Da Revista Piaui, 10 de julho 2026
Danilo Marques: Caderno de apuração do repórter - Danilo Marques
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Cheguei a Salvador no fim de janeiro. Era minha primeira vez na cidade e, naquele dia, o céu estava tomado de nuvens cinza pesadas. O tempo combinava com a minha visita: mesmo que os soteropolitanos estivessem preparando as ruas para a festa de Iemanjá e para o Carnaval, a viagem não tinha a ver com nada celebrativo. Estava ali à procura de uma coisa mais cinzenta, mais contida e, no entanto, mais barulhenta.
Era como um monstro adormecido ou um zumbi mal enterrado, mas essas metáforas talvez sejam desnecessárias diante de um período de pleno horror, em que vigorou o comércio e o tráfico escravagista no mundo. Algumas semanas antes, o editor executivo Alcino Leite Neto me deu a tarefa de preparar uma reportagem contando a trajetória do AfrOrigens, um instituto composto de historiadores e arqueólogos que, em expedições subaquáticas, vinham desvelando segredos obscuros do tráfico negreiro. E lá estava eu, na capital baiana, para a apuração da reportagem Crime em alto-mar, publicada na edição_238, deste mês de julho (leia aqui).
Naquela semana, a organização promovia em instalações da Universidade Federal da Bahia um curso para estudantes e interessados em escavações debaixo d’água. A turma era mista: havia aspirantes a historiadores e a arqueólogos, quilombolas fluminenses e eu. Uma turma formada, em maioria, por mulheres negras na faixa dos 20 anos. Foi uma das primeiras coisas que anotei num caderninho, seguida de um catatau de conceitos que diziam respeito à arquitetura náutica. Hoje consigo discorrer sobre embarcações, diferenciando por exemplo brigues, de velas quadradas e usados para fins bélicos, das sumacas, de velas triangulares e uso comercial. Ambos foram utilizados para o tráfico por serem capazes de manobras rápidas e conseguirem se esquivar com mais facilidade da fiscalização nos mares).
No auditório onde aconteceu a aula de abertura do curso, estava reunida parte considerável dos personagens de que fui em busca:
Gilson Rambelli, com quem já tinha conversado por videoconferência. Um sessentão alto, jogador de basquete nas horas vagas. Um brasileiro que, em meados dos anos 2000, depois de assistir na TV Globo ao filme Amistad, teve um sonho curioso: encontrara um antigo navio negreiro naufragado. No dia seguinte, com destino à USP, onde fazia seu doutorado em arqueologia, bateu o olho numa banca de jornal e viu o Guia de naufrágios da Ilha Grande. Ficou abismado ao deparar-se com uma história misteriosa: o incêndio do navio negreiro Camargo, em Angra dos Reis, cujo paradeiro era incógnito.
Yuri Sanada, um cineasta autodidata com pretensões arqueológicas desde a infância. Esbarrou com essa mesma história do Camargo quando, depois de cruzar oceanos num veleiro, atracou seu barco na região de Santa Rita do Bracuí, onde os quilombolas lhe contaram sobre o brigue. Quis (como ainda quer) fazer um filme com aportes financeiros internacionais sobre aquele que é o último navio a desembarcar escravizados no Brasil, depois das duas leis que proibiam o tráfico.
Luis Felipe Santos. Um jovem rapaz, adotado academicamente por Gilson durante a graduação e presidente do AfrOrigens. Parecia-me notório que alguém de tão pouca idade, para o padrão universitário, estivesse à frente de tantas descobertas incendiárias. Era daqueles personagens saborosos: além de arqueólogo, também foi integrante de uma banda de punk-rock e faz esculturas em argila.
Era mais ou menos isso que estava anotado à mão numa folha de papel sulfite em que tentei organizar a linha narrativa que adotaria para contar uma história complexa, cheia de personagens, com altos e baixos. Afinal, tratava-se de quase duas décadas em busca de uma embarcação que poderia ter simplesmente desaparecido – o que significava uma perda relevante para a memória das travessias atlânticas que, há menos de dois séculos, aconteciam a todo vapor e a velas.
Já havia cobertura jornalística no Brasil sobre os personagens listados e o barulho que vinham fazendo, mas não como as reportagens que veículos americanos publicaram nos últimos anos sobre o grupo. A New Yorker e o Washington Post enviaram repórteres a Angra dos Reis para acompanharem os trabalhos. Era preciso, antes de tudo, encontrar um ângulo ainda não explorado pelos colegas do Norte. Nenhum dos dois dava conta do poder da família que encomendou aquela “carga” nem das ressonâncias presentes do “crime que não prescreveu”, como me disse Santos em uma conversa que tivemos logo depois de uma das aulas.
Era preciso, como método narrativo, localizar a escravidão no dia de ontem, como um passado não tão remoto. Por isso, adotei uma escolha logo no início da apuração (como geralmente faço, começo a escrever quando já tenho à mão o início e o fim de uma reportagem): nem abriria nem encerraria a matéria com episódios do passado, por mais tentadoras que fossem as cenas, com ares meio ficcionais, de tão épicas. Também decidi, junto do meu editor, que dedicaria parte considerável aos nomes dos bois – ou seja, a família Breves e seus asseclas do Império, que por tanto tempo fecharam os olhos para a atividade ilegal, ganhariam espaço de destaque. Acredito que, além dos heróis, é necessário também notabilizar os algozes.
Mas essa era apenas uma parte da história que eu contaria. Havia algo de novo: o grupo acabava de começar estudos de campo em torno de um outro navio, o Santo André, naufragado uma centena de anos antes do Camargo. Era uma nau (como aprendi, essa palavra geralmente é utilizada para designar embarcações comerciais) da Carreira da Índia, trajeto lido como exclusivamente comercial que, saindo de Portugal, parava em Goa, na Ásia, depois em Quelimane, em Moçambique e, por fim, em Salvador. Diferente do que se contou até agora, aqueles navios não traziam apenas açafrão e outras iguarias. Entre os restos daquele navio, estavam cauris, uma espécie dos famosos búzios, que eram utilizados em colônias africanas para compra e venda de escravizados. O que faziam ali? A resposta parece óbvia – e é mesmo. Mas abre um imenso buraco no que se repetiu até agora sobre o período, sobretudo na contagem dos corpos. E mais: esse dado é capaz de uma reinterpretação fulminante da história da navegação. Não se sabe até que ponto era comum que, em navios considerados comerciais, a tripulação trouxesse escravizados.
Assim como o paradeiro do Camargo, que ficou por tanto tempo ilocalizável, continua misterioso o número de vítimas do crime.
Como aquela turma, estava ali para aprender (acredito que, por essas e outras, o jornalismo é a profissão mais legal do mundo, como diz o meu colega João Batista Jr; toda apuração é uma baita oportunidade de aprendizagem) e também porque me parecia interessante mergulhar literalmente para escrever sem grandes distanciamentos sobre as atividades que estava acompanhando.
Quem mergulha tem de se preocupar com uma série de questões: a pressão que a água imprime sobre seus ouvidos pode estourar os tímpanos; o ar comprimido do cilindro de oxigênio, ocasionalmente, expande seus brônquios pulmonares a ponto de explodi-los; seus olhos ficam sensíveis à força com que as borrachas dos óculos subaquáticos vedam o pequeno espaço que separa suas vistas da água salgada e, como consequência, veias oculares ficam dilatadas – quando não estouram. Ouvi com atenção as recomendações de Sanada, que dali a vinte minutos me levaria para um primeiro mergulho.
Já no mar, mordi o bocal emborrachado que tornou possível que eu visse um imenso cardume de peixes vindo em minha direção, corais dançando e pequenos perigos como ouriços repousando nas pedras. Estava ali junto de outras vinte pessoas. Debaixo d’água, mas não muito distante da superfície, conseguia ver vários integrantes do grupo passando de um lado para o outro. Os detritos ali analisados não estão em museu nenhum e não estão expostos sob nenhuma explicação reducionista. Senti que estava muito perto de uma parte não domada da história, o tal monstro.
Cheguei a Salvador no fim de janeiro. Era minha primeira vez na cidade e, naquele dia, o céu estava tomado de nuvens cinza pesadas. O tempo combinava com a minha visita: mesmo que os soteropolitanos estivessem preparando as ruas para a festa de Iemanjá e para o Carnaval, a viagem não tinha a ver com nada celebrativo. Estava ali à procura de uma coisa mais cinzenta, mais contida e, no entanto, mais barulhenta.
Era como um monstro adormecido ou um zumbi mal enterrado, mas essas metáforas talvez sejam desnecessárias diante de um período de pleno horror, em que vigorou o comércio e o tráfico escravagista no mundo. Algumas semanas antes, o editor executivo Alcino Leite Neto me deu a tarefa de preparar uma reportagem contando a trajetória do AfrOrigens, um instituto composto de historiadores e arqueólogos que, em expedições subaquáticas, vinham desvelando segredos obscuros do tráfico negreiro. E lá estava eu, na capital baiana, para a apuração da reportagem Crime em alto-mar, publicada na edição_238, deste mês de julho (leia aqui).
Naquela semana, a organização promovia em instalações da Universidade Federal da Bahia um curso para estudantes e interessados em escavações debaixo d’água. A turma era mista: havia aspirantes a historiadores e a arqueólogos, quilombolas fluminenses e eu. Uma turma formada, em maioria, por mulheres negras na faixa dos 20 anos. Foi uma das primeiras coisas que anotei num caderninho, seguida de um catatau de conceitos que diziam respeito à arquitetura náutica. Hoje consigo discorrer sobre embarcações, diferenciando por exemplo brigues, de velas quadradas e usados para fins bélicos, das sumacas, de velas triangulares e uso comercial. Ambos foram utilizados para o tráfico por serem capazes de manobras rápidas e conseguirem se esquivar com mais facilidade da fiscalização nos mares).
No auditório onde aconteceu a aula de abertura do curso, estava reunida parte considerável dos personagens de que fui em busca:
Gilson Rambelli, com quem já tinha conversado por videoconferência. Um sessentão alto, jogador de basquete nas horas vagas. Um brasileiro que, em meados dos anos 2000, depois de assistir na TV Globo ao filme Amistad, teve um sonho curioso: encontrara um antigo navio negreiro naufragado. No dia seguinte, com destino à USP, onde fazia seu doutorado em arqueologia, bateu o olho numa banca de jornal e viu o Guia de naufrágios da Ilha Grande. Ficou abismado ao deparar-se com uma história misteriosa: o incêndio do navio negreiro Camargo, em Angra dos Reis, cujo paradeiro era incógnito.
Yuri Sanada, um cineasta autodidata com pretensões arqueológicas desde a infância. Esbarrou com essa mesma história do Camargo quando, depois de cruzar oceanos num veleiro, atracou seu barco na região de Santa Rita do Bracuí, onde os quilombolas lhe contaram sobre o brigue. Quis (como ainda quer) fazer um filme com aportes financeiros internacionais sobre aquele que é o último navio a desembarcar escravizados no Brasil, depois das duas leis que proibiam o tráfico.
Luis Felipe Santos. Um jovem rapaz, adotado academicamente por Gilson durante a graduação e presidente do AfrOrigens. Parecia-me notório que alguém de tão pouca idade, para o padrão universitário, estivesse à frente de tantas descobertas incendiárias. Era daqueles personagens saborosos: além de arqueólogo, também foi integrante de uma banda de punk-rock e faz esculturas em argila.
Era mais ou menos isso que estava anotado à mão numa folha de papel sulfite em que tentei organizar a linha narrativa que adotaria para contar uma história complexa, cheia de personagens, com altos e baixos. Afinal, tratava-se de quase duas décadas em busca de uma embarcação que poderia ter simplesmente desaparecido – o que significava uma perda relevante para a memória das travessias atlânticas que, há menos de dois séculos, aconteciam a todo vapor e a velas.
Já havia cobertura jornalística no Brasil sobre os personagens listados e o barulho que vinham fazendo, mas não como as reportagens que veículos americanos publicaram nos últimos anos sobre o grupo. A New Yorker e o Washington Post enviaram repórteres a Angra dos Reis para acompanharem os trabalhos. Era preciso, antes de tudo, encontrar um ângulo ainda não explorado pelos colegas do Norte. Nenhum dos dois dava conta do poder da família que encomendou aquela “carga” nem das ressonâncias presentes do “crime que não prescreveu”, como me disse Santos em uma conversa que tivemos logo depois de uma das aulas.
Era preciso, como método narrativo, localizar a escravidão no dia de ontem, como um passado não tão remoto. Por isso, adotei uma escolha logo no início da apuração (como geralmente faço, começo a escrever quando já tenho à mão o início e o fim de uma reportagem): nem abriria nem encerraria a matéria com episódios do passado, por mais tentadoras que fossem as cenas, com ares meio ficcionais, de tão épicas. Também decidi, junto do meu editor, que dedicaria parte considerável aos nomes dos bois – ou seja, a família Breves e seus asseclas do Império, que por tanto tempo fecharam os olhos para a atividade ilegal, ganhariam espaço de destaque. Acredito que, além dos heróis, é necessário também notabilizar os algozes.
Mas essa era apenas uma parte da história que eu contaria. Havia algo de novo: o grupo acabava de começar estudos de campo em torno de um outro navio, o Santo André, naufragado uma centena de anos antes do Camargo. Era uma nau (como aprendi, essa palavra geralmente é utilizada para designar embarcações comerciais) da Carreira da Índia, trajeto lido como exclusivamente comercial que, saindo de Portugal, parava em Goa, na Ásia, depois em Quelimane, em Moçambique e, por fim, em Salvador. Diferente do que se contou até agora, aqueles navios não traziam apenas açafrão e outras iguarias. Entre os restos daquele navio, estavam cauris, uma espécie dos famosos búzios, que eram utilizados em colônias africanas para compra e venda de escravizados. O que faziam ali? A resposta parece óbvia – e é mesmo. Mas abre um imenso buraco no que se repetiu até agora sobre o período, sobretudo na contagem dos corpos. E mais: esse dado é capaz de uma reinterpretação fulminante da história da navegação. Não se sabe até que ponto era comum que, em navios considerados comerciais, a tripulação trouxesse escravizados.
Assim como o paradeiro do Camargo, que ficou por tanto tempo ilocalizável, continua misterioso o número de vítimas do crime.
Como aquela turma, estava ali para aprender (acredito que, por essas e outras, o jornalismo é a profissão mais legal do mundo, como diz o meu colega João Batista Jr; toda apuração é uma baita oportunidade de aprendizagem) e também porque me parecia interessante mergulhar literalmente para escrever sem grandes distanciamentos sobre as atividades que estava acompanhando.
Quem mergulha tem de se preocupar com uma série de questões: a pressão que a água imprime sobre seus ouvidos pode estourar os tímpanos; o ar comprimido do cilindro de oxigênio, ocasionalmente, expande seus brônquios pulmonares a ponto de explodi-los; seus olhos ficam sensíveis à força com que as borrachas dos óculos subaquáticos vedam o pequeno espaço que separa suas vistas da água salgada e, como consequência, veias oculares ficam dilatadas – quando não estouram. Ouvi com atenção as recomendações de Sanada, que dali a vinte minutos me levaria para um primeiro mergulho.
Já no mar, mordi o bocal emborrachado que tornou possível que eu visse um imenso cardume de peixes vindo em minha direção, corais dançando e pequenos perigos como ouriços repousando nas pedras. Estava ali junto de outras vinte pessoas. Debaixo d’água, mas não muito distante da superfície, conseguia ver vários integrantes do grupo passando de um lado para o outro. Os detritos ali analisados não estão em museu nenhum e não estão expostos sob nenhuma explicação reducionista. Senti que estava muito perto de uma parte não domada da história, o tal monstro.

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