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A USP na contramão

Do A Terra É Redonda, 25 de agosto 2026
Por LUIZ MENNA-BARRETO*


EACH-USP/ Foto: Divulgação

A criação da EACH fundou-se na interdisciplinaridade e na ausência de departamentos, princípios agora ameaçados por uma proposta de reorganização burocrática

1.

Minha motivação ao propor este artigo deriva de uma longa dedicação à USP iniciada como aluno da graduação nos anos 1960 e vigente até hoje. Sou professor aposentado da EACH-USP e, desde 2017, atuo hoje como colaborador sênior, dando aulas e orientando estudantes em programa da pós-graduação. Discutirei aqui a atual proposta de reorganização acadêmica e administrativa da EACH, começando com um pouco da história da criação da unidade até o momento atual, com a tentativa de criar departamentos, atualmente em curso.

Em 2004 como representante dos docentes do Instituto de Ciências Biológicas no Conselho Universitário da USP, assisti a apresentação da proposta de criação de uma nova unidade, na época conhecida como USP-Leste. A apresentação foi feita pela Profa. Myriam Krasilchik e aprovada pelo Conselho Universitário, viabilizando a implantação da nova unidade já em 2005. Nesse ano me transferi do Instituto de Ciências Biológicas para o novo campus, testemunhando os primeiros passos de sua implantação, contagiado pelo entusiasmo de professores, funcionários e estudantes.

A proposta continha os quatro princípios fundadores da unidade, a interdisciplinaridade, o resgate da dívida social com o entorno do campus, o protagonismo dos estudantes e ausência de departamentos. Esses princípios estavam inspirados no que poderia ser considerado como vanguarda naquele momento, evidenciando uma USP sintonizada com os debates sobre a vida acadêmica que acompanhávamos pelo mundo.

A interdisciplinaridade representa uma superação das limitações do conhecimento limitado pelos muros das disciplinas. Essas limitações derivam de concepção (cartesiana) de uma natureza dividida que, ao reduzir/dividir a realidade aos saberes vigentes, vem sendo lida como perda da integralidade. Incluo nas referências uma coleção de artigos recentes publicados na revista Nature,1 que convidam a refletir sobre os futuros possíveis da vida na academia.

Sobre o resgate da dívida social com o entorno da universidade, a própria opção pela zona leste da capital para a implantação da EACH, expressa claramente esse princípio fundamental numa instituição pública. Hoje os programas de pós-graduação da unidade contemplam diversos aspectos dessa relação, embora uma articulação maior com os anseios da população local seja desejável. A criação de um Conselho da Comunidade destinado a cumprir esse papel, vem sendo proposta nas renovações da diretoria sem maiores consequências.

2.

Quanto ao protagonismo dos estudantes, reside aqui um comprometimento pedagógico inspirado nos ensinamentos de Paulo Freire. Hoje esse compromisso merece avaliação crítica quanto à sua implantação nos programas tanto da graduação quanto na pós-graduação da EACH. Até que ponto as aulas motivam o engajamento dos estudantes é uma pergunta que deveria ser feita hoje e sempre.

O quarto princípio fundador, a ausência de departamentos, proponho que seja lido como decorrente do primeiro, da interdisciplinaridade. E aqui está o centro de minha preocupação atual com os rumos que a atual direção da EACH está empenhada em implantar na unidade. Recebemos recentemente um volumoso documento onde a proposta de departamentalização é defendida como adequada e necessária.

A argumentação é sobretudo técnica, eu diria limitada a supostas vantagens nos procedimentos acadêmicos, como agilidade e fluidez, que não me parecem suficientes para romper com esse princípio fundador. Interpreto esse documento como uma tentativa superficial de justificar a imposição da implantação de departamentos. Pergunto-me, por exemplo, o quanto custará no orçamento da unidade, a criação de cargos de chefia dos novos departamentos?2

Aqui o compromisso da agilidade burocrática deveria aparecer junto com o custo dessa mudança, pois o custo da departamentalização em curso não é desprezível, além das gratificações que se inauguram para os novos chefes. Esses recursos seriam melhor aproveitados contratando mais funcionários, mais docentes e atendendo as reivindicações dos estudantes. Entre outros aspectos, discutíveis do ponto de vista intelectual, o compromisso com a interdisciplinaridade aparece mais como cosmético, sem maiores consequências.

No meu entendimento, os quase 40% do corpo docente que se manifestaram contrários à departamentalização, deveriam se constituir em argumento suficiente para sustar o processo hoje e retomar o debate de seus princípios fundadores, além de soar como alerta desse retrocesso iminente. Diversos colegas, instados a escolher um dos departamentos propostos pela direção, não se sentiram confortáveis por não se identificaram com os limites implícitos na proposta, característicos da visão disciplinar da natureza e do conhecimento.

No documento há uma sugestão segundo a qual um docente vinculado a um departamento nas atividades de graduação, poderia optar ao mesmo tempo por outro departamento para suas atividades na pós-graduação, nas quais atuaria em atividades mais interdisciplinares. Estranhas criaturas estaremos produzindo, cabeças separadas de corpos como nos contos de terror ou mera contradição fadada ao fracasso?

Essa proposta de departamentalização da EACH é de fato um retorno à tradição uspiana que nega o desafio de criar novos mecanismos de gestão da unidade. Um exemplo, tarefas que hoje parecem carecer de responsáveis poderiam ser atribuídas sem com isso criar novas despesas, talvez gratificações temporárias.

Um reparo essencial, não se trata de saudosismo ultrapassado, mas sim de retomar projeto de vanguarda ainda em pleno desenvolvimento. Além desse horizonte mais imediato, preocupa-me sobremaneira o que percebo que vem mais pela frente, a privatização da universidade pública em São Paulo.

*Luiz Menna-Barreto é professor titular aposentado “sênior” de ciências biomédicas na EACH-USP. É autor, entre outros livros, de História e perspectivas da cronobiologia no Brasil e na América Latina (Edusp). [https://amzn.to/4i0S6Ti]

Notas

1Nesse link há uma coleção de artigos/editoriais da revista Nature sobre a interdisciplinaridade: neste link

2A gratificação de chefe de departamento na USP em 2026 é de R$4.001,80 mensais segundo tabela do DRH USP acesso neste link.

Sete departamentos a serem criados onerariam o orçamento em R$28.012,60 a cada mês. No documento da diretoria há informações do DRH sobre os custos da implantação dos departamentos, mas não fica claro o ônus adicional em relação ao orçamento vigente hoje, essa informação deveria aparecer mais claramente no documento.

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