Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*
Cercada de perguntas, a tese que culpava apenas o trabalhador desmoronou: a produtividade não reside numa única variável, mas num emaranhado de máquinas, investimentos e escolhas estratégicas
1.
O auditório estava lotado. Na tela iluminada aparecia o título da palestra: “Por que o Brasil cresce pouco? Por causa da baixa produtividade dos trabalhadores”.
O conferencista era um economista famoso. Tinha uma coluna na Falha de S. Paulo, participava frequentemente da RivoNews e falava com a segurança de quem jamais fora interrompido por uma boa pergunta.
Começou exibindo um gráfico.
“Senhores, o trabalhador brasileiro produz menos porque possui escolaridade inferior à dos trabalhadores de países desenvolvidos”. Fez uma pausa para dar tempo à plateia de admirar a simplicidade da explicação. “Portanto, antes de discutir qualquer política econômica, precisamos melhorar a educação pública”. Todos concordaram com a cabeça. Afinal, quem seria contra melhorar a educação?
Na primeira fila, porém, um professor de Engenharia levantou a mão. “Posso fazer uma pergunta?”. “Claro”. “As montadoras japonesas instaladas no Brasil utilizam tecnologia muito diferente da utilizada em suas fábricas no Japão?”. “Não exatamente”. “Seus operários recebem treinamento?”. “Naturalmente”. “Então por qual razão a produtividade continua inferior?”.
O palestrante respondeu se repetindo: “Porque nossa mão de obra ainda apresenta deficiências educacionais”.
Antes de continuar, levantou-se uma pesquisadora da indústria farmacêutica. “Os engenheiros brasileiros empregados por multinacionais possuem formação muito diferente da dos engenheiros americanos, franceses ou alemães?”. “Não necessariamente”. “Então por que os laboratórios de pesquisa permanecem concentrados na matriz?” O economista sorriu. “Porque ainda precisamos acumular conhecimento”.
2.
Um estudante perguntou do fundo do auditório: “Conhecimento dos trabalhadores ou decisão estratégica da empresa?”. O palestrante fez uma pequena pausa. “Ambos”. A resposta pareceu satisfatória por alguns segundos. Até um professor de Administração pedir o microfone. “Professor, a produtividade depende apenas do trabalhador ou também das máquinas, dos softwares, da organização da produção, da logística, da pesquisa, do capital investido e das decisões tomadas pela matriz da empresa?”
“Evidentemente depende de vários fatores”. “Então por qual razão o senhor começou culpando apenas os trabalhadores? Alguns risos discretos espalharam-se pelo auditório.
O palestrante resolveu mudar de slide. Agora aparecia um gráfico internacional. “Observem. Os países ricos possuem produtividade muito superior”. “Uma economista especializada em Contas Nacionais levantou a mão”. “Professor, quando se calcula a produtividade média do trabalho, o setor de serviços urbanos pesa bastante, não?”. “Sim”. “E como o senhor mede a produtividade de um barbeiro?”
O economista respondeu com cautela. “Pela renda gerada por hora trabalhada”. Ela continuou: “Um barbeiro atende quantas pessoas ao mesmo tempo?”. “Uma”. “Um médico em consulta?”. “Uma”. “Um advogado?” “Um cliente”. “Um professor em aula particular?” “Um aluno”. Ela concluiu: “Então existem serviços cuja própria natureza impede enormes ganhos físicos de produtividade”.
O economista respondeu: “A tecnologia pode ajudar”. Um motorista de aplicativo levantou-se. “Professor, meu celular ficou mil vezes melhor nos últimos dez anos”. “Sim”. “Mas continuo transportando um passageiro por vez”. A plateia riu.
Uma professora de Economia resolveu ampliar a questão. “O setor de serviços cresce justamente porque a sociedade se urbaniza e enriquece. Em todos os países desenvolvidos ele representa mais de dois terços do PIB. Então, parte da desaceleração da produtividade não decorre dessa mudança estrutural?”
O palestrante insistiu: “Ainda assim precisamos melhorar nossa educação”.
Um pesquisador do setor industrial pediu a palavra. “Concordo plenamente”. O auditório estranhou. Ele prosseguiu. “Mas permita-me outra pergunta. Se instalarmos amanhã no Brasil a mesma fábrica de semicondutores existente em Taiwan, trouxermos os mesmos equipamentos, treinarmos os mesmos engenheiros e investirmos a mesma proporção do PIB em pesquisa, nossa produtividade permaneceria baixa apenas porque o trabalhador brasileiro estudou um pouco menos?”
O economista permaneceu em silêncio. O pesquisador completou: “Ou descobriríamos a produtividade também depender da tecnologia incorporada às máquinas, das decisões de investimento, da escala de produção, da inserção nas cadeias globais de valor, da gestão, da infraestrutura, do financiamento e da inovação?”. O auditório já não ria. Escutava.
3.
O palestrante caminhou lentamente até o púlpito. Olhou para a tela. Olhou novamente para a plateia. “Talvez eu tenha simplificado excessivamente”. Ninguém respondeu. Ele perseverou. “A escolaridade importa”. Toda a plateia concordou. “ Mas eu deveria ter dito ela ser apenas um componente de um sistema complexo muito maior”. Agora quem concordou foi o auditório inteiro.
No encerramento, um estudante aproximou-se. “Professor, afinal, quem é o culpado pela baixa produtividade brasileira?”. O economista sorriu. “Depois deste debate, acho essa pergunta ficou mais difícil de responder”.
O estudante também sorriu. “Então a palestra valeu a pena”.
Enquanto o auditório se esvaziava, o projetor ainda iluminava o primeiro slide: “Por que o Brasil cresce pouco?”. Mas alguém, discretamente, acrescentou abaixo, usando o teclado do computador: “…depende de muitos fatores interativos”.
Aquela pequena resposta de grandes proporções teria aumentado a produtividade intelectual de todos os presentes muito mais do propiciado por qualquer um dos gráficos exibido naquela palestra.
Moral da estória: esta crônica permitiu explorar uma crítica recorrente ao debate econômico: a tendência de atribuir um fenômeno sistêmico – a produtividade agregada – a uma única variável, a escolaridade do trabalhador. O humor surge quando a plateia não “derrota” o palestrante, mas vai desmontando, pergunta após pergunta, uma explicação simplória, usada excessivamente, para um problema complexo.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

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