De Outras Palavras, 7 de agosto 2026
Por Juliana Marín Taborda e Alejandro Giraldo Quintero, no Lundimatin | Tradução: Rôney Rodrigues
Desde a contestada ascensão de Abelardo de la Espriella à presidência da Colômbia, jamais o país parecera tão dividido [1], tendo a metade da população votado a favor daquele que se apresentava como defensor de uma “Pátria Milagre” e que propunha tanto a “bombardear e pulverizar com venenos os campos de coca” [2] quanto a eliminar o “inimigo interno” que, em sua visão, constituem o comunismo e o “petrismo” (em referência ao presidente de esquerda Gustavo Petro), supostamente manchados pelo “sangue dos cidadãos indefesos assassinados pelas bombas dos terroristas que Iván Cepeda [o candidato de esquerda à sucessão de Petro, oposto a Abelardo de la Espriella na eleição de 2026] e Petro protegeram […]”. “A democracia não perecerá diante do terror dos exércitos de Cepeda e Petro” [3], brada a todo vapor o novo “presidente” colombiano de extrema-direita. Durante uma conversa telefônica com o candidato Abelardo, o presidente argentino populista libertário Javier Milei concordava a respeito de Cepeda: “vamos com tudo, você tem que derrotar esse esquerdista filho da puta” [4]. Assim, o presidente recém-eleito tem como primeiro projeto “desmembrar a esquerda” [5] e declara que “aqueles que não quiserem se submeter ao império da lei deverão cair sob o fogo das armas do Estado” [6].
A ameaça é ainda mais grave porque, na Colômbia, a política do “inimigo interno” já foi implementada nos anos 1960 como uma doutrina de segurança impulsionada pelos Estados Unidos para justificar a perseguição a militantes de esquerda, sindicalistas, líderes sociais, estudantes e defensores de direitos. Ela reforçou o paramilitarismo, procedeu à eliminação de vários milhares de militantes do partido político União Patriótica e de “falsos positivos” [7] – camponeses, estudantes (população civil) assassinados e disfarçados de guerrilheiros para justificar seus homicídios –, perpetrou inúmeras violações dos direitos humanos que resultaram em pelo menos 10.246 vítimas registradas, e que continuaram através da política de “Segurança Democrática” do governo de direita de Álvaro Uribe Vélez, em consequência da qual a Jurisdição Especial para a Paz (JEP) contabilizou, entre 1990 e 2016, 7.837 mortes por “falsos positivos” [8]. É preciso recordar o slogan do “Centro Democrático”, partido de Álvaro Uribe Vélez: “uma mão firme, um grande coração”. Ora, foi sob a égide desse slogan que um grupo de cidadãos qualificados como “pessoasn de bem”, entre os quais figuram cidadãos e a elite empresarial tradicional do país (o clã Char, o GEA, o Grupo Empresarial de Antioquia, etc.), foi autorizado a se apropriar ilegalmente de terras pela força.
A sociedade colombiana atribui grande importância à imagem; a estética visual chega a definir quase inteiramente as tendências políticas dos indivíduos. As “pessoas de bem”, por exemplo, distinguiram-se em suas manifestações públicas pelo uso de camisas brancas e chapéus brancos, característicos do imaginário do “paisa” trabalhador [9], associado a demonstrações de poder e riqueza: cavalos, aviões particulares e veículos blindados. Esse grupo heterogêneo, legitimado pelo governo em exercício, ao usurpar as terras, é o responsável por um vasto movimento de êxodo da população civil, com o apoio de grupos paramilitares aliados ao governo — que existem desde os primórdios da independência da Colômbia.
A adesão popular ao discurso da violência, atestada pela eleição de 2026, explica-se talvez pela constatação feita pelo presidente cessante Gustavo Petro, segundo a qual, apesar dos esforços de seu governo, “… ainda não transformamos a estrutura fundamental do poder na Colômbia hoje, um poder que herda da oligarquia, de sua ilusão de aristocracia, mas que é, na realidade, um poder mafioso e genocida” [10]. Por que a estrutura de poder na Colômbia não evoluiu? Esta questão é tão complexa que não poderemos respondê-la aqui.
Em resumo, diremos que a Colômbia, que figura entre os 15 países mais desiguais do mundo, assistiu ao surgimento de uma pequena burguesia em parte fundada no império da droga e suas atividades derivadas (mineração ilegal, tráfico de pessoas, prostituição, turismo de luxo, etc.) [11], e ao desenvolvimento de numerosos vínculos ocultos do Estado e da Igreja com o tráfico de entorpecentes, acarretando uma subordinação da lei ao poder da violência e do silêncio. A isso se soma a conivência do poder com a mídia nacional que, há anos, veicula informações falsas; o estado de uma população entregue à dor, ao rancor, ao ódio e/ou à cegueira, submetida à aliança narco-religiosa estatal. Sem contar a cegueira do discurso purista e intelectualista de uma esquerda distante do povo que ela, no entanto, pretende representar.
Essas razões, entre outras, contribuem para a polarização de que sofre o país, que opõe aos eleitores de Abelardo de la Espriella as 12.708.712 pessoas que votaram em Cepeda e que acreditam, sem dúvida, que ainda é possível fazer política de outra forma, superando os preconceitos de classe e as violências históricas contra as mulheres, contra as populações afro-colombianas, os povos indígenas, as comunidades LGBTIQ+, os ciganos, e coexistindo com as entidades da natureza em um dos países mais ricos em biodiversidade do mundo. Enquanto que a outra metade do eleitorado parece sequer conseguir imaginar que a hiperprodução capitalista não seja a única solução para suas expectativas. É em parte essa batalha sociopolítica e cultural que acaba de sacudir o povo colombiano. É dessa polarização que nasceu a linha de fuga mortal e espetacular, marcada por uma masculinidade viril, que se impôs ao povo colombiano nas últimas eleições, dando origem ao que chamamos de populismo de elite: um populismo que, por um lado, explora a precariedade sociocultural e a capacidade de ação política do povo para encarnar seu descontentamento frente às classes “privilegiadas” — a Igreja, os governos e os partidos tradicionais — e que, por outro lado, satisfaz essas elites ao encarnar suas prioridades sob a forma de um poder político autoritário, capaz de subverter os mecanismos de exercício de um poder transparente, democrático e legal. Esse populismo, no entanto, encontra-se legitimado tanto pelas elites que favorece quanto pelo povo que justifica todas as ações, mesmo que estas o conduzam à sua própria destruição [12].
Essa nova via, que se pode qualificar, com Achille Mbembe, de “necropolítica”, isto é, que confere ao Estado o poder de decidir quem deve viver e quem deve morrer [13], apresenta-se como uma alternativa messiânica, inovadora, midiática, que confere um toque ainda mais burguês à cultura visual ligada ao tráfico de drogas do país – na qual é preciso incluir os “as pessoas de bem”. Essa cultura visual é qualificada de “narcoestética”, ou seja, uma estética pela qual “se define um belo barroco que tem por finalidade a reprodução e a proliferação de corpos padronizados com proporções ampliadas pela cirurgia estética, cabelos alisados e maquiagem excessiva” [14]. O novo salvador é aquele que diz aos colombianos “vou velar por vocês, vou defender pessoalmente suas vidas, suas casas, seus filhos” [15], e que passeou publicamente pelas ruas do país exibindo seu colete à prova de balas dentro de um carro com uma cúpula de vidro blindado. O “realismo mágico”, conceito pelo qual Gabriel García Márquez descreve o povo colombiano, estende-se para um populismo de elite que se manifesta na campanha presidencial de Abelardo de la Espriella: “o tigre que ruge e morde”, aquele que representa “os que nunca tiveram”, “os que nunca viveram às custas do Estado, os que nunca roubaram nada, os que nunca se queixam, os que nunca darão as costas ao nosso país em suas horas mais sombrias, os que nunca fizeram parte da panelinha política, os que nunca são e nunca foram financiados pelos grandes capitais. Será uma batalha dos ‘nunca’ contra os ‘sempre'” [16].
“O tigre”, “o homem de negócios trabalhador” sobre quem “parece que ele chegou tarde demais quando distribuíam o medo”, aquele que nunca faz política, que desfila em seus ternos italianos criados por sua própria marca e que também os presenteia àquele que ele continuava chamando de “Presidente” antes de lançar sua campanha em 2025: Álvaro Uribe Vélez, a quem seu partido qualificou como presidente “eterno” [17]. Abelardo, aquele que nunca desiste, defensor “sem escrúpulos” [18] que nada teme, que aceita todos os casos que os outros advogados recusam, incluindo os dossiês espinhosos relacionados à defesa de traficantes de drogas e paramilitares; como quando criou a fundação (Fipaz), que favoreceu a aproximação e a tomada de posição dos chefes paramilitares para sua defesa no âmbito de um processo de desmobilização sem extradição [19]. Abelardo, aquele que nunca mudará, aquele que tampouco assumirá uma posição ética na política, já que ele mesmo afirma: “como não sou político, não sou politicamente correto […] a ética é um conjunto de normas pessoais” [20]. Ao passo que, como advogado, em matéria de direito, tudo depende, segundo ele, do ponto de vista sob o qual nos colocamos. O Tigre, aquele que “nunca mente para você”, mas que, no espaço de um único dia, passa do status de ateu a uma conversão espiritual que mudou completamente sua vida [21]. Aquele que um dia declara em campanha que não enviará representantes à ONU, e no dia seguinte nomeia como representante o advogado constitucionalista Mauricio Gaona. Que um dia adora Álvaro Uribe, e no dia seguinte ataca todo o seu partido para vencer a batalha política, por exemplo: durante a campanha, declarou que não criaria um partido, mas que, uma vez eleito, pressiona o partido do “Eterno” ao lhe opor um candidato à presidência do Senado da República, conseguindo assim unir dois partidos historicamente opostos, o Centro Democrático e o Pacto Histórico, para vencer a presidência [22]. Abelardo de la Espriella, que não mente para você, mas se limita a interpretar os fatos a seu favor, portanto, não sente nenhum desconforto ético pelo fato de que, antes do início de sua campanha, ele descrevia, em suas crônicas, Donald Trump como um líder “populista e barulhento” e alertava sobre os riscos relacionados à indústria do petróleo”, ao passo que, uma vez em campanha, ele exalta o extrativismo, afirma que a Colômbia será uma das estrelas da bandeira dos Estados Unidos e, por fim, agradece ao presidente americano por sua vitória, em uma carta em que se expressa assim: “você abriu o caminho para vencer os poderes estabelecidos de sempre, em aliança com o povo. Na Colômbia, começamos a trilhar esse mesmo caminho. Os Estados Unidos e a Colômbia são nações irmãs, unidas pelo sangue dos heróis e pelo destino comum de defender a civilização ocidental nestas terras das Américas. Juntos, somos indestrutíveis” [23].
Esse novo messianismo, que supostamente salvaria a Colômbia do inimigo interno, insere-se em uma verdadeira campanha midiática sobre a qual o próprio Abelardo declara: “Meu objetivo é acender a faísca vulcânica que fará a verdade circular de forma viral nas redes sociais” [24].
Foi assim que Abelardo, amplamente financiado pelo clã Char (um grupo de políticos tradicionais e empresários manchados por escândalos de corrupção e ligados a grupos fora da lei), de quem é próximo há muito tempo [25], desenvolveu, por um lado, uma estratégia piramidal de captação de eleitores (uma prática, aliás, ilegal, pois exerce coerção sobre o eleitorado [26]) e, por outro, a construção de um imaginário e de uma identidade de força e vigor simulados com o auxílio da inteligência artificial. Seus modos de ação apoiam-se na rede de afetos e paixões que animam a população e obedecem à emotividade humana manipulada por um inconsciente maquínico, como diria Félix Guattari [27], e regidos por um algoritmo “à maneira de mutação antropológica”, como diria o historiador colombiano Alberto Castrillón Aldana [28].
A campanha de Abelardo de la Espriella foi concebida desde o início para esses inconscientes maquínicos controlados por algoritmos, para os quais o que se chama de “memória histórica” tem pouco ou nenhum interesse. Uma campanha midiática concebida para as redes sociais que os colombianos usam no dia a dia: TikTok, WhatsApp, Instagram, Facebook e X. Seu programa de governo, que parece ter sido redigido com o ChatGPT e tem três páginas, não fala apenas do tipo de governo que ele propõe, mas também do povo que ele pretende governar. Como já dizia Guattari: “Não se pode partir de uma vetorização simples que partisse de um lugar de manipulação de produção de subjetividade e, em seguida, de uma pobre população vítima da situação. Porque ela é vítima, mas, ao mesmo tempo, ela é agente nesse assunto. Também temos a mídia e a quimioterapia que merecemos” [29].
Dentre os símbolos de sua campanha, destacam-se: o tigre como figura emblemática, um animal erguido sobre duas patas, vestido com um terno de estilista italiano (embora, como sabemos, o tigre não seja uma espécie endêmica da Colômbia [30]). O uso da camisa da seleção colombiana de futebol, a saudação militar, que é claramente proibida fora de seu uso institucional (os órgãos encarregados de regulamentar esses aspectos, a saber, o Conselho Nacional Eleitoral e o Registro Nacional, não implementou medidas preventivas nem tomou medidas corretivas para conter o uso desses símbolos). O capacete de vidro blindado e o colete à prova de balas. Os escapulários de diversos santos e anjos com os quais ele celebra toda uma iconografia religiosa à qual estão ligados pelo menos 45,3 milhões de colombianos católicos [31], sem falar dos símbolos judeus que ele também ostenta. Durante sua campanha presidencial, ele fez, assim, uma peregrinação religiosa amplamente divulgada nas redes sociais, na qual proferiu discursos como: “… o povo judeu é o povo de Deus” [32]. O que atesta a aliança com Israel que o leva hoje a querer fechar 14 embaixadas e abrir uma embaixada da Colômbia em Jerusalém [33].
Outros discursos proferidos durante sua peregrinação demonstram o vínculo indissociável entre política e religião, que ainda atua como um poderoso catalisador para todos os fiéis. Durante sua peregrinação, ele declara ainda: “Divino Menino Jesus, Filho eterno do Pai, rei dos reis e senhor dos senhores, é diante de ti que concluímos esta peregrinação nacional, reconhecendo que toda autoridade, toda nação e toda história estão sob tua senhoria. Hoje, levantamos nossos olhos para ti, com gratidão, pelos dons que derramaste sobre a Colômbia, e com confiança filial, entregamos em tuas mãos o presente e o futuro de nossa pátria […] esta batalha não é apenas política, ela é também espiritual […] estamos firmes pela pátria! E também firmes pela fé!” [34].
O mandato de masculinidade também ocupa aqui um lugar fundamental no discurso de Abelardo. Rita Segato descreve esse mandato como a violência de Estado exercida por uma confraria masculina que exige lealdade a uma espécie de corporação viril cuja ordem simbólica não deve ser alterada [35]. Abelardo, que afirma ter uma visão singular das mulheres, a quem qualifica de “tigresas”, explica que são elas que sustentam e mantêm o lar, pois “as mulheres são o núcleo da família” [36]. Embora isso possa parecer “quase encantador”, o que vivemos durante a campanha foi totalmente diferente: cenas públicas de machismo sem precedentes e, pior ainda, com o apoio de uma parte da população feminina que não se preocupa com os ataques às jornalistas e que, por sua vez, se torna cúmplice da confraria masculina segundo a qual as mulheres são meros “adereços” e devem ocupar o “lugar que lhes cabe” — o qual, claramente, não é o da expressão política. Ao contrário, as mulheres seriam incapazes de votar guiadas pela razão; gênero frágil e ignorante da política e do direito, só poderiam votar guiadas pelo desejo ligado aos atributos sexuais do candidato [37].
O que mais dizer sobre a “narcoestética” de sua campanha? Afinal, toda uma iconografia da riqueza e do “bem-estar” se expressa nas alusões às suas duas nacionalidades estrangeiras: americana e italiana, às suas marcas comerciais e ao gozo do dinheiro evidenciado em inúmeros vídeos que mostram festas, viagens, jatos particulares e restaurantes. Que as mulheres sejam o coração da família, mas que sirvam de decoração em uma sala de estar, que o tigre não tenha nada a ver com a Colômbia, que Abelardo se comprometa a cuidar pessoalmente dos colombianos, mas que não compareça à cerimônia de posse presidencial, que não tenha medo de nada, mas que se desloque em um carro blindado, etc., eis aí detalhes que se pode qualificar de contraditórios e que permanecem sem explicação.
No entanto, os eleitores de Abelardo parecem não precisar dessas explicações: o importante é que o espetáculo seja grandioso e divertido e, nesse quesito, Abelardo mostrou-se um expert. Seu espírito empreendedor não abandonou a campanha, que ele aproveitou para criar uma marca intitulada “Defensores da Pátria”, cujos produtos “milagrosos” estão disponíveis em seu site e incluem camisas, bonés, moletons, jaquetas, óculos, esculturas, tênis, garrafas, chaveiros e até panfletos para imprimir e fazer propaganda política. Da mesma forma, em vários de seus vídeos criados para o TikTok, vê-se ele falando enquanto saboreia seu vinho Fratelone ou seu rum “Defensores”, ou ainda simplesmente promovendo seu novo relógio Trigris 1, que conta cada segundo do destino de nosso país e do qual existem apenas 9 unidades que ele mesmo entregará pessoalmente aos compradores [38].
Abelardo e sua equipe souberam temperar e brincar com as emoções de um povo desorientado, dilacerado por uma história de conflito armado em que não há inocentes. Durante sua campanha, Abelardo, “o homem de negócios que decidiu abandonar tudo por um dever que lhe queima a alma: salvar a Colômbia” [39], afirmou não ter gasto um único peso em publicidade e ter contado com “o apoio do povo e a graça de Deus” sem ser “financiado pelos grandes capitais” [40]. Sabemos, no entanto, que o custo real de sua campanha ultrapassou os 26 bilhões de pesos colombianos. Quem a financiou? Já o mencionamos… Sua campanha presidencial, sabemos, foi a campanha publicitária mais cara da história da Colômbia.
Hoje, 7 de agosto, toma posse aquele que, para muitos, jamais será um presidente digno da Colômbia. Essa afirmação justifica-se pela decisão do grupo parlamentar do Pacto Histórico de não comparecer à sua posse, pela declaração de desobediência civil feita por esse mesmo partido e pela determinação dos 12.708.712 eleitores que votaram contra Abelardo de la Espriella e que acompanharão seus atos com absoluta desconfiança.
Entramos hoje em uma era marcada por um populismo de elite ao qual esperamos resistir e sobreviver. Temos medo, pois fomos abertamente ameaçados e sabemos que, na Colômbia, não se brinca com os inimigos internos: eles são caçados, mortos e enterrados. Hoje, somos colombianos que nos abraçamos à distância, buscando dia após dia, em todas as frentes possíveis, não enfraquecer diante das raras oportunidades que se nos oferecerão de pensar de forma diferente, de optar pela vida em vez de nos vincularmos ao Estado necro.
Notas:
[1] O emprego do termo ‘suposta eleição’ remete à contestação ainda em curso da validade do pleito presidencial colombiano de 2026. Até 30 de julho de 2026, o presidente Gustavo Petro continua denunciando uma fraude eleitoral e uma manipulação informática dos resultados, acusações que permanecem contestadas e que, segundo algumas fontes consultadas, não permitiram comprovar a ocorrência de fraude. Paralelamente, o Conselho de Estado colombiano admitiu para exame um pedido de nulidade da eleição de Abelardo de la Espriella, apresentado por Luis Guillermo Pérez. Apoiado por milhares de cidadãos, esse pedido afirma, entre outros pontos, que os controles de autenticidade, integridade e rastreabilidade digital dos formulários E-14 teriam sido reduzidos em 2026, comprometendo, segundo os requerentes, a possibilidade de verificar os resultados de forma independente. A eleição, no entanto, permanece juridicamente válida enquanto nenhuma decisão judicial a tiver anulado.
[2] Didier Polo Monterrosa, De La Espriella anuncia el regreso de bombardeos y fumigaciones : « cesará la horrible noche ». Bogotá 20 juillet,https://www.minuto60.com/politica/e…Minuto60, 2026
[3] Abelardo De La Espriella, Colombia no puede seguir arrodillada ante el crimen. 28 Avril, 0’07,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_style, 2026.
[4] Abelardo De La Espriella, ¡Viva la libertad, carajo ! 18 Juin, 1’20,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_style, 2026.
[5] Revista Raya, Enemigo interno, 60 años después : la doctrina que EE. UU. impuso a Colombia y hoy vuelve en campaña. 19 mai, Revista Raya, 2026.
[6] Telemedellín, “Me voy a posesionar en una guarnición militar para hacerle honor a los verdaderos héroes de la patria” ; Abelardo de la Espriella, presidente electo de Colombia durante los actos del 20 de Julio en Medellín campaña. 20 juillet, 0’20. Telemedellín, 2026.
[7] Revista Raya. Ibid.
[8] Revista Raya. Op.Cit.
[9] Le « paisa travailleur » renvoie à tout un imaginaire autour de la vigueur du peuple d’Antioquia, capable de prospérer grâce à un travail acharné, généralement physique, à la campagne.
[10] Gustavo Petro, La trampa de las elecciones está hecha en EE. UU. con algoritmos israelíes… 17 juillet, 1’38. Gustavo Petro, 2026.
[11] Maria Teresa Uribe, Los destiempos y los desencuentros : una perspectiva para mirar la violencia en Colombia. Medellín, Universidad de Antioquia, 1990.
[12] Esta definição baseia-se na análise do contexto eleitoral que envolveu a campanha de De la Espriella e nos argumentos de Sebastián Ronderos e Cristian Acosta Olaya (14 de junho de 2026), os quais afirmam, por um lado, que Abelardo não é um populista, e nos de Carlos de la Torre (2013), que evidencia as diferentes formas de transformação do populismo na América Latina. Sebastián Ronderos, Cristian Acosta Olaya, Abelardo de la Espriella não é um populista. Jacobinslat, 2026. Carlos de la Torre, El populismo latinoamericano : entre la democratización y el autoritarismo. Nueva sociedad n° 247, p. 120-137.
[13] Achille Mbembe, « Nécropolitique » dans « Traversées, diasporas, modernités », Raisons politiques, n° 21, p. 29-60. Éditions Presses de Sciences Po. 2006.
[14] Juliana Marín Taborda, « El Cuerpo Habla : fabulation et émancipation des corps politico-esthétiques ». Rennes, Amerika [en ligne], 31, 2025.
[15] Abelardo de la Espriella, El Cauca y el Valle del Cauca se inundan de sangre de ciudadanos inermes, asesinados por las bombas del terrorismo que Iván Cepeda y Petro, han protegido…. 27 avril,1’28.Delaespriella_Style, 2026.
[16] Abelardo de la Espriella, Los Nunca : batalla por la patria en Colombia, 13 mars0’05.https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026.
[17] O eterno ‘presidente’, após três mandatos presidenciais longe do poder e uma condenação por fraude processual num caso de suborno de testemunhas relacionado às acusações sobre os ‘falsos positivos’, continua sendo designado como ‘presidente’ por uma parte da população colombiana.
[18] C’est ainsi que l’avocat se présente lui-même, en référence à l’éclectisme des affaires qu’il est capable de défendre.
[19] Daniel Coronel,El apoderado. 18 août,Revista Semana, 2026.
[20] samuelgr, Entrevista Caracol televisión, 10 mai, samuelgrg, 2026.
[21] Andres Pinson, Conversión a Dios de Abelardo de la Espriella. 26 août,https://www.tiktok.com/@andrespinso…andrespinson, 2025. Samuelrg, Entrevista Caracol Television, 13 mai, samuelrg79, 2026.
[22] Fernando Ramos, El nuevo Congreso de Colombia quedó instalado, con una desafiante sorpresa para el presidente electo Abelardo de la Espriella . 21 juillet,https://www.tiktok.com/@delaespriel…CNN en Español, 2026.
[23] Abelardo de la Espriella, Colombia en manos de Dios. 3 juin,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026.
[24] Abelardo de la Espriella, Soy Abelardo de la Espriella. 10 janvier, 0’33,https://www.facebook.com/DELAESPRIE…Delaespriella_Style, 2026.
[25] Revista Raya, El tigre y el clan Char una alianza con los de siempre señalados de corrupción. 4 juin, Revista Raya, 2026. Ardila Arrieta, L, La costa nostra. 4 juin, Rey Naranjo Editores, 2026.
[26] Cuestión Pública, En la campaña de Abelardo De la Espriella hay miles de funcionarios públicos inscritos, incluyendo policías activos. 31 mai, Cuestión Pública, 2026.
[27] Félix Guattari, L’inconscient machique : essaies d’eschizo-analyse. Paris, Éditions Recherche, 1979.
[28] Voir Alberto Castrillón Aldana, Una analítica de la gubernamentabilidad algorítimica. Subjetividad e intersubjetividad en el contexto de una ontología histórica del presente. Medellín, Fondo editorial Colegiatura, 20204. p. 43.
[29] Félix Guattari, L’ère post-médias, dans « Subjectivité & Mass-média », Chaosmose Vidéos, 3 septembre 11’55, 2022.
[30] Abelardo de la Espriella, Lanzamiento de campaña diseñado con inteligencia artificial. 10 janvier,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026.
Abelardo de la Espriella,Promoción de la campaña para la primera vuelta electoral. 25 décembre,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026 .
[31] Conferencia Episcopal de Colombia, Colombia en el top 10 de los países más católicos del mudo. 10 avril, Conferencia Episcopal de Colombia, 2017.
[32] Abelardo de la Espriella, Firme con la comunidad judía. 1 avril,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026.
[33] 6AM W, Gobierno y oposición se enfrentan por las futuras relaciones con Cuba e Israel. 28 juin, Caracol Radio, 2026.
[34] Abelardo de la Espriella, Colombia en las manos de Dios. 28 juin,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026.
[35] Abelardo de la Espriella, Firme con la comunidad judía. 28 juin,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026.
[36] Abelardo de la Espriella, Firme por las mujeres. 15 mai, 1’50https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026
[37] Juanita León, El machismo de Abelardo de la Espriella en seis. 12 mai,https://www.lasillavacia.com/silla-…La Silla Vacía, 2026.
[38] Abelardo de la Espriella, Reloj de Arte Colombiano con Patria. 20 janvier, 0’08,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026.
[39] Abelardo de la Espriella, Soy Abelardo de la Espriella. 10 janvier,https://www.facebook.com/DELAESPRIE…Delaespriella_Style, 2026.
[40] Abelardo de la Espriella, Los de siempre no podrán destruirme. 20 avril, Delaespriella_Style, 2026.
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Juliana Marín Taborda e Alejandro Giraldo Quintero
Juliana Marín Taborda é artista visual, professora e pesquisadora, com doutorado em Artes e Estética pela Universidade de Toulouse II Jean Jaurès.
Alejandro Giraldo Quintero é engenheiro eletrônico formado pela UdeA, seus principais interesses de pesquisa concentram-se nas áreas de automação de serviços digitais, computação e comunicação quânticas e IA.
Por Juliana Marín Taborda e Alejandro Giraldo Quintero, no Lundimatin | Tradução: Rôney Rodrigues
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| Foto: Juan David Duque /Reuters |
Desde a contestada ascensão de Abelardo de la Espriella à presidência da Colômbia, jamais o país parecera tão dividido [1], tendo a metade da população votado a favor daquele que se apresentava como defensor de uma “Pátria Milagre” e que propunha tanto a “bombardear e pulverizar com venenos os campos de coca” [2] quanto a eliminar o “inimigo interno” que, em sua visão, constituem o comunismo e o “petrismo” (em referência ao presidente de esquerda Gustavo Petro), supostamente manchados pelo “sangue dos cidadãos indefesos assassinados pelas bombas dos terroristas que Iván Cepeda [o candidato de esquerda à sucessão de Petro, oposto a Abelardo de la Espriella na eleição de 2026] e Petro protegeram […]”. “A democracia não perecerá diante do terror dos exércitos de Cepeda e Petro” [3], brada a todo vapor o novo “presidente” colombiano de extrema-direita. Durante uma conversa telefônica com o candidato Abelardo, o presidente argentino populista libertário Javier Milei concordava a respeito de Cepeda: “vamos com tudo, você tem que derrotar esse esquerdista filho da puta” [4]. Assim, o presidente recém-eleito tem como primeiro projeto “desmembrar a esquerda” [5] e declara que “aqueles que não quiserem se submeter ao império da lei deverão cair sob o fogo das armas do Estado” [6].
A ameaça é ainda mais grave porque, na Colômbia, a política do “inimigo interno” já foi implementada nos anos 1960 como uma doutrina de segurança impulsionada pelos Estados Unidos para justificar a perseguição a militantes de esquerda, sindicalistas, líderes sociais, estudantes e defensores de direitos. Ela reforçou o paramilitarismo, procedeu à eliminação de vários milhares de militantes do partido político União Patriótica e de “falsos positivos” [7] – camponeses, estudantes (população civil) assassinados e disfarçados de guerrilheiros para justificar seus homicídios –, perpetrou inúmeras violações dos direitos humanos que resultaram em pelo menos 10.246 vítimas registradas, e que continuaram através da política de “Segurança Democrática” do governo de direita de Álvaro Uribe Vélez, em consequência da qual a Jurisdição Especial para a Paz (JEP) contabilizou, entre 1990 e 2016, 7.837 mortes por “falsos positivos” [8]. É preciso recordar o slogan do “Centro Democrático”, partido de Álvaro Uribe Vélez: “uma mão firme, um grande coração”. Ora, foi sob a égide desse slogan que um grupo de cidadãos qualificados como “pessoasn de bem”, entre os quais figuram cidadãos e a elite empresarial tradicional do país (o clã Char, o GEA, o Grupo Empresarial de Antioquia, etc.), foi autorizado a se apropriar ilegalmente de terras pela força.
A sociedade colombiana atribui grande importância à imagem; a estética visual chega a definir quase inteiramente as tendências políticas dos indivíduos. As “pessoas de bem”, por exemplo, distinguiram-se em suas manifestações públicas pelo uso de camisas brancas e chapéus brancos, característicos do imaginário do “paisa” trabalhador [9], associado a demonstrações de poder e riqueza: cavalos, aviões particulares e veículos blindados. Esse grupo heterogêneo, legitimado pelo governo em exercício, ao usurpar as terras, é o responsável por um vasto movimento de êxodo da população civil, com o apoio de grupos paramilitares aliados ao governo — que existem desde os primórdios da independência da Colômbia.
A adesão popular ao discurso da violência, atestada pela eleição de 2026, explica-se talvez pela constatação feita pelo presidente cessante Gustavo Petro, segundo a qual, apesar dos esforços de seu governo, “… ainda não transformamos a estrutura fundamental do poder na Colômbia hoje, um poder que herda da oligarquia, de sua ilusão de aristocracia, mas que é, na realidade, um poder mafioso e genocida” [10]. Por que a estrutura de poder na Colômbia não evoluiu? Esta questão é tão complexa que não poderemos respondê-la aqui.
Em resumo, diremos que a Colômbia, que figura entre os 15 países mais desiguais do mundo, assistiu ao surgimento de uma pequena burguesia em parte fundada no império da droga e suas atividades derivadas (mineração ilegal, tráfico de pessoas, prostituição, turismo de luxo, etc.) [11], e ao desenvolvimento de numerosos vínculos ocultos do Estado e da Igreja com o tráfico de entorpecentes, acarretando uma subordinação da lei ao poder da violência e do silêncio. A isso se soma a conivência do poder com a mídia nacional que, há anos, veicula informações falsas; o estado de uma população entregue à dor, ao rancor, ao ódio e/ou à cegueira, submetida à aliança narco-religiosa estatal. Sem contar a cegueira do discurso purista e intelectualista de uma esquerda distante do povo que ela, no entanto, pretende representar.
Essas razões, entre outras, contribuem para a polarização de que sofre o país, que opõe aos eleitores de Abelardo de la Espriella as 12.708.712 pessoas que votaram em Cepeda e que acreditam, sem dúvida, que ainda é possível fazer política de outra forma, superando os preconceitos de classe e as violências históricas contra as mulheres, contra as populações afro-colombianas, os povos indígenas, as comunidades LGBTIQ+, os ciganos, e coexistindo com as entidades da natureza em um dos países mais ricos em biodiversidade do mundo. Enquanto que a outra metade do eleitorado parece sequer conseguir imaginar que a hiperprodução capitalista não seja a única solução para suas expectativas. É em parte essa batalha sociopolítica e cultural que acaba de sacudir o povo colombiano. É dessa polarização que nasceu a linha de fuga mortal e espetacular, marcada por uma masculinidade viril, que se impôs ao povo colombiano nas últimas eleições, dando origem ao que chamamos de populismo de elite: um populismo que, por um lado, explora a precariedade sociocultural e a capacidade de ação política do povo para encarnar seu descontentamento frente às classes “privilegiadas” — a Igreja, os governos e os partidos tradicionais — e que, por outro lado, satisfaz essas elites ao encarnar suas prioridades sob a forma de um poder político autoritário, capaz de subverter os mecanismos de exercício de um poder transparente, democrático e legal. Esse populismo, no entanto, encontra-se legitimado tanto pelas elites que favorece quanto pelo povo que justifica todas as ações, mesmo que estas o conduzam à sua própria destruição [12].
Essa nova via, que se pode qualificar, com Achille Mbembe, de “necropolítica”, isto é, que confere ao Estado o poder de decidir quem deve viver e quem deve morrer [13], apresenta-se como uma alternativa messiânica, inovadora, midiática, que confere um toque ainda mais burguês à cultura visual ligada ao tráfico de drogas do país – na qual é preciso incluir os “as pessoas de bem”. Essa cultura visual é qualificada de “narcoestética”, ou seja, uma estética pela qual “se define um belo barroco que tem por finalidade a reprodução e a proliferação de corpos padronizados com proporções ampliadas pela cirurgia estética, cabelos alisados e maquiagem excessiva” [14]. O novo salvador é aquele que diz aos colombianos “vou velar por vocês, vou defender pessoalmente suas vidas, suas casas, seus filhos” [15], e que passeou publicamente pelas ruas do país exibindo seu colete à prova de balas dentro de um carro com uma cúpula de vidro blindado. O “realismo mágico”, conceito pelo qual Gabriel García Márquez descreve o povo colombiano, estende-se para um populismo de elite que se manifesta na campanha presidencial de Abelardo de la Espriella: “o tigre que ruge e morde”, aquele que representa “os que nunca tiveram”, “os que nunca viveram às custas do Estado, os que nunca roubaram nada, os que nunca se queixam, os que nunca darão as costas ao nosso país em suas horas mais sombrias, os que nunca fizeram parte da panelinha política, os que nunca são e nunca foram financiados pelos grandes capitais. Será uma batalha dos ‘nunca’ contra os ‘sempre'” [16].
“O tigre”, “o homem de negócios trabalhador” sobre quem “parece que ele chegou tarde demais quando distribuíam o medo”, aquele que nunca faz política, que desfila em seus ternos italianos criados por sua própria marca e que também os presenteia àquele que ele continuava chamando de “Presidente” antes de lançar sua campanha em 2025: Álvaro Uribe Vélez, a quem seu partido qualificou como presidente “eterno” [17]. Abelardo, aquele que nunca desiste, defensor “sem escrúpulos” [18] que nada teme, que aceita todos os casos que os outros advogados recusam, incluindo os dossiês espinhosos relacionados à defesa de traficantes de drogas e paramilitares; como quando criou a fundação (Fipaz), que favoreceu a aproximação e a tomada de posição dos chefes paramilitares para sua defesa no âmbito de um processo de desmobilização sem extradição [19]. Abelardo, aquele que nunca mudará, aquele que tampouco assumirá uma posição ética na política, já que ele mesmo afirma: “como não sou político, não sou politicamente correto […] a ética é um conjunto de normas pessoais” [20]. Ao passo que, como advogado, em matéria de direito, tudo depende, segundo ele, do ponto de vista sob o qual nos colocamos. O Tigre, aquele que “nunca mente para você”, mas que, no espaço de um único dia, passa do status de ateu a uma conversão espiritual que mudou completamente sua vida [21]. Aquele que um dia declara em campanha que não enviará representantes à ONU, e no dia seguinte nomeia como representante o advogado constitucionalista Mauricio Gaona. Que um dia adora Álvaro Uribe, e no dia seguinte ataca todo o seu partido para vencer a batalha política, por exemplo: durante a campanha, declarou que não criaria um partido, mas que, uma vez eleito, pressiona o partido do “Eterno” ao lhe opor um candidato à presidência do Senado da República, conseguindo assim unir dois partidos historicamente opostos, o Centro Democrático e o Pacto Histórico, para vencer a presidência [22]. Abelardo de la Espriella, que não mente para você, mas se limita a interpretar os fatos a seu favor, portanto, não sente nenhum desconforto ético pelo fato de que, antes do início de sua campanha, ele descrevia, em suas crônicas, Donald Trump como um líder “populista e barulhento” e alertava sobre os riscos relacionados à indústria do petróleo”, ao passo que, uma vez em campanha, ele exalta o extrativismo, afirma que a Colômbia será uma das estrelas da bandeira dos Estados Unidos e, por fim, agradece ao presidente americano por sua vitória, em uma carta em que se expressa assim: “você abriu o caminho para vencer os poderes estabelecidos de sempre, em aliança com o povo. Na Colômbia, começamos a trilhar esse mesmo caminho. Os Estados Unidos e a Colômbia são nações irmãs, unidas pelo sangue dos heróis e pelo destino comum de defender a civilização ocidental nestas terras das Américas. Juntos, somos indestrutíveis” [23].
Esse novo messianismo, que supostamente salvaria a Colômbia do inimigo interno, insere-se em uma verdadeira campanha midiática sobre a qual o próprio Abelardo declara: “Meu objetivo é acender a faísca vulcânica que fará a verdade circular de forma viral nas redes sociais” [24].
Foi assim que Abelardo, amplamente financiado pelo clã Char (um grupo de políticos tradicionais e empresários manchados por escândalos de corrupção e ligados a grupos fora da lei), de quem é próximo há muito tempo [25], desenvolveu, por um lado, uma estratégia piramidal de captação de eleitores (uma prática, aliás, ilegal, pois exerce coerção sobre o eleitorado [26]) e, por outro, a construção de um imaginário e de uma identidade de força e vigor simulados com o auxílio da inteligência artificial. Seus modos de ação apoiam-se na rede de afetos e paixões que animam a população e obedecem à emotividade humana manipulada por um inconsciente maquínico, como diria Félix Guattari [27], e regidos por um algoritmo “à maneira de mutação antropológica”, como diria o historiador colombiano Alberto Castrillón Aldana [28].
A campanha de Abelardo de la Espriella foi concebida desde o início para esses inconscientes maquínicos controlados por algoritmos, para os quais o que se chama de “memória histórica” tem pouco ou nenhum interesse. Uma campanha midiática concebida para as redes sociais que os colombianos usam no dia a dia: TikTok, WhatsApp, Instagram, Facebook e X. Seu programa de governo, que parece ter sido redigido com o ChatGPT e tem três páginas, não fala apenas do tipo de governo que ele propõe, mas também do povo que ele pretende governar. Como já dizia Guattari: “Não se pode partir de uma vetorização simples que partisse de um lugar de manipulação de produção de subjetividade e, em seguida, de uma pobre população vítima da situação. Porque ela é vítima, mas, ao mesmo tempo, ela é agente nesse assunto. Também temos a mídia e a quimioterapia que merecemos” [29].
Dentre os símbolos de sua campanha, destacam-se: o tigre como figura emblemática, um animal erguido sobre duas patas, vestido com um terno de estilista italiano (embora, como sabemos, o tigre não seja uma espécie endêmica da Colômbia [30]). O uso da camisa da seleção colombiana de futebol, a saudação militar, que é claramente proibida fora de seu uso institucional (os órgãos encarregados de regulamentar esses aspectos, a saber, o Conselho Nacional Eleitoral e o Registro Nacional, não implementou medidas preventivas nem tomou medidas corretivas para conter o uso desses símbolos). O capacete de vidro blindado e o colete à prova de balas. Os escapulários de diversos santos e anjos com os quais ele celebra toda uma iconografia religiosa à qual estão ligados pelo menos 45,3 milhões de colombianos católicos [31], sem falar dos símbolos judeus que ele também ostenta. Durante sua campanha presidencial, ele fez, assim, uma peregrinação religiosa amplamente divulgada nas redes sociais, na qual proferiu discursos como: “… o povo judeu é o povo de Deus” [32]. O que atesta a aliança com Israel que o leva hoje a querer fechar 14 embaixadas e abrir uma embaixada da Colômbia em Jerusalém [33].
Outros discursos proferidos durante sua peregrinação demonstram o vínculo indissociável entre política e religião, que ainda atua como um poderoso catalisador para todos os fiéis. Durante sua peregrinação, ele declara ainda: “Divino Menino Jesus, Filho eterno do Pai, rei dos reis e senhor dos senhores, é diante de ti que concluímos esta peregrinação nacional, reconhecendo que toda autoridade, toda nação e toda história estão sob tua senhoria. Hoje, levantamos nossos olhos para ti, com gratidão, pelos dons que derramaste sobre a Colômbia, e com confiança filial, entregamos em tuas mãos o presente e o futuro de nossa pátria […] esta batalha não é apenas política, ela é também espiritual […] estamos firmes pela pátria! E também firmes pela fé!” [34].
O mandato de masculinidade também ocupa aqui um lugar fundamental no discurso de Abelardo. Rita Segato descreve esse mandato como a violência de Estado exercida por uma confraria masculina que exige lealdade a uma espécie de corporação viril cuja ordem simbólica não deve ser alterada [35]. Abelardo, que afirma ter uma visão singular das mulheres, a quem qualifica de “tigresas”, explica que são elas que sustentam e mantêm o lar, pois “as mulheres são o núcleo da família” [36]. Embora isso possa parecer “quase encantador”, o que vivemos durante a campanha foi totalmente diferente: cenas públicas de machismo sem precedentes e, pior ainda, com o apoio de uma parte da população feminina que não se preocupa com os ataques às jornalistas e que, por sua vez, se torna cúmplice da confraria masculina segundo a qual as mulheres são meros “adereços” e devem ocupar o “lugar que lhes cabe” — o qual, claramente, não é o da expressão política. Ao contrário, as mulheres seriam incapazes de votar guiadas pela razão; gênero frágil e ignorante da política e do direito, só poderiam votar guiadas pelo desejo ligado aos atributos sexuais do candidato [37].
O que mais dizer sobre a “narcoestética” de sua campanha? Afinal, toda uma iconografia da riqueza e do “bem-estar” se expressa nas alusões às suas duas nacionalidades estrangeiras: americana e italiana, às suas marcas comerciais e ao gozo do dinheiro evidenciado em inúmeros vídeos que mostram festas, viagens, jatos particulares e restaurantes. Que as mulheres sejam o coração da família, mas que sirvam de decoração em uma sala de estar, que o tigre não tenha nada a ver com a Colômbia, que Abelardo se comprometa a cuidar pessoalmente dos colombianos, mas que não compareça à cerimônia de posse presidencial, que não tenha medo de nada, mas que se desloque em um carro blindado, etc., eis aí detalhes que se pode qualificar de contraditórios e que permanecem sem explicação.
No entanto, os eleitores de Abelardo parecem não precisar dessas explicações: o importante é que o espetáculo seja grandioso e divertido e, nesse quesito, Abelardo mostrou-se um expert. Seu espírito empreendedor não abandonou a campanha, que ele aproveitou para criar uma marca intitulada “Defensores da Pátria”, cujos produtos “milagrosos” estão disponíveis em seu site e incluem camisas, bonés, moletons, jaquetas, óculos, esculturas, tênis, garrafas, chaveiros e até panfletos para imprimir e fazer propaganda política. Da mesma forma, em vários de seus vídeos criados para o TikTok, vê-se ele falando enquanto saboreia seu vinho Fratelone ou seu rum “Defensores”, ou ainda simplesmente promovendo seu novo relógio Trigris 1, que conta cada segundo do destino de nosso país e do qual existem apenas 9 unidades que ele mesmo entregará pessoalmente aos compradores [38].
Abelardo e sua equipe souberam temperar e brincar com as emoções de um povo desorientado, dilacerado por uma história de conflito armado em que não há inocentes. Durante sua campanha, Abelardo, “o homem de negócios que decidiu abandonar tudo por um dever que lhe queima a alma: salvar a Colômbia” [39], afirmou não ter gasto um único peso em publicidade e ter contado com “o apoio do povo e a graça de Deus” sem ser “financiado pelos grandes capitais” [40]. Sabemos, no entanto, que o custo real de sua campanha ultrapassou os 26 bilhões de pesos colombianos. Quem a financiou? Já o mencionamos… Sua campanha presidencial, sabemos, foi a campanha publicitária mais cara da história da Colômbia.
Hoje, 7 de agosto, toma posse aquele que, para muitos, jamais será um presidente digno da Colômbia. Essa afirmação justifica-se pela decisão do grupo parlamentar do Pacto Histórico de não comparecer à sua posse, pela declaração de desobediência civil feita por esse mesmo partido e pela determinação dos 12.708.712 eleitores que votaram contra Abelardo de la Espriella e que acompanharão seus atos com absoluta desconfiança.
Entramos hoje em uma era marcada por um populismo de elite ao qual esperamos resistir e sobreviver. Temos medo, pois fomos abertamente ameaçados e sabemos que, na Colômbia, não se brinca com os inimigos internos: eles são caçados, mortos e enterrados. Hoje, somos colombianos que nos abraçamos à distância, buscando dia após dia, em todas as frentes possíveis, não enfraquecer diante das raras oportunidades que se nos oferecerão de pensar de forma diferente, de optar pela vida em vez de nos vincularmos ao Estado necro.
Notas:
[1] O emprego do termo ‘suposta eleição’ remete à contestação ainda em curso da validade do pleito presidencial colombiano de 2026. Até 30 de julho de 2026, o presidente Gustavo Petro continua denunciando uma fraude eleitoral e uma manipulação informática dos resultados, acusações que permanecem contestadas e que, segundo algumas fontes consultadas, não permitiram comprovar a ocorrência de fraude. Paralelamente, o Conselho de Estado colombiano admitiu para exame um pedido de nulidade da eleição de Abelardo de la Espriella, apresentado por Luis Guillermo Pérez. Apoiado por milhares de cidadãos, esse pedido afirma, entre outros pontos, que os controles de autenticidade, integridade e rastreabilidade digital dos formulários E-14 teriam sido reduzidos em 2026, comprometendo, segundo os requerentes, a possibilidade de verificar os resultados de forma independente. A eleição, no entanto, permanece juridicamente válida enquanto nenhuma decisão judicial a tiver anulado.
[2] Didier Polo Monterrosa, De La Espriella anuncia el regreso de bombardeos y fumigaciones : « cesará la horrible noche ». Bogotá 20 juillet,https://www.minuto60.com/politica/e…Minuto60, 2026
[3] Abelardo De La Espriella, Colombia no puede seguir arrodillada ante el crimen. 28 Avril, 0’07,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_style, 2026.
[4] Abelardo De La Espriella, ¡Viva la libertad, carajo ! 18 Juin, 1’20,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_style, 2026.
[5] Revista Raya, Enemigo interno, 60 años después : la doctrina que EE. UU. impuso a Colombia y hoy vuelve en campaña. 19 mai, Revista Raya, 2026.
[6] Telemedellín, “Me voy a posesionar en una guarnición militar para hacerle honor a los verdaderos héroes de la patria” ; Abelardo de la Espriella, presidente electo de Colombia durante los actos del 20 de Julio en Medellín campaña. 20 juillet, 0’20. Telemedellín, 2026.
[7] Revista Raya. Ibid.
[8] Revista Raya. Op.Cit.
[9] Le « paisa travailleur » renvoie à tout un imaginaire autour de la vigueur du peuple d’Antioquia, capable de prospérer grâce à un travail acharné, généralement physique, à la campagne.
[10] Gustavo Petro, La trampa de las elecciones está hecha en EE. UU. con algoritmos israelíes… 17 juillet, 1’38. Gustavo Petro, 2026.
[11] Maria Teresa Uribe, Los destiempos y los desencuentros : una perspectiva para mirar la violencia en Colombia. Medellín, Universidad de Antioquia, 1990.
[12] Esta definição baseia-se na análise do contexto eleitoral que envolveu a campanha de De la Espriella e nos argumentos de Sebastián Ronderos e Cristian Acosta Olaya (14 de junho de 2026), os quais afirmam, por um lado, que Abelardo não é um populista, e nos de Carlos de la Torre (2013), que evidencia as diferentes formas de transformação do populismo na América Latina. Sebastián Ronderos, Cristian Acosta Olaya, Abelardo de la Espriella não é um populista. Jacobinslat, 2026. Carlos de la Torre, El populismo latinoamericano : entre la democratización y el autoritarismo. Nueva sociedad n° 247, p. 120-137.
[13] Achille Mbembe, « Nécropolitique » dans « Traversées, diasporas, modernités », Raisons politiques, n° 21, p. 29-60. Éditions Presses de Sciences Po. 2006.
[14] Juliana Marín Taborda, « El Cuerpo Habla : fabulation et émancipation des corps politico-esthétiques ». Rennes, Amerika [en ligne], 31, 2025.
[15] Abelardo de la Espriella, El Cauca y el Valle del Cauca se inundan de sangre de ciudadanos inermes, asesinados por las bombas del terrorismo que Iván Cepeda y Petro, han protegido…. 27 avril,1’28.Delaespriella_Style, 2026.
[16] Abelardo de la Espriella, Los Nunca : batalla por la patria en Colombia, 13 mars0’05.https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026.
[17] O eterno ‘presidente’, após três mandatos presidenciais longe do poder e uma condenação por fraude processual num caso de suborno de testemunhas relacionado às acusações sobre os ‘falsos positivos’, continua sendo designado como ‘presidente’ por uma parte da população colombiana.
[18] C’est ainsi que l’avocat se présente lui-même, en référence à l’éclectisme des affaires qu’il est capable de défendre.
[19] Daniel Coronel,El apoderado. 18 août,Revista Semana, 2026.
[20] samuelgr, Entrevista Caracol televisión, 10 mai, samuelgrg, 2026.
[21] Andres Pinson, Conversión a Dios de Abelardo de la Espriella. 26 août,https://www.tiktok.com/@andrespinso…andrespinson, 2025. Samuelrg, Entrevista Caracol Television, 13 mai, samuelrg79, 2026.
[22] Fernando Ramos, El nuevo Congreso de Colombia quedó instalado, con una desafiante sorpresa para el presidente electo Abelardo de la Espriella . 21 juillet,https://www.tiktok.com/@delaespriel…CNN en Español, 2026.
[23] Abelardo de la Espriella, Colombia en manos de Dios. 3 juin,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026.
[24] Abelardo de la Espriella, Soy Abelardo de la Espriella. 10 janvier, 0’33,https://www.facebook.com/DELAESPRIE…Delaespriella_Style, 2026.
[25] Revista Raya, El tigre y el clan Char una alianza con los de siempre señalados de corrupción. 4 juin, Revista Raya, 2026. Ardila Arrieta, L, La costa nostra. 4 juin, Rey Naranjo Editores, 2026.
[26] Cuestión Pública, En la campaña de Abelardo De la Espriella hay miles de funcionarios públicos inscritos, incluyendo policías activos. 31 mai, Cuestión Pública, 2026.
[27] Félix Guattari, L’inconscient machique : essaies d’eschizo-analyse. Paris, Éditions Recherche, 1979.
[28] Voir Alberto Castrillón Aldana, Una analítica de la gubernamentabilidad algorítimica. Subjetividad e intersubjetividad en el contexto de una ontología histórica del presente. Medellín, Fondo editorial Colegiatura, 20204. p. 43.
[29] Félix Guattari, L’ère post-médias, dans « Subjectivité & Mass-média », Chaosmose Vidéos, 3 septembre 11’55, 2022.
[30] Abelardo de la Espriella, Lanzamiento de campaña diseñado con inteligencia artificial. 10 janvier,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026.
Abelardo de la Espriella,Promoción de la campaña para la primera vuelta electoral. 25 décembre,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026 .
[31] Conferencia Episcopal de Colombia, Colombia en el top 10 de los países más católicos del mudo. 10 avril, Conferencia Episcopal de Colombia, 2017.
[32] Abelardo de la Espriella, Firme con la comunidad judía. 1 avril,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026.
[33] 6AM W, Gobierno y oposición se enfrentan por las futuras relaciones con Cuba e Israel. 28 juin, Caracol Radio, 2026.
[34] Abelardo de la Espriella, Colombia en las manos de Dios. 28 juin,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026.
[35] Abelardo de la Espriella, Firme con la comunidad judía. 28 juin,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026.
[36] Abelardo de la Espriella, Firme por las mujeres. 15 mai, 1’50https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026
[37] Juanita León, El machismo de Abelardo de la Espriella en seis. 12 mai,https://www.lasillavacia.com/silla-…La Silla Vacía, 2026.
[38] Abelardo de la Espriella, Reloj de Arte Colombiano con Patria. 20 janvier, 0’08,https://www.tiktok.com/@delaespriel…Delaespriella_Style, 2026.
[39] Abelardo de la Espriella, Soy Abelardo de la Espriella. 10 janvier,https://www.facebook.com/DELAESPRIE…Delaespriella_Style, 2026.
[40] Abelardo de la Espriella, Los de siempre no podrán destruirme. 20 avril, Delaespriella_Style, 2026.
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Juliana Marín Taborda e Alejandro Giraldo Quintero
Juliana Marín Taborda é artista visual, professora e pesquisadora, com doutorado em Artes e Estética pela Universidade de Toulouse II Jean Jaurès.
Alejandro Giraldo Quintero é engenheiro eletrônico formado pela UdeA, seus principais interesses de pesquisa concentram-se nas áreas de automação de serviços digitais, computação e comunicação quânticas e IA.

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