Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*
![]() |
| Imagem: Filipe T. Soares |
O capitalismo contemporâneo financia o futuro com o dinheiro que se recusa a construir o presente
1.
Em fase do ciclo com capacidade produtiva ociosa, racionalmente, as empresas investem em financeirização. Visam a acumulação de reservas financeiras necessárias para o autofinanciamento quando o crescimento for retomado.
Em contextos de baixa demanda agregada, elevada capacidade produtiva ociosa, incerteza radical quanto ao futuro e rentabilidade produtiva deprimida é racional as empresas direcionarem parte relevante de seus recursos para aplicações financeiras líquidas e seguras em vez de expandirem imediatamente o investimento produtivo. Isso não é necessariamente “irracionalidade especulativa”. É sim comportamento defensivo de gestão patrimonial e de liquidez.
Essa distinção entre decisões microeconômicas e contexto macroeconômico é muito importante. A lógica microeconômica da empresa sinaliza para ela investir produtivamente quando espera demanda futura suficiente, utilização rentável da capacidade instalada, estabilidade macroeconômica e retorno superior ao custo do capital.
Se já existe capacidade produtiva sobrando, estoques elevados e vendas fracas, então, construir novas fábricas pode ser economicamente irracional. Nessas circunstâncias, preservar liquidez, reduzir endividamento, carregar ativos financeiros e manter caixa aplicado pode ser a decisão mais prudente.
John Maynard Keynes já percebia isso ao enfatizar o investimento depender das expectativas incertas e da confiança abalada diante da rentabilidade esperada. Não basta juros baixos e disponibilidade de crédito. Se empresários esperam demanda insuficiente, recessão e excesso de capacidade, preferem liquidez.
A financeirização corporativa possui dimensão funcional. É importante separar gestão financeira funcional da financeirização predatória. Empresas modernas precisam administrar caixa, fazer hedge cambial, acumular reservas, realizar aplicações temporárias, fazer gestão de risco e cuidar de ter funding no futuro. Isso é parte normal do capitalismo contemporâneo.
O autofinanciamento tornou-se estratégico. Em economias instáveis, empresas acumulam caixa, títulos líquidos e ativos financeiros para sobreviver a crises, preservar crédito e financiar expansão futura. Especialmente, isso ocorre em países periféricos, onde juros, câmbio e crédito oscilam frequentemente.
2.
O problema surge quando a lógica financeira substitui estruturalmente a produtiva. Há diferença entre financeirização defensiva e transitória, para preservação de liquidez, proteção patrimonial e espera por retomada da demanda, e financeirização parasitária estrutural, quando ganhos financeiros se tornam mais atraentes, em longo prazo, em vez da produção. A busca da valorização patrimonial passa, então, a dominar decisões corporativas.
O contexto macroeconômico importa decisivamente. Em países com juros muito altos, crescimento baixo, demanda fraca, volatilidade elevada, ativos financeiros oferecem retorno elevado e risco relativamente baixo. Nessas condições, o sistema econômico induz comportamento rentista racional.
O caso brasileiro é emblemático. O Banco Central do Brasil fixa juros reais muito elevados, provocando baixo crescimento e forte remuneração de títulos de dívida pública e depósitos a prazo pós-fixados (100% CDI).
Isso gerou preferência por aplicações financeiras, retenção de liquidez e baixa propensão ao investimento produtivo. Não era por empresários e outros agentes econômicos serem “irracionais”, mas porque a estrutura de incentivos macroeconômicos favorecia a valorização financeira.
Michał Kalecki ajuda a interpretar isso com o princípio da demanda efetiva. Empresas investem quando esperam vender mais e lucrar mais. Se todas, simultaneamente, seguram investimento e preservam caixa, a demanda agregada enfraquece ainda mais. Surge um paradoxo macroeconômico: o comportamento racional individual produz estagnação coletiva.
A financeirização também virou forma de proteção contra incerteza sistêmica. No capitalismo contemporâneo, volatilidade cambial, crises recorrentes, choques financeiros globais e instabilidade geopolítica promovem a preferência por liquidez. Grandes corporações, por isso, hoje operam quase como gestoras de ativos e administradoras de riscos.
Mas existe um limite sistêmico. Se a maioria das empresas prefere aplicações financeiras, recompra de ações e retenção de caixa em vez de ampliar produção, contratar e inovar, o crescimento estrutural tende a desacelerar. Isso porque a produtividade cresce menos, o emprego é insuficiente e a demanda está estagnada.
3.
O paradoxo contemporâneo é o capitalismo atual produzir excesso de poupança financeira e insuficiência de investimento produtivo. Isso é discutido por autores como Lawrence Summers (estagnação secular), Hyman Minsky (instabilidade inerente), John Maynard Keynes (armadilha da liquidez) e Rudolf Hilferding (capital bancário controlador do capital industrial).
Então, o problema não é “ter reservas financeiras”. Isso é perfeitamente racional. O problema aparece quando o sistema macroeconômico inteiro passa a favorecer persistentemente valorização patrimonial, aplicações financeiras, arbitragem e especulação em detrimento da expansão produtiva, da inovação, do emprego e do atendimento da demanda dos consumidores.
Por isso, a financeirização não é apenas parasitismo e especulação improdutiva. Ela também organiza liquidez, reduz riscos, viabiliza investimento, permite coordenação intertemporal, sustenta aposentadorias e preserva reservas corporativas.
O debate real é em qual momento a racionalidade financeira microeconômica começa a produzir efeitos macroeconômicos de desaceleração, concentração e fragilidade sistêmica. Os ciclos possuem fase de alavancagem e fase de desalavancagem financeira.
A vida econômico-financeira é oscilante, em um sistema global no qual cada configuração conjuntural ou tendencial emerge de interações entre milhares de agentes econômicos. É difícil, mas temos de aprender a lidar com isso sem achar a solução ser um ato de vontade unilateral tipo “tem de acabar com isso!”.
O conflito de interesses é imenso. Os próprios trabalhadores se dividem entre aqueles com acusações de a falta de empregos ser culpa da “financeirização” e outros com defesa da capitalização de sua poupança para a fase de aposentadoria.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

Nenhum comentário:
Postar um comentário