Por JOSÉ LUÍS FIORI*
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Da histórica resistência cubana ao recente revés no Estreito de Ormuz, a hegemonia de força dos Estados Unidos colide com os novos eixos da multipolaridade
A hora do Brasil
“Em quase todos os países “ganhadores”, o desenvolvimento obedeceu a estratégias e seguiu caminhos que foram desenhados em resposta a grandes desafios sistêmicos, de natureza geopolítica. […] em todos esses países, em algum momento formou-se um bloco de poder que respondeu da mesma forma, a esses desafios externos, através de estratégias ofensivas, e de políticas de proteção econômica sustentadas por longos períodos de tempo” (J. L. Fiori. História, estratégia e desenvolvimento, p. 37).
A opinião do presidente Donald Trump não deve ter tido grande influência na vitória dos candidatos de extrema direita nas recentes eleições presidenciais sul-americanas. Esta é uma ideia que pode afagar o ego do presidente americano e assustar setores da esquerda mais ressabiada, mas, no mundo real, Donald Trump é hoje uma figura cada vez mais impopular no mundo todo, e também na América do Sul.
Não quer dizer que algumas grandes big techs e grupos financeiros de extrema direita não tenham intervindo nessas eleições, mas isto não chega a ser uma grande novidade. Durante a Guerra Fria, os EUA promoveram 72 intervenções diretas e mudanças de regime em todo o mundo, e só na América Latina, participaram de 18 golpes de Estado entre 1952 e 1973.
O que é realmente novo é o governo americano apoiando abertamente candidatos de direita ou extrema direita, sem propor ou oferecer nenhum tipo de projeto, estratégia ou utopia de desenvolvimento nacional no caso de vitória de seus candidatos. Ao longo da Guerra Fria, os EUA encomendaram às Forças Armadas sul-americanas o “combate aos comunistas”, mas ao mesmo tempo propuseram aos governos locais, pelo menos até a década de 1970, um grande projeto ou “utopia desenvolvimentista”.
E depois dos anos 1980 e 1990, os EUA propuseram e defenderam a “utopia da globalização” e das “reformas neoliberais” em troca do apoio à sua “guerra imperial” contra o terrorismo. Mas agora, nesta terceira década do século XXI, o único projeto proposto pela administração de Donald Trump aos seus seguidores é o da “caça aos narcotraficantes” e aos “imigrantes ilegais” e, sempre que possível, seu confinamento em campos de concentração, ao estilo do presidente Nayib Bukele, de El Salvador.
Como consequência quase direta dessa falta de projeto, logo depois da vitória, muitos desses novos governos vêm enfrentando situações de ruptura e “convulsão social”, com queda rapidíssima de popularidade, uma vez que só propõem repressão e desmontagem de seus próprios Estados, sem contar com nenhum tipo de ajuda dos EUA que não seja policial ou militar, com exceção da Argentina, que foi salva da falência pela intervenção financeira direta dos EUA.
Pelo contrário, quase todos esses novos vassalos norte-americanos foram penalizados com a imposição das tarifas de Donald Trump, que reduziram seu acesso aos mercados norte-americanos. E mesmo no caso da catástrofe venezuelana recente, os EUA não forneceram nenhuma ajuda excepcional, nem mesmo se dispuseram a suspender ou aliviar suas sanções que paralisam a capacidade de ação do governo venezuelano.
Além disso, apesar de sua suposta unidade ideológica, esses novos governos de direita e extrema direita carecem de qualquer tipo de unidade ou objetivo estratégico comum. E o mais provável, na próxima década, é que sigam na condição de pequenos Estados com economias “primário-exportadoras” isoladas e irrelevantes do ponto de vista geoeconômico – e mais ainda, do ponto de vista das grandes questões da geopolítica mundial.
O Brasil é uma grande exceção nesse quadro declinante do continente sul-americano. É o quinto maior país do mundo, e sua economia inclui-se entre as 10 maiores do sistema capitalista. No início do século, era um país agrário, com um Estado fraco e fragmentado, e com um poder econômico e militar muito inferior ao da Argentina. Hoje, na terceira década do século XXI, o Brasil possui um produto que representa cerca de 50% do PIB total do continente sul-americano, é o país mais industrializado da América do Sul, e o principal player internacional do continente sul-americano.
Além disso, é o país do continente com maior potencial de crescimento, se tomarmos em conta seu território, população, capacidade de produção agrícola e dotação de recursos energéticos, de minerais estratégicos e de “terras raras” (com a segunda maior reserva do mundo). Dispõe de uma matriz energética limpa e de uma gigantesca reserva hídrica que o candidata a uma posição de destaque na chamada “quarta revolução industrial”, comandada pelos avanços no campo da robótica e da inteligência artificial.
No campo das relações internacionais, o Brasil mudou de rumo várias vezes nas últimas décadas. Mas com relação aos EUA, suas elites conservadoras e liberais, civis e militares têm mantido um apoio majoritário à Doutrina Monroe, desde os tempos de Joaquim Nabuco, um dos patriarcas de sua política externa.
Mais recentemente, entretanto, mesmo com algumas interrupções, o governo vem construindo uma nova estratégia de inserção internacional do Brasil, lutando por aumentar seus graus de autonomia em um mundo cada vez mais “multipolar”, sem aceitar qualquer tipo de alinhamento automático com relação às Grandes Potências que dominam o sistema internacional. Foi com esta perspectiva que o Brasil se associou à China, Índia, Rússia e África do Sul, para constituir o grupo do BRICS, o bloco internacional que mais cresceu nos últimos anos, tornando-se hoje num dos maiores obstáculos ao mandonismo do governo de Donald Trump.
Esta estratégia atual do Estado brasileiro não se enquadra no “terceiro-mundismo” do século XX, nem parece ser a de um candidato apenas à liderança da “periferia mundial”, ou mesmo do chamado Sul Global. Suas posições e pronunciamentos têm apontado na direção de um universalismo cosmopolita e igualitário, e de um multilateralismo que respeita as diferenças civilizatórias e assimetrias de poder no sistema interestatal.
O Brasil tem se movido entre as nações do Norte e do Sul, do Leste e do Oeste, sem fazer distinções ideológicas ou discriminar países em função de seus regimes políticos, ou pertencimentos culturais e religiosos. Além disso, o Brasil tem se oposto radicalmente a todas as tentativas de bipolarização do sistema mundial, com base em qualquer tipo de posicionamento ou estratégia das atuais grandes potências.
Em uma perspectiva histórica e comparativa de mais longo prazo, pode-se antecipar que, para seguir por esse caminho, o Brasil necessitará de enorme persistência e continuidade, e de uma estreita coordenação entre suas políticas externa e de defesa, e sua política econômica interna. Difícil também será o Brasil descobrir um novo caminho de afirmação de sua liderança e poder internacional, dentro e fora da América do Sul, que não utilize a mesma arrogância e violência que europeus e norte-americanos empregaram para conquistar, submeter e “civilizar” suas colônias e protetorados.
Por tudo e com tudo, não há dúvida de que a grande batalha geopolítica sul-americana será travada no Brasil neste segundo semestre de 2026. Nesse embate, o Brasil precisa ter claro que é próprio dos impérios desrespeitar sistematicamente as fronteiras dos Estados nacionais, e que países que têm projetos autônomos lutam permanentemente por suas soberanias.
Soberania não é algo estático nem definitivo, é uma condição que se conquista exercendo-a e defendendo-a continuamente, sem jamais considerá-la assegurada, nem mesmo pelo Direito Internacional ou pelas instituições multilaterais que vêm sendo sistematicamente atacadas e desrespeitadas. O Brasil vem enfrentando uma disputa em defesa de sua soberania, contra um poder assimétrico e imperial, e contra setores de sua própria elite civil e militar, que é “binária” e subserviente por sua própria natureza, incapaz de entender a complexidade do mundo contemporâneo. Trata-se de uma conjuntura extremamente complexa e desafiadora, mas é também a hora em que o Brasil poderá abandonar sua longa dependência externa, assumindo seu próprio comando, dentro do sistema mundial e frente à história da humanidade.
Um armistício beligerante
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e altos funcionários do governo israelense consideraram o “Memorando de Entendimento” assinado pelos EUA pelo Irã uma “rendição humilhante”. E o mais provável é que os israelenses tenham razão, porque os 14 pontos que foram acordados representam de fato um “ato de rendição” da parte dos EUA.
O governo de Donald Trump nunca conseguiu explicar nem justificar seu ataque em meio a um processo de negociação que avançava favoravelmente para os objetivos norte-americanos. E os objetivos que tomou emprestado de Israel foram sendo apresentados de forma desordenada através do tempo – nenhum deles foi alcançado. Afinal, a promessa de não fabricar armas nucleares já havia sido feita há muito tempo por sucessivos governos iranianos.
A abertura do Estreito de Ormuz, a segunda grande conquista de Donald Trump, seria quase absurda se tivermos em conta que só foi fechado como resposta ao ataque dos próprios norte-americanos e seus aliados israelenses. Com o “detalhe” de que, para obter a promessa de que os iranianos manterão as coisas como estavam antes da guerra, os EUA gastaram cerca de 40 bilhões de dólares, assassinaram quase todo o alto comando religioso, político e militar do Irã, mataram cerca de 3.500 iranianos e destruíram, além de objetivos militares, grandes extensões da infraestrutura civil do país.
Além disso, para obter esses dois objetivos rebarbativos, os EUA, junto com Israel, atingiram em cheio o mercado mundial de energia e de alimentos, provocando uma queda do produto mundial e um abalo estrutural da economia europeia, que já vinha enfrentando uma grande crise econômica e política desde o início do conflito ucraniano. Tudo isso graças a uma guerra que nunca foi justificada, nem explicada coerentemente, por parte dos EUA – para no final aceitar, como melhor alternativa, um armistício que não deve durar muito tempo. O mais provável é que este se transforme num conflito militar crônico, com profundo impacto sobre o Oriente Médio e a geoeconomia mundial.
Assim mesmo, não há dúvida de que Israel saiu dessa guerra pior do que os EUA. Afinal, faz mais de duas décadas que Benjamin Netanyahu conspira para obter o apoio dos norte-americanos ao seu projeto de um ataque conjunto, relâmpago, massivo e arrasador, dos dois países contra o Irã. Um ataque com o objetivo de destruir definitivamente a capacidade militar e a resistência do povo persa, e a própria estrutura religiosa e civil da República Islâmica do Irã.
Pois bem, esse ataque acabou acontecendo no dia 28 de fevereiro de 2026, mas nenhum dos objetivos de Benjamin Netanyahu foi alcançado. As forças conjuntas de EUA e Israel mataram, nas primeiras horas do ataque, quase todas as lideranças religiosas e civis do Estado persa; depois, bombardearam de forma contínua mais de 130 cidades iranianas, durante mais de um mês, visando aniquilar alvos militares e civis em todo o país.
Assim mesmo, as duas potências atômicas não conseguiram derrubar o governo, nem interromper o programa nuclear do Irã; não conseguiram destruir a capacidade balística dos iranianos, muito menos dividir e dobrar moralmente o povo persa. Pior ainda, o Irã resistiu, contra-atacou e ainda conquistou uma posição de poder que não tinha antes da guerra – a soberania sobre o Estreito de Ormuz, que se transformou na peça-chave de sua vitória estratégica sobre os EUA.
Além disso, o sistema de defesa aérea de Israel – seu famoso Domo de Ferro – foi vazado de forma sistemática pelos drones e novas armas balísticas iranianas, restando para Israel apenas o controle do território arrasado de Gaza e a região que ocupa atualmente no sul do Líbano. Por fim, Israel foi excluído das negociações de paz e ainda foi obrigado a ouvir uma das admoestações mais duras jamais dirigidas por uma autoridade norte-americana contra os israelenses, quando o vice-presidente americano, J. D. Vance, declarou numa entrevista, na última semana, que “o presidente Donald Trump é o único chefe de Estado em todo o mundo que ainda demonstra simpatia pela nação de Israel neste momento”.
Ao mesmo tempo, J. D. Vance aproveitou para lembrar aos governantes de Israel que “dois terços das armas defensivas que protegeram Israel foram fabricadas por mãos norte-americanas e pagas com o dinheiro dos contribuintes norte-americanos”. Assim mesmo, Israel deverá seguir sendo uma “máquina de guerra contínua”, mais do que um Estado. Sobretudo porque tem plena consciência da “ineficiência” do seu arsenal atômico, em caso de uma “guerra santa” de extermínio final contra os persas, que não teria como ser utilizado sem atingir imediatamente seu pequeno território e sua população.
Muitos se perguntam hoje se essa derrota norte-americana representaria um freio definitivo com relação à permanente pretensão imperial dos EUA. E a resposta a esta pergunta é um rotundo “não”. A expansão imperial americana só “estancará” quando for barrada por alguma força militar e econômica igual e contrária. Os EUA já foram derrotados muitas vezes, mas essas derrotas localizadas não alteraram sua trajetória expansiva, até porque seu território nunca foi atingido ou afetado – a não ser nos atentados de 11 de setembro de 2001.
Seja lá como tenham sido montados aqueles atentados, a verdade é que eles abriram ainda mais as portas da expansão global do poder americano, encoberta pela consigna da guerra ao “terrorismo universal”, uma guerra tipicamente imperial. Agora, de novo, os EUA foram derrotados, mas isto não significa o fim do “poder americano”, nem muito menos que os EUA deixarão de ser uma grande potência no século XXI. Mesmo derrotados no Vietnã, no Afeganistão e agora no Irã, os EUA mantêm sua capacidade global de atacar, punir e destruir seus “desafetos”, e isto lhe assegura lugar central dentro da nova “ordem multipolar” que está sendo construída ao longo do século XXI.
Ninguém sabe exatamente o que virá a ser e como funcionará essa “ordem multipolar”, com tamanha quantidade de Estados nacionais e tão poucas potências continentais com capacidade de projeção global do seu poder, como é o caso de EUA, China, Rússia ou mesmo Índia. O que existe é um “sistema mundial” em avançado processo de fragmentação, sobretudo do seu “lado ocidental” – como efeito direto da desunião e enfraquecimento da União Europeia, do divórcio entre EUA e Europa, e do afastamento atual entre EUA e Israel.
Nesse contexto, não há dúvida de que a impotência dos EUA frente ao fechamento iraniano do Estreito de Ormuz acelerou o processo, em curso, de deslocamento do centro do poder político e econômico mundial na direção da Ásia, em particular na direção da China. Isto não significa o fim do “poder americano”, mas seu debilitamento atual, ainda que possa ser transitório, deve contribuir para que as negociações de paz com o Irã acabem se transformando na primeira grande negociação desta nova era multipolar.
Muito difícil, porque não se trata apenas de uma disputa regional pela própria hegemonia dentro do Oriente Médio; envolve uma fratura e uma guerra civilizacional e religiosa que está na origem constitutiva da chamada “civilização ocidental” e da identidade da própria Europa, que durante muitos séculos foi apenas uma periferia atrasada e subalterna com relação ao “mundo islâmico”. O que explica em parte o nível de agressividade e ressentimento, e a linguagem grosseira e desrespeitosa utilizada pelo presidente norte-americano, ao referir-se aos governantes persas que não se submetem à sua vontade e aos seus desígnios.
Por tudo isto, o mais provável é que este novo tipo de negociações multipolares se transforme num período muito prolongado de tempo em que todos os grandes conflitos estarão sendo negociados através do uso simultâneo e instável da força militar, combinada com negociações intermitentes realizadas sem critérios nem regras, como se o mundo estivesse precisando se reconstruir em pleno voo, e no meio de uma zona de turbulência fortíssima.
Estados Unidos e Cuba
Foi logo depois da conquista da Flórida, em 1819. Os Estados Unidos só tinham 40 anos de idade, e seu território não ia além do Rio Mississippi. James Monroe era o presidente, mas foi seu Secretário de Estado, John Quincy Adams, quem falou, pela primeira vez, da atração norte-americana por Cuba. Em uma reunião ministerial do governo de James Monroe, John Quincy Adams declarou que “existem leis na vida política que são iguais às da física gravitacional: e por isso, se uma maçã for cortada de sua árvore nativa – pela tempestade – não terá outra escolha senão cair no chão; da mesma forma que Cuba, quando se separar da Espanha, não terá outra alternativa senão gravitar na direção da União Norte-Americana. E por esta mesma lei da natureza, os americanos não poderão afastá-la do seu peito”.[i]
Naquele momento, o desejo de John Quincy Adams ainda não era conquistar a ilha – era preservá-la, e por isso deu ordem ao seu embaixador em Madri que comunicasse ao governo espanhol a “repugnância americana a qualquer tipo de transferência de Cuba para as mãos de outra potência”.
Em 1819, a capacidade americana de projetar seu poder para fora de suas fronteiras nacionais ainda era muito pequena, mas a declaração de Quincy Adams explicitou um desejo e antecipou um projeto que se realizaria plenamente a partir de 1890. Logo no início da década, o almirante Alfred Thayer Mahan publicou um livro clássico,[ii] que exerceu imensa influência sobre a elite dirigente norte-americana.
A obra tratava da importância do poder naval e das ilhas do Caribe e do Pacífico para o controle dos oceanos e a expansão das grandes potências. Logo em seguida, os Estados Unidos anexaram o Havaí, em 1897, e venceram a Guerra Hispano-Americana, em 1898, conquistando Cuba, Filipinas e algumas outras ilhas caribenhas, onde estabeleceram um sistema de “protetorados”, como forma de governo compartilhado desses territórios.
Logo depois da sua vitória contra a Espanha, o presidente William McKinley repetiu, frente ao Congresso Americano, em dezembro de 1898, a velha tese de Quincy Adams: “a nova Cuba precisa estar ligada a nós, americanos, por laços de particular intimidade e força, para assegurar de forma duradoura seu bemestar”.[iii]
E foi isto que aconteceu: os cubanos aprovaram sua primeira Constituição independente em 1902, mas tiveram que anexar ao seu texto uma lei aprovada pelo Congresso Americano e imposta aos cubanos, em 1901 – The Platt Amendment – que definia os limites e condições de exercício da independência dos ilhéus. Os Estados Unidos mantinham sob seu controle a política externa e a política econômica de Cuba, e ficava assegurado o direito de intervenção dos norte-americanos na ilha, em “caso de ameaça à vida, à propriedade e à liberdade individual dos cubanos”.[iv]
Em 1934, a Emenda Platt foi abolida, sendo substituída por um novo tratado entre os dois países, que assegurou o controle americano da Base Naval de Guantánamo e garantiu a tutela dos Estados Unidos sobre o longo período de poder de Fulgêncio Batista, que assumiu o governo de Cuba em 1933, a bordo de um cruzador norte-americano, e depois governou Cuba, de forma direta ou indireta, até 1959.
Após a Revolução Cubana de 1959, entretanto, a ilha deixou de ser a “maçã” de Quincy Adams, sem deixar de ser o “objeto do desejo” dos norte-americanos. O novo governo revolucionário assumiu o comando da sua economia e de sua política externa, e provocou a reação imediata e violenta dos Estados Unidos.
Primeiro foi o “embargo econômico”, imposto pela administração Eisenhower, em 1960, e logo depois, a ruptura das relações diplomáticas, em 1961. Em seguida foi a administração de John Kennedy que promoveu e apoiou a frustrada invasão da Baía dos Porcos, a expulsão cubana da Organização dos Estados Americanos e vários atentados contra dirigentes cubanos. No início, os Estados Unidos justificaram sua reação como defesa das propriedades norte-americanas expropriadas pelo governo cubano em 1960, e como contenção da ameaça comunista, situada a 145 quilômetros do seu território.
Mas depois de 1991, e do fim da URSS e da Guerra Fria, os Estados Unidos mantiveram e ampliaram sua ofensiva contra Cuba, só que agora em nome da democracia, embora mantenham relações amistosas com o Vietnã e a China. No auge da crise econômica provocada pelo fim de suas relações preferenciais com a economia soviética, entre 1989 e 1993, os governos de George Bush e Bill Clinton tentaram um xeque-mate contra Cuba, proibindo as empresas transnacionais norte-americanas, instaladas no exterior, de negociarem com os cubanos, e depois, impondo penalidades às empresas estrangeiras que tivessem negócios com a ilha, através da Lei Helms-Burton, de 1996.
Essa atração precoce e obsessão permanente dos Estados Unidos não autorizam grandes ilusões neste momento de mudanças nos dois países. Do ponto de vista americano, Cuba lhes pertence e está incluída na sua “zona de segurança”. Além disso, aos seus olhos, a posição soberana dos cubanos transforma a ilha num aliado potencial dos países que se propõem a exercer influência no continente americano de forma competitiva com os Estados Unidos.
Por fim, Cuba já se transformou num símbolo e numa resistência que é intolerável por si mesma, para seus vizinhos norte-americanos. Por isso, o objetivo principal dos Estados Unidos, em qualquer negociação futura, será sempre fragilizar e destruir o núcleo duro do poder cubano. Por sua vez, Cuba não tem como abrir mão do poder que acumulou a partir de sua posição defensiva e de sua resistência vitoriosa.
A hipótese de uma “saída chinesa” para Cuba é improvável, porque se trata de um país pequeno, com baixa densidade demográfica e uma economia que não dispõe da massa crítica indispensável para uma relação complementar e competitiva com os norte-americanos. Por isso, apesar da mobilização internacional a favor de mudanças nas relações entre os dois países, o mais provável é que os Estados Unidos mantenham sua obsessão de punir e enquadrar Cuba; e que Cuba se mantenha na defensiva e lutando contra a lei da “gravidade caribenha” formulada por John Quincy Adams em 1819.
*José Luís Fiori é professor emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de Uma teoria do poder global (Vozes) [https://amzn.to/3YBLfHb]
Publicado originalmente no Boletim do Observatório internacional do século XXI, no. 18, julho de 2026.
Notas
[i] Ford, W. C. (ed.). The Writings of John Quincy Adams. New York: Mac Millan, vol VII, p. 372-373.
[ii] Mahan, A. T. The Influence of Sea Power upon History – 1660-1873. New York: Dover Publication, [1890] 1987.
[iii] Pratt, J. A. History of United States Foreign Policy. The University of Buffalo, 1955, p. 414.
[iv] Idem, p. 415

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