando consciência que era logicamente impossível explicar o aparecimento da necessidade europeia de acumulação de um excedente cada vez maior apenas a partir do mercado mundial ou do jogo das trocas. Mesmo que os homens tivessem uma propensão natural para trocar, isso não implicaria necessariamente que também tivessem uma propensão natural para acumular lucro, riqueza e capital.
A verdadeira força expansiva que acelerou o crescimento dos mercados e produziu as primeiras formas de acumulação capitalista não veio do jogo das trocas ou do próprio mercado, veio do poder, da conquista e da energia gerada pela acumulação de poder. E essa energia se manteve ativa, central e decisiva, segundo José Luís Fiori, mesmo depois da constituição das relações de produção propriamente capitalistas e mesmo depois da própria industrialização.
Depois da contundente vitória americana na Guerra Fria e na Guerra do Golfo, os Estados Unidos desfrutaram, durante uma década, da condição de centro unipolar do poder global.
Mas essa condição começou a se alterar a partir do inicio do século XXI, quando eles iniciaram sua “guerra global ao terrorismo” e se envolveram progressivamente numa sucessão de guerras no Oriente Médio e que já se prolongam há duas décadas.
Nesse período, os Estados Unidos foram também o epicentro de uma enorme crise econômica que começou por seu sistema financeiro imobiliário, em 2008, e acabou atingindo toda a economia mundial.
3.
A partir dali o mundo vem assistindo atônito à vertiginosa ascensão da China como potência militar regional; à reconstrução acelerada do poder militar global da Rússia, à fragmentação e ao declínio do poder global da Uniao Europeia, junto com o ocaso da Grã-Bretanha como potência individual; além do crescimento da presença militar da Rússia e do Irã no Oriente Médio; o afastamento da Turquia em relação a seus aliados da Otan.
O mais surpreendente, no entanto, no período recente, foi o fato de os próprios norte-americanos terem tomado a decisão de se afastar de sue antigos aliados e de atacar, de modo direto e agressivo, valores e instituições da ordem internacional liberal que eles mesmos haviam criado e fundado depois da Segunda Guerra Mundial e haviam reafirmado depois do fim depois do fim da Guerra Fria.
A velha geopolítica das nações voltou a funcionar como a bússola do sistema interestatal, o nacionalismo e o protecionismo voltaram a ser praticados pelas grandes potencias e os grandes objetivos humanitários dos anos 1990 parecem ter sido relegados a um segundo plano da agenda internacional.
Nada disso é prova suficiente do fim do poder americano, mas sem duvida, é a evidência de que o sistema internacional está vivendo uma transformação geopolítica profunda que, entretanto, é provocada, em grande medida, pela própria expansão do poder dos Estados Unidos e que não foi interrompida mesmo nos anos “pacíficos” da década de 1990.
Uma coisa parece que já está consolidada: o novo núcleo central a geopolítica mundial do século XXI estará composto, pelo menos, por Estados Unidos, China e Rússia, três gigantes territoriais e populacionais, que controlam sozinhos cerca de um terço e um quarto do território e da população mundiais.
Este livro, uma leitura que se agrega a outros livros de José Luís Fiori como O poder global e a nova geopolítica das nações, História, estratégia e desenvolvimento, A síndrome de Babel e Uma teoria do poder global constitui um conjunto de leituras muito importante para a compreensão do mundo contemporâneo.
*Emir Sader é professor aposentado do departamento de sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo). [https://amzn.to/47nfndr]
Referência

José Luís Fiori. Conjuntura e história. Petrópolis, Vozes, 2026, 456 págs. [https://link.amazon/B0cDSrftS]
1.
Para que, como eu, que trata de ler todas as análises publicadas por José Luís Fiori, que considero o melhor analista político brasileiro, reencontrar suas interpretações neste livro é um ótimo exercício de pensamento e de compreensão dos maiores fenômenos contemporâneos.
Do sistema mundial, Brasil e o sistema mundial, do império americano, do declínio da Uniao Europeia, da ressurreição russa, da ascensão da Ásia, do Oriente Médio e a África até a América Latina – todos os maiores fenômenos para a compreensão do mundo contemporâneo estão no novo livro de José Luís Fiori.
São 97 artigos selecionados de um total de 450 que ele escreveu e publicou ao entre os anos de 1990 a 2025, em vários jornais, revistas e meios eletrônicos, com suas analises sobre a conjuntura nacional e internacional dos últimos 35 anos.
Segundo José Luís Fiori, o livro reconstrói o caminho através do qual foram testadas e falsificadas as hipóteses sobre o poder e a luta pelo poder dentro do sistema mundial. Os artigos estão organizados nos oito tópicos temáticos mencionados acima, para que seja possível acompanhar as mudanças e a evolução do pensamento do José Luís Fiori.
Na entrevista contida no livro, José Luís Fiori diz que teve dois exílios, que marcaram sua vida intelectual, profissional e pessoal. O primeiro quando teve que se asilar no Chile, no momento da ditadura militar no Brasil. O segundo, quando teve que se asilar do Chile, no momento do golpe militar de Augusto Pinochet.
A partir dali viveu em vários países, da América Latina e da Europa. O primeiro foi o que mais o marcou, porque, saindo do Brasil, segundo ele foi “obrigado a viver toda minha juventude como ‘apátrida’”, quando os militares brasileiros tiraram sua identidade brasileira.
Foi no Chile que ele fez sua formação acadêmica, onde estudou sociologia, economia e filosofia. Quando teve, com tristeza, de sair do Chile, deixou para trás sua juventude e sua segunda pátria.
A experiência reformista da democracia-cristã chilena e, depois, a experiência frustrada o socialismo democrático de Salvador Allende, atraíram para o Chile muitos intelectuais do mundo todo, das mais variadas correntes teóricas e políticas. Tudo isso fez do Chile naquele momento uma verdadeira universidade aberta e pública, um verdadeiro caldeirão de ideias, uma experiencia intelectual única.
2.
Essa trajetória favorece a compreensão da formação e da capacidade de análise que José Luís Fiori foi forjando ao longo desses dois exílios. No seu retorno, José Luís Fiori publicou um primeiro texto, “Para uma economia politica do tempo conjuntural”, que teve, segundo ele, uma importância seminal com relação a quase tudo o que ele escreveu depois.
Seus vínculos com Maria Conceição Tavares foram muito profícuos, primeiro como aluno dela no Chile. Depois como colaboradores, tendo os dois publicados livros conjuntos.
As teorias do imperialismo do início do século XX, segundo José Luís Fiori, foram as grandes precursoras da atual economia política internacional, que só se assumiu como disciplina acadêmicas nas ultimas décadas do século passado.
Ele foi tomando consciência que era logicamente impossível explicar o aparecimento da necessidade europeia de acumulação de um excedente cada vez maior apenas a partir do mercado mundial ou do jogo das trocas. Mesmo que os homens tivessem uma propensão natural para trocar, isso não implicaria necessariamente que também tivessem uma propensão natural para acumular lucro, riqueza e capital.
A verdadeira força expansiva que acelerou o crescimento dos mercados e produziu as primeiras formas de acumulação capitalista não veio do jogo das trocas ou do próprio mercado, veio do poder, da conquista e da energia gerada pela acumulação de poder. E essa energia se manteve ativa, central e decisiva, segundo José Luís Fiori, mesmo depois da constituição das relações de produção propriamente capitalistas e mesmo depois da própria industrialização.
Depois da contundente vitória americana na Guerra Fria e na Guerra do Golfo, os Estados Unidos desfrutaram, durante uma década, da condição de centro unipolar do poder global.
Mas essa condição começou a se alterar a partir do inicio do século XXI, quando eles iniciaram sua “guerra global ao terrorismo” e se envolveram progressivamente numa sucessão de guerras no Oriente Médio e que já se prolongam há duas décadas.
Nesse período, os Estados Unidos foram também o epicentro de uma enorme crise econômica que começou por seu sistema financeiro imobiliário, em 2008, e acabou atingindo toda a economia mundial.
3.
A partir dali o mundo vem assistindo atônito à vertiginosa ascensão da China como potência militar regional; à reconstrução acelerada do poder militar global da Rússia, à fragmentação e ao declínio do poder global da Uniao Europeia, junto com o ocaso da Grã-Bretanha como potência individual; além do crescimento da presença militar da Rússia e do Irã no Oriente Médio; o afastamento da Turquia em relação a seus aliados da Otan.
O mais surpreendente, no entanto, no período recente, foi o fato de os próprios norte-americanos terem tomado a decisão de se afastar de sue antigos aliados e de atacar, de modo direto e agressivo, valores e instituições da ordem internacional liberal que eles mesmos haviam criado e fundado depois da Segunda Guerra Mundial e haviam reafirmado depois do fim depois do fim da Guerra Fria.
A velha geopolítica das nações voltou a funcionar como a bússola do sistema interestatal, o nacionalismo e o protecionismo voltaram a ser praticados pelas grandes potencias e os grandes objetivos humanitários dos anos 1990 parecem ter sido relegados a um segundo plano da agenda internacional.
Nada disso é prova suficiente do fim do poder americano, mas sem duvida, é a evidência de que o sistema internacional está vivendo uma transformação geopolítica profunda que, entretanto, é provocada, em grande medida, pela própria expansão do poder dos Estados Unidos e que não foi interrompida mesmo nos anos “pacíficos” da década de 1990.
Uma coisa parece que já está consolidada: o novo núcleo central a geopolítica mundial do século XXI estará composto, pelo menos, por Estados Unidos, China e Rússia, três gigantes territoriais e populacionais, que controlam sozinhos cerca de um terço e um quarto do território e da população mundiais.
Este livro, uma leitura que se agrega a outros livros de José Luís Fiori como O poder global e a nova geopolítica das nações, História, estratégia e desenvolvimento, A síndrome de Babel e Uma teoria do poder global constitui um conjunto de leituras muito importante para a compreensão do mundo contemporâneo.
*Emir Sader é professor aposentado do departamento de sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo). [https://amzn.to/47nfndr]
Referência

José Luís Fiori. Conjuntura e história. Petrópolis, Vozes, 2026, 456 págs. [https://link.amazon/B0cDSrftS]

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