Por PENILDON SILVA FILHO*
A inflexão na política de defesa sinaliza a urgência de um projeto de nação soberano, capaz de confrontar pressões externas e superar a lógica do rentismo.
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| Imagem: Alora Griffiths |
A inflexão na política de defesa sinaliza a urgência de um projeto de nação soberano, capaz de confrontar pressões externas e superar a lógica do rentismo.
1.
No último dia 26 de junho de 2026, em Itajaí, Santa Catarina, o presidente Lula fez uma declaração que ecoou muito além das águas onde foi lançada a fragata Cunha Moreira. Ao afirmar que a defesa nacional e a soberania nacional são prioridades estratégicas para o Brasil, o presidente promoveu uma inflexão significativa no discurso. O lançamento da nova fragata, que integra o programa de classe Tamandaré, projetado para proteger a Amazônia Azul, tornou-se o palco para o que se revela como uma verdadeira mudança de rota.
Pela primeira vez com tanta ênfase, um governo de origem de esquerda, mas que agora está numa frente ampla progressista, coloca a defesa nacional ao lado da inteligência artificial, do investimento em Educação, Saúde, desenvolvimento econômico e transição energética e ecológica como pilares fundamentais. Trata-se de uma virada não apenas retórica, mas simbólica e estratégica, fruto de uma conjuntura internacional que exige reposicionamentos.
Essa declaração não ocorre no vazio. Ela surge em meio a um cenário internacional convulsionado, após o presidente dos Estados Unidos publicar em sua rede social que a eleição brasileira seria “o próximo desafio” para seu país. O contexto inclui derrotas eleitorais de forças de esquerda e centro-esquerda no Peru e na Colômbia, além de movimentações explícitas do candidato de oposição Flávio Bolsonaro, que chegou a oferecer para os Estados Unidos, em reunião com Donald Trump, uma participação em uma eventual comissão de transição, caso ele vença as eleições no Brasil neste ano.
O mundo não é mais o mesmo da década de 1990. O eixo econômico mundial está transitando do Ocidente para o Oriente e para o “Sul Global”. Os BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai já reúnem um PIB, população e recursos naturais superiores aos do G7. A China caminha para se tornar a maior potência econômica global nos próximos anos, enquanto as estruturas de governança internacional, ONU, FMI, Banco Mundial, mostram-se obsoletas diante de uma realidade multipolar.
Não vivemos mais sob a hegemonia de uma única superpotência. O momento atual caracteriza-se pela emergência de múltiplos centros de poder. O que provoca instabilidade não é propriamente a ascensão do Sul Global, mas a reação do império em descenso, que, como em outros momentos históricos, resiste em aceitar um declínio.
2.
A estratégia do imperialismo estadunidense em sua fase de perda de espaço tem se manifestado de diversas formas: desestabilização interna das nações rivais, apoio ao fundamentalismo religioso, estímulo ao neofascismo e à polarização política, intervenções da CIA, além de ações militares diretas. Desde o início do século XXI, testemunhamos a destruição de Estados nacionais como o Iraque, Afeganistão, Líbia e a corrosão do Estado sírio até a sua destruição.
O caso da Líbia é particularmente emblemático: país com o maior IDH da África e serviços públicos robustos, transformado num território sem governança, dominado pelo tráfico de armas e de seres humanos, e por facções fundamentalistas.
O Ocidente também estimulou o conflito na Ucrânia. Antes da guerra, a Ucrânia havia anunciado a intenção de instalar mísseis nucleares em seu território, muito próximos de Moscou. O bloco estadunidense promoveu ou tolerou a guerra genocida contra a Palestina e tenta cercar a China, estimulando separatismo em Taiwan, armando a ilha e apoiando pretensões imperialistas do Japão e um conflito das Filipinas com a China.
Em contrapartida, a estratégia do Sul Global, consubstanciada especialmente pelos BRICS e pela Organização de Cooperação de Xangai, aposta no caminho oposto: coesão social interna, programas de inclusão, crescimento econômico com distribuição de renda, ações afirmativas, valorização da diversidade cultural, e uma cooperação externa para um “futuro comum” ou “compartilhado”, com muitos investimentos de infraestrutura e aumento do comércio.
Nessa nova conjuntura, o Brasil já se firmou como uma liderança nos BRICS e articulador de reformas nas instituições internacionais. Defende o fortalecimento e a reforma da ONU, a substituição do dólar por outras moedas no comércio, articula alianças econômicas que superem o neoliberalismo e defende um modelo de desenvolvimento que combata o capitalismo rentista.
Mas essa posição de protagonismo também o torna alvo. A desestabilização do processo eleitoral para derrotar o governo Lula pode se dar por diversos meios: financiamento estadunidense a candidaturas de oposição, ou mesmo intervenção militar direta. Os EUA já construíram um álibi ao classificar grupos criminosos internos como “terroristas”, mesma estratégia utilizada para justificar a intervenção na Venezuela, onde o presidente foi sequestrado sob a acusação de ligação com o crime organizado, depois desmentida pela própria justiça americana, com a subsequente revelação do verdadeiro interesse: o petróleo venezuelano.
3.
Nesse sentido, a fala de Lula sobre soberania nacional não é meramente retórica. É um alerta e um chamado à ação. O Brasil, porém, não é a China. Enquanto o gigante asiático passou por um processo revolucionário que criou coesão interna e um bloco histórico de classes e frações de classes capaz de sustentar um Estado forte, planejador e indutor do desenvolvimento, o Brasil vive uma realidade distinta.
Embora Lula tenha feito uma aliança com o vice-presidente Geraldo Alckmin, representante do setor capitalista industrial paulista, na expectativa de construir um bloco que reúna trabalhadores e empresários comprometidos com a economia real, a vitória eleitoral não se traduziu em hegemonia no Congresso, maioria de governadores ou apoio amplamente majoritário da sociedade.
A mídia brasileira segue priorizando e defendendo a pauta econômica do capital rentista e o alinhamento com os interesses estadunidenses. O parlamento federal não garante estabilidade ao governo. A tarefa de construir um projeto de nação com características estratégicas de longo prazo é, portanto, monumental.
Isso não significa que nada foi feito. O programa Nova Indústria Brasil, os investimentos em capital produtivo, o fortalecimento da aliança com os BRICS e com a China, e o crescente sentimento nacionalista (impulsionado pela guerra comercial dos EUA contra o Brasil) são sinais positivos. Mas ainda são insuficientes.
Para que o Brasil possa de fato se firmar como potência soberana, algumas tarefas são urgentes. Primeiro, mudar a correlação de forças dentro do Estado brasileiro. Não basta eleger o presidente da República; é necessário eleger maioria no Congresso, maioria dos governadores, das assembleias legislativas. É preciso construir um bloco histórico que seja maioria social, política e institucional, capaz de implementar um projeto de nação.
Em segundo lugar, aprofundar a estratégia de internacionalização do Sul Global, especialmente a relação com a China, com os BRICS, com a América Latina e posteriormente com a África.
Mas também precisará, em terceiro, calibrar a política econômica. Com o arcabouço fiscal atual, com metas de inflação irreais e juros estratosféricos da dívida pública, o Brasil frequentemente ocupa o primeiro ou segundo lugar em juros reais no mundo. Essa fórmula sufoca a economia, alimenta o capital rentista e inviabiliza investimentos públicos pelo Estado. As metas de inflação e de superávit primário precisam ser revistas, para que a riqueza produzida pelo país possa financiar a reindustrialização, o consumo interno e políticas públicas nas áreas de saúde, educação, ciência, tecnologia e inovação, segurança pública e defesa.
4.
Em quarto, investir na chamada quarta revolução industrial. O Brasil precisa deixar de ser exportador de matéria-prima barata. É necessário agregar valor a produtos agrícolas e minerais, reindustrializar-se sob um novo modelo, com a indústria digital, a indústria da transição socioecológica, a biotecnologia, que tem o conhecimento como principal valor econômico. A integração da hélice quádrupla (governo, empresas, universidades, sociedade) é fundamental nesse processo.
O aceno de Lula no lançamento da fragata é significativo também por incorporar os militares ao projeto nacional. Não se trata de subordinação política, mas de alinhamento com os interesses soberanos do país. Muitos militares já percebem a necessidade de fortalecer o parque industrial interno e a capacidade de defesa nacional.
Nesse grande projeto de desenvolvimento nacional, cabe ao Estado, às empresas comprometidas com o projeto nacional, às universidades, aos militares e aos movimentos sociais uma atuação integrada. O que já está em andamento com editais da Finep que estimulam a relação universidade-empresa e o programa Nova Indústria Brasil, precisa ser burilado, ampliado e desconcentrado regionalmente.
A declaração de Lula representa mais do que um discurso. É um reconhecimento de que o Brasil precisa se posicionar com firmeza, defendendo seus interesses nacionais em um cenário geopolítico de alta complexidade. A contraposição hoje é entre os que defendem a soberania, a reindustrialização verde e justa, o Estado forte, o fortalecimento do Sul Global, a inclusão social forte e ampla e o outro lado que subordina o Brasil aos interesses do império decadente. Mas também é entre o desenvolvimento econômico forte e o outro lado do capital rentista.
Se o Brasil conseguir cumprir essas tarefas, construir a hegemonia, reformar sua política econômica, reindustrializar-se com base no conhecimento, fortalecer sua defesa nacional e cultivar alianças estratégicas internacionais, poderá evitar tornar-se uma neocolônia e assumir seu lugar como protagonista no novo mundo que emerge.
O lançamento da fragata Cunha Moreira não é apenas um evento naval; é mais um símbolo de um despertar necessário. A soberania nacional toma força no centro do debate brasileiro. E dela depende nosso futuro como nação.
*Penildon Silva Filho é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

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