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Notas sobre a medicina tradicional chinesa

Do A Terra É Redonda, 8 de julho 2026
Por SIT TSUI & LAU KIN CHI*



Imagem: Danny Chen

A eficácia clínica de uma tradição milenar não basta para desmontar o monopólio epistemológico e econômico que a mantém à margem

A crise sanitária causada pela COVID-19 levou o Estado e a população chinesa a recorrer massivamente à medicina tradicional chinesa como estratégia complementar e fundamental de combate à epidemia. Seu valor não se restringe apenas à eficácia clínica dos fitoterápicos, mas reside numa filosofia de vida alternativa, oposta à lógica capitalista centrada na competição pela sobrevivência e na busca exclusiva por lucro.

A medicina tradicional chinesa baseia-se na harmonia entre ser humano e natureza, no equilíbrio yin-yang e nas relações sociais reciprocas, princípios que entram em choque com o modelo médico ocidental industrializado.

Ao longo de um século, essa tradição milenar foi submetida à hegemonia do saber científico europeu, mas nunca perdeu sua vitalidade nas comunidades locais. Ela se revelou decisiva em surtos anteriores: encefalite B nos anos 1950, malária nos anos 1970 e SARS em 2003. A pandemia de coronavírus reafirmou sua resiliência, mas também expôs as barreiras estruturais que impedem seu reconhecimento pleno em um sistema sanitário global controlado por corporações farmacêuticas transnacionais e instituições filantrópicas ocidentais. O presente trabalho defende que a recuperação das medicinas tradicionais do Sul Global é uma via essencial para descolonizar os espaços de saúde.

A revitalização da medicina tradicional chinesa durante a COVID-19

Quando não existiam fármacos ocidentais eficazes contra o coronavírus, a medicina tradicional chinesa voltou ao centro das políticas públicas chinesas, graças ao seu custo baixo, ao acesso popular e à sabedoria acumulada ao longo de milênios. Durante a primeira fase da epidemia em Wuhan, 91,5% dos casos confirmados no país (74.187 pacientes) receberam tratamento com recursos da medicina tradicional chinesa. Dentre os mais de 8.400 pacientes recuperados analisados por autoridades sanitárias, cerca de 40% foram atendidos com a combinação entre medicina ocidental e tradicional.

O conjunto conhecido como “três medicamentos e três fórmulas” tornou-se referência nacional: os remédios industrializados Jinhua Qinggan, Lianhua Qingwen e Xuebijing, somados às decocções Qingfei Paidu, Huashi Baidu e Xuanfei Baidu. Todos foram desenvolvidos a partir de receitas clássicas da medicina tradicional chinesa e apresentaram taxa de eficácia superior a 90% para aliviar sintomas, impedir a evolução de casos leves para graves, reduzir mortalidade e acelerar a reabilitação.

A decocção Qingfei Paidu merece destaque: em 2020, foram produzidos 390 mil caixas de decocção e 500 mil granulos para distribuição gratuita em hospitais e centros de quarentena de Hubei, com custo de apenas 100 RMB para um tratamento de três dias.

Esse valor contrasta brutalmente com os antivirais ocidentais importados. O Paxlovid da Pfizer custava cerca de 3.810 RMB por ciclo de cinco dias, o Molnupiravir da Merck chegava a 5.033 RMB e medicamentos da GSK ultrapassavam os 15 mil RMB. Em termos comparativos, os remédios ocidentais chegavam a ser até 140 vezes mais caros que a Qingfei Paidu. Ainda assim, esses fármacos foram rapidamente incorporados ao protocolo oficial de tratamento chinês, mesmo com a comprovação da eficiência e acessibilidade da medicina tradicional chinesa.

Além dos fitoterápicos, práticas corporais tradicionais como tai chi, os oito movimentos de seda, acupuntura e massagem foram integradas ao protocolo nacional de recuperação pós-COVID. Em 2022, a Organização Mundial de Saúde organizou uma reunião de especialistas para avaliar a medicina tradicional chinesa no tratamento da doença, elogiando seu papel e recomendando ensaios clínicos internacionais para comprovar seus benefícios. Apesar desse reconhecimento internacional, a medicina tradicional chinesa permanece numa posição subalterna, fruto de uma história de mais de cem anos de opressão cultural e institucional.

O declínio centenário da medicina tradicional chinesa

A medicina tradicional chinesa possui uma história de entre 8 mil e 10 mil anos, com registros de diagnósticos e tratamentos em ossos oraculares de 3,5 mil anos atrás. O Huangdi Neijing, a obra base da disciplina, foi compilado entre os séculos V e II a.C., enquanto o Compêndio de matéria médica reúne milhares de espécies vegetais e animais com fins terapêuticos. Ao longo de 2.681 anos de registros epidêmicos (770 a.C. a 1911 d.C.), houve 669 surtos de doenças contagiosas na China, e a medicina tradicional chinesa sempre foi a principal ferramenta de defesa da população.

Contudo, a partir do século XIX, ela começou a ser desvalorizada. Após as guerras do Ópio, as potências europeias e os Estados Unidos impuseram uma narrativa de superioridade cultural ocidental. Missionários médicos, como Peter Parker, usaram a assistência sanitária como instrumento de evangelização e dominação política. A Fundação Rockefeller foi uma peça-chave desse processo: a partir dos anos 1920, investiu cerca de 45 milhões de dólares na ocidentalização da medicina chinesa, construindo a Faculdade de Medicina da União de Pequim e formando profissionais alinhados ao modelo médico norte-americano. Seu objetivo não era ampliar o acesso à saúde, mas monopolizar o mercado farmacêutico chinês e enfraquecer as referências culturais locais.

Internamente, a repressão institucional começou na República da China. Em 1912, o Ministério da Educação excluiu o ensino da medicina tradicional chinesa do sistema público; em 1929, o médico alinhado ao modelo ocidental Yu Yunxiu propôs o “Projeto de abolição da medicina antiga”. A mobilização massiva de profissionais tradicionais forçou o governo a suspender a medida, e o dia 17 de março passou a ser celebrado como o dia da medicina tradicional chinesa, mas a disciplina nunca conquistou igualdade no sistema educacional e sanitário.

Com a fundação da República Popular da China em 1949, houve um breve retrocesso nas políticas de supressão, com autoridades sanitárias ainda defendendo a eliminação da medicina tradicional chinesa. Em 1953, Mao Tsé-Tung interveio, criticando essa linha e determinando que “a medicina chinesa é um grande tesouro que deve ser vigorosamente explorado e aprimorado”. Nos anos seguintes, foram criadas escolas de medicina tradicional chinesa, cursos para médicos ocidentais aprenderem as técnicas tradicionais e o sistema dos “médicos pés descalços”: profissionais mistos, camponeses e sanitaristas, que atendiam a população rural com agulhas e ervas, garantindo cobertura básica para mais de 80% dos habitantes do campo.

A partir da reforma e abertura dos anos 1970, a mercantilização da saúde modificou esse cenário. Os médicos pés descalços desapareceram, os recursos orçamentários foram majoritariamente direcionados à medicina ocidental e o número de profissionais da medicina tradicional chinesa estagnou. Em 2017, apenas 6,25% do financiamento sanitário nacional era destinado à medicina tradicional; em 2023, os profissionais da medicina tradicional chinesa representavam apenas 6,9% do total de trabalhadores da saúde, e os estabelecimentos especializados correspondiam a 8,6% das unidades médicas do país. A lei de médicos em exercício de 1999 tornou ilegais milhares de praticantes populares sem certificação oficial, extinguindo saberes transmitidos por gerações.

Um outro mecanismo de subordinação é a imposição unilateral dos padrões regulatórios ocidentais, sobretudo da Food and Drugs Administration (FDA) dos Estados Unidos. O Lianhua Qingwen, eficaz contra síndromes respiratórias virais, conseguiu registro em 29 países e regiões, mas está parado na fase II de ensaios clínicos da FDA há anos, com restrições severas na Europa. Até o prêmio Nobel de Fisiologia concedido a Tu Youyou em 2015, pela descoberta da artemisinina, não alterou esse cenário: o comitê do Nobel deixou explícito que o reconhecimento valia apenas para a pesquisa científica moderna, não para o sistema da medicina tradicional chinesa.

Posteriormente, a patente dos compostos à base de artemisinina foi dominada pela Novartis, que ficou com a maior parte dos lucros globais, enquanto a China recebia apenas 4% de royalties. O mercado internacional de medicamentos derivados da artemisinina tem participação chinesa inferior a 1%.

A resiliência comprovada da medicina tradicional chinesa

A força cultural da MTC se manifesta especialmente quando a medicina ocidental carece de soluções terapêuticas, como demonstram três surtos sanitários do século XX e XXI.

Nos anos 1950, houve uma epidemia massiva de encefalite B na China, com taxa de mortalidade superior a 25% entre os pacientes tratados apenas com recursos ocidentais. Em Jinan, um grupo de 12 pacientes atendidos exclusivamente com fórmulas da MTC foi totalmente curado, sem óbitos. Receitas clássicas como a Bebida do Tigre Branco e formulações do Tratado sobre doenças febris pestilenciais alcançaram taxas de eficácia de 90% em diversas províncias, sem sequelas nos sobreviventes.

Durante o surto de SARS em 2003, a diferença entre os dois modelos foi ainda mais evidente. A taxa de mortalidade global da doença ficou em cerca de 11%, enquanto na província de Guangdong – onde a medicina tradicional chinesa foi adotada precocemente – chegou a apenas 3,8%. Nos hospitais de medicina tradicional da região, foram registrados casos com “quatro zeros”: nenhum óbito, nenhuma transferência para unidade grave, sem complicações e sem contágio de equipes médicas.

Pacientes tratados apenas com corticoides em modelo ocidental apresentaram sequelas permanentes, como necrose óssea, enquanto os atendidos com medicina tradicional chinesa não sofreram danos de longo prazo. A lógica terapêutica tradicional não visa matar o patógeno, mas fortalecer a resistência do organismo humano, um método imune às constantes mutações virais.

Na COVID-19, a decocção Qingfei Paidu representa o auge dessa sabedoria coletiva. Criada em cinco dias pelo praticante popular Ge Youwen, que entregou a fórmula gratuitamente ao Estado, ela foi testada em mais de 200 pacientes com taxa de melhora superior a 90%. Estudos retrospectivos com quase 9 mil internados em Wuhan confirmaram redução significativa da mortalidade e ausência de lesões hepáticas ou renais associadas ao seu uso.

Em 2022, a fórmula recebeu o Prêmio Prata de Patentes da China, e foi estabelecido um modelo independente de licenciamento internacional que evita a apropriação estrangeira da propriedade intelectual, rompendo um ciclo histórico de exploração dos saberes médicos chineses.

A hegemonia das fundações privadas

Duas instituições filantrópicas ocidentais moldaram as regras de saúde internacional no último século: a Fundação Rockefeller e a Fundação Bill & Melinda Gates. A primeira construiu o modelo de medicalização colonial no século XX, usando a saúde pública para aumentar a produtividade da mão de obra nos países periféricos e reduzir sua autonomia cultural. A segunda se tornou a maior financiadora privada da OMS na era do capitalismo financeiro.

O orçamento da Organização Mundial da Saúde depende apenas de 16% de contribuições obrigatórias dos Estados-membros; quase 10% vem de fundações privadas, com a Gates ocupando o terceiro lugar entre os maiores doadores, atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha. Muitos dos consultores científicos estratégicos da OMS mantêm vínculos com gigantes farmacêuticos como Pfizer, Novartis e GSK, cujos ex-executivos compõem a equipe de gestão da fundação.

Essa estrutura gera conflitos de interesse estruturais. A lógica industrial farmacêutica depende de tratamentos contínuos e doenças crônicas para manter lucros elevados; a medicina tradicional chinesa, por sua vez, prioriza a prevenção (“tratar a doença antes que ela apareça”), uma filosofia que entra em oposição direta ao modelo de negócio capitalista. Por isso, as agendas de pesquisa financiadas por essas fundações priorizam vacinas e fármacos sintéticos, minimizando investimentos em medicinas tradicionais dos países do Sul Global.

A medicina tradicional chinesa não é uma alternativa perfeita nem rejeita a medicina ocidental, mas questiona a hegemonia do pensamento eurocêntrico que transforma um único modelo de ciência em padrão universal. O sistema sanitário global reproduz desigualdades ao exigir que todas as práticas tradicionais se submetam a protocolos de validação criados para fármacos sintéticos, ignorando milênios de comprovação popular e cultural.

A pandemia de COVID-19 revelou as limitações da saúde mercantilizada e cara, ao mesmo tempo em que demonstrou a capacidade das comunidades de se organizar coletivamente em prol da sobrevivência com recursos locais e acessíveis. A resiliência cultural da medicina tradicional chinesa reside em seus valores de harmonia com a natureza, reciprocidade social e cuidado preventivo, princípios que oferecem uma saída ao paradigma competitivo e lucrativo do capitalismo.

A recuperação das medicinas tradicionais em todo o Sul Global é um caminho fundamental para a descolonização do campo sanitário. Trata-se de reconhecer a pluralidade dos saberes médicos, romper o monopólio das corporações farmacêuticas transnacionais e construir um regime de saúde centrado na vida coletiva, e não no lucro privado. A experiência centenária da Medicina Tradicional Chinesa funciona como um exemplo prático dessa luta por equidade e diversidade cultural no cenário sanitário mundial.

*Sit Tsui é professora no Instituto de Estratégia de Revitalização Rural da Universidade do Sudoeste, em Chongqing.

*Lau Kin Chi é professora de Estudos Culturais na Universidade Lingnan, Hong Kong.

Tradução: Maisa Maria Baptista Prates do Amaral.

Versão reduzida do artigo publicado na Revista Pesquisa e Debate, volume 38, no.(69).

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