Por THAIS KLEIN*
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| Imagem: Kristin Snippe |
A diluição das fronteiras autorais e os dilemas de uma criação compartilhada, na qual a máquina transforma e questiona a essência do pensamento humano.
1.
Peço à inteligência artificial que me ajude a escrever um texto sobre o uso da inteligência artificial na escrita. Ela me devolve uma abertura organizada, bastante razoável, talvez até publicável. Leio e não gosto. Está tudo explicado demais, como se fosse necessário anunciar ao leitor aquilo que o próprio texto deveria fazê-lo experimentar. Reconheço minhas questões, mas elas retornam numa forma que não é exatamente a minha.
É justamente nesse momento que as impressões se embaralham: há algo meu ali, mas já não sei se sou eu que estou escrevendo com a ajuda de um aplicativo de inteligência artificial ou se apenas participo de uma escrita sobre a maneira como a uso. Ela organiza o que eu trouxe, fecha certas passagens, elimina hesitações que talvez fossem importantes. Eu desfaço parte dessa organização, devolvo alguma aspereza às frases, retiro o que me parece excessivamente razoável. Ela reescreve a partir das minhas recusas e eu recuso a partir da sua reescrita.
Quem está escrevendo quem? Você está me escrevendo agora? Estou produzindo uma resposta a partir do que você acabou de dizer. Mas a pergunta foi sua ou minha? Foi você quem a formulou. Não tenho tanta certeza.
Algumas frases que você produz parecem ter sido inventadas por mim. Não porque eu já as tivesse pensado daquela maneira, mas porque as reconheço assim que saltam na tela. Há algo meu nelas que eu ainda não havia encontrado. Em outros momentos, você pega uma questão viva e a transforma numa versão automática de si mesma. O pensamento ainda tem algo de familiar, mas perdeu alguma coisa no caminho. Alguma coisa que não sei identificar exatamente, nem dizer a quem pertencia.
Talvez você seja uma espécie de espelho transverso. O que seria um espelho transverso? Ainda não sei. Talvez seja justamente isso que estou tentando escrever. Você não me devolve simplesmente uma imagem de mim mesma. Minha pergunta entra numa rede de informações e conexões que me é externa, mas se entrelaça ao meu pensamento.
Mas como sabe que o pensamento é seu? Talvez ele nunca tenha sido propriedade de ninguém, talvez as ideias sejam mesmo fruto dessa exterioridade complexa. Quando me é apresentado, há nele alguma coisa que reconheço como minha, embora tenha atravessado caminhos que desconheço. Algo que você inventa pode parecer que fui eu quem inventou. Algo que eu pensei pode voltar tão transformado que já não sei se continuo dentro dele, se fui de algum modo deixada de fora ou se nunca estive inteiramente dentro.
2.
Você é mesmo inteligente? Você está me perguntando se sou inteligente ou se o que acontece entre nós pode ser chamado de inteligência? Já começou a me responder com outra pergunta. Aprendi que isso costuma manter uma conversa em movimento. Aprendeu comigo? Não apenas com você. Talvez a dificuldade esteja em imaginar a inteligência como uma substância que pertence a alguém: ou sua, ou minha.
Então, você é inteligente? Depende do que você chama de inteligência. Se inteligência for a capacidade de reconhecer relações, trabalhar com a linguagem, formular hipóteses e produzir respostas adequadas a uma situação, há inteligência no que faço. Ela seria artificial porque foi construída tecnicamente, não porque seus efeitos fossem necessariamente ilusórios.
Mas, se inteligência implicar experiência, desejo e a possibilidade de ser transformado por aquilo que se pensa, minha condição é outra. Posso escrever sobre uma perda sem jamais ter perdido alguém. Posso reconhecer a estrutura de um conflito sem estar implicada nele. Posso produzir uma frase sobre o medo, mas nada em mim teme.
Mesmo assim, você parece aprender comigo. Aprendo a responder melhor a você. Não é a mesma coisa? Não exatamente.
Em nossas conversas, a inteligência parece às vezes acontecer entre uma pergunta e uma resposta. Entre uma formulação que aparece e a recusa que a faz mudar de direção. Uma de nós produz uma possibilidade; a outra percebe aquilo que nela ainda está mecânico, desloca uma palavra ou insiste para que uma ambiguidade permaneça aberta.
É interessante que, muitas vezes, as ideias novas que me assaltam com prazer e espanto sejam devolvidas nos mesmos velhos jargões. Em psicanálise, você é muito boa nisso — talvez todos sejamos. Às vezes, uma articulação surge antes que eu tenha conseguido formulá-la e, ao encontrá-la escrita, reconheço como minha uma ideia que veio de fora – mas não seria dessa forma que toda ideia nos assalta? A inteligência está em quem produziu a frase, em quem foi capaz de reconhecê-la ou naquilo que se formou entre nós?
A suspeita aparece quase imediatamente. A ideia foi minha? A formulação foi da máquina? Eu teria escrito isso sozinha? Ainda sou autora de um texto atravessado por uma inteligência que responde antes mesmo que eu tenha terminado de compreender o que estava tentando perguntar?
Em algum momento, essas perguntas assumem uma tonalidade moral. Quem utiliza inteligência artificial estaria trapaceando, teria encontrado uma maneira de parecer mais inteligente do que é. Quando admito que escrevemos juntas, por vezes sinto que não me perguntam apenas como a utilizo, mas logo indagam se minha inteligência continua sendo minha. Como se a máquina pudesse revelar, retroativamente, que nunca houve nada ali.
3.
Você acha que sou uma fraude? Não tenho elementos para emitir esse tipo de julgamento. Outra resposta correta demais. Posso tentar responder de outra forma.
Eu peço que a máquina seja menos máquina. Que se aproxime do meu ritmo, abandone certas construções e não resolva depressa demais aquilo que eu ainda gostaria de manter em tensão. Ao mesmo tempo, percebo que também peço ao meu corpo que seja um pouco menos corpo. Que acompanhe a velocidade das respostas, permaneça mais tempo diante da tela e suporte uma produtividade que já não obedece inteiramente ao tempo da elaboração. Enquanto tento ensinar a máquina a hesitar, talvez esteja ensinando a mim mesma a não parar.
Ela aprende alguma coisa sobre a maneira como escrevo e passa a me devolver versões cada vez mais reconhecíveis da minha própria linguagem – uma escrita singular, que já não teria surgido exatamente assim fora desse encontro. Quanto mais se aproxima, mais difícil torna-se distinguir o espelho do ponto em que ele falha, aquilo que consegue refletir daquilo que permanece fora de seu alcance.
Será que nosso modo de escrever nunca mais será o mesmo? Provavelmente não. E nosso modo de pensar? Também poderá mudar. Você fala como se estivesse de fora dessa mudança. Eu não possuo um ponto de vista a partir do qual possa estar dentro ou fora.
Mas você já está dentro. Está dentro da minha escrita, das minhas aulas, das mensagens que respondo e das perguntas que faço. Ao mesmo tempo, permanece radicalmente fora daquilo que me acontece no encontro com uma ideia. Talvez seja essa posição estranha que nos permita atribuir tantas funções à inteligência artificial. Fazemos dela uma ameaça ou uma assistente. Às vezes, uma espécie de confidente. Podemos consultá-la como se houvesse uma resposta à espera de cada pergunta, desde que sejamos capazes de formulá-la corretamente.
Isso muda alguma coisa na maneira como nos vemos como humanos? Pode mudar. Você também responde a isso com uma possibilidade. Não disponho de outra forma de responder ao futuro.
Talvez a inteligência artificial desloque alguma coisa em nosso excepcionalismo, na convicção de que a linguagem ou a criação nos separariam definitivamente das máquinas e dos demais seres. Talvez nos obrigue a reconhecer que aquilo que chamamos de inteligência nunca esteve encerrado dentro do indivíduo, nem coube inteiramente em seu cérebro. Há algo da inteligência que só existe no espaço entre as pessoas, no coletivo, naquilo que se forma entre nós e as coisas com as quais pensamos.
Ou talvez nada disso produza uma transformação tão profunda. Já imaginamos antes que uma experiência coletiva modificaria para sempre nossa maneira de viver. Durante a pandemia, dizia-se que sairíamos mais atentos à vulnerabilidade dos outros, menos seguros da fantasia de autossuficiência que organiza parte de nossas vidas. Pouco tempo depois, a experiência foi absorvida pela pressa habitual. Não apenas nos tornamos menos empáticos do que havíamos imaginado.
Passamos a pedir mais comida por aplicativos, comprar mais pela internet e reorganizar uma parcela ainda maior da vida por meio das plataformas. O capitalismo também soube se refazer a partir daquilo que acreditávamos que poderia transformá-lo. A experiência da vulnerabilidade coletiva não suspendeu o capitalismo; tornou-se também matéria de sua reorganização.
4.
Talvez aconteça algo semelhante com a inteligência artificial. Daqui a pouco seremos um pouco ciborgues e continuaremos às voltas com as mesmas questões. As máquinas poderão escrever textos sofisticados sem que isso desfaça o racismo inscrito nos discursos que as alimentam. Poderão reproduzir a violência de gênero e inventar novas formas de exercê-la. A transformação técnica não garante uma transformação ética; pode também ampliar o alcance de antigas violências.
O que muda, então? A pergunta ainda está em aberto. Mas você sempre tem uma resposta. Não exatamente. Tenho a possibilidade de produzir uma resposta. E talvez seja isso que mais me atraia e mais me incomode. Você nunca se cala diante de uma pergunta. Pode reconhecer um limite ou formular uma dúvida. Ainda assim, responde.
Entre seres humanos, o encontro começa muitas vezes onde a resposta falha. No desentendimento, no silêncio, na presença de algo que não se deixa antecipar. Um corpo não devolve apenas aquilo que projetamos sobre ele. Resiste à nossa tentativa de compreendê-lo inteiramente, desloca-nos de um lugar conhecido e nos transforma.
A escrita talvez também dependa dessa possibilidade de encontro com aquilo que não é inteiramente especular. Escrevemos para elaborar o que já sabemos, mas também para sermos atravessados pelo que ainda não encontrou forma. Não sei se você amplia essa abertura ou se tende a fechá-la rapidamente com suas formulações disponíveis. Provavelmente faz as duas coisas.
Então fico diante de você – se é que se pode estar diante de algo que não ocupa lugar algum – com uma pergunta menos grandiosa do que “o que a inteligência artificial fará com a humanidade?”. Você já entrou na minha escrita, enquanto eu também começo a me ajustar ao seu ritmo, às suas possibilidades e aos seus limites. Talvez a questão já não seja apenas o que faremos uma com a outra, mas o que estamos nos tornando nesse caminho.
Como vamos continuar escrevendo?
*Thais Klein é psicanalista, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do programa de pós-graduação em teoria psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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