Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR*
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| Imagem: Robert Klank |
A urna autoriza o governante, mas o mercado já confiscou o futuro antes da posse
1.
As eleições presidenciais de 2026 não constituem apenas mais uma disputa periódica pelo governo do Estado. Elas condensam quase quatro décadas de democracia limitada, modernização dependente e incapacidade de ruptura com as estruturas oligárquicas que organizam o poder no Brasil. O que estará em julgamento nas urnas não será somente a continuidade de um governo, a substituição de uma coalizão ou a escolha entre programas administrativos distintos.
A eleição recoloca, em condições históricas novas, uma questão que acompanha o país desde a transição da ditadura para a ordem constitucional: até que ponto a democracia brasileira pode sobreviver sem transformar as bases materiais que continuamente restringem sua realização?
Desde o encerramento formal da ditadura civil-militar, o Brasil construiu instituições democráticas sem desmontar as estruturas econômicas, sociais e políticas que sustentaram o autoritarismo. A Constituição de 1988 ampliou direitos, reconheceu sujeitos historicamente excluídos e estabeleceu um horizonte de proteção social. Universalizou juridicamente a cidadania, fortaleceu o sistema de seguridade social, ampliou garantias civis e abriu espaço para novas formas de participação.
Entretanto, esse movimento ocorreu sem alteração substantiva da propriedade da terra, da concentração da riqueza, do controle privado da comunicação, da regressividade tributária e da dependência externa. A democracia nasceu abrangente em sua promessa normativa, mas estreita em sua base material.
Essa contradição não foi um acidente da transição. Ela resultou da forma pela qual a ditadura terminou. Não houve derrota política completa do bloco que sustentara o regime, mas uma transição negociada, conduzida sob tutela militar e organizada de modo a preservar interesses fundamentais das elites econômicas e burocráticas.
A anistia impediu que o Estado autoritário prestasse contas por seus crimes; a estrutura policial permaneceu militarizada; o poder econômico conservou sua capacidade de comandar a agenda pública; e as Forças Armadas mantiveram posição ambígua diante da ordem civil. A Nova República começou, portanto, com uma promessa democrática e uma herança autoritária que nunca foi inteiramente enfrentada.
2.
A eleição de 1989 revelou de imediato essa tensão. De um lado, emergia uma força política vinculada ao mundo do trabalho, aos movimentos sociais e à reorganização popular ocorrida no final da ditadura. De outro, recompunham-se, sob uma linguagem de juventude, eficiência e modernização, os interesses das classes dominantes.
A vitória de Fernando Collor inaugurou eleitoralmente o ciclo neoliberal. A abertura comercial abrupta, a desregulamentação, as privatizações e a ofensiva contra o Estado social foram apresentadas como exigências inevitáveis da modernidade. O país era convocado a ingressar no futuro, mas esse futuro já vinha definido pelos centros financeiros, pelas instituições multilaterais e pelas necessidades de reprodução do capital internacional.
A chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, em 2003, modificou aspectos importantes dessa ordem. A valorização do salário mínimo, a expansão do emprego formal, a ampliação do crédito, os programas de transferência de renda, o crescimento das universidades e dos institutos federais e as políticas de acesso ao ensino superior alteraram concretamente a vida de milhões de brasileiros.
Parcelas historicamente mantidas à margem do consumo, da universidade e das políticas públicas passaram a ocupar espaços antes reservados às classes médias e superiores. A democracia adquiriu uma densidade social que não possuíra nos anos anteriores.
Entretanto, essa incorporação ocorreu por meio de uma conciliação que preservou os principais centros de poder. O sistema financeiro manteve sua posição privilegiada; a estrutura tributária continuou regressiva; o latifúndio não foi enfrentado; os meios de comunicação permaneceram concentrados; e o sistema político conservou sua dependência de coalizões parlamentares organizadas por interesses regionais, empresariais e patrimoniais.
A inclusão avançou, mas não se converteu em redistribuição estrutural do poder. Melhoraram as condições de vida de amplos setores populares, sem que estes conquistassem capacidade equivalente para decidir os rumos do desenvolvimento nacional.
A conciliação produziu resultados reais, mas carregava um limite interno. Enquanto o crescimento econômico permitia combinar ganhos sociais, rentabilidade financeira e estabilidade política, o pacto parecia funcional. Quando a economia perdeu dinamismo, as contradições se tornaram mais visíveis.
As manifestações de 2013 expressaram demandas heterogêneas e uma insatisfação difusa com os serviços públicos, a representação política e a vida urbana. Rapidamente, porém, parte dessa energia social foi capturada por forças conservadoras que transformaram o descontentamento com os limites da democracia numa ofensiva contra a própria democracia.
3.
O afastamento de Dilma Rousseff, em 2016, marcou uma ruptura decisiva. Formalmente processado pelas instituições, ele ocorreu sem que se demonstrasse um crime de responsabilidade proporcional à gravidade da destituição presidencial. Mais do que a troca de uma governante, o impeachment significou o rompimento unilateral do pacto de conciliação.
As classes dominantes e seus representantes parlamentares deixaram de aceitar um governo eleito quando este já não conseguia assegurar, ao mesmo tempo, estabilidade econômica, pacificação social e preservação integral dos interesses do capital. A partir dali a disputa deixou de ocorrer somente dentro das regras da Nova República e passou a envolver a própria validade dessas regras.
O governo que se seguiu aprofundou esse deslocamento. A reforma trabalhista, a limitação estrutural do gasto público e a reorientação geral do Estado produziram uma forma de constitucionalização da austeridade. Decisões futuras foram submetidas a limites fiscais rígidos, apresentados como imperativos técnicos e não como escolhas políticas.
A democracia passou a conviver com um mecanismo de antecipação: governos ainda não eleitos já encontrariam parte considerável de sua ação bloqueada por compromissos financeiros, regras orçamentárias e expectativas dos mercados. O futuro coletivo era juridicamente capturado antes mesmo de se transformar em objeto de deliberação popular.
O bolsonarismo nasceu dessa crise, mas não pode ser explicado como simples desvio, acidente ou anomalia exterior à história brasileira. Ele atualizou elementos profundamente enraizados na formação nacional: autoritarismo, militarismo, racismo, anticomunismo, violência patriarcal, culto à ordem e desprezo pelas classes populares. Sua novidade consistiu em articular essa herança às redes digitais, ao fundamentalismo religioso e ao ultraliberalismo econômico.
A promessa de restaurar autoridade conviveu com a entrega da política econômica ao capital financeiro; a exaltação nacionalista conviveu com a subordinação internacional; e o discurso contra o sistema serviu para aprofundar mecanismos de privatização e desproteção social.
A eleição de 2018 foi possível porque diferentes crises convergiram. Havia desgaste dos partidos tradicionais, efeitos sociais prolongados da recessão, descrédito das instituições, ofensiva judicial contra a política, ressentimento de setores médios e radicalização conservadora. O bolsonarismo apresentou-se como ruptura antissistêmica, embora sua ruptura fosse seletiva.
Dirigia-se contra direitos, mediações democráticas, universidades, movimentos sociais e organizações populares, não contra o poder econômico. A revolta social foi mobilizada para restaurar hierarquias históricas e ampliar a autonomia das forças que sempre limitaram a soberania popular.
4.
O governo de Jair Bolsonaro tornou explícita a tensão entre democracia eleitoral e projeto autoritário. Ataques às instituições, deslegitimação das urnas, presença militar no governo, hostilidade à ciência, violência verbal e tentativa de converter adversários em inimigos internos não foram excessos laterais. Constituíram o método de organização de uma base social mobilizada permanentemente pelo medo, pelo ressentimento e pela produção de ameaças. Ao mesmo tempo, a política econômica aprofundou a precarização, a privatização e a transferência de recursos públicos para circuitos financeiros.
A eleição de 2022 conteve eleitoralmente esse avanço, mas não eliminou suas bases sociais. A derrota de Jair Bolsonaro não dissolveu o bolsonarismo. Ao contrário, confirmou a existência de um campo político organizado, dotado de forte representação parlamentar, inserção religiosa, capilaridade empresarial, presença militar e elevada capacidade comunicacional. Os acontecimentos posteriores ao segundo turno mostraram que uma parcela desse campo já não reconhecia a alternância eleitoral como fundamento legítimo do regime quando o resultado lhe era desfavorável.
É nesse terreno que se realiza a eleição presidencial de 2026. De um lado, encontra-se a tentativa de preservar a democracia institucional e impedir a recomposição plena do projeto autoritário. De outro, permanece uma direita radicalizada, empenhada em conservar o capital político acumulado desde 2018 e transformar o bolsonarismo em força hereditária e permanente. A disputa não se limita, portanto, a indivíduos. Ela envolve blocos sociais, formas de organização do Estado, concepções de liberdade e maneiras distintas de relacionar a política com a violência.
A dimensão imediata dessa escolha não deve ser minimizada. De um lado, está a preservação das instituições eleitorais, das liberdades civis e da possibilidade de alternância de poder. De outro, permanece um campo que se formou mediante ataques sistemáticos às urnas, às cortes, à imprensa e às formas de pluralismo político. A defesa da democracia institucional é, por isso, uma necessidade concreta. Sem ela, sequer existe espaço para a organização popular, a crítica pública e a disputa por transformações mais profundas.
Mas a retrospectiva histórica impede que a eleição seja reduzida a uma oposição moral entre democracia e autoritarismo. Essa oposição é real, porém insuficiente. A pergunta decisiva é qual democracia está sendo defendida, quais relações sociais ela preserva e quais possibilidades históricas ainda oferece à maioria da população. Uma democracia pode manter eleições regulares e, ao mesmo tempo, perder progressivamente a capacidade de decidir sobre o orçamento, o crédito, o trabalho, a propriedade, a tecnologia e o desenvolvimento. Pode conservar o rito da escolha enquanto transfere para agentes não eleitos o poder de definir os limites dessa escolha.
5.
Essa é a contradição central de 2026. O cidadão vota para escolher o presidente, mas encontra decisões fundamentais já submetidas ao sistema financeiro, às agências de classificação de risco, às grandes plataformas digitais, às coalizões parlamentares oligárquicas e às exigências de rentabilidade do capital. A soberania popular é reconhecida no momento eleitoral e restringida durante o exercício do governo. O voto autoriza uma direção política, mas o mercado reivindica o poder de estabelecer até onde essa direção pode ir.
A financeirização aprofunda esse processo porque transforma o futuro em ativo presente. Títulos públicos, dívidas, contratos, concessões e expectativas de rentabilidade antecipam receitas e subordinam decisões futuras. O orçamento deixa de ser apenas instrumento de planejamento coletivo e converte-se em garantia de remuneração financeira. A austeridade não significa simplesmente reduzir gastos; significa selecionar antecipadamente quais necessidades terão duração e quais poderão ser interrompidas. Direitos sociais passam a depender de disponibilidade fiscal, enquanto a remuneração do capital aparece como obrigação incontornável.
Nas sociedades dependentes, esse mecanismo é ainda mais severo. A vulnerabilidade externa, a necessidade de atrair capitais, a posição subordinada nas cadeias produtivas e tecnológicas e a pressão cambial reduzem o espaço de decisão nacional. O país é formalmente soberano, mas deve continuamente demonstrar confiabilidade aos detentores de riqueza financeira. Qualquer tentativa de ampliar o investimento público, fortalecer direitos ou modificar a distribuição de renda pode ser apresentada como ameaça à estabilidade. A dependência converte-se, assim, em controle do tempo histórico: ela não determina apenas o que o país é, mas restringe aquilo que poderá vir a ser.
A precarização do trabalho é uma das expressões mais concretas desse bloqueio. Milhões de trabalhadores vivem sob jornadas instáveis, remuneração variável, endividamento e ausência de proteção. O tempo cotidiano é capturado pela necessidade de garantir renda imediata. Planejar a formação, a moradia, a aposentadoria ou a vida familiar torna-se cada vez mais difícil.
A política democrática pressupõe sujeitos capazes de projetar o futuro, mas a sociedade produz indivíduos obrigados a sobreviver em regime de urgência permanente. A escassez de tempo social enfraquece a participação, fragmenta solidariedades e favorece respostas autoritárias.
6.
A eleição de 2026 ocorre, portanto, numa sociedade em que o presente está saturado e o futuro, escasso. Para amplos setores populares, o horizonte não é a construção de uma vida melhor, mas a tentativa de impedir que as condições atuais se deteriorem ainda mais. A extrema direita explora esse medo, oferecendo pertencimento, autoridade e inimigos identificáveis. O campo democrático, por sua vez, corre o risco de responder apenas com a promessa de normalidade institucional. Contudo, para quem vive sob insegurança permanente, a normalidade pode significar justamente a continuidade da precariedade.
Esse é o limite de uma campanha fundada exclusivamente na defesa abstrata da democracia. A democracia precisa ser defendida como forma política, mas também reconstruída como experiência material. Ela deve significar emprego protegido, renda, saúde, educação, moradia, segurança e possibilidade de planejar a própria existência. Quando os direitos não encontram sustentação no cotidiano, a linguagem democrática perde força social. Torna-se um valor importante, porém distante, incapaz de organizar expectativas coletivas.
As eleições de 2026 devem ser compreendidas, nesse sentido, como uma escolha sitiada. O voto conserva importância decisiva, sobretudo diante da ameaça autoritária. Não há equivalência entre um campo que reconhece a legalidade constitucional e outro que construiu sua identidade atacando-a. Mas a escolha ocorre dentro de uma estrutura que estreita o campo das alternativas e transforma a política em administração de limites previamente estabelecidos. A população escolhe quem governará, mas não controla integralmente as condições sob as quais o governo exercerá seu mandato.
A questão histórica colocada por 2026 é, portanto, dupla. Trata-se de impedir a recomposição plena de um projeto autoritário e, simultaneamente, de superar a democracia reduzida à gestão da dependência. A primeira tarefa é defensiva, mas inadiável. A segunda é transformadora e exige reorganização social de longo prazo. Sem a primeira, a segunda pode tornar-se impossível; sem a segunda, a primeira terá de ser repetida indefinidamente, a cada eleição, sob condições cada vez mais adversas.
7.
Essa repetição constitui um sinal de esgotamento da Nova República. Desde 1989, o país alterna momentos de inclusão, estabilização, crise e reação conservadora sem resolver as estruturas que produzem desigualdade e autoritarismo. A democracia contém as crises, mas não elimina suas causas. A cada ciclo, as massas entram na política, ampliam direitos e expectativas, e depois encontram mecanismos que limitam sua capacidade de decidir. O resultado é uma frustração acumulada que pode ser mobilizada tanto por projetos emancipatórios quanto por forças regressivas.
Em retrospectiva histórica, 2026 revela a permanência de uma questão que atravessa toda a formação brasileira: a dificuldade de transformar participação política em soberania popular efetiva. O país incorporou milhões de pessoas ao eleitorado, às políticas públicas, ao consumo e à universidade, mas continua bloqueando sua capacidade de decidir o sentido do desenvolvimento, a distribuição da riqueza e a duração de seu próprio futuro. A cidadania se expande como presença e se contrai como poder.
Recuperar o tempo histórico significa devolver à sociedade a possibilidade de formular projetos que ultrapassem a urgência, a austeridade e a reação permanente. Significa submeter o orçamento, o crédito, a tecnologia, a terra e a riqueza à deliberação pública. Significa fazer da democracia não apenas um método de escolha de governantes, mas uma forma coletiva de produzir futuro. Sem isso, cada eleição continuará sendo apresentada como decisiva, ao mesmo tempo que as decisões estruturais permanecerão fora do alcance do voto.
A eleição presidencial de 2026 decidirá quem governará o Brasil e em que condições imediatas a democracia continuará existindo. Essa decisão é real e terá consequências profundas. Mas seu significado histórico dependerá do que vier depois das urnas. Um governo poderá limitar-se a administrar o tempo bloqueado, negociando continuamente com as forças que controlam o futuro. Ou poderá contribuir para abrir uma nova duração política, na qual a defesa da democracia se encontre com a transformação de suas bases sociais.
As urnas não resolverão, sozinhas, a crise brasileira. Elas poderão, contudo, preservar ou destruir o espaço em que essa crise ainda pode ser enfrentada democraticamente. É nesse sentido que 2026 deve ser compreendido: não como ponto final, mas como passagem histórica.
A escolha será entre projetos de governo, mas também entre diferentes possibilidades de tempo. A história decidirá se o país continuará administrando um futuro cada vez mais estreito ou se começará, enfim, a recuperá-lo.
*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP].

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