Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR*
![]() |
1.
O voto é o instante em que o povo aparece. Não aparece inteiro, nem livre das marcas da história. Aparece como pode: atravessado pela renda, pela dívida, pela religião, pelo medo, pela violência, pela memória, pela fome, pela esperança curta e pela suspeita de que, mais uma vez, o futuro será adiado. Ainda assim, aparece. E esse aparecimento importa. Nenhuma crítica séria à democracia brasileira pode diminuir a importância do voto, porque, em sociedades marcadas por desigualdade profunda, votar continua sendo uma das poucas ocasiões em que os de baixo interrompem, mesmo que por instantes, o monólogo dos de cima.
Mas o problema brasileiro nunca foi apenas votar. O problema sempre foi transformar voto em poder histórico. A eleição de 2026 recoloca essa contradição em sua forma mais aguda. O país será convocado a escolher o governo, a defender a democracia, a conter a herança autoritária, a impedir a recomposição aberta do fascismo social e a preservar um mínimo de institucionalidade. Nada disso é pequeno. O voto poderá barrar a catástrofe. Poderá evitar que o ressentimento social, a moralização seletiva da corrupção, o antipetismo religioso e a extrema direita familiarizada com a destruição ocupem o centro formal do poder.
Mas a pergunta decisiva é outra: depois que o povo vota, quem governa a estrutura?
Essa pergunta desloca a eleição de 2026 da superfície eleitoral para a longa duração da dependência brasileira. Não se trata apenas de saber quem vencerá. Trata-se de saber em que condições sociais, econômicas, parlamentares, midiáticas, jurídicas, policiais e financeiras o vencedor governará. A eleição brasileira nunca é apenas disputa entre candidaturas. Ela é também teste histórico de uma formação social que mudou muitas vezes sem se transformar plenamente. Mudaram regimes, Constituições, partidos, tecnologias políticas e formas de comunicação. Persistiram cidadania incompleta, medo da participação popular, tutela estatal, desigualdade naturalizada, conciliação pelo alto, dependência externa, racismo estrutural e captura do fundo público.
Por isso, em 2026, o voto deve ser compreendido como ato político situado no interior de uma democracia dependente. A democracia dependente é aquela em que a soberania popular existe formalmente, mas opera cercada por poderes que antecedem, atravessam e sucedem a urna. O eleitor escolhe o governo, mas não escolhe sozinho o regime de acumulação, a forma da dívida, a política monetária, a estrutura tributária, o comando do orçamento, a propriedade da terra, a organização da mídia, a lógica das plataformas, o funcionamento das polícias, a captura do fundo público e a temporalidade concreta da vida social.
O voto decide a cena governamental; a dependência tenta decidir o campo do possível. Esse é o núcleo do problema. O voto popular de 2026 será indispensável, mas não será plenamente soberano se não conseguir produzir duração histórica. Ele poderá impedir a regressão aberta, mas poderá também ser absorvido por uma nova conciliação oligárquico-financeira. Poderá defender a democracia, mas deixar intacto o mecanismo que a esvazia por dentro. Poderá derrotar eleitoralmente o autoritarismo e, ao mesmo tempo, preservar as condições sociais que o reproduzem.
2.
O Brasil ocupa posição singular na América Latina. Não é a dependência mais brutal em sua aparência imediata, nem a mais frágil institucionalmente, nem a mais simples em sua arquitetura econômica. É mais grave: talvez seja a dependência mais bem acabada do continente, porque aprendeu a se reproduzir sem precisar negar inteiramente a democracia. O país concede voto, organiza eleições regulares, preserva instituições, produz alternância, reconhece direitos e fala a linguagem da Constituição. Ao mesmo tempo, mantém intactos os mecanismos que impedem a soberania popular de se converter em comando efetivo sobre orçamento, dívida, fundo público, propriedade, mídia, segurança, trabalho e futuro.
A dependência brasileira não se afirma contra a democracia; afirma-se por dentro dela. Essa é sua sofisticação. O país não é atrasado porque não tenha instituições. É dependente porque suas instituições foram historicamente educadas para administrar o limite. O Estado brasileiro não fracassa apenas quando não funciona. Muitas vezes, ele funciona exatamente para conservar a desigualdade que deveria enfrentar. Organiza procedimentos, estabiliza pactos, distribui favores, regula conflitos e transforma direitos em concessões condicionadas. Sua modernidade está no modo como preserva o arcaico sem precisar nomeá-lo.
A forma brasileira da dependência é superiormente perigosa porque transforma o voto em rito de soberania e, ao mesmo tempo, preserva os dispositivos que impedem a soberania de governar. O país deixa o povo entrar na urna, mas evita que ele entre plenamente no orçamento. Reconhece a cidadania, mas condiciona sua materialização à paciência fiscal. Promete direitos, mas os submete ao humor do mercado, à barganha parlamentar, à narrativa midiática, à violência policial e à chantagem permanente da dívida. Fala em povo, mas governa pela administração técnica do povo.
No Brasil, a dependência não fracassa por falta de democracia; ela se realiza pela administração democrática do limite. Concede o momento da escolha e restringe o tempo da transformação. Permite que o povo diga quem deve governar, mas cerca o que esse governo poderá fazer quando tocar na propriedade, na dívida, na mídia, na segurança, na tributação, no fundo público e na distribuição efetiva do tempo social.
Essa é a diferença entre democracia como procedimento e democracia como forma de vida histórica. A primeira organiza eleições. A segunda reorganiza a sociedade. O Brasil se acostumou a celebrar a primeira e adiar a segunda. Em 2026, esse adiamento poderá cobrar novo preço.
3.
O eleitor que chegará à urna em 2026 não será o cidadão abstrato da teoria liberal. Será o trabalhador precarizado que calcula o preço do gás, o motorista por aplicativo que confunde autonomia com exaustão, a mãe endividada que transforma cartão de crédito em política de sobrevivência, o jovem sem horizonte que encontra na extrema direita uma linguagem de raiva, o aposentado assustado com a insegurança, o servidor público pressionado pela austeridade, o estudante que vê a universidade como promessa frágil, o morador de periferia que conhece o Estado antes pela polícia do que pelo direito. O voto condensa essas experiências. Ele não expressa apenas opinião; expressa posição histórica.
A cidadania brasileira é incompleta porque o direito chegou antes da igualdade. O país formalizou a cidadania sem universalizar suas condições de uso. A Constituição prometeu universalidade, mas a vida social distribuiu desigualmente o acesso real à promessa constitucional. A urna iguala formalmente os votos, mas não iguala a vida que antecede o voto.
O povo brasileiro é chamado a votar, mas raramente é chamado a decidir a estrutura. Participa da cerimônia, mas não necessariamente do contrato. A história nacional aprendeu a aceitar o povo como eleitor e a temê-lo como força constituinte. O povo é reconhecido como número e negado como sujeito histórico.
A dependência estreita o campo das escolhas. Não elimina a política; se eliminasse, eleição nenhuma importaria. Mas condiciona, limita, organiza, antecipa e bloqueia. A dependência brasileira não é apenas relação externa entre centro e periferia. É forma interna de organização da economia, do Estado, da cultura, da linguagem e da imaginação pública. Ela define o que é considerado responsável, possível, moderno, aceitável, técnico e inevitável. É por isso que, mesmo quando o país vota, a soberania aparece sob vigilância.
Em 2026, essa vigilância terá muitos nomes. Chamará-se mercado, taxa de juros, dívida pública, câmbio, arcabouço fiscal, risco país, governabilidade, emendas parlamentares, estabilidade institucional, segurança jurídica, confiança dos investidores, equilíbrio das contas, responsabilidade macroeconômica. Nenhuma dessas palavras é neutra. Todas operam como formas de delimitação do futuro. Não se trata de negar a importância das contas públicas ou da estabilidade econômica. Trata-se de perguntar quem define o sentido dessas palavras, quem paga o preço de sua aplicação e que projeto de sociedade elas autorizam ou interditam.
Aqui se revela a primeira forma do voto sitiado: o eleitor vota no governo, mas a dependência tenta votar todos os dias no interior do governo eleito. A democracia tem calendário; a financeirização tem metabolismo. Quem controla o tempo controla o alcance da democracia.
4.
O pacto oligárquico brasileiro se modernizou. Antes bloqueava diretamente a entrada do povo. Agora administra sua entrada para impedir que ela se converta em poder histórico. A oligarquia contemporânea aprendeu a conviver com eleições, políticas sociais limitadas, linguagem democrática, diversidade controlada e inclusão por consumo. O que ela não aceita é que o povo governe a estrutura.
Essa nova forma do pacto combina cinco elementos: Congresso-orçamento, mercado-dívida, mídia-plataforma, judicialização seletiva e segurança como gramática social.
A democracia deixa de ser promessa de transformação e passa a ser técnica de contenção do conflito. O risco de 2026 está precisamente aí: uma vitória democrática pode ser convertida em vitória defensiva. O resultado seria uma democracia defendida contra o fascismo, mas administrada em favor da ordem.
Preservar instituições é necessário. Mas, se as instituições preservadas continuarem a operar como máquinas de bloqueio do futuro popular, a democracia sobreviverá formalmente e continuará se esvaziando materialmente. O povo é convocado para salvar a democracia, mas depois é convidado a esperar. Esperar a correlação de forças melhorar. Esperar o mercado acalmar. Esperar o Congresso aceitar. Esperar a dívida permitir. Esperar o futuro amadurecer. O Brasil é uma pedagogia da espera. E a espera, quando se torna forma de governo, é dependência em estado puro.
5.
A extrema direita não desapareceu. Ela aprendeu. Esse é outro ponto decisivo para 2026. Não se trata apenas de medir candidaturas, herdeiros, apoios familiares, transferências de voto ou índices de rejeição. Trata-se de compreender que a extrema direita encontrou uma linguagem para organizar sofrimento social. Ela oferece ordem a quem vive insegurança, pertencimento a quem se sente abandonado, inimigos a quem perdeu horizonte, moral simples a quem enfrenta complexidade insuportável, autoridade a quem experimenta desamparo, ressentimento a quem não encontra mediação política para sua dor.
A esquerda frequentemente responde com razão programática, defesa institucional e memória das conquistas sociais. Tudo isso é necessário, mas pode ser insuficiente se não tocar a experiência cotidiana do futuro bloqueado. A extrema direita não inventa o sofrimento. Ela o traduz regressivamente.
É aqui que a dependência aparece também como forma subjetiva. O voto de 2026 será disputado nesse campo afetivo. A democracia não poderá vencer apenas dizendo que o autoritarismo é perigoso. Precisará demonstrar que a vida pode durar.
Sem duração social, a democracia vira evento. A cada quatro anos, convoca o povo para impedir o pior. Depois, devolve-o à urgência. Essa repetição corrói a crença democrática. Não porque o povo seja incapaz de compreender a política, mas porque compreende demais a distância entre voto e vida. A experiência popular sabe quando a democracia se realiza apenas como discurso. Sabe quando a eleição muda o governo, mas não muda o tempo.
6.
A eleição de 2026 será também uma disputa pela linguagem. Quem define o sentido de democracia, povo, liberdade, família, trabalho, corrupção, segurança, soberania, responsabilidade e futuro conquista parte decisiva da batalha política. No Brasil, muitas palavras foram capturadas.
A dependência opera também nesse nível. Ela coloniza a linguagem do possível. Faz parecer radical aquilo que é elementar e responsável aquilo que é cruel. Quando a linguagem é capturada, o voto também é capturado, porque o eleitor passa a escolher dentro de palavras já domesticadas.
A tarefa crítica consiste em devolver densidade histórica às palavras. Democracia não pode ser apenas procedimento. Precisa significar ampliação concreta da capacidade popular de decidir o destino coletivo. Soberania não pode ser apenas defesa abstrata da nação. Precisa significar controle social sobre orçamento, crédito, energia, território, conhecimento, tecnologia, comunicação e tempo.
O futuro é a categoria mais concreta da política. Sem futuro, o voto se empobrece. Vira defesa imediata, cálculo de dano, escolha do mal menor, gesto de contenção. Em determinadas conjunturas, conter o pior é necessário. Nenhum pensamento responsável despreza isso. Mas uma sociedade que vota sempre apenas para conter o pior começa a perder a capacidade de imaginar o melhor. E quando o melhor desaparece do horizonte, o pior retorna com outra máscara.
A dependência bloqueia o futuro porque submete o tempo social ao tempo da valorização financeira. O capital fictício antecipa riqueza futura e a transforma em exigência presente. A dívida captura o amanhã. A vida popular é comprimida entre urgência e espera. Urgência para sobreviver; espera para ter direitos. Essa é a temporalidade da dependência no século XXI.
A democracia só recupera sentido quando responde a essas perguntas. A democracia precisa ser medida pelo tempo que devolve à sociedade.
O Brasil talvez esteja diante de sua velha astúcia histórica: chama o povo às urnas quando a casa ameaça incendiar, mas entrega a chave da casa aos mesmos administradores do incêndio. A democracia aparece como salvação; a oligarquia, como condição da salvação. O voto barra o abismo, mas não reconstrói a ponte. E, enquanto a ponte não for reconstruída, cada eleição será menos uma escolha de futuro do que uma operação de resgate do presente.
Não se trata de fatalismo. A dependência não é destino natural. É relação histórica, forma de poder, linguagem, instituição, pedagogia e imaginação. Por isso, também pode ser desfeita.
A eleição de 2026 terá importância decisiva. O voto poderá conter a herança autoritária e impedir que a extrema direita converta ressentimento em governo. Mas a tarefa crítica é não confundir contenção com emancipação. Conter o autoritarismo é condição. Superar a dependência é horizonte. Entre uma coisa e outra está a política.
Em 2026, a pergunta decisiva não será apenas quem governará o Brasil. Será se o povo, chamado mais uma vez a salvar a democracia, poderá finalmente começar a governar o tempo histórico que a dependência lhe roubou. O Brasil irá às urnas carregando sua história: escravidão não reparada, abolição incompleta, república tutelar, medo das elites, conciliação, dívida, racismo, precarização, universidade ameaçada, juventude sem horizonte, extrema direita reorganizada e esperança teimosa de um povo que, apesar de tudo, ainda vota.
O voto é pouco diante da dependência. Mas sem ele, a dependência governa sem intervalo. O desafio é transformar esse intervalo em travessia.
*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP].

Nenhum comentário:
Postar um comentário