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Anthony Fauci

Do Rebelión, 5 de agosto 2026
Por SAMUEL JORGE MOYSÉS*



Imagem: Mufid Majnun

Cloroquina, ivermectina, máscaras, vacinas: tudo já foi testado, revisto e convergido — o que renasce agora não é dúvida, é desinformação requentada

Quem acompanha a mídia digital percebeu, nas últimas semanas, um apito de cachorro reaparecer: “Fauci”. Apito de cachorro (dog whistle), já sabemos, é o uso de palavras ou expressões com linguagem codificada na política e no discurso público, sobretudo pela extrema direita global para disseminar uma narrativa orquestrada.

Anthony Fauci é um médico, imunologista e infectologista norte-americano que se tornou mundialmente conhecido durante a pandemia da Covid-19, sendo uma das principais vozes científicas da Força-Tarefa de Coronavírus da Casa Branca, defendendo o uso de máscaras, a contenção ou distanciamento social e a vacinação. A repercussão da sua audiência no Senado dos Estados Unidos, em 29 de julho de 2026, virou ponto de partida para reviver um conjunto de alegações sobre a pandemia de Covid-19 que, em sua maior parte, já havia sido examinado à exaustão pela literatura científica.

Cloroquina, ivermectina, uso de máscaras, segurança das vacinas, origem do vírus: tudo volta, sem nenhuma informação científica nova para ser reconsiderada com seriedade.

Vale explicar o episódio para quem não acompanhou de perto. Na referida audiência perante uma comissão do Congresso americano majoritariamente conduzida por republicanos, Anthony Fauci, por décadas a principal referência da resposta sanitária dos Estados Unidos (veja aqui), invocou a Quinta Emenda da Constituição – o direito a não produzir prova contra si mesmo – mais de cem vezes, ao longo de mais de duas horas de sessão.

Juridicamente isso não equivale a confissão de culpa: é garantia prevista no ordenamento constitucional estadunidense, recomendação padrão de advogados em audiências hostis, usada tanto por culpados quanto por inocentes (veja aqui). Politicamente, porém, o silêncio rendeu horas de conteúdo. Um relatório final de outra subcomissão de maioria republicana, divulgado em dezembro de 2024, sugeriu que o vírus provavelmente vazou de um laboratório em Wuhan, na China, com base nas características biológicas do Sars-CoV-2. Contudo, a mesma investigação não encontrou evidência alguma que ligasse Anthony Fauci a irregularidades. Dois fatos que cabem lado a lado sem contradição, e que a narrativa que circula agora prefere fundir num só.

O mecanismo é sempre esse: um acontecimento político recente empresta aparência de novidade a um argumento cuja base empírica não mudou. A cronologia se move; a evidência, não. E ela merece ser revisitada com calma. A mesma calma que falta a quem repete a mesma tese negacionista pela enésima vez sem produzir evidências científicas consistentes.

A cloroquina e a ivermectina não funcionaram

A hidroxicloroquina foi a promessa mais barulhenta do início da pandemia. Estudos de bancada mostravam alguma atividade antiviral contra o vírus, e pequenos ensaios sugeriam benefício promissor. Isto foi o suficiente para justificar investigação, não para fechar questão. Quando ensaios clínicos randomizados de maior porte chegaram, o resultado se mostrou diferente.

A revisão Cochrane, referência em síntese rigorosa de evidência em saúde, reuniu doze ensaios com 8.569 participantes e concluiu que a hidroxicloroquina não beneficia pacientes hospitalizados com covid-19 nem previne a doença em quem foi exposto ao vírus (veja aqui). A recomendação que se seguiu foi direta: nenhum novo estudo do medicamento para esse fim precisava ser iniciado, porque a pergunta já tinha resposta conclusiva.

Não foi um grupo isolado que chegou a essa conclusão. O estudo Solidarity, coordenado pela Organização Mundial da Saúde, testou hidroxicloroquina em larga escala e também não encontrou redução de mortalidade (veja aqui). Equipes diferentes, países diferentes, bases de dados diferentes, com resultado convergente. É o oposto do que uma conspiração misantrópica para esconder a “cura” tão desejada exigiria: convergência independente é justamente um critério de validação forte que separa hipótese descartada de hipótese aceita.

O custo de promover o medicamento sem evidência científica aceitável não foi abstrato. A corrida por cloroquina e hidroxicloroquina gerou escassez que deixou pacientes com lúpus e artrite reumatoide, os quais já dependiam do remédio para tratamentos comprovados, sem acesso a ele. Reviver essa narrativa hoje não é ousadia contra o mainstream. É reciclar um erro cujo preço já foi pago por quem menos culpa tinha nele.

A ivermectina seguiu roteiro parecido, com uma diferença: relatos de recuperação individual seguiam sendo o principal combustível da tese. O problema é que esses relatos não provam nada sozinhos, porque a maioria das infecções por Covid evolui bem independentemente de tratamento. É para isso também que existem ensaios randomizados controlados: para separar melhora espontânea de efeito terapêutico. O ensaio Together, conduzido no Brasil, testou ivermectina em pacientes ambulatoriais e não encontrou redução de hospitalizações (veja aqui). A revisão Cochrane sobre o medicamento chegou à mesma direção, com confiança baixa na evidência disponível por causa do tamanho reduzido dos estudos, e não por “perseguição ideológica” ao fármaco (veja aqui).

Vacina reduz morte

Nenhuma alegação sobre a pandemia foi tão estudada quanto a redução de mortalidade pela vacinação. Uma coorte francesa acompanhou 28 milhões de pessoas por quatro anos e não encontrou aumento de risco de mortalidade por todas as causas entre adultos vacinados de 18 a 59 anos (veja aqui).

Um estudo de vigilância da região europeia da Organização Mundial da Saúde estimou mais de um milhão de vidas salvas diretamente pela vacinação entre dezembro de 2020 e março de 2023 (veja aqui). Esses números vêm de agências de países com sistemas de saúde, economias e governos diferentes entre si, o que torna a hipótese de conluio global, científica e politicamente, incoerente: seria preciso que reguladores rivais, financiados majoritariamente por dinheiro público, forjassem o mesmo resultado, de forma independente, em dezenas de países.

Isso não significa risco zero, e ninguém dotado de lucidez afirmou isso. A miocardite pós-vacinal existe, é rara, e foi capturada pelo próprio sistema de farmacovigilância que a narrativa negacionista alega estar “escondendo coisas”: incidência aproximada de 14,8 casos por milhão de doses, mais frequente em homens jovens após a segunda aplicação (veja aqui). O dado que a narrativa sistematicamente omite é o de comparação: o risco de miocardite depois da infecção pelo próprio vírus é muito maior do que depois da vacina (veja aqui). Recusar a vacina não elimina esse risco. Multiplica.

A alternativa real, durante uma pandemia com vírus circulante, nunca foi “vacina versus risco zero”. Foi vacina versus infecção. E, frente a essa comparação, a única que a medicina baseada em evidência reconhece como válida, a balança não é sutil e favorece fortemente a vacinação.

Máscaras, redução temporária de circulação e reorganização dos serviços de saúde também voltaram a ser tratadas, nesse revival, como puro exagero regulatório. É verdade que essas medidas tiveram custos sociais relevantes. Quem adotou tais medidas reconheceu impactos econômicos, educacionais e psicológicos que fizeram parte da experiência de quem viveu a pandemia. Reconhecer esse custo, porém, não equivale a concluir que as medidas foram inúteis.

O objetivo dessas intervenções não farmacológicas era reduzir a velocidade de transmissão e evitar que os hospitais e outras unidades de pronto atendimento fossem colapsados pela demanda explosiva. Numa crise sanitária, a sobrecarga hospitalar aumenta mortes não só por Covid, mas por qualquer condição que dependa de atendimento rápido: infarto, acidente de trânsito, parto complicado. Como essas medidas raramente foram adotadas isoladamente, e cada país combinou intervenções de formas e intensidades diferentes, tanto “todas as medidas funcionaram perfeitamente” quanto “nenhuma medida teve efeito” são simplificações de uma realidade complexa.

A pergunta que vale fazer é outra: qual intervenção funcionou, em qual contexto, com qual intensidade e a que custo. E a resposta é que essas medidas contribuíram para manter os sistemas de saúde de muitos países em operação, atendendo e salvando vidas.

A origem do vírus

Aqui a precisão importa mais do que em qualquer outro ponto, porque simplificar para qualquer lado repete o erro que este texto tenta corrigir. Um estudo publicado na Science mapeou a distribuição dos primeiros casos em Wuhan e encontrou concentração significativa ao redor do mercado de Huanan, com maior positividade em amostras próximas a bancas de animais silvestres e material genético de espécies já apontadas como hospedeiras intermediárias em outros coronavírus (veja aqui). Um segundo estudo, analisando a diversidade genética das primeiras linhagens, concluiu que os padrões observados eram compatíveis com mais de um evento de transmissão animal-humano entre novembro e dezembro de 2019 (veja aqui).

A hipótese de acidente laboratorial não é absurda, pois acidentes com agentes infecciosos já aconteceram antes, e biossegurança é preocupação legítima. Mas existe diferença entre “possibilidade a investigar” e “coisa demonstrada”, e é aí que o debate público mal-conduzido costuma tropeçar. A subcomissão republicana concluiu, com base em características biológicas do vírus, que o vazamento laboratorial é a explicação mais provável; a avaliação de inteligência do próprio governo americano, por outro lado, registrou divergência entre agências, com diferentes níveis de confiança atribuídos a cada hipótese (veja aqui). Nenhum desses documentos é um estudo revisado por pares com metodologia pública: são avaliações institucionais, com peso próprio, mas de natureza diferente.

Do lado da genômica, um dos primeiros grandes estudos sobre a estrutura molecular do vírus, concluiu que os dados disponíveis não indicavam manipulação genética deliberada, embora a análise não tivesse como objetivo eliminar todos os cenários possíveis de acidente laboratorial (veja aqui). É uma diferença que importa: uma evidência pode enfraquecer uma hipótese específica sem eliminar todos os cenários teoricamente possíveis.

Esse episódio também deixa em aberto uma questão de governança que sobrevive a qualquer conclusão sobre a origem do Sars-CoV-2: como pesquisas de alto risco com vírus de potencial pandêmico são supervisionadas. Mecanismos de avaliação, transparência e controle precisam acompanhar esse tipo de pesquisa (veja aqui), mas “precisamos melhorar a segurança de pesquisas com agentes infecciosos” e “uma pesquisa específica causou esta pandemia” são afirmações de natureza diferente, e a primeira não autoriza a segunda sem prova correspondente.

O resultado honesto dessa comparação é desconfortável para quem gosta de certeza rápida: a origem zoonótica tem forte respaldo em estudos publicados; a hipótese de acidente segue levada a sério por parte da comunidade investigativa, sem prova pública definitiva. Cobrar transparência de instituições é legítimo e necessário. Isso não obriga a aceitar automaticamente a tese do vazamento de laboratório, do mesmo modo que defender a origem zoonótica com a evidência disponível não faz de ninguém apologista de laboratório. O erro dos dois lados é fingir uma certeza que os dados ainda não sustentam.

Por que a mesma história sempre volta

O padrão que atravessa alegações conspiratórias sobre cloroquina, ivermectina, medidas de contenção, vacina e origem do vírus é único: nenhuma dessas alegações encontra sustentação em ensaio clínico, coorte ou revisão sistemática publicada quando reexaminada hoje. O que sustenta o revival não é evidência nova, é anedota pessoal no lugar de dado robusto, indignação midiática no lugar de metodologia, uso abusivo de distorção informacional com fins político-eleitorais, e uma inversão silenciosa do ônus da prova, que exige da ciência séria e ética explicação infinita enquanto a alegação contrária nunca precisa provar coisa alguma.

Chamar isso de ceticismo científico é generoso demais. Ceticismo pergunta que dado sustenta a conclusão. O que se vê aqui pergunta outra coisa: como descartar qualquer dado que contrarie o que já se decidiu acreditar, sob o viés de confirmação típico da dissonância cognitiva de grupos panfletários e extremistas. A diferença entre as duas perguntas parece pequena. Não é: uma constrói conhecimento científico e gera tecnologia que reduz a carga de sofrimento, doença e morte; a outra só embala convicção prévia (e pérfida) com aparência de debate. Não há simetria ou equivalência para gerar um debate sério.

Essa mesma dissonância explica por que o revival funciona tão bem no ambiente digital. Conteúdo com forte carga emocional viaja mais rápido do que explicação cuidadosa: uma frase alarmante cabe num story, uma metanálise não. Há um efeito conhecido na literatura sobre desinformação: a simples repetição de uma afirmação aumenta sua familiaridade, mesmo depois de corrigida, o que faz combater esse tipo de erro exigir mais do que apresentar fatos isolados. Exige explicar como o conhecimento foi produzido, e por que algumas conclusões pesam mais do que outras (veja aqui).

Uma crítica recorrente é que as recomendações científicas mudaram ao longo da pandemia, como se isso fosse prova de fragilidade. É o contrário. Conhecimento científico é dinâmico no sentido correto da palavra: continua válido enquanto novas evidências não exigirem revisão. Mudar de posição diante de dado novo não é fracasso, é o método científico funcionando. O erro não é rever uma conclusão. É insistir que uma conclusão inicial precisa ficar de pé mesmo depois que a evidência acumulada aponta para outro lugar.

Fauci calado no Senado dos EUA é fato político, e pode ser discutido como tal. Só não é argumento científico. E a ciência não muda de resposta contingente porque uma testemunha ficou em silêncio numa sala em Washington.

*Samuel Jorge Moysés é professor titular aposentado Saúde Pública na PUC-PR e na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Referências

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