Por MATEUS RODRIGUES PINTO*
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A ilusão binarista do conhecimento
A história da racionalidade ocidental constituiu-se, em larga medida, mediante a imposição de clivagens categóricas. Desde a sistematização cartesiana até a consolidação do positivismo acadêmico, o saber humano foi fragmentado em domínios delimitados, erigindo fronteiras entre o pensamento teórico e a prática empírica, a intuição poética e a computação lógica, a experiência metafísica e a observação fenomênica.
Essa compartimentação do conhecimento transcendeu o plano puramente metodológico para alcançar a esfera da subjetividade. Ao sujeito contemporâneo é cobrada uma filiação epistemológica definitiva: exige-se a escolha de uma margem teórica e a consequente renúncia a linguagens e horizontes intelectuais heterogêneos.
A hiperespecialização das ciências, ao mesmo tempo em que promoveu avanços técnicos focalizados, produziu um enclausuramento cognitivo. A adesão irrestrita a uma única margem do saber limita a capacidade de compreensão da realidade, na medida em que obriga o pensamento a operar sob o crivo de uma axiomática preconcebida. Como observa Pierre Hadot (2014, p. 45) ao analisar a filosofia antiga, a transformação da atividade filosófica em mera construção teórica abstrata afastou a reflexão de seu caráter vital de “modo de vida”, reduzindo o indivíduo fixado em territórios disciplinares seguros a um operador de conceitos pré-fabricados, incapaz de articular o universal e o particular.
Frente a essa rigidez, a constituição de um pensamento autônomo requer o reconhecimento de que a verdade não habita o isolamento de um dogma ou de uma especialização estanque. A autonomia da razão nasce da disposição ética de transitar por zonas de fronteira, onde saberes aparentemente divergentes tensionam-se e complementam-se. Trata-se de superar o binarismo tido como natural entre espiritualidade e rigor, metáfora e equação, reflexão e matéria, reposicionando o movimento de passagem no centro do debate filosófico.
A terceira margem em Guimarães Rosa
No livro Primeiras Estórias (1962), especificamente no conto “A Terceira Margem do Rio”, João Guimarães Rosa elabora uma das mais profundas alegorias sobre a recusa do enquadramento institucional e a busca por uma posição de centralidade existencial. A narrativa apresenta a decisão do pai que, sem manifestar explicação verbal, encomenda uma canoa de madeira resistente, despede-se da família e passa a habitar exclusivamente o curso d’água, recusando-se a desembarcar tanto na margem de onde partira quanto na margem oposta.
A fortuna crítica tradicional representada por leitorizações psicanalíticas e sociológicas iniciais frequentemente interpretou o gesto paterno sob a chave da patologia, da alienação mental ou do abandono trágico das obrigações sociais. Contudo, sob uma perspectiva ontológica e hermenêutica, conforme salienta Benedito Nunes (1992, p. 88), a escrita roseana promove uma “metafísica da travessia”, onde a experiência do habitar a água configura a recusa deliberada das determinations espaciais e morais que regem a vida em terra firme.
As duas margens do rio representam as polaridades fixas da existência social: a tradição, as obrigações familiares, as verdades dadas e as formas pré-moldadas de pertencimento. Ao situar-se no meio do rio, o personagem estabelece um espaço de suspensão, onde a vida não é regida nem pelo imperativo do ponto de partida, nem pelo determinismo do ponto de chegada.
A terceira margem não equivale a um não-lugar estático, tampouco à marginalidade autodestrutiva. Ela firma-se como a conquista de uma posição panorâmica. Walnice Nogueira Galvão (1978, p. 112) destaca que o sertão e os rios de Guimarães Rosa funcionam como palcos de provações ontológicas, onde o indivíduo é confrontado com o absoluto e com a necessidade de auto-invenção.
Aquele que navega na calha do rio guarda a distância necessária para contemplar ambas as margens sem permitir que nenhuma delas o aprisione. Essa posição intermediária permite enxergar a topografia social de um ponto de observação ampliado: a fluidez da água torna-se a própria substância da liberdade intelectual. O movimento contínuo da embarcação converte a travessia de um mero evento temporal em uma postura epistemológica diante da realidade.
A prática da subjetivação em Michel Foucault
A navegação proposta pela alegoria roseana guarda estreita correspondência com as investigações de Michel Foucault acerca da epimeleia heautou (o cuidado de si), desenvolvidas sobretudo em suas lições no Collège de France reunidas em A hermenêutica do sujeito (1981-1982) e nos volumes subsequentes de A história da sexualidade. Ao analisar o diálogo platônico Alcibíades I, Michel Foucault estabelece que a preocupação com o próprio ser precede a capacidade de atuar com justiça na esfera pública.
O cuidado de si é um imperativo que se impõe àqueles que querem governar os outros; mas é também uma prática diária, uma atitude geral frente a si e aos outros, uma forma determinada de atenção aos pensamentos, aos atos, ao que se passa no espírito. (FOUCAULT, 2004, p. 58).
O cuidado de si englobava um conjunto de práticas reflexivas, exercícios espirituais (askēsis) e disciplinas do pensamento destinadas a transformar o sujeito de modo a torná-lo capaz de aceder à verdade e exercer a própria liberdade. Gilles Deleuze (2005, p. 115), ao comentar a obra foucaultiana, observa que a subjetivação consiste na criação de uma “dobra” do pensamento sobre si mesmo, um processo de autoafirmação em que o indivíduo resiste à sujeição pelas forças exteriores. Em termos foucaultianos, a subjetivação autônoma exige que o indivíduo deixe de ser mero efeito das instituições e dos saberes disciplinares para se tornar o próprio arquiteto de sua existência, transformando a vida em uma obra dotada de valor estético e ético.
Nesse horizonte, a circulação consciente por múltiplos domínios do conhecimento funciona como um exercício de epimeleia heautou. O trânsito entre a investigação das questões ético-espirituais, a formalização abstrata da ciência e o engajamento com as leis da matéria orgânica impede que o sujeito seja aprisionado por uma única identidade teórica. A rotação dos saberes atua como uma disciplina de desobstrução mental: conforme explicita Michel Foucault (1984, p. 12), a ética exige uma “estética da existência”, onde a recusa da captura por uma síntese definitiva preserva a plasticidade do pensamento, fazendo da transição a sua própria matriz de autoformação.
A plasticidade cognitiva
O trânsito frequente entre linguagens e metodologias díspares molda uma estrutura cognitiva caracterizada pelo raciocínio dedutivo de caráter panorâmico. Ao aceder ao plano de observação proporcionado pela “terceira margem”, o sujeito não apenas acumula dados fragmentados, mas desenvolve a capacidade de apreender a arquitetura geral dos sistemas teóricos antes de se deter nas suas minúcias particulares.
Essa perspectiva operacionaliza a célebre formulação conceitual estabelecida no diálogo entre Michel Foucault e Gilles Deleuze em Os intelectuais e o poder (1972). Nessa ocasião, Gilles Deleuze propõe que a teoria deve ser compreendida não como um sistema contemplativo de verdades absolutas, mas exatamente como uma “caixa de ferramentas” (boîte à outils)
Sob esse prisma, as diversas áreas do saber a reflexão filosófica, as equações formais, a intuição literária ou os saberes práticos e vitais deixam de ser vistas como doutrinas estanques e passam a atuar como ferramentas intercambiáveis na caixa de recursos do sujeito. Como ressalta Gaston Bachelard (1996, p. 23) em sua epistemologia da imaginação e da ciência, a mente humana expande-se quando consegue conciliar o rigor do conceito (o espírito científico) com a fluidez do devaneio poético, suprimindo os “obstáculos epistemológicos” derivados da rigidez corporativa das disciplinas.
As transições entre a densidade filosófica, a análise lógica e as narrativas da cultura afirmam-se como uma estratégia sistemática de oxigenação mental. A rotação dos saberes estabelece uma “pausa ativa”, na qual o cérebro processa em nível difuso as estruturas apreendidas em um determinado campo enquanto opera conscientemente em outro. O conhecimento deixa de ser concebido como um edifício monolítico e passa a ser vivenciado como uma rede dinâmica, na qual cada nova linguagem assimilada amplia o potencial hermenêutico do sujeito para interpretar a totalidade do real.
A constituição de uma trajetória intelectual e existencial imune ao dogmatismo exige a disposição permanente para desatar as amarras dos modelos disciplinares consolidados. A experiência do trânsito por múltiplas instâncias da cultura demonstra que o conhecimento autêntico não se conclui em um ponto de chegada definitivo, mas reside na capacidade do sujeito de sustentar a própria navegabilidade.
A síntese entre a intuição poético-existencial de João Guimarães Rosa e o rigor arqueogenealógico de Michel Foucault oferece uma resposta fundamentada para as exigências da subjetivação contemporânea. Contra a fragmentação alienante da hiperespecialização e contra a rigidez das opções binárias, a metáfora da terceira margem firma-se como um princípio epistemológico e uma postura de vida.
Habitar o meio do rio equivale a assumir a responsabilidade ética pela própria formação. Ao recusar o confinamento nas margens da tradição ou do utilitarismo estrito, o sujeito preserva a liberdade de reconfigurar continuadamente os termos de sua existência, fazendo da pluralidade do saber e da constante travessia a substância mesma da sua liberdade.
*Mateus Rodrigues Pinto é mestre em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
Referências
BACHELARD, Gaston. A Formação do Espírito Científico: Contribuição para uma Psicanálise do Conhecimento. Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
DELEUZE, Gilles. Foucault. Tradução de Claudia Sant’Anna Martins. São Paulo: Brasiliense, 2005.
DELEUZE, Gilles; FOUCAULT, Michel. Os Intelectuais e o Poder (1972). In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p. 69-78.
FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica do Sujeito: Curso no Collège de France (1981-1982). Tradução de Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade 3: O Cuidado de Si. Tradução de Maria Thereza da Costa Alves. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
FOUCAULT, Michel. O Uso dos Prazeres: História da Sexualidade 2. Tradução de Maria Thereza da Costa Alves. Rio de Janeiro: Graal, 1984.
GALVÃO, Walnice Nogueira. Mitológica Roseana. São Paulo: Ática, 1978.
HADOT, Pierre. O que é a Filosofia Antiga? Tradução de Dion Davi Macedo. São Paulo: Loyola, 2014.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral: Uma Polêmica. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
NUNES, Benedito. O Drama da Linguagem: Uma Leitura de Guimarães Rosa. São Paulo: Ática, 1992.
PLATÃO. Alcibíades I / Mênon. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2004.
ROSA, João Guimarães. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.

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