De Outras Palavras, 31 de julho 2026
Por Gerson Antonio Barbosa Borges, Aline Albuquerque Jorge, Bruna Gonçalves Costa e Dilermando Cattaneo.
Entendemos que as mudanças climáticas deixaram de ser um problema do futuro para se tornarem um dos maiores desafios do presente. Eventos hidrometeorológicos extremos cada vez mais intensos e mais frequentes colocam a questão climática na ordem do dia, não mais apenas para cientistas e professores de Geografia, mas para gestores, formuladores de políticas públicas e principalmente para movimentos sociais, povos originários e comunidades tradicionais e periféricas. Episódios cada vez mais fortes e recorrentes de ondas de calor, estiagens, acumulados de chuva concentrados, bloqueios atmosféricos, tempestades, tornados, micro-explosões e suas respostas na superfície (deslizamentos e movimentos de massa em áreas de encostas, enxurradas em áreas de vales estreitos, inundações em planícies e várzeas, alagamentos repentinos nas cidades, rompimentos e bloqueios de estradas, destelhamentos de casas, queda de árvores, grandes incêndios na vegetação e, a médio e longo prazo, perda de biodiversidade e alterações nas condições da produção de alimentos) evidenciam a realidade das mudanças climáticas, contrariando os negacionistas da ciência e mostrando àqueles que relativizam seus efeitos que o chamado ‘novo normal’ não poupa nenhum lugar do mundo, em que pese ficar mais evidente nos países periféricos e, sobretudo, nas comunidades mais vulneráveis.
É importante lembrar que esses fenômenos sempre fizeram parte da dinâmica da Terra, inclusive do ponto de vista paleoclimático, em que os movimentos de longo prazo do planeta (variação da obliquidade eclíptica, variação da excentricidade eclíptica e precessão dos equinócios) foram responsáveis por mudanças no clima que moldaram a evolução da vida e das paisagens nos continentes. No entanto, a partir da inauguração do ‘Sistema-mundo Moderno/Colonial’ (Wallerstein, 1974; Quijano, 1992; Mignolo, 2020 [2000]) nos séculos XV e XVI, e especialmente a partir da consolidação do capitalismo industrial a partir da Europa e EUA nos séculos XIX e XX, o aquecimento da atmosfera vai ter profundas conexões com o avanço do modo de produção capitalista nas mais diversas nações, territórios e ambientes. O que está em curso não é apenas uma mudança nas médias de temperatura global, mas uma transformação rápida e profunda das condições ecológicas que, ao longo dos últimos milhares de anos, permitiram o avanço das inter-relações entre sociedades humanas e a natureza, deixando como herança um conjunto de paisagens e formas de vida (Ab’Saber) que sustentaram, até então, as condições socioambientais que ainda mantém nossa espécie sobre a Terra.
Essa análise não decorre de opiniões isoladas, mas de um amplo consenso científico. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), responsável por sintetizar milhares de pesquisas produzidas em diferentes países, concluiu em seu Sexto Relatório de Avaliação que é inequívoca a influência humana sobre o aquecimento da atmosfera, dos oceanos e da superfície terrestre (IPCC, 2023). Poucas vezes na história da ciência houve tamanho consenso em torno de um problema de dimensão planetária. Esse conhecimento (não uma mera opinião) foi construído ao longo de décadas. Os primeiros modelos climáticos desenvolvidos por Manabe e Wetherald (1967) demonstraram que o aumento da concentração de dióxido de carbono elevaria a temperatura média da Terra. Posteriormente, Hasselmann (1976) mostrou como distinguir estatisticamente as variações naturais daquelas provocadas pelas atividades humanas. Hansen et al. (1988), ao testemunharem perante o Congresso norte-americano, afirmaram que o aquecimento global já havia deixado de ser uma hipótese para tornar-se observável. Nas décadas seguintes, Michael Mann (1998), Susan Solomon (1999), Corinne Le Quéré (2018) e Valérie Masson-Delmotte (2021) contribuíram para consolidar uma das bases científicas mais robustas da atualidade.
A explicação científica desse processo é relativamente simples. A atmosfera contém gases capazes de conter o calor, absorvendo parte da radiação infravermelha emitida pela superfície terrestre. Esse mecanismo, conhecido como efeito estufa, é indispensável para a vida, pois mantém a temperatura média do planeta em torno de 14°C a 15°C. Sem ele, a Terra apresentaria temperaturas próximas de -18°C e há dúvidas se teríamos formas de vida na Terra. O problema, portanto, não é o efeito estufa, mas sim sua intensificação, provocada pelo aumento da concentração de gases como dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxido nitroso (N₂O).
Antes da chamada ‘Revolução Industrial’, a concentração atmosférica de dióxido de carbono era de aproximadamente 280 partes por milhão (ppm). Atualmente ela ultrapassa 430 ppm, alcançando níveis sem precedentes na história recente do planeta (NOAA, 2025). O dióxido de carbono permanece na atmosfera durante décadas e até séculos, tornando-se o principal responsável pelo aquecimento acumulado. O metano, originado principalmente pela atividade agropecuária, permanece menos tempo, cerca de doze anos, porém possui um potencial de aquecimento muito superior no curto prazo. Já o óxido nitroso, proveniente principalmente da agricultura intensiva e de determinados processos industriais, como a produção de substâncias utilizadas na fabricação de fertilizantes sintéticos, combina elevada permanência atmosférica com grande capacidade de retenção de calor (IPCC, 2023).
Esses gases são emitidos principalmente pela queima de carvão mineral, petróleo e gás natural, que ainda sustentam grande parte da economia capitalista mundial. Embora a utilização de energias renováveis tenha crescido nos últimos anos, a matriz mundial ainda permanece fossilífera, e mesmo medidas alternativas como a energia solar e a energia eólica ainda trazem outros impactos ambientais e sociais, fazendo que uma efetiva transição energética ainda esteja distante de se consolidar, sobretudo porque vem sendo pensada como mecanismo de acumulação flexível do capital e suas estratégias de “greenwashing”, tais como os créditos de carbono, REDD+, hidrogênio verde e carros elétricos, em vez de propor outras formas de produção e consumo de energia, em que ela deixe de ser vista somente como mercadoria.
Nesse ponto, a crise climática deixa de ser uma questão atmosférica para tornar-se também uma questão histórica. Vaclav Smil (2017) demonstra que a história das civilizações pode ser compreendida como uma sucessão de transições energéticas. Durante milênios, as sociedades dependem da energia solar capturada pelas plantas, da força humana e animal, dos ventos e dos cursos d’água. A Revolução Industrial intensificou as formas de apropriação da natureza ao incorporar enormes quantidades de energia fóssil acumuladas ao longo de milhões de anos, permitindo uma expansão econômica sem precedentes. No decorrer do avanço das técnicas, surgiram, portanto, as grandes petroleiras, hidrelétricas, turbinas eólicas e as enormes fazendas de placas solares.
Carlos Walter Porto-Gonçalves, refletindo sobre o aumento da demanda por energia para além das atividades produtivas fundamentais a partir do avanço do modo de produção capitalista sobre outras partes do mundo, cunhou o termo ‘civilização energívora’, visto que essa demanda não tem limites, uma vez que o chamado ‘desenvolvimento’ é colocado como progresso e crescimento infinitos. Howard T. Odum (2001) amplia essa reflexão ao demonstrar que toda organização social depende dos fluxos de energia disponíveis na natureza. Para ele, o crescimento extraordinário das sociedades industriais foi possível porque elas tiveram acesso a fontes energéticas concentradas, baratas e abundantes. Entretanto, nenhum sistema energético cresce indefinidamente. À medida que os custos ambientais e energéticos aumentam, torna-se inevitável reorganizar padrões de produção, consumo e ocupação do território. Assim, a crise climática global pode ser compreendida justamente como uma expressão desses limites geo-biofísicos.
Essa interpretação também aproxima-se das contribuições da Ciência do Sistema Terra. Lovelock (1979), ao formular a Hipótese Gaia, propôs compreender o planeta como um sistema integrado, no qual atmosfera, oceanos, solos, organismos vivos e processos geológicos interagem continuamente. Posteriormente, Rockström et al. (2009) e Steffen et al. (2015) demonstraram que essa estabilidade depende do equilíbrio de processos fundamentais, conhecidos como limites planetários. O clima é apenas um deles. Também fazem parte desse conjunto a sociobiodiversidade, os ciclos do nitrogênio e do fósforo, a disponibilidade de água doce e a integridade das florestas.
Quando esses limites começam a ser ultrapassados, aumenta a probabilidade de mudanças abruptas e potencialmente irreversíveis. William Ripple et al. (2020),passaram a utilizar a expressão “emergência climática” para caracterizar esse momento histórico. Esta escolha não é meramente retórica. Ela expressa o reconhecimento de que já dispomos de conhecimento suficiente para compreender as causas da crise, mas as elites empresariais e os donos do poder seguem ampliando as emissões globais de gases de efeito estufa, modificando a cobertura do solo (e com isso a dinâmica atmosférica em escala regional), vulnerabilizando comunidades e, o pior de tudo, transferindo responsabilidades e inventando falsos culpados em situações de desastres ocasionados por eventos extremos.
No Brasil, essa discussão assume características particulares. Diferentemente de muitos países industrializados há mais tempo, onde predominam as emissões associadas ao setor energético, parcela significativa das emissões brasileiras decorre do desmatamento, das mudanças no uso da terra e da agropecuária. Carlos Nobre et al. (2016) alertam que a combinação entre aquecimento global, queimadas e desmatamento aproxima a Amazônia de um possível (e provável) ponto de não retorno. Com parte significativa da floresta perdendo sua capacidade de reciclar umidade por meio dos chamados rios voadores, os impactos tendem a comprometer a agricultura, a geração de energia hidrelétrica, o abastecimento de água e o próprio regime de chuvas em grande parte da América do Sul, especialmente no sul do Brasil.
A intensificação dos desastres já pode ser observada no cotidiano das comunidades. A título de exemplo, o Rio Xingu, no Pará, apresenta uma tragédia ambiental acarretada pela ação humana através da construção e funcionamento da UHE Belo Monte. A alta mortandade de peixes, a baixa vazão das águas e o desequilíbrio ecológico atingiram diretamente modos de vida de ribeirinhos e indígenas, cujos territórios foram alagados.
No Cerrado, a recorrente expansão do agronegócio se desdobra em intensificações climáticas já podem ser observadas no impacto à fauna e à flora, podendo ser observadas com expressividade nos centros urbanos. Como um exemplo disso, em 2025 Brasília teve um registro de 7% de umidade relativa do ar, um número inferior ao que se identifica no deserto do Saara.
Somada às queimadas, destacam-se o uso agressivo dos agrotóxicos e a poluição. Compreender essa realidade exige evitar simplificações. Não existe uma única agricultura, mas diferentes formas de produzir alimentos, organizar o território e relacionar-se com a natureza. A expansão de monoculturas, a elevada dependência de fertilizantes sintéticos, o crescimento da pecuária intensiva e a conversão de florestas em áreas agrícolas constituem importantes fontes de emissões. Contraditoriamente, o próprio setor agropecuário torna-se um dos mais vulneráveis às mudanças climáticas.
De acordo com Eduardo Delgado Assad, o aumento das temperaturas, a alteração dos regimes de chuva e a maior frequência de eventos extremos já afetam culturas agrícolas em diferentes regiões brasileiras, exigindo profundas adaptações produtivas. Agricultura e clima estabelecem, portanto, uma relação de dupla causalidade: determinados sistemas produtivos contribuem para o aquecimento global e, simultaneamente, sofrem seus efeitos.
As soluções construídas, a partir da ótica do mercado, não contemplam nenhuma reflexão ou forma de inflexão no tange ao modelo produtivo hegemonicamente adotado. Ao contrário disso, passam pelo aprofundamento dos processos de interferência e modificação da natureza, por meio do “melhoramento”genético, da transgenia, entre outros.
Essa discussão ganha outra dimensão nas contribuições de Rob Wallace (2016; 2020). Ao analisar a expansão da agricultura industrial e das cadeias globais de produção animal, Wallace demonstra que mudanças climáticas, perda de biodiversidade e emergência de novas pandemias possuem raízes estruturais comuns. A simplificação dos ecossistemas, o avanço das fronteiras agrícolas sobre áreas naturais e a elevada concentração genética dos sistemas produtivos ampliam não apenas as emissões de gases de efeito estufa, mas também as condições favoráveis ao surgimento e à disseminação de novos patógenos. A crise climática e as crises sanitárias, portanto, não podem ser compreendidas isoladamente.
Esse debate ganha ainda mais relevância em um ano cujas previsões indicam a possibilidade de formação de um ‘Super’ El Niño. Em síntese, o El Niño é um fenômeno cíclico de variabilidade climática natural, identificável pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacifico em sua faixa tropical. No Brasil, os impactos do fenômeno costumam ser redução de chuvas e elevação das temperaturas no Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste; baixa umidade do ar e ondas de calor no Sudeste e Centro-Oeste; e um aumento da frequência e intensidade de chuvas no Sul, podendo refletir em deslizamentos, enxurradas e inundações, além de fenômenos atmosféricos associados ao alto grau de energia na atmosfera (tempestades, tornados, micro-explosões, etc).
A fase oposta do El Niño é a La Niña, caracterizada pelo resfriamento anômalo das águas do Oceano Pacifico na mesma região. Os efeitos causados são, por exemplo, chuvas acima da média nas regiões Norte e Nordeste e estiagens prolongadas na região Sul. Tanto o El Niño como a La Niña causam efeitos que afetam desproporcionalmente as populações mais vulneráveis. Também, atinge as atividades produtivas, dentre elas, a agropecuária, podendo comprometer a segurança alimentar de determinadas comunidades, especialmente as tradicionais e os povos originários.
Um ‘Super’ El Niño indica que a anomalia de aquecimento da superfície do oceano ultrapassa a média histórica de + 2° C. Isso pode estar diretamente relacionado ao aquecimento global, pois em um planeta mais quente, a anomalia de temperatura tende a ser maior. Esse cenário traz uma série de desafios no que se refere a forma como lidar com os impactos gerados, nas múltiplas dimensões do espaço, seja no campo ou nas cidades. Portanto, conforme advertem inúmeros cientistas, tais como os que citamos aqui, é urgente produzirmos alternativas, enquanto sociedade, para além da ótica do mercado.
Essa virada, contudo, exige olhar para o passado, pois há milênios, os saberes ancestrais dos povos originários e comunidades tradicionais alertam sobre os perigos da ruptura entre o ser humano e a teia da vida. Tratar a natureza como algo alheio à sociedade é uma engrenagem ideológica que, além de ser um equívoco teórico, pavimenta o caminho para destruição mundial.
Nesta análise que não se encerra por si, é possível ponderar que o encurtamento do tempo entre eventos extremos nos coloca diante de um dilema civilizatório no qual precisamos decidir se mantemos a ilusão de um “desenvolvimento infinito” regido pela métrica do lucro, ou se escutamos a ciência e os saberes ancestrais que apontam para a coexistência. Não é de se esperar que uma verdadeira e eficiente transição político-ecológica venha de gabinetes que pacificam a vida ou estabelecem como objetivo a hegemonia. O que precisamos é de coragem para reconfigurar nossa presença no planeta.
Referências
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1 Doutor em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), militante do Movimento dos Pequenos Agricultores/Via Campesina, vinculado ao Grupo de Estudos, Ações e Conflitualidades (GEACT) e a Rede DATALUTA (Banco de Dados das Lutas por Espaços e Território).
2 Doutora em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Docente do Colegiado de Geografia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), pós-doutoranda pela Universidade de Brasília (UnB) e integrante de diversos grupos de estudos e projetos de pesquisa, desenvolvidos desde à pesquisa militante.
3 Geógrafa e Mestre em Geografia. Doutoranda em Geografia na Universidade de Brasília (UnB), vinculada ao Grupo de Estudos, Ações e Conflitualidades (GEACT). Gerente Executiva do Instituto Biomas, Povos & Territórios (iBiomas).
4 Graduado, mestre e doutor em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Docente do Curso de Geografia e do PPG em Dinâmicas Regionais e Desenvolvimento (PGDREDES) da UFRGS Litoral. Membro do Núcleo de Estudos Geografia e Ambiente (NEGA/UFRGS) e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental / RP-G(S)A.
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Tagsagronegócio, aquecimento global, aumento de temperaturas, Clima, desastres ambientais, desmatamento, destruição mundial, economia capitalista, El Niño, fenômenos climáticos, greenwashing, La Niña, mudanças climáticas, ondas de calor, planeta, queimadas, sociedades industriais, Super El Niño, terra
Gerson Antonio Barbosa Borges, Aline Albuquerque Jorge, Bruna Gonçalves Costa e Dilermando Cattaneo.
Gerson Antonio Barbosa Borges é doutor em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), militante do Movimento dos Pequenos Agricultores/Via Campesina, vinculado ao Grupo de Estudos, Ações e Conflitualidades (GEACT) e a Rede DATALUTA (Banco de Dados das Lutas por Espaços e Território).
Aline Albuquerque Jorge é doutora em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Docente do Colegiado de Geografia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), pós-doutoranda pela Universidade de Brasília (UnB) e integrante de diversos grupos de estudos e projetos de pesquisa, desenvolvidos desde à pesquisa militante.
Bruna Gonçalves Costa é Geógrafa e Mestre em Geografia. Doutoranda em Geografia na Universidade de Brasília (UnB), vinculada ao Grupo de Estudos, Ações e Conflitualidades (GEACT). Gerente Executiva do Instituto Biomas, Povos & Territórios (iBiomas).
Dilermando Cattaneo é graduado, mestre e doutor em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Docente do Curso de Geografia e do PPG em Dinâmicas Regionais e Desenvolvimento (PGDREDES) da UFRGS Litoral. Membro do Núcleo de Estudos Geografia e Ambiente (NEGA/UFRGS) e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental / RP-G(S)A.
Por Gerson Antonio Barbosa Borges, Aline Albuquerque Jorge, Bruna Gonçalves Costa e Dilermando Cattaneo.
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Entendemos que as mudanças climáticas deixaram de ser um problema do futuro para se tornarem um dos maiores desafios do presente. Eventos hidrometeorológicos extremos cada vez mais intensos e mais frequentes colocam a questão climática na ordem do dia, não mais apenas para cientistas e professores de Geografia, mas para gestores, formuladores de políticas públicas e principalmente para movimentos sociais, povos originários e comunidades tradicionais e periféricas. Episódios cada vez mais fortes e recorrentes de ondas de calor, estiagens, acumulados de chuva concentrados, bloqueios atmosféricos, tempestades, tornados, micro-explosões e suas respostas na superfície (deslizamentos e movimentos de massa em áreas de encostas, enxurradas em áreas de vales estreitos, inundações em planícies e várzeas, alagamentos repentinos nas cidades, rompimentos e bloqueios de estradas, destelhamentos de casas, queda de árvores, grandes incêndios na vegetação e, a médio e longo prazo, perda de biodiversidade e alterações nas condições da produção de alimentos) evidenciam a realidade das mudanças climáticas, contrariando os negacionistas da ciência e mostrando àqueles que relativizam seus efeitos que o chamado ‘novo normal’ não poupa nenhum lugar do mundo, em que pese ficar mais evidente nos países periféricos e, sobretudo, nas comunidades mais vulneráveis.
É importante lembrar que esses fenômenos sempre fizeram parte da dinâmica da Terra, inclusive do ponto de vista paleoclimático, em que os movimentos de longo prazo do planeta (variação da obliquidade eclíptica, variação da excentricidade eclíptica e precessão dos equinócios) foram responsáveis por mudanças no clima que moldaram a evolução da vida e das paisagens nos continentes. No entanto, a partir da inauguração do ‘Sistema-mundo Moderno/Colonial’ (Wallerstein, 1974; Quijano, 1992; Mignolo, 2020 [2000]) nos séculos XV e XVI, e especialmente a partir da consolidação do capitalismo industrial a partir da Europa e EUA nos séculos XIX e XX, o aquecimento da atmosfera vai ter profundas conexões com o avanço do modo de produção capitalista nas mais diversas nações, territórios e ambientes. O que está em curso não é apenas uma mudança nas médias de temperatura global, mas uma transformação rápida e profunda das condições ecológicas que, ao longo dos últimos milhares de anos, permitiram o avanço das inter-relações entre sociedades humanas e a natureza, deixando como herança um conjunto de paisagens e formas de vida (Ab’Saber) que sustentaram, até então, as condições socioambientais que ainda mantém nossa espécie sobre a Terra.
Essa análise não decorre de opiniões isoladas, mas de um amplo consenso científico. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), responsável por sintetizar milhares de pesquisas produzidas em diferentes países, concluiu em seu Sexto Relatório de Avaliação que é inequívoca a influência humana sobre o aquecimento da atmosfera, dos oceanos e da superfície terrestre (IPCC, 2023). Poucas vezes na história da ciência houve tamanho consenso em torno de um problema de dimensão planetária. Esse conhecimento (não uma mera opinião) foi construído ao longo de décadas. Os primeiros modelos climáticos desenvolvidos por Manabe e Wetherald (1967) demonstraram que o aumento da concentração de dióxido de carbono elevaria a temperatura média da Terra. Posteriormente, Hasselmann (1976) mostrou como distinguir estatisticamente as variações naturais daquelas provocadas pelas atividades humanas. Hansen et al. (1988), ao testemunharem perante o Congresso norte-americano, afirmaram que o aquecimento global já havia deixado de ser uma hipótese para tornar-se observável. Nas décadas seguintes, Michael Mann (1998), Susan Solomon (1999), Corinne Le Quéré (2018) e Valérie Masson-Delmotte (2021) contribuíram para consolidar uma das bases científicas mais robustas da atualidade.
A explicação científica desse processo é relativamente simples. A atmosfera contém gases capazes de conter o calor, absorvendo parte da radiação infravermelha emitida pela superfície terrestre. Esse mecanismo, conhecido como efeito estufa, é indispensável para a vida, pois mantém a temperatura média do planeta em torno de 14°C a 15°C. Sem ele, a Terra apresentaria temperaturas próximas de -18°C e há dúvidas se teríamos formas de vida na Terra. O problema, portanto, não é o efeito estufa, mas sim sua intensificação, provocada pelo aumento da concentração de gases como dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxido nitroso (N₂O).
Antes da chamada ‘Revolução Industrial’, a concentração atmosférica de dióxido de carbono era de aproximadamente 280 partes por milhão (ppm). Atualmente ela ultrapassa 430 ppm, alcançando níveis sem precedentes na história recente do planeta (NOAA, 2025). O dióxido de carbono permanece na atmosfera durante décadas e até séculos, tornando-se o principal responsável pelo aquecimento acumulado. O metano, originado principalmente pela atividade agropecuária, permanece menos tempo, cerca de doze anos, porém possui um potencial de aquecimento muito superior no curto prazo. Já o óxido nitroso, proveniente principalmente da agricultura intensiva e de determinados processos industriais, como a produção de substâncias utilizadas na fabricação de fertilizantes sintéticos, combina elevada permanência atmosférica com grande capacidade de retenção de calor (IPCC, 2023).
Esses gases são emitidos principalmente pela queima de carvão mineral, petróleo e gás natural, que ainda sustentam grande parte da economia capitalista mundial. Embora a utilização de energias renováveis tenha crescido nos últimos anos, a matriz mundial ainda permanece fossilífera, e mesmo medidas alternativas como a energia solar e a energia eólica ainda trazem outros impactos ambientais e sociais, fazendo que uma efetiva transição energética ainda esteja distante de se consolidar, sobretudo porque vem sendo pensada como mecanismo de acumulação flexível do capital e suas estratégias de “greenwashing”, tais como os créditos de carbono, REDD+, hidrogênio verde e carros elétricos, em vez de propor outras formas de produção e consumo de energia, em que ela deixe de ser vista somente como mercadoria.
Nesse ponto, a crise climática deixa de ser uma questão atmosférica para tornar-se também uma questão histórica. Vaclav Smil (2017) demonstra que a história das civilizações pode ser compreendida como uma sucessão de transições energéticas. Durante milênios, as sociedades dependem da energia solar capturada pelas plantas, da força humana e animal, dos ventos e dos cursos d’água. A Revolução Industrial intensificou as formas de apropriação da natureza ao incorporar enormes quantidades de energia fóssil acumuladas ao longo de milhões de anos, permitindo uma expansão econômica sem precedentes. No decorrer do avanço das técnicas, surgiram, portanto, as grandes petroleiras, hidrelétricas, turbinas eólicas e as enormes fazendas de placas solares.
Carlos Walter Porto-Gonçalves, refletindo sobre o aumento da demanda por energia para além das atividades produtivas fundamentais a partir do avanço do modo de produção capitalista sobre outras partes do mundo, cunhou o termo ‘civilização energívora’, visto que essa demanda não tem limites, uma vez que o chamado ‘desenvolvimento’ é colocado como progresso e crescimento infinitos. Howard T. Odum (2001) amplia essa reflexão ao demonstrar que toda organização social depende dos fluxos de energia disponíveis na natureza. Para ele, o crescimento extraordinário das sociedades industriais foi possível porque elas tiveram acesso a fontes energéticas concentradas, baratas e abundantes. Entretanto, nenhum sistema energético cresce indefinidamente. À medida que os custos ambientais e energéticos aumentam, torna-se inevitável reorganizar padrões de produção, consumo e ocupação do território. Assim, a crise climática global pode ser compreendida justamente como uma expressão desses limites geo-biofísicos.
Essa interpretação também aproxima-se das contribuições da Ciência do Sistema Terra. Lovelock (1979), ao formular a Hipótese Gaia, propôs compreender o planeta como um sistema integrado, no qual atmosfera, oceanos, solos, organismos vivos e processos geológicos interagem continuamente. Posteriormente, Rockström et al. (2009) e Steffen et al. (2015) demonstraram que essa estabilidade depende do equilíbrio de processos fundamentais, conhecidos como limites planetários. O clima é apenas um deles. Também fazem parte desse conjunto a sociobiodiversidade, os ciclos do nitrogênio e do fósforo, a disponibilidade de água doce e a integridade das florestas.
Quando esses limites começam a ser ultrapassados, aumenta a probabilidade de mudanças abruptas e potencialmente irreversíveis. William Ripple et al. (2020),passaram a utilizar a expressão “emergência climática” para caracterizar esse momento histórico. Esta escolha não é meramente retórica. Ela expressa o reconhecimento de que já dispomos de conhecimento suficiente para compreender as causas da crise, mas as elites empresariais e os donos do poder seguem ampliando as emissões globais de gases de efeito estufa, modificando a cobertura do solo (e com isso a dinâmica atmosférica em escala regional), vulnerabilizando comunidades e, o pior de tudo, transferindo responsabilidades e inventando falsos culpados em situações de desastres ocasionados por eventos extremos.
No Brasil, essa discussão assume características particulares. Diferentemente de muitos países industrializados há mais tempo, onde predominam as emissões associadas ao setor energético, parcela significativa das emissões brasileiras decorre do desmatamento, das mudanças no uso da terra e da agropecuária. Carlos Nobre et al. (2016) alertam que a combinação entre aquecimento global, queimadas e desmatamento aproxima a Amazônia de um possível (e provável) ponto de não retorno. Com parte significativa da floresta perdendo sua capacidade de reciclar umidade por meio dos chamados rios voadores, os impactos tendem a comprometer a agricultura, a geração de energia hidrelétrica, o abastecimento de água e o próprio regime de chuvas em grande parte da América do Sul, especialmente no sul do Brasil.
A intensificação dos desastres já pode ser observada no cotidiano das comunidades. A título de exemplo, o Rio Xingu, no Pará, apresenta uma tragédia ambiental acarretada pela ação humana através da construção e funcionamento da UHE Belo Monte. A alta mortandade de peixes, a baixa vazão das águas e o desequilíbrio ecológico atingiram diretamente modos de vida de ribeirinhos e indígenas, cujos territórios foram alagados.
No Cerrado, a recorrente expansão do agronegócio se desdobra em intensificações climáticas já podem ser observadas no impacto à fauna e à flora, podendo ser observadas com expressividade nos centros urbanos. Como um exemplo disso, em 2025 Brasília teve um registro de 7% de umidade relativa do ar, um número inferior ao que se identifica no deserto do Saara.
Somada às queimadas, destacam-se o uso agressivo dos agrotóxicos e a poluição. Compreender essa realidade exige evitar simplificações. Não existe uma única agricultura, mas diferentes formas de produzir alimentos, organizar o território e relacionar-se com a natureza. A expansão de monoculturas, a elevada dependência de fertilizantes sintéticos, o crescimento da pecuária intensiva e a conversão de florestas em áreas agrícolas constituem importantes fontes de emissões. Contraditoriamente, o próprio setor agropecuário torna-se um dos mais vulneráveis às mudanças climáticas.
De acordo com Eduardo Delgado Assad, o aumento das temperaturas, a alteração dos regimes de chuva e a maior frequência de eventos extremos já afetam culturas agrícolas em diferentes regiões brasileiras, exigindo profundas adaptações produtivas. Agricultura e clima estabelecem, portanto, uma relação de dupla causalidade: determinados sistemas produtivos contribuem para o aquecimento global e, simultaneamente, sofrem seus efeitos.
As soluções construídas, a partir da ótica do mercado, não contemplam nenhuma reflexão ou forma de inflexão no tange ao modelo produtivo hegemonicamente adotado. Ao contrário disso, passam pelo aprofundamento dos processos de interferência e modificação da natureza, por meio do “melhoramento”genético, da transgenia, entre outros.
Essa discussão ganha outra dimensão nas contribuições de Rob Wallace (2016; 2020). Ao analisar a expansão da agricultura industrial e das cadeias globais de produção animal, Wallace demonstra que mudanças climáticas, perda de biodiversidade e emergência de novas pandemias possuem raízes estruturais comuns. A simplificação dos ecossistemas, o avanço das fronteiras agrícolas sobre áreas naturais e a elevada concentração genética dos sistemas produtivos ampliam não apenas as emissões de gases de efeito estufa, mas também as condições favoráveis ao surgimento e à disseminação de novos patógenos. A crise climática e as crises sanitárias, portanto, não podem ser compreendidas isoladamente.
Esse debate ganha ainda mais relevância em um ano cujas previsões indicam a possibilidade de formação de um ‘Super’ El Niño. Em síntese, o El Niño é um fenômeno cíclico de variabilidade climática natural, identificável pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacifico em sua faixa tropical. No Brasil, os impactos do fenômeno costumam ser redução de chuvas e elevação das temperaturas no Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste; baixa umidade do ar e ondas de calor no Sudeste e Centro-Oeste; e um aumento da frequência e intensidade de chuvas no Sul, podendo refletir em deslizamentos, enxurradas e inundações, além de fenômenos atmosféricos associados ao alto grau de energia na atmosfera (tempestades, tornados, micro-explosões, etc).
A fase oposta do El Niño é a La Niña, caracterizada pelo resfriamento anômalo das águas do Oceano Pacifico na mesma região. Os efeitos causados são, por exemplo, chuvas acima da média nas regiões Norte e Nordeste e estiagens prolongadas na região Sul. Tanto o El Niño como a La Niña causam efeitos que afetam desproporcionalmente as populações mais vulneráveis. Também, atinge as atividades produtivas, dentre elas, a agropecuária, podendo comprometer a segurança alimentar de determinadas comunidades, especialmente as tradicionais e os povos originários.
Um ‘Super’ El Niño indica que a anomalia de aquecimento da superfície do oceano ultrapassa a média histórica de + 2° C. Isso pode estar diretamente relacionado ao aquecimento global, pois em um planeta mais quente, a anomalia de temperatura tende a ser maior. Esse cenário traz uma série de desafios no que se refere a forma como lidar com os impactos gerados, nas múltiplas dimensões do espaço, seja no campo ou nas cidades. Portanto, conforme advertem inúmeros cientistas, tais como os que citamos aqui, é urgente produzirmos alternativas, enquanto sociedade, para além da ótica do mercado.
Essa virada, contudo, exige olhar para o passado, pois há milênios, os saberes ancestrais dos povos originários e comunidades tradicionais alertam sobre os perigos da ruptura entre o ser humano e a teia da vida. Tratar a natureza como algo alheio à sociedade é uma engrenagem ideológica que, além de ser um equívoco teórico, pavimenta o caminho para destruição mundial.
Nesta análise que não se encerra por si, é possível ponderar que o encurtamento do tempo entre eventos extremos nos coloca diante de um dilema civilizatório no qual precisamos decidir se mantemos a ilusão de um “desenvolvimento infinito” regido pela métrica do lucro, ou se escutamos a ciência e os saberes ancestrais que apontam para a coexistência. Não é de se esperar que uma verdadeira e eficiente transição político-ecológica venha de gabinetes que pacificam a vida ou estabelecem como objetivo a hegemonia. O que precisamos é de coragem para reconfigurar nossa presença no planeta.
Referências
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1 Doutor em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), militante do Movimento dos Pequenos Agricultores/Via Campesina, vinculado ao Grupo de Estudos, Ações e Conflitualidades (GEACT) e a Rede DATALUTA (Banco de Dados das Lutas por Espaços e Território).
2 Doutora em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Docente do Colegiado de Geografia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), pós-doutoranda pela Universidade de Brasília (UnB) e integrante de diversos grupos de estudos e projetos de pesquisa, desenvolvidos desde à pesquisa militante.
3 Geógrafa e Mestre em Geografia. Doutoranda em Geografia na Universidade de Brasília (UnB), vinculada ao Grupo de Estudos, Ações e Conflitualidades (GEACT). Gerente Executiva do Instituto Biomas, Povos & Territórios (iBiomas).
4 Graduado, mestre e doutor em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Docente do Curso de Geografia e do PPG em Dinâmicas Regionais e Desenvolvimento (PGDREDES) da UFRGS Litoral. Membro do Núcleo de Estudos Geografia e Ambiente (NEGA/UFRGS) e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental / RP-G(S)A.
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Gerson Antonio Barbosa Borges, Aline Albuquerque Jorge, Bruna Gonçalves Costa e Dilermando Cattaneo.
Gerson Antonio Barbosa Borges é doutor em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), militante do Movimento dos Pequenos Agricultores/Via Campesina, vinculado ao Grupo de Estudos, Ações e Conflitualidades (GEACT) e a Rede DATALUTA (Banco de Dados das Lutas por Espaços e Território).
Aline Albuquerque Jorge é doutora em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Docente do Colegiado de Geografia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), pós-doutoranda pela Universidade de Brasília (UnB) e integrante de diversos grupos de estudos e projetos de pesquisa, desenvolvidos desde à pesquisa militante.
Bruna Gonçalves Costa é Geógrafa e Mestre em Geografia. Doutoranda em Geografia na Universidade de Brasília (UnB), vinculada ao Grupo de Estudos, Ações e Conflitualidades (GEACT). Gerente Executiva do Instituto Biomas, Povos & Territórios (iBiomas).
Dilermando Cattaneo é graduado, mestre e doutor em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Docente do Curso de Geografia e do PPG em Dinâmicas Regionais e Desenvolvimento (PGDREDES) da UFRGS Litoral. Membro do Núcleo de Estudos Geografia e Ambiente (NEGA/UFRGS) e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental / RP-G(S)A.

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