Por MARCO MONDAINI*
Considerações sobre a influência de Gramsci sobre Celso Furtado e Caio Prado Júnior a partir de suas anotações
1.
Nas andanças pelas bibliotecas das universidades do estado de São Paulo que abrigam as coleções de livros dos grandes clássicos do pensamento social brasileiro, localizei na biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP), entre os materiais já catalogados, dois volumes com os textos carcerários e pré-carcerários de Antonio Gramsci nas coleções do historiador paulista Caio Prado Jr. e do economista paraibano Celso Furtado, a saber:Coleção Caio Prado Jr.:Il Risorgimento (Giulio Einaudi Editore, 1952);
Gramsci dans le texte (Éditions Sociales, 1975).
Coleção Celso Furtado:A questão meridional (Paz e Terra, 1987);
Cadernos do cárcere, vol.6 (Civilização Brasileira, 2002).
Dos quatro volumes, apenas A questão meridional da Coleção Celso Furtado (infelizmente) não possui marcações e anotações, apresentando os três demais a seguinte quantidade:
. Il Risorgimento (CPJ): 12;
. Gramsci dans le texte (CPJ): 3;
. Cadernos do Cárcere, vol.6 (CF): 8.
Trata-se de um número muito pequeno de marcações e anotações, quando comparado com as encontradas nos Cadernos do Cárcere lidos por Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido, que foram abordadas numa série de três artigos publicados em A Terra é Redonda.
No entanto, à medida em que outros livros de Antonio Gramsci presentes nas duas coleções forem sendo catalogados, nada exclui a possibilidade de que tal quantitativo aumente em maior ou menor medida.
2.
Como as marcações e anotações feitas por Celso Furtado no “Caderno 4 (1930-1932): O canto décimo do Inferno” e no “Caderno 21 (1934-1935): Problemas da cultura nacional italiana. 1º Literatura popular” não trazem nada de mais significativo – além de alguns pontos de interrogação, a exemplo do colocado ao lado da referência de Gramsci ao “apoliticismo do povo italiano, que se manifesta nas expressões “rebeldia”, “subversivismo”, “antiestatismo” primitivo e elementar” –, optamos no presente texto pelo tratamento bastante introdutório das anotações e marcações feitas por Caio Prado Jr. nos dois volumes acima citados, na expectativa de que os demais volumes da edição temática dos Cadernos do Cárcere, na hipótese de terem sido lidos pelo autor de A Revolução Brasileira em língua italiana, sejam catalogados e disponibilizados para a consulta pública.
Na leitura caiopradiana da edição francesa dos escritos de Gramsci, adquirida em 28 de abril de 1975, conforme anotação feita abaixo da sua assinatura na contracapa do livro, chama a atenção a marcação (acompanhada de uma anotação ilegível) de uma nota de Gramsci datada de 1935 acerca da “quantidade e qualidade”, presente na seção “problemas do materialismo hitórico”: “como não pode haver quantidade sem qualidade nem qualidade sem quantidade (economia sem cultura, atividade prática sem inteligência e vice-versa) toda oposição dos dois termos é sem sentido de um ponto de vista racional” (p.188-9).
Trata-se de uma passagem na qual Gramsci assinala a concepção dialética da história do marxismo, assentada no princípio da totalidade, que seria reafirmada por Palmiro Togliatti no editorial do primeiro número da famosa revista cultural do Partido Comunista Italiano – La Rinascita – em junho de 1944, numa polêmica com o mesmo Benedetto Croce, com o qual Gramsci dialoga criticamente nos Cadernos do Cárcere dedicados ao pensamento filosófico:
Não somos capazes de elevar barreiras artificiais ou hipócritas entre as esferas diversas da atividade – econômica, política, intelectual – de uma nação. Não separamos e não podemos separar as ideias dos fatos, o curso do pensamento do desenvolvimento das relações de força, a política da economia, a cultura da política, os indivíduos da sociedade, a arte da vida real. Nessa concepção unitária e realista do mundo inteiro está a nossa força, a força da doutrina marxista.[i]
3.
Adquirido por Caio Prado Jr. em Roma, em julho de 1953, conforme anotação feita abaixo da sua assinatura, na contracapa do livro, Il Risorgimento é, também, aquele entre os Cadernos do Cárcere que mais contou com marcações da parte de Sérgio Buarque de Holanda, o que indica a sua importância para os dois grandes clássicos do pensamento social e da historiografia brasileira.
Tendo como referência as marcações feitas pelos dois historiadores nas páginas de Il Risorgimento, vem à tona, por um lado, uma preocupação comum com a Reforma, o Renascimento, a Contrarreforma, a Unificação Italiana e a Revolução Francesa e, por outro lado, com o papel dos intelectuais e a construção da direção intelectual pelos grupos sociais antes da sua tomada do poder do Estado.
Uma prova disso pode ser dada pelo trecho sublinhado por Caio Prado (também marcado por Sérgio Buarque), no qual aparece o único ponto de exclamação anotado em todo o livro: “Um grupo social é dominante dos grupos adversários que tende a ‘liquidar’ ou a submeter também com a força armada e é dirigente dos grupos afins e aliados. Um grupo social pode e, mais ainda, deve ser dirigente já antes de conquistar o poder governativo (é essa uma das condições principais para a própria conquista do poder)” (p.70).
A mesma preocupação com a “direção” volta a aparecer na marcação do texto em que Gramsci afirma que: “As reações espontâneas (enquanto as são) das massas populares podem somente servir para indicar a ‘força’ de direção das classes altas” (p.53).
Por fim, voltando ao diálogo crítico que Gramsci (e, depois, Togliatti) estabeleceu com Benedetto Croce, é importante indicar duas passagens de Il Risorgimento marcadas por Caio Prado Jr.
Na primeira, quando aponta para a necessidade de vinculação entre os planos nacional e internacional, da mesma forma que entre as dimensões individual e social: “A personalidade nacional (como a personalidade individual) é uma mera abstração, se considerada fora do nexo internacional (ou social)” (p.42).
Na segunda, ao trazer para o campo da luta política a ideia croceana da história como sendo sempre história contemporânea: “E se escrever história significa fazer história do presente, é grande livro de história aquele que, no presente, ajuda as forças em desenvolvimento a se tornarem mais conscientes de si mesmas e, então, mais concretamente ativas e proativas” (p.63).
Parece não haver dúvidas quanto ao fato de que o conhecimento histórico produzido por Caio Prado Júnior – expresso em obras primas como Evolução Política do Brasil, Formação do Brasil Contemporâneo e História Econômica do Brasil –, antes e depois da leitura de Gramsci, foi atravessado pelo compromisso ético-político com a conscientização voltada para a ação das forças em desenvolvimento, isto é, as classes subalternas.
*Marco Mondaini, historiador, é professor titular do Departamento de Serviço Social da UFPE e apresentador do programa Trilhas da Democracia. Autor, entre outros livros, de A invenção da democracia como valor universal (Alameda) [https://amzn.to/3KCQcZt]
Notas
[i] Citado em: CILIBERTO, Michele e VACCA, Giuseppe. “Prefazione” in Palmiro Togliatti. La politica nel pensiero e nell’azione. Scritti e discorsi. 1917-1964. Milano, Bompiani, 2014, p. xv.

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