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Capitalismo patrimonialista etário

Do A Terra É Redonda, 24 de agosto 2026
Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*


Imagem: Roman Kraft

A transição histórica do modelo produtivo para o financeiro gerou uma concentração de riqueza geracional, onde a herança supera o mérito e o esforço individual

1.

O “capitalismo industrial” (1945-1970) teve como marco final o colapso do Acordo de Bretton Woods. Foi provocado pela insustentabilidade do sistema de lastro ouro-dólar, culminando na decisão unilateral dos Estados Unidos de suspender a conversibilidade direta do dólar em ouro, em 15 de agosto de 1971, no evento conhecido como Choque de Nixon.

O enfraquecimento e a consequente queda do sistema monetário internacional ocorreram devido a uma combinação de fatores econômicos e geopolíticos estruturais.

A desindustrialização ocidental ocorreu, progressivamente, a partir de 1978, com as reformas de Deng Xiaoping na China. Os chineses abriram o mercado para empresas transnacionais sob a condição de transferência de tecnologia, criaram Zonas Econômicas Especiais e atraíram empresas estrangeiras em busca de custos baixos. Isso transformou o país na principal base de manufatura e exportação do mundo.

O sistema monetário vigente até então tinha demanda garantida para os dólares emitidos à vontade pelos Estados Unidos, moeda usada no comércio global. Quanto mais dólares circulavam pelo mundo, menor era a proporção de reservas de ouro possuídas pelos EUA para garantir essas notas. Isso gerou o paradoxo de a necessidade de expansão comercial global minar a própria confiança na estabilidade da moeda lastro.

O governo norte-americano aumentou massivamente seus gastos, emitindo moeda para financiar a Guerra do Vietnã e os programas sociais internos como a Great Society do governo Lyndon B. Johnson. Essa emissão descontrolada foi acusada pelos monetaristas da Escola de Chicago de gerar inflação nos EUA, provocando a supervalorização e a perda do poder de compra real do dólar.

Países europeus, especialmente a França, e o Japão reconstruíram suas indústrias, no pós-guerra, e passaram a acumular grandes superávits comerciais, rivalizando com a hegemonia americana. Ao perceberem o desequilíbrio no balanço de pagamentos dos EUA, seus bancos centrais começaram a perder a confiança e a exigir a conversão de suas reservas de dólares em ouro físico.

As reservas de ouro dos EUA despencaram, impossibilitando a manutenção da taxa fixa de US$ 35 por onça troy. Diante de uma iminente corrida às suas reservas de ouro restantes, o presidente Richard Nixon decretou o fim definitivo da conversibilidade ouro-dólar.

2.

Essa medida pôs fim ao padrão-ouro global e transformou o dólar em uma moeda fiduciária pura, baseada apenas na confiança. O processo de dissolução se completou, em março de 1973, quando as principais potências abandonaram o câmbio fixo e adotaram o regime de taxas de câmbio flutuantes.

Logo depois veio o primeiro “choque do petróleo”, provocado pelo cartel da OPEP, com consequência inflacionária e necessidade de endividamento externo por países em desenvolvimento, para fazerem a “reciclagem dos petrodólares”, acumulados pelos petroestados. Para tornar sua exportação mais competitiva, o Brasil fez duas maxidesvalorizações cambiais (dezembro de 1979 e fevereiro de 1983), provocando um regime de alta inflação, herança-maldita do regime ditatorial.

Depois da tentativa-e-erro da repressão financeira, durante esse regime militar, seu fim foi imposto pelas instituições financeiras multilaterais (FMI e Banco Mundial), das quais dependia o país para sua rolagem de dívida externa. Nesse ambiente, o neoliberalismo foi eleito e reeleito nos anos 1990. Com suas desregulamentações e privatizações, implantou-se o “capitalismo financeirizado”, em pleno vigor até a Grande crise financeira (2008).

Após o trauma dessa Grande crise financeira global, com o afrouxamento monetário nos Estados Unidos e Europa, sem provocar inflação por conta da crise deflacionária com a capacidade produtiva ociosa, a baixa taxa de juro no exterior inflou nova bolha de ações na economia de mercado de ações norte-americana e nova bolha imobiliária na Europa. Lá, a crise habitacional relaciona-se tanto ao envelhecimento populacional quanto à essa financeirização imobiliária.

Imóveis deixaram de ser apenas bens de uso para se tornarem ativos estratégicos de proteção patrimonial e espécie de “previdência privada” informal para uma população envelhecida. São arrendados, em cidades turísticas, via Airbnb. Regras urbanísticas rígidas, preservação histórica e a redução do investimento público em habitação social, desde os anos 1980, limitam a expansão da oferta na Europa.

Há uma divisão intergeracional. Enquanto quem comprou imóveis entre 1970 e 1990 acumulou grande valorização, os jovens sem renda suficiente enfrentam preços proibitivos. Resulta em um recorde de adultos vivendo com os pais, por exemplo, 42% na Irlanda.

3.

O “capitalismo patrimonialista etário ou geracional” é a configuração socioeconômica contemporânea, quando a riqueza acumulada por meio de patrimônio e herança supera a renda gerada pelo próprio trabalho. Concentra-se predominantemente no patrimônio das gerações mais velhas.

Esse conceito une a tese do economista Thomas Piketty sobre o retorno do “capitalismo patrimonial” (r > g), quando o rendimento do capital tem crescimento mais rápido diante o da renda. Esta profunda desigualdade demográfica e geracional marca o século XXI.

O fenômeno tem três pilares. O primeiro é a prevalência da herança sobre o mérito. O sucesso financeiro e o acesso a bens básicos passam a depender muito mais da herança familiar (o patrimônio dos pais e avós) em vez do esforço ou do salário individual do trabalhador. Essa “herançocracia” se agrava com a queda da taxa de natalidade: um ou dois filhos herdam maior valor se comparado às gerações anteriores.

O segundo pilar é a concentração etária da riqueza. O capital imobiliário e financeiro está massivamente retido pelas gerações mais antigas, especialmente os Baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964). Viveram o auge do crescimento econômico pós-guerra e a valorização imobiliária histórica.

O terceiro pilar é a barreira de entrada para os jovens. As gerações mais novas, como os Millennials e a Geração Z, enfrentam salários estagnados, precarização do mercado profissional e custos de vida inflacionados, tornando a compra da casa própria quase impossível sem suporte familiar.

 

Há uma estagnação da mobilidade social. A desigualdade se cristaliza. Quem não tem pais proprietários fica permanentemente preso no mercado de aluguel e sem capacidade de poupar.

Emerge o fenômeno do “banco dos pais”. O início da vida adulta dos jovens (casamento, compra de imóvel, abertura de negócios) passa a ser financiado diretamente pela transferência em vida do patrimônio familiar.

Porém, vigora também uma crise da longevidade. Embora haja uma enorme projeção de transferência de riqueza, para as próximas décadas, o aumento do custo de vida e os gastos com saúde na velhice estão corroendo os patrimônios antes de chegarem aos filhos. Quem viver, verá…

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDU
zn.SP). [https://amto/4dvKtBb]

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