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Patrice Lumumba

Do A Terra É Redonda, 26 de julho 2026
Por OLIVIA DA ROCHA ROBBA & EDUARDO HENRIQUE BARBOSA DE VASCONCELOS*


As fronteiras que barraram o torcedor congolês expõem a colonialidade ainda viva no controle global de corpos, mas a reencarnação espontânea de Lumumba na arquibancada e o triunfo histórico em campo provam que a memória de um povo não se rende a carimbos nem a consulados

1.

Enquanto a seleção da República Democrática do Congo conquistava, pela primeira vez em sua história, uma vaga na fase eliminatória de uma Copa do Mundo ao vencer, de virada, o Uzbequistão por 3 a 1, um de seus personagens mais emblemáticos foi impedido de estar no jogo.

Michel Kuka Mboladinga, reconhecido como o primeiro torcedor incorporado à delegação congolesa após uma mobilização promovida pelos torcedores, não pôde embarcar com a equipe. Ausente na estreia contra Portugal por não conseguir concluir a tempo os trâmites migratórios exigidos, conseguiu acompanhar a delegação na partida seguinte, disputada no México contra a Colômbia. Entretanto, para o confronto decisivo contra o Uzbequistão, realizado nos Estados Unidos, teve seu visto negado e foi impedido de acompanhar a seleção no jogo que entrou para a história do futebol congolês.

Sua ausência, contudo, não se trata de um episódio isolado. Ela revela a permanência de uma ordem internacional em que o direito à mobilidade continua sendo distribuído de forma profundamente desigual. Em vez de constituírem zonas de contato e de intercâmbio com outras culturas, as fronteiras operam como mecanismos de controle, reproduzindo as desigualdades políticas, econômicas e raciais que continuam estruturando as relações internacionais.

Ao ocupar as arquibancadas vestido com as cores da bandeira congolesa e reproduzir a célebre postura da estátua de Patrice Lumumba, ele transforma as partidas em que seu time participa como um espaço privilegiado para dar visibilidade à luta de seu povo. Sua presença rompe a aparente neutralidade do espetáculo esportivo e recorda que o futebol também pode ser um espaço para manifestações políticas.

Sua performance resgata a figura de Patrice Lumumba, primeiro chefe de governo do Congo independente, assassinado em uma conspiração que envolveu autoridades belgas, interesses coloniais e a atuação da CIA no contexto da Guerra Fria. Patrice Lumumba tornou-se uma ameaça porque compreendia que a independência política deveria ser acompanhada da emancipação econômica. Defendia que as riquezas do Congo deveriam servir ao desenvolvimento e à dignidade do seu povo.

Ao incorporar Patrice Lumumba nas arquibancadas, Mboladinga não presta apenas uma homenagem a um personagem histórico. Sua performance constitui um ritual político de reafirmação da memória de um povo que continua lutando pela plena realização de sua soberania. Seu corpo converte-se em um monumento vivo que desafia o esquecimento e reinscreve, no presente, um projeto de emancipação africana interrompido pela violência colonial.

2.

Como observava Frantz Fanon, o colonialismo não desaparece quando as bandeiras são substituídas ou quando a independência formal é proclamada. Ele se reorganiza, assume novas linguagens e passa a operar por meio de instituições, normas jurídicas e dispositivos administrativos que preservam antigas hierarquias sob a aparência da legalidade. A dominação colonial deixa de se manifestar através da ocupação militar e passa a regular a circulação, a visibilidade e até mesmo o reconhecimento dos sujeitos colonizados.

Nesse sentido, as fronteiras contemporâneas constituem uma das expressões mais sofisticadas da colonialidade. Elas não delimitam apenas territórios; classificam pessoas. Decidem quais passaportes inspiram confiança e quais despertam suspeita, quais nacionalidades atravessam o mundo sem obstáculos e quais permanecem submetidas à vigilância permanente.

Os Estados Unidos se constituíram historicamente como uma nação através de sucessivas ondas migratórias, que inclui a trajetória familiar de diversas lideranças políticas, a exemplo do Donald Trump e de sua esposa, que é uma imigrante. O problema, portanto, nunca foi a imigração em si. A questão sempre foi quais corpos são considerados desejáveis e quais passam a ser tratados como ameaça.

Durante o governo de Donald Trump, consolidou-se um discurso que associa a imigração à criminalidade e à insegurança nacional. Embora apresentado como uma política universal de controle de fronteiras, seus efeitos recaem de maneira desproporcional sobre migrantes oriundos da América Latina, do Caribe e de diversos países africanos. A suspeita não se distribui igualmente entre todos os estrangeiros; ela incide sobretudo sobre corpos racializados, cujas origens os colocam em posições subalternizadas na geografia global do poder.

Mais do que uma política migratória, trata-se de um projeto de poder supremacista branco, marcado pela exclusão, pela retórica xenófoba e pela produção de inimigos externos. A fronteira deixa de ser apenas um instrumento de administração territorial para converter-se em mecanismo de distinção entre aqueles que podem circular livremente pelo mundo e aqueles cuja mobilidade precisa ser permanentemente controlada.

Foi exatamente essa racionalidade que Aimé Césaire denunciou ao afirmar que o colonialismo produziu uma forma de organizar o mundo fundada na desumanização dos povos colonizados e na naturalização das hierarquias raciais.

As fronteiras constituem uma das expressões mais evidentes dessa herança colonial. Sob o discurso da soberania e da segurança nacional, reproduzem-se antigas distinções entre aqueles cuja circulação é considerada legítima e aqueles cuja presença precisa ser continuamente justificada.

3.

A negativa do visto a Michel Mboladinga materializa essa lógica. Mesmo durante uma Copa do Mundo, apresentada cinicamente pela FIFA como uma celebração universal da fraternidade entre os povos, o direito de acompanhar sua seleção mostrou-se condicionado pelas mesmas hierarquias que organizam a circulação global de pessoas. A universalidade proclamada pelo esporte encontra seus limites quando confrontada com a realidade.

Mas, se Mboladinga não pôde atravessar para o território norte-americano, Patrice Lumumba atravessou! Durante a partida contra o Uzbequistão, outro torcedor congolês surgiu nas arquibancadas caracterizado como Patrice Lumumba. A substituição espontânea revela que a memória não pertence a um único indivíduo, mas a todo um povo.

Talvez essa tenha sido a imagem mais poderosa daquela noite: As autoridades migratórias conseguiram impedir a entrada de um homem. Porém, não conseguiram impedir a circulação de um símbolo.

Há uma dimensão profundamente simbólica nesta cena: Patrice Lumumba (1925-1961) foi o Fundador do Movimento Nacional Congolês (MNC), principal liderança contra o governo colonial belga. Tornou-se o primeiro primeiro-ministro da República do Congo após a independência, proclamada em 1960. Seu governo, entretanto, durou apenas cerca de três meses.

O golpe que destituiu Patrice Lumumba abriu caminho para a ascensão de Mobutu Sese Seko. Em 1961, Patrice Lumumba foi assassinado com a participação de autoridades congolesas separatistas e o envolvimento de agentes belgas, tornando-se um dos maiores símbolos da luta anticolonial e da soberania africana.

O corpo de Patrice Lumumba, foi dissolvido em ácido na tentativa de eliminar qualquer vestígio material de sua existência. Mas, a violência contra o corpo não conseguiu eliminar aquilo que ele representa. Sua memória sobreviveu como potência, deixando de habitar um indivíduo para constituir a memória de um povo que ainda luta pela sua soberania.

A presença de outro Patrice Lumumba nas arquibancadas demonstra que a memória de um povo não depende da autorização de consulados, da emissão de vistos ou da decisão de agentes migratórios. Quando apropriada coletivamente, ela passa a existir nos corpos, nas canções, nos gestos, nas performances e nos rituais cotidianos de resistência.

Enquanto a figura de Patrice Lumumba permanecia com seu braço estendido nas arquibancadas, a seleção congolesa também recusava outro destino. Depois de sair atrás no placar, virou a partida e conquistou uma classificação inédita para a fase eliminatória da Copa do Mundo. A vitória rompeu uma narrativa construída ao longo de décadas, segundo a qual o futebol africano estaria condenado ao papel de incapaz de disputar protagonismo com as tradicionais potências do esporte.

Dentro de campo, a seleção recusava a lógica da derrota anunciada. Fora dele, seus torcedores recusavam o esquecimento imposto pela colonialidade.

O significado desse feito torna-se ainda mais emblemático quando se recorda que esta é apenas a segunda participação da República Democrática do Congo em uma Copa do Mundo. A primeira ocorreu em 1974, quando o país ainda competia como Zaire, sob a ditadura de Mobutu Sese Seko, um dos regimes mais autoritários e violentos da história contemporânea africana.

Durante décadas, pouco se discutiu as condições políticas, a violência do regime e as pressões sofridas pelos jogadores. Permaneceram apenas as imagens da derrota. Cinquenta e dois anos depois, o Congo retorna ao cenário mundial escrevendo uma narrativa completamente diferente: a de uma seleção que conquista um marco esportivo inédito, um lugar entre as melhores equipes do torneio.

Ao final da partida, o Congo havia conquistado muito mais do que uma vaga nas oitavas de final. Demonstrou que a memória sobrevive à ausência e que nenhuma política migratória é capaz de controlar completamente aquilo que um povo decide lembrar. E lembra ao mundo que a luta anticolonial não termina com a independência política. Ela continua nas disputas pelo direito de narrar a própria história e de afirmar, contra todas as fronteiras, que nenhum povo aceitará ser definido para sempre pelo olhar de seus antigos colonizadores.

Patrice Lumumba não entrou nos Estados Unidos como torcedor. Entrou como resistência.

*Olivia da Rocha Robba é doutoranda em história social na Universidade Federal Fluminense (UFF).

*Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos é professor de história na Universidade Estadual de Goiás (UEG). Autor do livro Ciência peculiar de Joaquim Antonio Alves Ribeiro (Cancioneiro). [https://link.amazon/B0jhYijzV]

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