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A Política Recessiva e a Produtividade

Do Viomundo, 24 de agosto 2026
Por Fernando Nogueira da Costa*


Vestia um tailleur sóbrio, carregava uma maleta do Banco Central e consultava o celular a cada trinta segundos.

Sentada no fundo do salão estava a Produtividade, cercada de livros, projetos de engenharia, plantas de ferrovias, computadores, laboratórios, escolas técnicas e uma enorme pasta intitulada: PLANO DE LONGO PRAZO.

— Longo prazo?! — exclamou a Política Recessiva. — Não tenho tempo para isso!

Produtividade levantou os olhos.

— Percebi.

— Como assim?

— Você nunca tem tempo.

A Política Recessiva sentou-se.

— Preciso resolver um problema urgente. A economia está em pleno emprego.

— Está mesmo?

— O desemprego está baixíssimo.

— E a subutilização da força de trabalho?

— Não complique.

— A taxa de informalidade no Brasil está em 37,5% da população ocupada…

— Estamos falando de Macroeconomia.

— Subocupação?

— Depois vemos isso.

— Diferenças regionais?

— Minha senhora, preciso tomar decisões. Tenho um mandato.

Produtividade sorriu.

— Esse é justamente o problema. Você não tem um duplo mandato: controlar a inflação e promover o crescimento.
O diagnóstico

A Política Recessiva abriu sua maleta.

— O país está crescendo acima de sua capacidade.

— Quanto?

— A demanda cresce mais depressa diante da oferta.

— E por quê?

— Porque renda e crédito cresceram.

— Isso parece bom.

— Nem sempre.

— Trabalhadores ganhando mais é ruim?

— Não coloque dessa maneira.

— Famílias consumindo mais?

— Também não é exatamente ruim.

— Empresas vendendo mais?

— Pode ser bom.

— Então qual é o problema?

A Política Recessiva perdeu a paciência.

— Tudo isso junto!

Produtividade tomou um gole de café.

— Interessante. Durante décadas disseram ao país precisar crescer, aumentar renda, criar empregos e expandir o crédito. Quando consegue…

— …descobrimos ter crescido demais.

— Quanto é demais?

— Mais diante da oferta.

— Então aumentemos a oferta!

A Política Recessiva olhou-a como se tivesse ouvido uma obscenidade.

— Isso demora além do meu mandato! A porta-giratória do BC gira rapidamente…
O botão

Ela abriu a maleta.

Dentro havia um enorme botão vermelho.

Estava escrito: SELIC.

Produtividade recuou.

— Você ainda usa isso?

— É meu instrumento.

— Único?

— O principal.

— E como funciona?

A Política Recessiva assumiu a postura professoral de ex-novo-desenvolvimentista convertido às responsabilidades de banqueiro central.

— Simples. Se a demanda está acima da oferta…

Apertou imaginariamente o botão.

— …eu aumento os juros.

— E depois?

— Crédito fica mais caro.

— Depois?

— Famílias consomem menos.

— Depois?

— Empresas investem menos.

— Depois?

— A economia desacelera.

— Depois?

— O mercado de trabalho esfria.

— Depois?

— Salários pressionam menos.

— Depois?

— A inflação cai.

Produtividade ficou pensativa.

— Entendi. Você não aumenta a oferta.

— Não.

— Reduz a demanda.

— Exatamente.

— Até ela caber na oferta existente.

— Finalmente você compreendeu política monetária!

Produtividade anotou em um guardanapo:

DEMANDA > OFERTA

JUROS ↑

CRÉDITO ↓

CONSUMO ↓

INVESTIMENTO ↓

EMPREGO E RENDA ↓

DEMANDA = OFERTA

— Pronto — disse ela. — Equilíbrio por baixo.

A Política Recessiva fez cara feia.

— Prefiro chamar de reequilíbrio macroeconômico.

— Fica realmente mais elegante.
O estranho caso da Produtividade

A Política Recessiva retomou:

— Mas concordamos em uma coisa.

— Qual?

— O Brasil precisa aumentar a produtividade.

Produtividade quase derrubou a xícara.

— Finalmente lembrou de mim!

— Você é fundamental.

— Fico emocionada.

— Sem você não existe crescimento sustentável.

— Continue.

— Precisamos de mais produtividade para a renda crescer sem inflação.

— Excelente!

— Portanto…

Produtividade aproximou a cadeira.

— Portanto?

— …vou manter os juros elevados.

Ela ficou imóvel.

— Repita.

— Juros elevados.

— Para aumentar a produtividade?!

— Não diretamente.

— Indiretamente?

— Também não exatamente.

— Então para quê?

— Para reduzir a demanda enquanto você cresce. Você está muito pequeninha…

Produtividade olhou ao redor.

— E como devo crescer?

A Política Recessiva hesitou.

— Bem…

— Máquinas?

— Sim.

— Investimento?

— Naturalmente.

— Tecnologia?

— Fundamental.

— Infraestrutura?

— Sem dúvida.

— Pesquisa?

— Importantíssima.

— Digitalização?

— Certamente.

— Reindustrialização em novas bases?

— Talvez.

— Então tudo isso exige investimento.

— Sim.

— E investimento depende do custo do capital de terceiros.

A Política Recessiva começou a desconfiar do rumo da conversa.

— Entre outras coisas…

Produtividade pegou outro guardanapo:

SELIC ↑

CUSTO DO CAPITAL EM DESPESAS FINANCEIRAS ↑

PROJETOS RENTÁVEIS ↓

INVESTIMENTO ↓

CAPACIDADE PRODUTIVA FUTURA ↓

Colocou-o ao lado do primeiro.

— Minha cara Política Recessiva, você está me pedindo para eu crescer enquanto corta minha alimentação…

Produtividade desenhou dois caminhos alternativos.

No primeiro:
DEMANDA > OFERTA
→ JUROS ALTOS
→ CONSUMO ↓
→ INVESTIMENTO ↓
→ EMPREGO ↓
→ RENDA ↓
→ DEMANDA = OFERTA

No segundo:
DEMANDA > OFERTA
→ INVESTIMENTO ↑
→ TECNOLOGIA + INFRAESTRUTURA
→ PRODUTIVIDADE ↑
→ CAPACIDADE PRODUTIVA ↑
→ OFERTA = DEMANDA

Consultou Keynes e ele lhe disse:

— Investimento tem dupla personalidade.

HOJE: INVESTIMENTO ↑ → DEMANDA ↑

AMANHÃ: INVESTIMENTO ↑ → CAPACIDADE PRODUTIVA ↑

— Portanto — concluiu —, investimento é demanda presente e oferta futura.
O problema do tempo

A Política Recessiva respirou fundo.

Era chegada a hora de apresentar seu argumento definitivo.

— O problema é o tempo. Tenho um mandato curto e eu só pratico política econômica de curto prazo…

Produtividade permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Ah.

— Compreendeu?

— Perfeitamente.

— Ótimo.

— Então seu problema não é econômico.

— Como não?!

— É temporal.

A Política Recessiva franziu a testa.

Produtividade explicou:

— Você precisa mostrar resultado em quatro anos.

— Exatamente.

— Eu preciso talvez de uma década para crescer.

— Infelizmente.

— Uma ferrovia demora.

— Sim.

— Uma escola técnica demora.

— Sim.

— Formar engenheiros demora.

— Muito.

— Desenvolver tecnologia demora.

— Demais.

— Construir infraestrutura demora.

— Uma eternidade.

— Criar empresas inovadoras demora.

— Não tenho mandato para te esperar…

Produtividade sorriu.

— Então você vence sempre.

— Não se trata de vencer.

— Claramente se trata de entregar juros para os vencedores. Você produz riqueza financeira antes de eu produzir renda do trabalho.

— Essa é minha missão.

— Você derruba demanda em meses. Eu aumento capacidade produtiva em anos.

— Exato.

— Logo, diante de qualquer esgotamento da oferta agregada, chamam você.

— Naturalmente.

— E, quando você chega, reduz investimento.

— Temporariamente, em curto prazo.

— E adia minha chegada.

A Política Recessiva ficou calada.
A sucessão dos curtos prazos

Produtividade retirou um calendário da pasta.

— Vamos fazer uma experiência.

— Qual?

— Quanto dura seu curto prazo?

— Depende.

— Um ano?

— Talvez.

Ela arrancou uma folha.

— Depois desse ano vem o quê?

— Outro ano.

Arrancou outra.

— E depois?

— Outro.

Mais uma folha.

— E depois?

— Outro.

A Política Recessiva começou a ficar irritada.

— Onde você quer chegar?

Produtividade empilhou as folhas sobre a mesa.

— Aqui.

Apontou para elas.

— O longo prazo é uma sucessão de curtos prazos!

Silêncio.

— Se em cada curto prazo você disser “agora não podemos investir porque precisamos esfriar a economia”…

Empilhou mais uma folha.

— …e no curto prazo seguinte repetir…

Outra.

— …e depois repetir novamente…

Outra.

— …quando exatamente chega o longo prazo?!

A Política Recessiva consultou o seu calendário.

Em todas as páginas encontrou escrito:

“Agora não. Precisamos primeiro resolver o curto prazo.”

Olhou para a falta de ferrovias, a desindustrialização, o laboratório aguardando financiamento, a escola técnica sem equipamentos e o empresário comparando o retorno esperado de seu negócio com a renda financeira oferecida sem esforço por títulos pós-fixados.

Depois olhou para o relógio da economia brasileira. O ponteiro continuava girando.

Curto prazo depois de curto prazo… e mais curtos prazos.

Enquanto a Política Recessiva repetia o mantra “primeiro precisamos resolver o problema em curto prazo”, a Produtividade murmurou:

— O desenvolvimento também acontece no tempo. Se o longo prazo nada mais é senão uma sucessão de curtos prazos recessivos… Quando crescerei?!

Moral da estória: A Política Recessiva consegue fazer a demanda caber na capacidade produtiva existente em curto prazo. A Produtividade precisa ampliar essa capacidade para a economia crescer de maneira sustentada. Enquanto o combate à inflação em curto prazo encarecer permanentemente o investimento necessário ao longo prazo, o país permanecerá em estagdesigualdade — fluxo de renda do trabalho estagnado e riqueza financeira cada vez mais concentrada.

Obs.: O eixo dramático é tenso: a Política Recessiva age imediatamente porque dispõe da Selic; a Produtividade precisa de investimento, tecnologia, infraestrutura, educação e transformação estrutural, cujos efeitos amadurecem lentamente. O paradoxo é a primeira destruir hoje parte das condições necessárias à outra amanhã. Foi apresentada no apólogo a oposição entre ambas.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.

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