Por DENISE VIEIRA DA SILVA*
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Imagem: Stormseeker |
A universidade pública, pensada para emancipar, transforma-se em engrenagem de métricas que esgotam quem nela produz conhecimento
1.
O capitalismo sofreu muitas transformações no sentido de um modelo neoliberal financeirizado, processo inédito na história, cuja lógica subordinou todas as esferas da sociedade. Eleva-se o mercado e as “coisas” à condição de sujeitos soberanos, desprezando os direitos humanos e a cidadania. Ademais, caracteriza-se pela defesa de uma visão privatista em contraposição a tudo que é público, com a negação dos direitos sociais e do trabalho. Constata-se o reforço do individualismo em contraposição à ação coletiva; estimula-se a concorrência de todos contra todos no lugar da colaboração e da solidariedade.
A Universidade pública é um lugar de encontro, de convergências e divergências, de aprendizagem, de troca, de produção científica e do conhecimento. É na universidade pública que a educação atinge o nível mais elevado de sua perspectiva emancipatória, com o papel central na construção das sociedades democráticas, sendo um dos principais espaços de resistência. Por essa natureza, que constitui a sua essência, confronta o modelo hegemônico do capitalismo atual.
O neoliberalismo, enquanto um projeto de classe, atinge o Estado de direito adotando um ajuste fiscal permanente – instrumento de destruição das políticas públicas e privatização das finanças. No contexto de aplicação das políticas neoliberais o trabalho é submetido a uma rede de índices de desempenho que desrealiza a atividade concreta, comprometendo a qualidade, gerando um processo de subjetivação permeado pelo sofrimento psíquico e desilusão.
Na visão de Dardot e Laval o neoliberalismo não apenas destrói instituições e direitos mas se torna uma forma de viver no mundo, atinge as relações sociais em geral porque cria uma nova forma de comportamento, configurando uma subjetividade neoliberal, onde a noção de sucesso está precedida pela ideia de uma concorrência permanente até a exaustão pelo sobretrabalho e pela geração de produtos e resultados definidos por critérios conflitantes com o bem viver e com a emancipação dos seres humanos.
O atravessamento do neoliberalismo e a crise nas universidades
Marilena Chaui em seu livro Escritos sobre a Universidade) que apresenta um questionamento relacionado à autonomia da universidade, escreveu: “A heteronomia da universidade autônoma é visível a olho nú: o aumento insano de horas-aula, a diminuição do tempo para mestrados e doutorados, a avaliação pela quantidade de publicações, colóquios e congressos, a multiplicação de comissões e relatórios etc. Virada para seu próprio umbigo, mas sem saber onde este se encontra, a universidade operacional opera e por isso mesmo não age” (p. 7).
2.
A essência da Universidade Pública faz com que ela represente o espaço primordial e de longa duração, atuando no fortalecimento dos valores e princípios civilizatórios de solidariedade e respeito à condição humana, através da pesquisa, ensino e extensão voltados para a produção de conhecimento relevante e útil ao desenvolvimento do país, sendo o lócus do pensamento crítico e criativo. O conjunto das Universidades Federais, públicas, gratuitas, laicas, de qualidade e socialmente referenciadas nas necessidades da maioria da população possuem um papel fundamental na reconstrução da cidadania, da subjetividade e de uma vida digna.
João Carlos Salles, a título de conclusão do seu texto “Educação e cidadania”, escreve: “A tarefa da educação que é especialmente a da Universidade pública é afinal prover cada sujeito das condições de exercício pleno da sua subjetividade e garantir a precedência da palavra, do símbolo, do gesto significativo, sobre todas as formas de poder, de modo que nossa comunicação, sendo desimpedida, expresse uma sociedade na qual sejamos economicamente iguais e nos encontremos de forma democrática”.[1]
As estratégias neoliberais gerencialistas e o sistema acadêmico: repercussões para o trabalho docente e para a vida estudantil.
Hanique e Gaulejac argumentam que o gerencialismo, pelas contradições abrigadas pela sua natureza, impõe em si uma injunção paradoxante que provoca uma tensão psíquica permanente, ao submeter os trabalhadores a exigências conflitantes, como por exemplo, a máxima que “as pessoas podem fazer mais e melhor com menos”. E que para conseguir a realização desse princípio é necessário o estabelecimento de metas e indicadores progressivamente exigentes, capazes de aumentar a competitividade e a “valorização” do processo avaliativo.
O desfinanciamento da universidade simbolicamente nos mostra essa realidade. A despeito da degradação de laboratórios, salas de aula, equipamentos, professores, estudantes e técnicos continuam desenvolvendo suas tarefas com a mesma qualidade, ou mesmo com algum prejuízo dela, a um custo psicológico importante.
Há uma passagem do social ao psíquico, as pessoas são transformadas de agentes sociais em operadores de performance, perdem a sua condição de sujeito. O pensamento binário e o princípio da não contradição da gestão transforma o mundo em um jogo surreal; altamente competitivo onde tudo é produto inclusive o trabalhador em si.
O atravessamento do capitalismo na academia é configurado nas diversas práticas que reproduzem o ideário do mercado e da empresa ao construir indicadores de precarização do trabalho docente, identificando como dimensão central o produtivismo. Esse fenômeno é expresso na quantidade de artigos a serem publicados e qualificados, número de citações e captação de recursos financeiros, gerando a intensificação do trabalho, prioridade para a pesquisa e baixo investimento na docência. Além desses indicadores, e até como consequência deles, uma competição acirrada se instala entre os docentes pelos recursos destinados pelas agências de fomento para realização de projetos de pesquisa, convênios e contratos, mas também pelos recursos administrativos disponibilizados pela universidade como espaço físico e equipamentos.
3.
A própria dinâmica do conhecimento pode se tornar um processo desqualificador da criação pela ascensão da insignificância no excesso de informação e do curto prazo, o que gera uma necessidade de aceleração da vida, com possibilidade de corrosão do vínculo e do caráter. É a efemeridade, a reorganização permanente gerando instabilidade e sensação de crise permanente, o que leva a exaustão e a medicalização da vida para sustentar a ruptura com um equilíbrio entre ritmo, sentido, coerência interna e o mundo externo.
O paradoxo também se apresenta no exercício do papel docente, quando o professor expressa o prazer em dar aula e ver “os olhos brilharem” dos estudantes, se regozija por ter seu projeto de pesquisa aceito por uma agência de fomento, ou é aprovado para receber bolsistas de iniciação científica. Esse docente enfrenta a complexidade de uma relação professor-aluno permeada de conflitos e algumas vezes de processos que envolvem violências pelas questões de gênero, raça, deficiências, neurodivergência, sem ter sido preparado para lidar com essas situações.
Ademais, o papel docente tem se ampliado e diversificado ao longo do tempo, se configurando no exercício de várias profissões em uma só, a de professor, a de pesquisador, escritor, agente social em projetos de extensão comunitária, gestor e captador de recursos. São diferentes atividades que exigem habilidades específicas para o seu exercício com a qualidade requerida. Os programas de mestrado e doutorado formam, fundamentalmente para um deles, o de pesquisador, ficando os demais por conta das habilidades existentes ou não no repertorio do docente. No caso do papel de professor, de ministrar aulas, atividade cada vez mais alvo de contestação pelos estudantes, o docente não recebe treinamento pedagógico e termina à mercê da própria sorte.
Fenômenos contemporâneos, como a hiperconectividade, o culto à performance ou a dissolução das figuras de autoridade tradicionais, tendem a promover formas de sobreimplicação, onde o sujeito se sente constantemente convocado e responsabilizado, sem um espaço de respiro subjetivo. São os profissionais que se identificam excessivamente com a instituição ou causa, sem a devida análise crítica desse engajamento, o que pode levar a alienação e ao adoecimento. A sobreimplicação, portanto, é vista como um fenômeno onde o sujeito está tão imerso nas dinâmicas institucionais que perde a capacidade de distanciamento e análise, tornando-se instrumento de reprodução das normas e valores institucionais sem questionamento. É o processo de burocratização do papel profissional, com consequente engessamento da criatividade e transformação da instituição.
A sobreimplicação garantiria, de alguma maneira,a permanência do professor, ao mesmo tempo, em que o transformaria num trabalhador “full-time”, com mais de 8 horas de trabalho diário e 7 dias na semana, avançando sobre o período de lazer, mesmo que espacialmente fora dele. O encanto que paira sobre a vida universitária poderia, então, sob este prisma de análise, estar se voltando contra o próprio professor.
A preocupação com a performance, com a pontuação e a visibilidade na comunidade acadêmica termina gerando uma vivência de culpa, ansiedade e fracasso, que quando ocorre de forma exarcebada tem levado ao esgotamento emocional e ao afastamento do trabalho, resultado oposto ao inicialmente pretendido.
Os estudantes seguem esse mesmo caminho na busca por um score excelente, a vida se transforma em dedicação exclusiva a universidade dentro dos seus muros e fora deles, com pouco espaço para lazer e sociabilidade, tão importantes na juventude e nas demais faixas etárias. A medicalização tem sido adotada como uma saída para suportar a sobrecarga das tarefas acadêmicas e a violência social do cotidiano.
No plano da resistência a esse processo, torna-se importante registrar que a maioria dos questionamentos e das lutas, todas elas muito importantes, que vem sendo desenvolvidas ao longo do tempo nas universidades federais se centram em fatores externos como a questão das formas de financiamento e da autonomia universitária ou em questões internas ligadas aos servidores como os reajustes salariais e as carreiras profissionais. Entretanto, o sistema acadêmico, tem sido, com pouca frequência, objeto de análise, debate e principalmente de luta na direção de um repensar da concepção de mérito, de excelência, e dos próprios mecanismos avaliativos e classificatórios das agências de fomento. Como o principal motor da vida acadêmica, termina drenando energia, tempo e trabalho na busca do reconhecimento por instituições externas à própria universidade, reforçando a prioridade para as carreiras individuais em detrimento do desenvolvimento institucional.
A ideologia do mérito e a prática do “ sarrafo progressivo”.
4.
Dentre todas as dimensões que contribuem para a crise histórica vivenciada pela universidade, a que se encontra pouco explorada é a ideologia do mérito que sustenta o modo de vida da academia e a sua missão de busca pela excelência, termo definidor das universidades federais.
A ciência foi tomada por um conjunto de padrões de indicadores avaliativos do mérito que sobe continuamente em exigências sem explicações, sem consenso e sem limites claros, em geral legitimados, ou pouco questionados. Mas, outra natureza de indicadores aponta que chegamos a um patamar que pode colocar em risco a ética científica e a própria ciência. Em outras palavras tudo indica que “a régua quebrou”, porque o seu limite está sendo a fraude em uma competição cada vez mais desenfreada de empoderamento de currículos e obtenção de recursos financeiros.
São várias as dimensões que apontam para um esgotamento da lógica produtivista e quantitativa do sistema acadêmico atual. A revista Pesquisa Fapesp publicou em um artigo intitulado “Expulsos do clube”: “Duas dezenas de revistas científicas – três a mais do que no ano passado – foram excluídas da edição 2025 do Journal Citation Reports (JCR), plataforma da empresa Clarivate Analytics que determina o fator de impacto (FI) de 22.249 periódicos de 111 países e é usada como uma referência de prestígio das publicações. O FI é uma métrica que computa o número de citações recebidas pelo conjunto de artigos de uma revista em determinado período e dá uma medida de sua influência na comunidade científica”.
“Dezesseis revistas foram excluídas por abuso em autocitações. Seus papers citaram de forma exagerada outros trabalhos publicados por ela mesma, o que é considerado um truque para inflar o FI”.[2]
Artigos de alto impacto tornaram-se essenciais para obter avaliações satisfatórias das agências de fomento e financiamentos. As editoras acadêmicas responderam criando revistas científicas e todos os incentivos são para que as editoras publiquem cada vez mais, promovendo uma competição entre as revistas por uma boa classificação e por recursos. Amplia-se, assim, a cultura de todos competem com todos, em vários níveis, ao mesmo tempo, estudantes, professores, departamentos, programas de pós-graduação, universidades e áreas geográficas.
Carl Zimmer publicou no jornal The New York Times que uma equipe de pesquisadores encontrou evidências de que espécies de “fábricas de artigos” produzem, em uma escala industrial, estudos falsos ou de baixa qualidade. E essa produção está aumentando rapidamente, ameaçando a integridade do conteúdo gerado em diferentes áreas. Esses artigos são repletos de fraudes, com imagens adulteradas ou trechos plagiados. Para tentar escapar de detectores de plágios, as fábricas de artigos frequentemente usam inteligência artificial para alterar o texto.
5.
Uma análise recente publicada no periódico British Medical Journal (BMJ)informou que cerca de 261 mil artigos sobre câncer publicados entre 1999 e 2024 apresentam sinais de fraude. Esse volume representa 10% de toda a literatura sobre a doença disponível no PubMed, uma das maiores bases de dados biomédicos do mundo.[3]
A CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento do Ensino Superior) inicialmente destinada a desenvolvimento do corpo docente das universidades, se transformou em um instrumento de métrica e avaliação.
A expectativa racional passa a ser o acadêmico alinhar sua pesquisa às agendas dominantes para aumentar a probabilidade de aceitação. O efeito resultante tende também a produzir fragmentação da pesquisa em várias publicações. Salami science (ou “ciência do salame”) é a prática antiética de fragmentar uma grande pesquisa em vários artigos científicos menores e superficiais, em vez de publicar um único estudo robusto. O objetivo é aumentar, artificialmente, o número de publicações do autor, priorizando quantidade sobre qualidade. Há também convergência temática em certas linhas de pensamento filiadas a notórios pensadores. Percebe-se nelas a endogenia de citações. Novatos buscam estratégias de inserção em redes já consolidadas. O sistema premia a previsibilidade metodológica. Inovação radical, como uma teoria alternativa, eleva risco de rejeição. A consequência não é necessariamente mediocridade, mas conformidade – e não a busca de revolução científica.[4]
A produção científica entra em um circuito autorreferencial: cita-se para ser citado, publica-se para manter visibilidade, participa-se de redes para influenciar e ser lembrado. A existência de plateia em um evento é menos importante do que a foto do grupo promotor para ser postada nas redes sociais. A publicação, com frequência, não decorre mais de um processo intenso de pesquisa, e debate, não significa mais o desaguadouro de um processo significativo, ela passa a ser “inventada”, produzida, fruto de bricolagem, repetição ou fatiamento. A publicação ganhou vida própria.
Predomina uma ilusão de progresso, na verdade vemos a destruição de trajetórias, pela exaustão, competitividade predatória, adoecimento que terminam por produzir uma perda de sentido no trabalho docente. Surge em escala institucional a “síndrome do impostor”, ou seja, docentes e estudantes representam um papel que entra em contradição com seu desejo e paz interior. Não se trata apenas de falta de autoconfiança, mas sim de cobrança excessiva com sobrecarga de trabalho e estudo sem acolhimento e muitas vezes com ameaças.
A tabela de classificação dos pesquisadores pelas agências de fomento impõe um “sarrafo” cada vez mais alto, pelo fato das metas que foram cumpridas se tornarem obsoletas. De forma que, quando um pesquisador alcança uma meta ela já mudou, semelhante a racionalidade imposta a gerentes de instituições financeiras. A distorção dessa política de avaliação chegou a tal ponto que um pesquisador de longa trajetória de produção acadêmica e bem-posicionado na escada classificatória pode, de repente, ser rebaixado por não atingir o quantitativo esperado de publicações para aquele período, o que torna provisório o título de “vencedor” e sua respectiva classificação.
A configuração desse quadro torna evidente a necessidade do tratamento da convivência universitária como dimensão central da vida nas universidades públicas ao lado do ensino, pesquisa e extensão. Significa a criação de uma condição de trabalho docente e aprendizagem discente fortalecedora do respeito aos direitos humanos, liberadora das potencialidades humanas e do protagonismo juvenil, numa trajetória que implique na busca da superação da competição predatória, do modelo dominação-submissão e do individualismo, tão indispensáveis da democracia na ciência.
Denise Vieira da Silva é professora de sociologia do trabalho na Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Notas
[1] https://aterraeredonda.com.br/educacao-e-cidadania/.
[2] Expulsos do clube : Revista Pesquisa Fapesp
[3] Fábricas de artigos: 261 mil pesquisas sobre câncer apresentam sinais de fraude – Olhar Digital
[4] https://aterraeredonda.com.br/economia-politica-da-avaliacao-academica/

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