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Paulo Nogueira Batista Jr. propõe nova moeda de reserva para substituir a hegemonia do dólar

Estudo publicado pelo Clube Valdai apresenta plano detalhado para criar uma moeda internacional dos países do Sul Global e um banco multilateral responsável por sua emissão


Da Redação Brasil 247, 11 de julho de 2026 



Paulo Nogueira Batista JúniorCrédito: Reprodução Youtube

247 – O economista Paulo Nogueira Batista Jr., ex-diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o Banco dos BRICS, apresentou uma das propostas mais abrangentes já formuladas para reformar o sistema monetário internacional. Publicado pelo prestigiado Clube Valdai, da Rússia, o estudo “A Path to a New Reserve Currency” (“Um caminho para uma nova moeda de reserva”) propõe a criação de uma moeda internacional destinada a reduzir a dependência global do dólar, acompanhada da fundação de um novo banco multilateral encarregado de sua emissão e administração.

O próprio autor destacou a novidade da iniciativa em publicação nas redes sociais. “Até onde sei, é a primeira vez que se apresenta uma proposta completa de criação de uma nova moeda reserva e de um banco multilateral encarregado de emiti-la”, escreveu. Segundo Batista Jr., o relatório divulgado pelo Valdai resume um estudo mais amplo, desenvolvido com apoio financeiro do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

O documento parte de um diagnóstico contundente: a ordem monetária internacional construída após a Segunda Guerra Mundial entrou em um processo de desgaste estrutural. Embora o dólar continue sendo a principal moeda de reserva global, sua posição estaria sendo enfraquecida por fatores econômicos e geopolíticos, entre eles o elevado endividamento dos Estados Unidos, as fragilidades fiscais do país e o uso crescente da moeda americana como instrumento de sanções econômicas e pressão política.

O fim da hegemonia incontestável do dólar


Na avaliação de Paulo Nogueira Batista Jr., o domínio do dólar deixou de ser incontestável. O economista sustenta que a utilização da moeda americana e do sistema financeiro ocidental como instrumentos de política externa corroeu a confiança internacional.

O relatório argumenta que essa tendência foi intensificada desde o retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, em janeiro de 2025. Segundo o estudo, a ampliação das tarifas comerciais, a pressão sobre o Federal Reserve, a expansão dos déficits fiscais e o envolvimento dos EUA em novos conflitos militares agravaram a percepção de risco em torno dos ativos denominados em dólar.

O autor observa ainda que, mesmo diante desse enfraquecimento, não existe atualmente uma alternativa plenamente viável.

O euro, afirma, enfrenta limitações decorrentes das fragilidades institucionais da União Europeia e também passou a ser utilizado em sanções financeiras contra países considerados adversários do Ocidente.

Já o yuan chinês, embora venha ampliando seu papel internacional, enfrenta obstáculos próprios. A plena internacionalização da moeda poderia comprometer a competitividade das exportações chinesas, provocar valorização cambial e reduzir a capacidade do governo de administrar sua política econômica.

Uma moeda internacional sem substituir as moedas nacionais

Ao contrário de interpretações frequentes sobre uma eventual “moeda dos BRICS”, Batista Jr. deixa claro que sua proposta não prevê o desaparecimento das moedas nacionais.

O projeto consiste na criação de uma moeda destinada exclusivamente às transações internacionais, às reservas dos bancos centrais e às operações financeiras entre países.

Ela não circularia internamente nas economias participantes, nem substituiria o real, o yuan, a rupia, o rublo ou qualquer outra moeda nacional. Cada banco central continuaria exercendo normalmente suas funções e conduzindo sua própria política monetária.

Segundo o estudo, esse modelo evita os problemas enfrentados por uniões monetárias como a zona do euro e permite preservar a soberania econômica de cada país.

A criação de um Banco do Sul Global

O ponto mais inovador do trabalho talvez seja a proposta institucional.

Batista Jr. conclui que nenhuma organização existente — nem o FMI, nem o Banco Mundial, nem o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS — possui mandato adequado para emitir uma moeda internacional.

Por isso, propõe a criação de uma nova instituição, denominada Global South Bank (GSB) — Banco do Sul Global.

Esse banco seria responsável pela emissão da nova moeda, pela administração dos ativos que lhe dariam sustentação e pelo funcionamento do sistema monetário alternativo. O autor argumenta que o novo banco seria concebido especificamente para essa função, evitando as limitações jurídicas e institucionais das organizações já existentes.

Como funcionaria a nova moeda

O estudo propõe uma implementação gradual.

Na primeira etapa seria criada apenas uma unidade de conta internacional, formada por uma cesta de moedas dos países participantes, semelhante ao atual Direito Especial de Saque (SDR) do FMI.

Posteriormente, essa unidade de conta seria convertida na nova moeda internacional.

A moeda teria emissão digital e seria lastreada por uma cesta de títulos públicos emitidos pelos próprios países participantes. Em vez de depender do ouro ou do dólar, seu valor seria sustentado pelos títulos soberanos das economias integrantes do sistema.

Batista Jr. argumenta que essa arquitetura proporcionaria estabilidade, credibilidade e menor vulnerabilidade às flutuações de uma única economia nacional.
Uma governança multipolar

O economista reconhece que a China inevitavelmente teria participação dominante no sistema, devido ao tamanho de sua economia.

Mesmo assim, propõe mecanismos institucionais destinados a impedir que Pequim controle sozinha as decisões do novo banco.

O objetivo seria combinar o peso econômico chinês — essencial para conferir credibilidade ao sistema — com regras de governança capazes de assegurar equilíbrio entre todos os países participantes.

Segundo Batista Jr., essa arquitetura reduziria resistências políticas e fortaleceria a legitimidade internacional da nova instituição.
Os desafios políticos

O estudo admite que a criação de uma nova moeda internacional encontrará forte oposição dos Estados Unidos e de outras economias ocidentais.

Batista Jr. argumenta que Washington dificilmente aceitará passivamente qualquer iniciativa capaz de reduzir o papel internacional do dólar.

Ainda assim, sustenta que o avanço da multipolaridade e o crescimento das economias do Sul Global tornam inevitável o surgimento de alternativas.

Para o economista, esperar que o sistema atual permaneça indefinidamente intacto significa ignorar as transformações geopolíticas em curso.
Um projeto para uma nova ordem monetária

Na conclusão do relatório, Paulo Nogueira Batista Jr. afirma que a proposta representa uma inovação histórica.

Em vez de uma moeda nacional exercendo papel internacional — como ocorre hoje com o dólar — ou de uma moeda regional como o euro, a iniciativa criaria, pela primeira vez, uma moeda concebida exclusivamente para desempenhar funções internacionais.

O autor defende que essa arquitetura permitiria construir um sistema monetário multipolar, menos dependente dos Estados Unidos e mais compatível com o crescente peso econômico dos países do Sul Global.

Para Batista Jr., “o Ocidente parece cada vez menos capaz de oferecer soluções inclusivas para os problemas mundiais”. Em sua avaliação, caberá às grandes economias emergentes — especialmente China, Índia, Brasil e Rússia — liderar a construção de uma nova arquitetura financeira internacional, capaz de refletir a distribuição contemporânea do poder econômico mundial.

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