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A geopolítica das infraestruturas estratégicas

Do A Terra É Redonda, 27 de agosto 2026
Por JARBAS RICARDO CUNHA*


Imagem: Vadim Bogulov

O domínio global migrou do livre comércio para a posse de infraestruturas tecnológicas, exigindo que o país supere o papel de exportador primário para evitar um novo colonialismo digital

1.

Durante as últimas três décadas consolidou-se uma narrativa segundo a qual a globalização inauguraria uma nova etapa da história, marcada pela progressiva perda de importância das fronteiras nacionais, redução da capacidade de intervenção dos Estados e crescente autonomia dos mercados.

A intensificação do comércio internacional, a fragmentação das cadeias globais de valor, a financeirização da economia e a revolução digital pareciam confirmar a hipótese de que a geografia seria progressivamente substituída pelos fluxos de capitais, mercadorias, pessoas e informações como fundamento da organização econômica e política mundial. Em larga medida, predominou a expectativa de que a interdependência econômica reduziria os conflitos geopolíticos e consolidaria uma ordem internacional cada vez mais integrada (Rodrik, 2011).

Recentes acontecimentos, entretanto, colocaram essa interpretação em xeque. Da crise econômica de 2008 à pandemia da COVID-19, ratificou-se a vulnerabilidade estrutural das cadeias globais de suprimentos com o recrudescimento das guerras ao redor do mundo recolocando energia, alimentos e logística no centro da disputa entre potências. A crescente rivalidade entre Estados Unidos e China intensificou a competição sobre semicondutores, inteligência artificial e telecomunicações.

A emergência climática transformou minerais críticos, biodiversidade, água e capacidade energética em ativos estratégicos. Paralelamente, governos que durante décadas defenderam a redução da intervenção estatal agora passam a adotar políticas industriais agressivas, ampliam subsídios públicos, reorganizam cadeias produtivas e investem em ciência, infraestrutura e tecnologia (Tooze, 2021; Mazzucato, 2021).

Hodiernamente, recursos aparentemente desconectados passaram a ocupar posição central nas disputas internacionais. Semicondutores, terras raras, cabos submarinos, satélites, data centers, computação em nuvem, inteligência artificial, redes elétricas, universidades, centros públicos de pesquisa, infraestrutura logística, biodiversidade, energia limpa e capacidade computacional deixaram de constituir agendas setoriais para integrar uma mesma arquitetura do poder.

2.

O conflito geopolítico desloca-se, progressivamente, para o domínio dessas infraestruturas estratégicas concentrando capacidades de inovação, coordenação econômica, autonomia tecnológica e projeção internacional.

Giovanni Arrighi (2007) aprofunda essa perspectiva ao demonstrar que as transições hegemônicas não decorrem apenas da ascensão ou do declínio de Estados nacionais, mas da reorganização das bases materiais da acumulação em escala mundial. Sob essa ótica, talvez a principal novidade do presente não seja propriamente a ascensão da China ou o relativo declínio dos Estados Unidos, mas a transformação da própria infraestrutura sobre a qual se organiza a hegemonia contemporânea.

A competição internacional desloca-se progressivamente do controle dos fluxos para o controle das infraestruturas que tornam esses fluxos possíveis. O que parece emergir é um novo padrão histórico de produção do poder, no qual a capacidade de controlar infraestruturas críticas – científicas, tecnológicas, energéticas, logísticas, ambientais e informacionais – converte-se no principal fundamento da acumulação e da hegemonia deste século XXI.

A inteligência artificial tornou-se o símbolo mais visível dessa transformação. Contudo, sua capacidade de produzir riqueza ou influência não decorre exclusivamente dos algoritmos. Modelos avançados de inteligência artificial dependem de uma cadeia material extraordinariamente complexa: capacidade computacional, semicondutores de última geração, energia abundante e estável, sistemas de refrigeração, minerais críticos, cabos submarinos, satélites, centros de pesquisa, universidades, mão de obra altamente qualificada e vultosos investimentos públicos e privados.

A denominada economia digital, frequentemente apresentada como expressão de um capitalismo imaterial, repousa, paradoxalmente, sobre uma materialidade sem precedentes. Quanto mais sofisticadas se tornam as tecnologias, maior é sua dependência em relação à infraestrutura física, disponibilidade energética e localização estratégica. Grandes centros de processamento de dados instalam-se onde há abundância de eletricidade, acesso à água para resfriamento e estabilidade institucional.

A fabricação de semicondutores concentra-se em poucos territórios capazes de reunir conhecimento científico, capacidade industrial e investimentos bilionários. Minerais como lítio, cobalto, nióbio e terras raras deixaram de ser simples commodities para converter-se em elementos centrais da competição geopolítica. Em vez do desaparecimento do território, assiste-se ao retorno da geografia como fundamento do poder (Santos, 2006).

3.

Essa reconfiguração exige rever um dos pressupostos mais difundidos do pensamento econômico contemporâneo: a separação entre Estado e mercado. Karl Polanyi (2000) já advertia que a ideia de um mercado autorregulado constituía uma construção ideológica. Mercados nunca existiram autonomamente, dependeram – desde sua origem – de decisões políticas, instituições jurídicas, infraestrutura pública e formas específicas de intervenção estatal.

A conjuntura contemporânea confirma de maneira eloquente essa percepção. Os maiores programas de investimento em semicondutores, inteligência artificial, energia renovável e infraestrutura tecnológica são conduzidos diretamente pelos Estados nacionais. O CHIPS and Science Act, nos Estados Unidos, os programas de autonomia tecnológica da China e a política industrial da União Europeia voltada às cadeias críticas revelam uma tendência comum: inovação deixou de ser apenas estratégia empresarial para converter-se em política de Estado (Mazzucato, 2021).

Essa mudança também obriga a reinterpretar o papel das grandes empresas de tecnologia. Frequentemente, as Big Techs são analisadas apenas como corporações privadas dotadas de extraordinário poder econômico. Essa descrição é correta, mas insuficiente. Sua relevância decorre menos do volume de capital que acumulam do que da posição estrutural que ocupam na organização da economia contemporânea.

Plataformas de computação em nuvem sustentam bancos, universidades, hospitais, governos e cadeias produtivas globais, enquanto sistemas operacionais estruturam ecossistemas inteiros de inovação e modelos de inteligência artificial passam a integrar decisões financeiras, industriais, científicas e militares. Essas empresas não apenas participam dos mercados, mas também administram infraestruturas indispensáveis ao funcionamento deles.

A elevada interdependência produzida pela globalização não eliminou as relações de poder, ao contrário, criou novas formas de coerção. Redes financeiras, sistemas digitais, plataformas tecnológicas e cadeias logísticas altamente concentradas podem ser convertidas em instrumentos de pressão geopolítica. Os mesmos canais que permitem a circulação global de informações, capitais e mercadorias tornam-se mecanismos de vigilância, bloqueio, sanções econômicas e controle tecnológico (Silveira,2025). A globalização – portanto – não dissolveu o poder, mas reorganizou sua arquitetura.

Sob essa perspectiva, o conflito contemporâneo extrapola em muito a competição comercial. Carl Schmitt (2015) afirmava que o político se constitui pela distinção entre amigo e inimigo. No século XXI, essa distinção manifesta-se cada vez menos nos campos de batalha convencionais e cada vez mais na definição de quem terá acesso às tecnologias críticas, aos semicondutores mais avançados, às plataformas digitais, às infraestruturas de comunicação e às cadeias globais de inovação. A guerra permanece presente, mas desloca-se progressivamente para o terreno econômico, tecnológico e informacional.

4.

Entretanto, como nos lembra Antonio Gramsci (2002), nenhuma hegemonia se sustenta exclusivamente pela coerção. O poder duradouro exige direção intelectual e moral, capacidade de organizar consensos e produção de legitimidade. Essa observação permanece decisiva para compreender o presente. As disputas em torno da transição energética, da governança da inteligência artificial, da segurança climática ou da autonomia estratégica não dizem respeito apenas à formulação de políticas públicas.

Constituem também disputas pela definição das categorias através das quais a ordem internacional será compreendida e legitimada. A hegemonia contemporânea não se exerce apenas pelo controle das infraestruturas materiais, mas igualmente pela capacidade de definir os significados políticos que lhes conferem legitimidade.

Desse modo, a reorganização do capitalismo contemporâneo não representa um simples retorno do Estado nem o abandono da globalização. O que se observa é uma nova configuração histórica em que Estados, grandes corporações tecnológicas, sistemas científicos e infraestruturas críticas tornam-se progressivamente indissociáveis. A economia política internacional deixa de gravitar prioritariamente em torno da expansão dos mercados e passa a organizar-se em torno da construção, proteção e controle das infraestruturas estratégicas que tornam possível a própria acumulação de capital.

E o Brasil nesse contexto desafiador? Poucos países reúnem simultaneamente um conjunto de ativos comparável ao nosso. O Brasil concentra a maior floresta tropical do planeta, uma das maiores reservas de água doce, uma matriz elétrica predominantemente renovável, importantes jazidas de minerais críticos indispensáveis à transição energética, uma agricultura altamente tecnificada e o sistema científico mais robusto da América Latina.

Nenhum desses elementos, isoladamente, garante protagonismo internacional. Entretanto, quando observados em conjunto, revelam que o Brasil dispõe precisamente de recursos que passaram a ocupar posição central na reorganização da economia mundial.

O problema reside no fato de que continuamos interpretando esses ativos por meio de categorias herdadas de outra etapa do desenvolvimento capitalista. Ainda debatemos commodities como se estivéssemos diante do mesmo mercado internacional dos anos 1990, concebemos política industrial quase exclusivamente como proteção tarifária ou substituição de importações, tratamos ciência, educação, energia, política ambiental, defesa, inovação e política externa como agendas setoriais relativamente independentes.

O atual movimento da economia mundial aponta exatamente na direção oposta: a integração dessas dimensões tornou-se o principal fator de competitividade nacional.

5.

Esse descompasso pode se constituir no maior risco estratégico brasileiro. Países não perdem relevância apenas porque dispõem de menos recursos naturais ou menor capacidade produtiva. Perdem relevância quando deixam de compreender a natureza histórica das transformações em curso. Em diferentes momentos da história, mudanças na base técnica da produção redefiniram as hierarquias internacionais.

A Revolução Industrial alterou profundamente a distribuição do poder no século XIX; a revolução científico-tecnológica reorganizou a hegemonia norte-americana no século XX após a Segunda Guerra Mundial. E agora, no século XXI, a transição impulsionada pela convergência entre inteligência artificial, biotecnologia, computação avançada, transição energética e infraestrutura digital, parece inaugurar uma transformação de magnitude semelhante.

Celso Furtado (1961;1974) antecipou parte desse problema ao demonstrar que o subdesenvolvimento não representa uma etapa preliminar do desenvolvimento, mas uma forma específica de inserção na economia mundial. O núcleo da questão nunca foi simplesmente produzir mais riqueza, mas controlar os segmentos da economia capazes de gerar progresso técnico, inovação e autonomia decisória.

Exportar lítio não significa dominar a indústria de baterias, possuir terras raras não implica controlar a fabricação de semicondutores, gerar energia renovável não assegura liderança em inteligência artificial e deter extraordinária biodiversidade não conduz automaticamente ao protagonismo em bioeconomia ou biotecnologia. O valor econômico desloca-se progressivamente dos recursos em si para as capacidades científicas, industriais e tecnológicas que permitem transformá-los em conhecimento, propriedade intelectual e inovação.

É justamente nesse ponto que a teoria da dependência recupera notável atualidade. Ruy Mauro Marini (1973) analisava uma economia mundial estruturada pela divisão entre centros industrializados e periferias exportadoras de produtos primários. O cenário contemporâneo tornou-se mais complexo, mas conserva lógica semelhante.

A principal riqueza já não se concentra apenas na produção industrial – deslocou-se para algoritmos, plataformas digitais, sistemas operacionais, propriedade intelectual, infraestrutura computacional, grandes bases de dados e capacidade científica. A dependência assume, assim, novas formas.

6.

O risco brasileiro não consiste apenas em continuar exportando commodities e importando manufaturas, mas em fornecer energia limpa, biodiversidade, minerais estratégicos e dados enquanto economias centrais concentram inteligência artificial, computação avançada, biotecnologia e plataformas digitais. Consolidaremos, portanto, um contexto de colonialismo digital? Este é o nosso desafio atual.

Essa transformação exige igualmente uma revisão do próprio conceito de desenvolvimento. Durante décadas, crescimento econômico foi tratado como objetivo suficiente da política pública. Hoje, contudo, crescimento desacompanhado da construção de capacidades tecnológicas pode aprofundar relações de dependência em vez de superá-las. A experiência recente das principais economias demonstra que cadeias produtivas intensivas em conhecimento não emergem espontaneamente da liberalização dos mercados.

Pelo contrário, resultam de estratégias nacionais persistentes que articulam financiamento público, universidades, centros de pesquisa, política industrial, compras governamentais, planejamento de longo prazo e capacidade empresarial. Como sustenta Mazzucato (2014; 2022), as grandes revoluções tecnológicas contemporâneas foram impulsionadas por Estados capazes de assumir riscos que o setor privado, isoladamente, jamais assumiria.

Poucos países – como o Brasil – reúnem condições tão favoráveis para participar da reorganização da economia mundial. Entretanto, recursos naturais, posição geográfica ou abundância energética jamais produziram desenvolvimento por si mesmos. A história econômica demonstra que riqueza potencial somente se converte em poder quando articulada por instituições capazes de transformar recursos em conhecimento, tecnologia, capacidade produtiva e autonomia política. Em última instância, desenvolvimento continua sendo uma questão de organização institucional e de projeto de soberania nacional.

É justamente por isso que o debate brasileiro precisa mudar de eixo. A pergunta decisiva já não é apenas quanto o país cresce, exporta ou arrecada. Também não basta discutir qual setor receberá incentivos ou quais reformas econômicas serão implementadas. A questão estratégica tornou-se outra: quais capacidades nacionais o Brasil pretende construir nas próximas décadas?

Quais tecnologias considera essenciais? Que papel atribuirá às universidades públicas, aos institutos de pesquisa, à política industrial, à Amazônia, à bioeconomia, à transição energética e à soberania digital? Em outras palavras, será capaz de controlar as infraestruturas que produzirão riqueza e poder no século XXI ou limitar-se-á a abastecer aqueles que as controlam? Este é o desafio do Brasil neste século.

Talvez a principal transformação do século XXI não seja a ascensão de uma nova potência nem a emergência de uma tecnologia específica. O que mudou foi a própria forma histórica de produzir poder. O centro de gravidade do capitalismo deslocou-se dos fluxos para as infraestruturas que tornam esses fluxos possíveis. Enquanto continuarmos interpretando essa transformação com categorias formuladas para a economia política do século XX, permaneceremos discutindo as consequências sem compreender a natureza da mudança.

O século XX foi organizado pelo domínio dos fluxos. O século XXI será definido pelo controle das infraestruturas que tornam esses fluxos possíveis. Quem compreender essa mudança compreenderá a nova geografia do poder. Quem não a compreender continuará discutindo um mundo que já deixou de existir. Um projeto nacional de desenvolvimento terá que enfrentar essas questões.

*Jarbas Ricardo Cunha é doutor em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Referências

ARRIGHI, Giovanni. O Longo Século XX. Rio de Janeiro: Contraponto, 2007.

FURTADO, Celso. Desenvolvimento e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009. [1961].

FURTADO, Celso. O Mito do Desenvolvimento Econômico. São Paulo: Ubu, 2024. [1974].

GRAMSCI, Antônio. Cadernos do Cárcere (Vol.3). Maquiavel – Notas sobre o Estado e a Política. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2022.

MARINI, Ruy Mauro. Dialéctica de la Dependencia. Bogotá: Siglo del Hombre – CLACSO, 1973.

MAZZUCATO, Mariana. O Estado Empreendedor: desmascarando o mito do setor público vs. setor privado. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2014.

MAZZUCATO, Mariana. Missão Economia: um guia inovador para mudar o capitalismo. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2022.

SCHMITT, Carl. O Conceito do Político. Lisboa: Edições 70, 2015.

TOOZE, Adam. Portas Fechadas: como a covid abalou a economia mundial. São Paulo: Todavia, 2021.

RODRIK, Dani. The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy. New York and London: W.W. Norton; 2011.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: técnica e tempo. razão e emoção. São Paulo: Editora da USP, 2006.

SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. As Big Techs e a Guerra Total: o complexo militar-industrial-dataficado. São Paulo: Editora Hedra, 2025.

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