De OutrasPalavras, 14 de agosto 2026
Por Jaqueline Nichi
O Brasil deve encerrar a safra 2025/26 com a maior produção de grãos de sua história: 360,1 milhões de toneladas, segundo o 10º Levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O recorde reforça uma imagem repetida há décadas: a de um país capaz de produzir alimentos em escala suficiente para ocupar posição central no mercado agrícola mundial. Mas quantidade produzida no campo e comida acessível à população não são a mesma coisa.
No primeiro semestre, alguns alimentos básicos registraram altas expressivas. Na prévia da inflação de junho, o IPCA-15 mostrou que o tomate havia acumulado aumento de 103,84% desde o início do ano; a cenoura, de 103,10%; e a batata-inglesa, de 100,20%. Só naquele mês, o feijão-carioca avançou 14,29%. Julho trouxe algum alívio: o IPCA oficial subiu 0,07% e a alimentação no domicílio recuou 1,14%, puxada pela queda de vários alimentos.
A oscilação ajuda a revelar um problema que o número agregado da safra não mostra. O Brasil pode colher muito e, ao mesmo tempo, conviver com preços instáveis de alimentos essenciais. A explicação passa pela composição da produção, mas também por clima, logística, crédito, seguro rural, estrutura de mercado e pela capacidade muito desigual dos agricultores de absorver perdas.
Recorde no campo, pressão no prato
Boa parte do crescimento da produção brasileira está concentrada em commodities como soja e milho, destinadas também à exportação, à produção de ração e a cadeias industriais. São culturas fundamentais para a economia agrícola, mas seu desempenho não se traduz em maior oferta de arroz, feijão, frutas, hortaliças, leite ou ovos.
No mesmo ciclo do recorde, por exemplo, a Conab projeta retração de 13,1% na produção de arroz, acompanhada por redução no feijão. A contradição aparece no prato: enquanto a produção total bate recordes, alguns alimentos que fazem parte da dieta dos brasileiros podem ficar mais escassos ou mais caros.
“A política agrícola brasileira foi organizada, sobretudo, para elevar produção, produtividade e eficiência dentro da porteira da fazenda, operando com crédito, tecnologia, preços, seguro e normas setoriais”, explica Antônio Márcio Buainain, economista do Instituto de Economia da Unicamp. “Esse desenho ajudou a modernizar uma parte expressiva do campo. Mas não resolve, sozinho, o preço final da comida, a qualidade da dieta, a intermediação, o varejo, a logística, o desperdício e o acesso desigual.”
A Conab afirma não haver risco de desabastecimento. Mas disponibilidade nacional e preço acessível são dimensões diferentes do sistema alimentar. Arroz, feijão, frutas, verduras, leite e ovos circulam por cadeias com características próprias, muitas delas perecíveis e sensíveis a transporte, armazenagem, clima, custos de produção e renda das famílias. É por isso que a abundância registrada nos silos não necessariamente se repete na feira.
Por Jaqueline Nichi
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| Foto: Reprodução/GHZ |
O Brasil deve encerrar a safra 2025/26 com a maior produção de grãos de sua história: 360,1 milhões de toneladas, segundo o 10º Levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O recorde reforça uma imagem repetida há décadas: a de um país capaz de produzir alimentos em escala suficiente para ocupar posição central no mercado agrícola mundial. Mas quantidade produzida no campo e comida acessível à população não são a mesma coisa.
No primeiro semestre, alguns alimentos básicos registraram altas expressivas. Na prévia da inflação de junho, o IPCA-15 mostrou que o tomate havia acumulado aumento de 103,84% desde o início do ano; a cenoura, de 103,10%; e a batata-inglesa, de 100,20%. Só naquele mês, o feijão-carioca avançou 14,29%. Julho trouxe algum alívio: o IPCA oficial subiu 0,07% e a alimentação no domicílio recuou 1,14%, puxada pela queda de vários alimentos.
A oscilação ajuda a revelar um problema que o número agregado da safra não mostra. O Brasil pode colher muito e, ao mesmo tempo, conviver com preços instáveis de alimentos essenciais. A explicação passa pela composição da produção, mas também por clima, logística, crédito, seguro rural, estrutura de mercado e pela capacidade muito desigual dos agricultores de absorver perdas.
Recorde no campo, pressão no prato
Boa parte do crescimento da produção brasileira está concentrada em commodities como soja e milho, destinadas também à exportação, à produção de ração e a cadeias industriais. São culturas fundamentais para a economia agrícola, mas seu desempenho não se traduz em maior oferta de arroz, feijão, frutas, hortaliças, leite ou ovos.
No mesmo ciclo do recorde, por exemplo, a Conab projeta retração de 13,1% na produção de arroz, acompanhada por redução no feijão. A contradição aparece no prato: enquanto a produção total bate recordes, alguns alimentos que fazem parte da dieta dos brasileiros podem ficar mais escassos ou mais caros.
“A política agrícola brasileira foi organizada, sobretudo, para elevar produção, produtividade e eficiência dentro da porteira da fazenda, operando com crédito, tecnologia, preços, seguro e normas setoriais”, explica Antônio Márcio Buainain, economista do Instituto de Economia da Unicamp. “Esse desenho ajudou a modernizar uma parte expressiva do campo. Mas não resolve, sozinho, o preço final da comida, a qualidade da dieta, a intermediação, o varejo, a logística, o desperdício e o acesso desigual.”
A Conab afirma não haver risco de desabastecimento. Mas disponibilidade nacional e preço acessível são dimensões diferentes do sistema alimentar. Arroz, feijão, frutas, verduras, leite e ovos circulam por cadeias com características próprias, muitas delas perecíveis e sensíveis a transporte, armazenagem, clima, custos de produção e renda das famílias. É por isso que a abundância registrada nos silos não necessariamente se repete na feira.
Quando o clima entra na conta
O clima é uma das variáveis dessa equação. Secas, chuvas fora de época, geadas e extremos de temperatura podem reduzir produtividade, comprometer qualidade e aumentar perdas. Mas um mesmo evento climático não produz os mesmos efeitos em todos os lugares nem encontra todos os agricultores igualmente preparados.
“Grande parte dos episódios de inflação de alimentos tem origem em choques de oferta, embora câmbio e custos também interfiram”, afirma Buainain. “Mas a intensidade e a persistência dependem da capacidade da cadeia produtiva e das instituições de absorver esses choques.”
O Vale do São Francisco ajuda a entender essa diferença. Na região, a agricultura familiar ocupa mais de metade das terras no semiárido pernambucano. Ao mesmo tempo, a região integra uma das principais zonas produtoras de frutas do país: foram 9,7 milhões de toneladas em 2022, com R$ 20,2 bilhões em valor da produção, de acordo com o Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (ETENE/BNB).
As condições naturais e a infraestrutura hídrica criaram uma agricultura de alta produtividade, mas não de maneira uniforme. O produtor rural, Fred Teixeira, trabalha no Vale desde a década de 1990 e acompanhou a expansão das cadeias de manga e uva. Segundo ele, a relativa estabilidade climática, associada à irrigação e ao manejo das plantas, permite programar etapas da produção e ajustar a colheita às janelas de mercado.
Mas, Teixeira identifica outro limite importante da produção: a rentabilidade. “Reduzir custos operacionais tem alcance limitado, e ampliar a produtividade por hectare, inclusive por meio de melhoramento genético, tornou-se uma das estratégias para manter competitividade sem sacrificar a qualidade da fruta”.
O caso ajuda a mostrar que adaptação climática não se resume a receber uma previsão de chuva ou temperatura. Irrigação, novas variedades, equipamentos, assistência especializada, armazenagem e mudanças no manejo exigem conhecimento, infraestrutura e recursos. Quando uma safra sofre perdas, a pressão não termina na colheita. Menor receita reduz a margem disponível para custear o próximo ciclo, manter investimentos e absorver novos choques. O efeito, porém, varia de acordo com a estrutura econômica do produtor e com os instrumentos de proteção disponíveis.
“A agricultura familiar mais frágil não precisa apenas de crédito. Precisa de assistência técnica, organização produtiva, infraestrutura, comercialização, acesso a mercados, regularização, tecnologia apropriada e proteção contra riscos”, resume Buainain. “E quando a política oferece quase sempre crédito, ela atende melhor quem já tem alguma capacidade de tomar crédito.”
O crédito anunciado e o que chega de fato
Essa disparidade reaparece no Plano Safra 2026/27. O governo federal anunciou R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 97,3 bilhões para a agricultura familiar, além de taxas diferenciadas para algumas linhas consideradas estratégicas.
Os valores são expressivos. A questão é como o dinheiro chega ao território. A Frente Parlamentar da Agropecuária criticou o desenho do plano e apontou problemas relacionados ao endividamento, ao acesso ao crédito e à baixa cobertura do seguro rural. O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural deve alcançar menos de 3% da área plantada na safra 2026/27, o menor nível em duas décadas.
A cobertura brasileira já é reduzida quando comparada à de outros grandes produtores agrícolas. Enquanto aproximadamente 10% da área plantada do país conta com seguro, nos Estados Unidos a cobertura alcançava cerca de 60% das terras agrícolas em 2023, segundo dados do setor.
Essa diferença ganha relevância em um cenário de aumento dos riscos climáticos. O seguro é justamente um dos instrumentos capazes de impedir que uma perda produtiva se transforme em crise financeira para o agricultor.
O problema, portanto, não se resume ao tamanho do orçamento. Envolve quem consegue acessar o financiamento, sob quais condições e com que instrumentos para transformar crédito em capacidade de adaptação.
Informação ajuda, mas não substitui infraestrutura
É nessa distância entre risco conhecido e capacidade de reagir que ferramentas digitais e inteligência artificial começam a ganhar espaço. O Brasil dispõe de grandes volumes de dados sobre clima, solo, produção, preços, crédito, seguro e logística. O desafio está em combinar essas informações e transformá-las em orientação útil para diferentes perfis de produtor.
Rodrigo Lanna, pesquisador ligado ao Instituto de Pesquisa Aplicada em Dados e Inteligência Artificial (BI0S) defende que a maior contribuição da IA está em melhorar a qualidade da tomada de decisão. “Sistemas capazes de cruzar previsão climática, condições produtivas e informações econômicas podem ajudar a antecipar riscos, escolher períodos de plantio, ajustar manejo e apoiar decisões de financiamento. “Transformar análises complexas em recomendação simples e adaptada à realidade de cada perfil de produtor elevaria a eficiência da atividade, tornando-a mais inclusiva e socialmente orientada”, diz Lanna. “Mas sem infraestrutura e proteção social, a tecnologia apenas melhora a vida de quem já estava melhor posicionado para se adaptar”.
A safra recorde brasileira mostra uma agricultura capaz de operar em enorme escala, incorporar tecnologia e abastecer mercados internacionais. O que ela não responde é como essa capacidade produtiva se distribui pelo sistema alimentar, nem quem consegue se proteger quando o clima, os custos ou os preços mudam.
O desafio é transformar essa potência agrícola em um sistema alimentar menos vulnerável aos choques climáticos e econômicos, capaz de proteger quem produz e, ao mesmo tempo, garantir que a comida chegue ao consumidor a preços compatíveis com sua renda. É nessa distância entre o recorde anunciado no campo e o que efetivamente chega ao prato que se mede a capacidade do país de alimentar sua própria população.
Reportagem produzida no âmbito do programa Mídia Ciência, financiado pela FAPESP (processo nº 2025/18901-1).
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Jaqueline Nichi
Doutora em Ambiente e Sociedade no Núcleo de Pesquisa Ambiental (NEPAM) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Mestre na linha de pesquisa Gestão Ambiental do programa de Pós-Graduação em Sustentabilidade da Escola de Artes, Ciências e Humanidades, da Universidade de São Paulo - EACH-USP.

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