Pages

Quando a revolta pensa a política: por que Foucault permanece indispensável cem anos depois?

Do IHU, 08 Julho 2026
Por Márcia Rosane Junges



O filósofo francês Michel Foucault: critérios de questionamento Crédito: Wikimedia Commons/Wikipedia

E se a tarefa mais urgente da filosofia não fosse oferecer respostas, mas tornar estranhas as certezas que organizam o nosso tempo? Poucos pensadores levaram essa exigência tão longe quanto Michel Foucault. Ao longo de sua obra, o filósofo francês recusou compreender a história das ideias como sucessão de doutrinas ou progresso do conhecimento. Preferiu interrogar aquilo que, em cada época, se apresenta como natural, evidente ou inevitável. Em vez de perguntar o que é o poder, a verdade ou a liberdade em termos universais, investigou como essas experiências são historicamente produzidas e por quais práticas, instituições e discursos passam a orientar a vida dos indivíduos. Um século após seu nascimento, sua filosofia continua desafiando o pensamento contemporâneo precisamente porque nos convida a desconfiar das categorias com as quais interpretamos o presente e a reconhecer que toda forma de governo implica também uma determinada maneira de produzir sujeitos, distribuir possibilidades de ação e delimitar os horizontes do pensável.

É essa potência crítica que torna a celebração do centenário de Foucault menos um gesto de memória do que um exercício de diagnóstico do presente. Em um contexto em que proliferam tecnologias de vigilância, racionalidades securitárias, mecanismos de normalização e novas formas de administração da vida coletiva, a pergunta foucaultiana conserva toda a sua força: quais são as condições históricas que fazem com que determinados modos de governar, obedecer e resistir se tornem possíveis? Essa questão orienta a conferência "Foucault, Política e Revolta", ministrada pelo Prof. Dr. Augusto Jobim do Amaral (PUCRS), nesta quarta-feira, 08-07-26, no Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos – Pensar o presente, redefinir a política, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, com o apoio do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos. É nesse horizonte, em que política e revolta deixam de ser conceitos abstratos para se tornarem práticas de liberdade, que esses desassossegos convidam o público a reencontrar Foucault.

A reflexão é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do IHU.

Eis o artigo.


Cem anos após o nascimento de Michel Foucault, seu pensamento permanece menos como um monumento da história da filosofia do que como uma caixa de ferramentas para compreender as formas contemporâneas de poder. Em um tempo marcado pela expansão dos dispositivos digitais, pela racionalidade algorítmica, pela intensificação das políticas de segurança, pela gestão permanente das crises e pela transformação das democracias, retornar a Foucault significa perguntar não apenas quem governa, mas sobretudo como somos governados e como nos tornamos sujeitos dessas formas de governo. É precisamente nesse horizonte que se insere a conferência "Foucault, Política e Revolta", ministrada nesta quarta-feira, 08-07-26, pelo Prof. Dr. Augusto Jobim do Amaral (PUCRS), no Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos – Pensar o presente, redefinir a política, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU com o apoio do Programa de Pós-graduação em Filosofia da Unisinos.

Professor dos Programas de Pós-Graduação em Filosofia e em Ciências Criminais da PUCRS, doutor em Altos Estudos Contemporâneos pela Universidade de Coimbra e pesquisador cuja trajetória articula filosofia política, criminologia crítica e teoria do poder, Augusto Jobim do Amaral consolidou-se como uma das principais vozes brasileiras na recepção contemporânea da obra foucaultiana. Sua produção dialoga continuamente com autores como Nietzsche, Deleuze, Agamben e Foucault, sem reduzir este último a um simples teórico das instituições disciplinares ou da biopolítica. Ao contrário, sua leitura enfatiza a potência crítica da filosofia foucaultiana para pensar os processos de subjetivação, as formas de resistência e as novas configurações da política.

Nas diversas entrevistas concedidas ao IHU ao longo dos últimos anos, Jobim insiste numa advertência decisiva: Foucault não deve ser encerrado na condição de "teórico do poder". O próprio filósofo francês afirmava que sua preocupação fundamental sempre foi compreender a produção histórica dos sujeitos. Daí a célebre provocação retomada por Jobim: "o poder não existe" como substância ou propriedade concentrada em um centro soberano. O que existem são relações móveis de força, tecnologias, estratégias e práticas que atravessam os indivíduos e produzem modos de existência. O poder não é algo que se possui; ele se exerce. Essa mudança de perspectiva desloca radicalmente a análise política, libertando-a do modelo jurídico centrado exclusivamente na soberania e abrindo espaço para compreender os mecanismos cotidianos pelos quais somos conduzidos, governados e constituídos.

Práticas de liberdade


É justamente desse deslocamento que emerge a possibilidade da revolta. Se o poder nunca é absoluto nem unilateral, também as resistências não ocupam um lugar exterior ao seu funcionamento. Conforme a leitura proposta por Augusto Jobim do Amaral, Foucault rompe definitivamente com a expectativa de uma grande insurreição capaz de resolver, de uma vez por todas, a questão do poder. Não existe uma única Bastilha a ser tomada. Existem múltiplos pontos de resistência que acompanham cada relação de poder, reinventando permanentemente as possibilidades da ação política. A revolta deixa de ser compreendida apenas como ruptura excepcional e passa a designar uma prática imanente às próprias relações sociais, onde novos modos de vida podem ser experimentados. Nessa perspectiva, resistir não significa simplesmente negar ou confrontar frontalmente o poder, mas modificar as condições pelas quais ele opera sobre os corpos, os desejos e as formas de existência.

A política deixa de ser pensada exclusivamente nos termos da disputa pelo Estado ou da conquista da soberania e passa a incluir as práticas cotidianas pelas quais indivíduos e coletividades recusam modos de sujeição e inventam outras maneiras de viver. É precisamente aí que a noção foucaultiana de crítica adquire seu alcance mais radical: não como exercício abstrato de contestação, mas como trabalho permanente de problematização das evidências que organizam a vida social. A revolta torna-se, assim, uma prática ética e política de desnaturalização das formas de governo, abrindo espaço para experiências que desafiam identidades fixas, hierarquias estabelecidas e modos cristalizados de pensar a liberdade.

Essa interpretação ganha ainda maior atualidade diante das pesquisas recentes desenvolvidas por Jobim. Em entrevistas ao IHU sobre o recrudescimento dos autoritarismos contemporâneos, ele argumenta que o fascismo não pode ser explicado apenas pela nostalgia de regimes passados, mas como uma forma política capaz de capturar afetos, produzir subjetividades e oferecer respostas simplificadoras ao esgotamento da democracia liberal. Essa abordagem desloca o debate para um terreno mais complexo do que o das instituições formais ou dos acontecimentos eleitorais. O problema central passa a ser compreender como determinadas racionalidades políticas moldam sensibilidades coletivas, transformam o medo em princípio de governo e convertem a insegurança social em demanda permanente por vigilância, controle e punição.

Nesse cenário, a herança foucaultiana mostra-se particularmente fecunda ao revelar que as formas contemporâneas de dominação não dependem apenas da coerção direta, mas da capacidade de produzir adesão, normalizar comportamentos e orientar condutas por meio de dispositivos disseminados em toda a vida social. Mais do que denunciar novos autoritarismos, trata-se de compreender as condições históricas que os tornam possíveis e, sobretudo, de identificar os espaços nos quais podem emergir práticas de liberdade capazes de interromper a reprodução dessas formas de governo. É nesse ponto que a reflexão de Foucault, retomada criticamente por Augusto Jobim do Amaral, deixa de ser um diagnóstico do presente para tornar-se também uma investigação sobre as possibilidades concretas de transformação política.

Cultura punitiva


Essa perspectiva permite deslocar a crítica do plano exclusivamente jurídico para uma análise das racionalidades políticas que sustentam a expansão do sistema penal. Em vez de perguntar apenas se as penas são mais ou menos severas, a questão passa a ser compreender por que determinadas sociedades recorrem cada vez mais ao dispositivo penal como instrumento privilegiado de administração dos conflitos sociais. A partir de Foucault, o direito penal deixa de aparecer como uma esfera autônoma, fundada apenas na proteção da ordem ou na aplicação imparcial da lei, para revelar sua inserção em um conjunto mais amplo de práticas que classificam indivíduos, hierarquizam comportamentos, delimitam zonas de risco e produzem sujeitos considerados perigosos. Nesse sentido, a punição não representa simplesmente a resposta do Estado a uma infração, mas integra uma economia política do poder que organiza a circulação dos corpos, distribui vulnerabilidades e define quais vidas serão objeto de vigilância permanente.

Essa problematização também convida a repensar o próprio significado da segurança nas democracias contemporâneas. Ao privilegiar respostas penais para questões atravessadas por desigualdades econômicas, raciais e territoriais, corre-se o risco de transformar problemas sociais complexos em objetos exclusivos de intervenção policial e jurídica. É justamente esse movimento que a leitura foucaultiana, presente na obra de Augusto Jobim do Amaral, busca desestabilizar: mostrar que a obsessão pela punição frequentemente obscurece os mecanismos que produzem exclusão, violência e precarização. Mais do que denunciar os excessos do sistema penal, trata-se de interrogar as condições históricas que fazem da punição uma resposta quase automática às inquietações coletivas. Sob essa perspectiva, pensar criticamente o direito penal significa abrir espaço para outras formas de justiça e para uma política que não encontre na ampliação permanente do controle social o seu principal horizonte de atuação.

Celebrar o centenário de Michel Foucault, portanto, não significa apenas revisitar um clássico da filosofia contemporânea. Significa reconhecer que questões formuladas há décadas — quem somos, como somos governados, por que obedecemos, onde nascem as resistências e como inventar outras formas de vida — permanecem no centro das disputas políticas do presente. A conferência de Augusto Jobim do Amaral convida justamente a esse exercício: pensar Foucault não como um autor do passado, mas como um interlocutor decisivo para compreender as mutações do poder, as metamorfoses da política e a permanente abertura da revolta como prática de liberdade. Nesse sentido, Foucault não encerra uma herança intelectual tão somente; antes, renova a urgência de uma filosofia que continua interrogando criticamente o nosso próprio tempo.

Quem é Augusto Jobim do Amaral?


Professor permanente do Programa de Pós-graduação em Ciências Criminais e do Programa de Pós-graduação em Filosofia, ambos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Augusto Jobim do Amaral é doutor em Altos Estudos Contemporâneos (Ciência Política, História das Ideias e Estudos Internacionais Comparativos) pela Universidade de Coimbra (Portugal); doutor, mestre e especialista em Ciências Criminais pela PUCRS. Research fellowship (2017-2018) na Universidad de Málaga (Espanha) na área de Teoría y Filosofía del Derecho, junto à Cátedra Abierta de Derecho y Literatura; research fellowship (2018-2019) na Università degli Studi di Padova (Itália), em Filosofia Política. Professor visitante (2022) na Universidad de Sevilla e na Università Degli Studi di Salerno (2024). Lidera o Grupo de Pesquisa cadastrado no CNPq "Criminologia, Cultura Punitiva e Crítica Filosófica".

Com Felipe da Veiga Dias publicou Tecnopolítica Criminal (Tirant lo Blanch, 2024). É autor de dezenas de outras obras, das quais destacamos: Política de la Criminología: una introducción (Tirant lo Blanch, 2022) e Criminologia, Cultura Punitiva e Crítica Filosófica (Tirant Lo Blanch, 2019).
Anote e participe!

Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos. Pensar o presente, redefinir a política

Foucault, Política e Revolta

📍 Prof. Dr. Augusto Jobim do Amaral – PUCRS

⏰ 08/07 | 10h às 11h30min

🎥 Transmissão ao vivo:

YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=fgDikygA3IE
Facebook: https://www.facebook.com/InstitutoHumanitasUnisinos/events

📌 A atividade é gratuita. Será fornecido certificado a quem se inscrever e, no dia do evento, assinar a presença por meio do formulário disponibilizado durante a transmissão.

📌 O evento ficará gravado no YouTube e Facebook e pode ser acessado a qualquer momento.

Inscrições e mais informações: https://www.ihu.unisinos.br/evento/michel-foucault

Nenhum comentário:

Postar um comentário