Por GABRIEL TELES*
Considerações sobre o livro recém-lançado de André Castro
1.
Há uma imagem de Ernst Bloch, em seu livro sobre sujeito e objeto em Hegel, segundo a qual ler Hegel seria semelhante a segurar um caldeirão cheio de líquido quente. O recipiente é pesado, seu conteúdo está em movimento e o calor atravessa suas paredes até alcançar as mãos de quem tenta sustentá-lo. A leitura exige força e atenção. Há sempre o risco de deixar o caldeirão cair ou de afastá-lo rapidamente para evitar a queimadura.
Guardadas todas as proporções, Eis aí, o povo brasileiro, de André Castro, produz sensação semelhante. Não se trata, evidentemente, de um caldeirão filosófico hegeliano. A imagem adequada seria a de uma cumbuca. Ou, para conferir à metáfora uma forma litúrgica mais acabada, a de um cálice.
Não um cálice ornamentado com pedras preciosas e banhado a ouro, próprio da liturgia suntuosa dos períodos de maior riqueza e poder institucional da Igreja Católica. O livro de André Castro se parece com um cálice de alumínio, simples e barato, facilmente encontrado nas casas e pequenas igrejas das periferias brasileiras.
A diferença não é apenas estética. O alumínio conduz calor. Aquilo que está no interior do recipiente alcança rapidamente sua superfície e chega às mãos de quem o segura. Quanto mais quente o conteúdo, mais difícil sustentá-lo.
O livro de André Castro é esse cálice de alumínio. Sua forma é ensaística, deliberadamente inquieta, construída a partir de materiais que a crítica cultural tradicional frequentemente considera menores: canções gospel, pregações, testemunhos, marchas religiosas, vídeos digitais, pinturas, contos e documentários. Seu conteúdo, contudo, está quente. Nele aparecem algumas das contradições centrais do Brasil contemporâneo: o esgotamento das expectativas de formação nacional, a expansão evangélica nas periferias, a crise imaginativa da esquerda, a reorganização religiosa da esperança e a constituição de uma extrema direita com capacidade de mobilização popular.
A pergunta que atravessa o livro pode ser formulada de maneira direta: onde está sendo produzida, hoje, uma interpretação popular do Brasil?
Durante parte considerável do século XX, a resposta passava pelo problema da formação nacional. O Brasil era compreendido como uma sociedade incompleta e dependente, cuja unidade econômica, política e cultural ainda precisaria ser construída. Apesar de suas diferenças teóricas, autores como Antonio Candido, Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Florestan Fernandes e Roberto Schwarz escreveram no interior desse horizonte.
2.
A formação de um sistema literário, a industrialização, a integração das classes trabalhadoras, a superação da dependência e a revolução brasileira integravam um campo comum de expectativas. A cultura não funcionava apenas como representação de uma nação previamente constituída. Participava da elaboração imaginária da sociedade que ainda se pretendia construir.
O modernismo, o samba, a bossa nova, o Cinema Novo e a arquitetura de Brasília são alguns dos momentos dessa imaginação. Brasília condensa exemplarmente a promessa de que o desenho, a técnica e o Estado poderiam antecipar a sociedade futura. Antes que o país moderno existisse como totalidade social, ele era projetado no papel e erguido em concreto.
O golpe de 1964, a crise do desenvolvimentismo, a reestruturação capitalista e a dissolução das expectativas de integração nacional enfraqueceram esse horizonte. A tradição crítica conservou uma enorme capacidade de diagnosticar a dependência, a regressão, a desigualdade e o colapso. Perdeu progressivamente a capacidade de identificar um sujeito coletivo e uma imagem convincente do futuro.
A hipótese de André Castro é que, enquanto uma parcela da intelectualidade brasileira examinava as ruínas do projeto nacional, outra imaginação coletiva se constituía nas periferias, nas igrejas e nos circuitos culturais evangélicos. É a essa configuração que o autor denomina “Brasil avivado”.
O Brasil avivado constitui uma imaginação religiosa da nação. Nele, a transformação do país já não depende prioritariamente do desenvolvimento econômico, da reforma social, da revolução ou da ampliação da cidadania. Depende de uma restauração espiritual e moral. A nação precisaria reconhecer a soberania divina, derrotar as forças responsáveis por sua corrupção e ser conduzida por pessoas comprometidas com uma missão religiosa.
Essa imaginação conecta a vida individual ao destino nacional por meio de uma gramática formada por termos como prova, promessa, vitória, missão, testemunho, batalha espiritual e avivamento. Uma demissão pode ser interpretada como prova. A obtenção de um emprego aparece como vitória. Uma doença torna-se batalha espiritual. Uma eleição pode ser apresentada como cumprimento de uma profecia. A transformação do país adquire a forma do avivamento.
3.
A experiência fragmentada recebe, desse modo, uma narrativa total. O testemunho reorganiza retrospectivamente a biografia do fiel: havia sofrimento, veio a prova, a pessoa perseverou, Deus agiu e a vitória confirmou que a promessa sempre estivera presente.
A religião produz uma temporalidade. O presente difícil torna-se suportável porque é vivido a partir de um futuro prometido. Essa dimensão permite compreender por que a relação entre evangelicalismo e extrema direita não pode ser reduzida à manipulação de uma população passiva por lideranças religiosas.
A extrema direita não criou do nada as ideias de batalha espiritual, perseguição aos cristãos, restauração da família, missão divina e purificação da nação. Encontrou uma gramática previamente sedimentada, selecionou alguns de seus elementos e lhes conferiu uma direção política. A política passou a ser figurada religiosamente, enquanto a experiência religiosa adquiriu consequências políticas de grande alcance.
Uma das principais contribuições de Eis aí, o povo brasileiro consiste em deslocar a análise das cúpulas religiosas e das bancadas parlamentares para as formas ordinárias da fé. André procura a política nas canções, nos testemunhos, nas imagens, nas pregações e nos modos cotidianos de interpretar a vida. Esses materiais não aparecem como ilustrações de uma realidade definida de antemão. São tratados como espaços em que a experiência social ganha forma, produz sujeitos e orienta práticas.
A hipótese do Brasil avivado pode adquirir maior nitidez quando aproximada do problema do colapso social que o Centro de Estudos Sobre o Colapso Social (CECS) tem tentado elaborar. O colapso não deve ser entendido como um acontecimento terminal, após o qual a sociedade interromperia subitamente seu funcionamento. Trata-se de uma forma de reprodução em que a sociedade continua operando enquanto deteriora progressivamente suas próprias condições materiais e sociais.
O trabalho torna-se mais precário, intensificado e instável. A dívida organiza a vida cotidiana. As proteções sociais são reduzidas. A insegurança se converte em condição permanente. A emergência deixa de interromper a normalidade e passa a constituí-la. O colapso é administrado como rotina.
Essa dinâmica também modifica a experiência do tempo. O futuro deixa de aparecer como desenvolvimento, integração ou transformação. Surge como ameaça, risco, dívida ou repetição ampliada do presente. A política institucional responde com contenção de danos, defesa das instituições e promessa de retorno à normalidade. O problema reside no fato de que a própria normalidade se tornou destrutiva.
4.
O Brasil avivado pode ser compreendido como uma resposta religiosa ao bloqueio do futuro histórico. Quando o futuro secular perde credibilidade, o futuro reaparece como promessa divina. Quando a transformação estrutural parece inviável, a vitória individual continua sendo anunciada. Quando o projeto nacional entra em decomposição, o avivamento oferece uma imagem de refundação.
O colapso social bloqueia o futuro histórico; a imaginação religiosa reabre o futuro em forma providencial.
Essa relação não é mecânica. A precarização não produz religião de maneira imediata, assim como não produz automaticamente consciência de classe. Entre as condições materiais e sua elaboração encontram-se famílias, igrejas, mercados culturais, lideranças, organizações políticas e plataformas digitais.
A religião é uma mediação. Converte sofrimento disperso em narrativa, narrativa em identidade e identidade em capacidade de ação. Essa mediação possui um caráter contraditório. As igrejas oferecem sociabilidade, escuta, ajuda material, cuidado e redes de confiança. Ocupam espaços abandonados ou insuficientemente preenchidos pelo Estado, pelos sindicatos, pelos partidos e por outras organizações coletivas.
Ao mesmo tempo, a forma religiosa pode deslocar a causalidade social. A exploração transforma-se em prova. O desemprego torna-se batalha espiritual. A desigualdade é interpretada como diferença entre fidelidade e desobediência. O direito aparece como bênção. A transformação coletiva cede lugar à vitória individual.
A religião exprime uma verdade da experiência e reorganiza essa experiência numa forma que pode obscurecer suas determinações. O sofrimento é real. A comunidade é real. A esperança é real. A explicação religiosa pode deslocar as relações históricas responsáveis pela produção do sofrimento.
Há nessa imaginação um conteúdo utópico efetivo: desejo de proteção, reconhecimento, comunidade e futuro. Reconhecer esse conteúdo não equivale a atribuir ao Brasil avivado um caráter emancipatório. Permite compreender a fonte de sua força.
A distinção blochiana entre utopia abstrata e utopia concreta é útil para avançar. A utopia abstrata projeta uma vida melhor sem reconstruir as condições materiais de sua realização. A utopia concreta articula esperança, possibilidades históricas e ação transformadora.
No Brasil avivado, a superação da exploração converte-se frequentemente em prosperidade individual. A emancipação coletiva torna-se vitória pessoal. O antagonismo social é traduzido como guerra entre o bem e o mal. A transformação histórica é transferida para a intervenção divina ou para a moralização do governo. A questão crítica consiste em descobrir qual conteúdo social é expresso por essa esperança, quem organiza sua linguagem e qual direção política lhe é atribuída.
5.
A noção de “revolta na ordem”, desenvolvida por João Bernardo, oferece outra chave interpretativa. A revolta na ordem mobiliza insatisfação social, disposição para a ruptura e linguagem antissistema, direcionando essa energia para a recomposição autoritária das hierarquias existentes.
Sua forma é insurgente; seu conteúdo, restaurador. Há revolta contra governos, tribunais, partidos e elites políticas. Permanecem preservadas a propriedade capitalista, a exploração do trabalho, a autoridade patriarcal e a desigualdade.
O Brasil avivado fornece materiais especialmente eficazes para essa operação. O mal-estar é verdadeiro: abandono, insegurança, humilhação e ausência de futuro. A extrema direita reconhece esse mal-estar e lhe oferece uma causalidade moral e religiosa. A nação teria sido corrompida. A família estaria sob ataque. Os cristãos seriam perseguidos. As instituições estariam ocupadas por inimigos.
A energia da revolta é preservada, enquanto seu alvo é deslocado. No lugar das relações sociais que produzem precariedade e insegurança aparecem inimigos morais, culturais, religiosos e sexuais.
O 8 de Janeiro tornou essa combinação visível. A ocupação de edifícios públicos, a ruptura da legalidade, as orações, os louvores e o sentimento de participação num acontecimento histórico compunham uma forma insurrecional colocada a serviço da restauração de uma autoridade derrotada e da convocação da tutela militar.
A extrema direita não triunfa exclusivamente pela destruição da esperança. Consegue capturá-la, reorganizá-la e conferir-lhe um destino restaurador.
A força do livro está em tornar esse terreno inteligível. Sua ambição, contudo, também o expõe a problemas teóricos e metodológicos que precisam ser examinados. O primeiro está contido no próprio título. André Castro critica a antiga inteligência nacional por representar o povo a partir de fora, convertendo-o em matéria de seus projetos. A expressão “eis aí”, porém, repõe a posição daquele que aponta, seleciona e anuncia qual povo deve ser reconhecido como historicamente decisivo.
O povo evangélico não se apresenta sozinho. É recortado pelo crítico e elevado à condição de figura central do país. O conteúdo da representação muda, enquanto a estrutura do ato intelectual permanece próxima da tradição criticada. O livro supera o mecanismo nacional-popular de representação do povo ou apenas substitui o povo do samba, da literatura e do sindicalismo pelo povo evangélico?
6.
Essa questão conduz a outra. André Castro talvez permaneça preso ao paradigma da formação que pretende superar. A estrutura interpretativa continua reconhecível: identifica-se uma forma cultural popular, atribui-se a ela a capacidade de expressar a experiência nacional e encontra-se nela a antecipação de um projeto de país.
Antes, a literatura e a canção prefiguravam o Brasil formado. Agora, a experiência evangélica prefiguraria o Brasil avivado. O objeto se altera, enquanto permanece a procura por uma forma cultural capaz de revelar o sentido histórico da nação. O Brasil avivado rompe efetivamente com o paradigma da formação ou constitui sua versão religiosa e conservadora?
O enquadramento nacional traz ainda outro limite. O evangelicalismo contemporâneo é atravessado por circuitos transnacionais: teologia da prosperidade, indústria musical gospel, modelos empresariais de igreja, sionismo cristão, redes missionárias, plataformas digitais e organizações políticas conservadoras.
O Brasil avivado pode ser também uma tradução periférica de redes transnacionais do “capitalismo religioso”. A nação é o princípio organizador efetivo do fenômeno ou o efeito local de circuitos globais?
O conceito de povo, por sua vez, exige maior determinação de classe. O campo evangélico reúne trabalhadores precarizados, pequenos proprietários, policiais, militares, profissionais liberais, empresários e dirigentes religiosos milionários.
A expressão “povo evangélico” pode encobrir uma coalizão vertical em que interesses de proprietários e gestores religiosos aparecem como vontade comum da comunidade. A pergunta decisiva talvez não seja como o povo evangélico pretende governar, e sim quem governa em nome desse povo. Quem formula o programa? Quem fornece sua base social? Quem se apropria institucional e economicamente da mobilização?
Há também uma assimetria na forma de tratar os objetos. O livro aplica suspeita à antiga inteligência nacional e compreensão ao mundo evangélico.
Chico Buarque, Caetano Veloso, Petra Costa e a esquerda secular são examinados a partir de sua posição de classe, de sua distância social, de sua nostalgia e de sua impotência política. A produção evangélica recebe uma reconstrução de sua lógica interna, o reconhecimento de sua densidade existencial e uma atenção cuidadosa à sua capacidade de produzir comunidade e futuro. A primeira é desmistificada. A segunda é compreendida.
Uma análise mais equilibrada precisaria aplicar aos dois campos os mesmos critérios: forma, posição de classe, propriedade, circulação, interesse, eficácia política e contradições internas. Sem essa simetria, corre-se o risco de conceder ao evangelicalismo uma hermenêutica generosa e reservar à esquerda uma crítica da ideologia.
7.
A assimetria reaparece na apropriação de Roberto Schwarz e do método imanente. Em Roberto Schwarz, “matéria brasileira” não significa qualquer tema socialmente relevante. Uma contradição histórica torna-se matéria quando se organiza formalmente numa obra.
O fato de o evangelicalismo ser decisivo no Brasil contemporâneo não demonstra que toda música, pintura, pregação ou narrativa que trate dele formalize a nova matéria brasileira. A relevância sociológica do tema não garante a descoberta formal.
A pergunta metodológica decisiva é saber se o Brasil avivado foi descoberto pela forma dos objetos ou se já estava conceitualmente formulado antes deles.
Em vários ensaios, a hipótese parece anteceder a análise. Os objetos confirmam sucessivamente a mesma tese. Raramente a limitam, desorganizam ou obrigam o conceito a mudar. Produz-se uma possível inversão do método imanente: em vez de o objeto revelar algo ainda desconhecido pelo crítico, o conceito prévio seleciona os elementos que tornam o objeto legível como expressão do Brasil avivado.
A mesma cautela deve ser aplicada à distinção entre falar sobre uma experiência e falar a partir dela. Falar a partir de uma experiência pode produzir conhecimentos inacessíveis a quem está fora. Também pode reproduzir clichês, naturalizações e formas de consciência imediata.
A proximidade social não garante verdade formal. A distância não produz necessariamente falsificação. Machado de Assis não revela a sociedade escravista por falar desde a experiência dos escravizados. A força crítica de sua obra resulta da organização objetiva da forma, inclusive contra os limites sociais e as intenções conscientes do autor.
O critério mais consistente não seria a origem social da voz, e sim sua capacidade formal de tornar visíveis contradições que a consciência imediata tende a ocultar.
Por fim, o livro corre o risco de repetir, em sentido invertido, a polarização que Roberto Schwarz criticou em Alfredo Bosi. De um lado, aparece uma intelectualidade apartada, melancólica e incapaz de imaginar o futuro. De outro, surge o povo evangélico das periferias, historicamente vivo, produtor de comunidade, esperança e projeto.
8.
André Castro não atribui ao segundo polo uma superioridade moral explícita. Confere-lhe uma superioridade de vitalidade histórica. A oposição entre racionalismo de elite e humanidade da devoção popular reaparece como oposição entre elite sem futuro e povo religioso produtor de futuro.
O emaranhado contemporâneo é provavelmente mais contraditório. A “esquerda” ainda produz vínculos, expectativas e práticas de transformação. O mundo evangélico também administra, acumula, disciplina e reproduz hierarquias. Reconhecer a potência da imaginação religiosa não exige transformar a antiga inteligência em ruína homogênea nem converter o povo evangélico em portador privilegiado do sentido nacional.
Essas objeções não anulam a contribuição de Eis aí, o povo brasileiro. Indicam a força do problema colocado pelo livro. André obriga a crítica a deslocar seu lugar de observação e a examinar materiais que foram durante muito tempo tratados como inferiores, exteriores ou intelectualmente indignos.
É preciso retornar, então, ao cálice. Diante dele, existem duas reações insuficientes. A primeira consiste em afastá-lo porque seu conteúdo está quente demais ou porque sua forma parece vulgar. A segunda consiste em sacralizá-lo, como se o fato de ter sido produzido nas periferias lhe conferisse uma verdade imediata.
A crítica precisa sustentar o recipiente pelo tempo necessário para compreender de onde vem seu calor. Precisa reconhecer a esperança contida nele e investigar as relações materiais que a produzem. Precisa perceber sua dimensão comunitária e examinar as hierarquias que a organizam. Precisa identificar o desejo de transformação e compreender sua captura por projetos restauradores.
A questão que permanece é saber se o Brasil avivado constitui uma descoberta formal da nova matéria brasileira ou uma totalização produzida pelo crítico a partir de fenômenos reais, embora heterogêneos.
A resposta depende de sabermos se o conceito consegue ser modificado pelos objetos, se o povo pode ser pensado sem ocultar as classes que o compõem e se a esperança pode ser compreendida sem idealizar seus produtores.
O mérito do livro está em mostrar que esse terreno existe. Ele é produzido diariamente nas músicas, nas pregações, nos testemunhos, nas igrejas e nas plataformas.
O cálice está diante de nós. Seu conteúdo permanece quente. Resta decidir se vamos afastá-lo, adorá-lo ou compreender as relações sociais que aquecem aquilo que ele contém.
*Gabriel Teles é doutor em sociologia pela USP. Autor, entre outros livros, de Análise marxista dos movimentos sociais (Edições Redelp). [https://amzn.to/4aGpTzF]
Referência

André Castro. Eis aí, o povo brasileiro. São Paulo, Editora e-galáxia, 2026, 188 págs. [https://link.amazon/B08qPxJPW]
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| Imagem: Toa Heftiba |
Considerações sobre o livro recém-lançado de André Castro
1.
Há uma imagem de Ernst Bloch, em seu livro sobre sujeito e objeto em Hegel, segundo a qual ler Hegel seria semelhante a segurar um caldeirão cheio de líquido quente. O recipiente é pesado, seu conteúdo está em movimento e o calor atravessa suas paredes até alcançar as mãos de quem tenta sustentá-lo. A leitura exige força e atenção. Há sempre o risco de deixar o caldeirão cair ou de afastá-lo rapidamente para evitar a queimadura.
Guardadas todas as proporções, Eis aí, o povo brasileiro, de André Castro, produz sensação semelhante. Não se trata, evidentemente, de um caldeirão filosófico hegeliano. A imagem adequada seria a de uma cumbuca. Ou, para conferir à metáfora uma forma litúrgica mais acabada, a de um cálice.
Não um cálice ornamentado com pedras preciosas e banhado a ouro, próprio da liturgia suntuosa dos períodos de maior riqueza e poder institucional da Igreja Católica. O livro de André Castro se parece com um cálice de alumínio, simples e barato, facilmente encontrado nas casas e pequenas igrejas das periferias brasileiras.
A diferença não é apenas estética. O alumínio conduz calor. Aquilo que está no interior do recipiente alcança rapidamente sua superfície e chega às mãos de quem o segura. Quanto mais quente o conteúdo, mais difícil sustentá-lo.
O livro de André Castro é esse cálice de alumínio. Sua forma é ensaística, deliberadamente inquieta, construída a partir de materiais que a crítica cultural tradicional frequentemente considera menores: canções gospel, pregações, testemunhos, marchas religiosas, vídeos digitais, pinturas, contos e documentários. Seu conteúdo, contudo, está quente. Nele aparecem algumas das contradições centrais do Brasil contemporâneo: o esgotamento das expectativas de formação nacional, a expansão evangélica nas periferias, a crise imaginativa da esquerda, a reorganização religiosa da esperança e a constituição de uma extrema direita com capacidade de mobilização popular.
A pergunta que atravessa o livro pode ser formulada de maneira direta: onde está sendo produzida, hoje, uma interpretação popular do Brasil?
Durante parte considerável do século XX, a resposta passava pelo problema da formação nacional. O Brasil era compreendido como uma sociedade incompleta e dependente, cuja unidade econômica, política e cultural ainda precisaria ser construída. Apesar de suas diferenças teóricas, autores como Antonio Candido, Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Florestan Fernandes e Roberto Schwarz escreveram no interior desse horizonte.
2.
A formação de um sistema literário, a industrialização, a integração das classes trabalhadoras, a superação da dependência e a revolução brasileira integravam um campo comum de expectativas. A cultura não funcionava apenas como representação de uma nação previamente constituída. Participava da elaboração imaginária da sociedade que ainda se pretendia construir.
O modernismo, o samba, a bossa nova, o Cinema Novo e a arquitetura de Brasília são alguns dos momentos dessa imaginação. Brasília condensa exemplarmente a promessa de que o desenho, a técnica e o Estado poderiam antecipar a sociedade futura. Antes que o país moderno existisse como totalidade social, ele era projetado no papel e erguido em concreto.
O golpe de 1964, a crise do desenvolvimentismo, a reestruturação capitalista e a dissolução das expectativas de integração nacional enfraqueceram esse horizonte. A tradição crítica conservou uma enorme capacidade de diagnosticar a dependência, a regressão, a desigualdade e o colapso. Perdeu progressivamente a capacidade de identificar um sujeito coletivo e uma imagem convincente do futuro.
A hipótese de André Castro é que, enquanto uma parcela da intelectualidade brasileira examinava as ruínas do projeto nacional, outra imaginação coletiva se constituía nas periferias, nas igrejas e nos circuitos culturais evangélicos. É a essa configuração que o autor denomina “Brasil avivado”.
O Brasil avivado constitui uma imaginação religiosa da nação. Nele, a transformação do país já não depende prioritariamente do desenvolvimento econômico, da reforma social, da revolução ou da ampliação da cidadania. Depende de uma restauração espiritual e moral. A nação precisaria reconhecer a soberania divina, derrotar as forças responsáveis por sua corrupção e ser conduzida por pessoas comprometidas com uma missão religiosa.
Essa imaginação conecta a vida individual ao destino nacional por meio de uma gramática formada por termos como prova, promessa, vitória, missão, testemunho, batalha espiritual e avivamento. Uma demissão pode ser interpretada como prova. A obtenção de um emprego aparece como vitória. Uma doença torna-se batalha espiritual. Uma eleição pode ser apresentada como cumprimento de uma profecia. A transformação do país adquire a forma do avivamento.
3.
A experiência fragmentada recebe, desse modo, uma narrativa total. O testemunho reorganiza retrospectivamente a biografia do fiel: havia sofrimento, veio a prova, a pessoa perseverou, Deus agiu e a vitória confirmou que a promessa sempre estivera presente.
A religião produz uma temporalidade. O presente difícil torna-se suportável porque é vivido a partir de um futuro prometido. Essa dimensão permite compreender por que a relação entre evangelicalismo e extrema direita não pode ser reduzida à manipulação de uma população passiva por lideranças religiosas.
A extrema direita não criou do nada as ideias de batalha espiritual, perseguição aos cristãos, restauração da família, missão divina e purificação da nação. Encontrou uma gramática previamente sedimentada, selecionou alguns de seus elementos e lhes conferiu uma direção política. A política passou a ser figurada religiosamente, enquanto a experiência religiosa adquiriu consequências políticas de grande alcance.
Uma das principais contribuições de Eis aí, o povo brasileiro consiste em deslocar a análise das cúpulas religiosas e das bancadas parlamentares para as formas ordinárias da fé. André procura a política nas canções, nos testemunhos, nas imagens, nas pregações e nos modos cotidianos de interpretar a vida. Esses materiais não aparecem como ilustrações de uma realidade definida de antemão. São tratados como espaços em que a experiência social ganha forma, produz sujeitos e orienta práticas.
A hipótese do Brasil avivado pode adquirir maior nitidez quando aproximada do problema do colapso social que o Centro de Estudos Sobre o Colapso Social (CECS) tem tentado elaborar. O colapso não deve ser entendido como um acontecimento terminal, após o qual a sociedade interromperia subitamente seu funcionamento. Trata-se de uma forma de reprodução em que a sociedade continua operando enquanto deteriora progressivamente suas próprias condições materiais e sociais.
O trabalho torna-se mais precário, intensificado e instável. A dívida organiza a vida cotidiana. As proteções sociais são reduzidas. A insegurança se converte em condição permanente. A emergência deixa de interromper a normalidade e passa a constituí-la. O colapso é administrado como rotina.
Essa dinâmica também modifica a experiência do tempo. O futuro deixa de aparecer como desenvolvimento, integração ou transformação. Surge como ameaça, risco, dívida ou repetição ampliada do presente. A política institucional responde com contenção de danos, defesa das instituições e promessa de retorno à normalidade. O problema reside no fato de que a própria normalidade se tornou destrutiva.
4.
O Brasil avivado pode ser compreendido como uma resposta religiosa ao bloqueio do futuro histórico. Quando o futuro secular perde credibilidade, o futuro reaparece como promessa divina. Quando a transformação estrutural parece inviável, a vitória individual continua sendo anunciada. Quando o projeto nacional entra em decomposição, o avivamento oferece uma imagem de refundação.
O colapso social bloqueia o futuro histórico; a imaginação religiosa reabre o futuro em forma providencial.
Essa relação não é mecânica. A precarização não produz religião de maneira imediata, assim como não produz automaticamente consciência de classe. Entre as condições materiais e sua elaboração encontram-se famílias, igrejas, mercados culturais, lideranças, organizações políticas e plataformas digitais.
A religião é uma mediação. Converte sofrimento disperso em narrativa, narrativa em identidade e identidade em capacidade de ação. Essa mediação possui um caráter contraditório. As igrejas oferecem sociabilidade, escuta, ajuda material, cuidado e redes de confiança. Ocupam espaços abandonados ou insuficientemente preenchidos pelo Estado, pelos sindicatos, pelos partidos e por outras organizações coletivas.
Ao mesmo tempo, a forma religiosa pode deslocar a causalidade social. A exploração transforma-se em prova. O desemprego torna-se batalha espiritual. A desigualdade é interpretada como diferença entre fidelidade e desobediência. O direito aparece como bênção. A transformação coletiva cede lugar à vitória individual.
A religião exprime uma verdade da experiência e reorganiza essa experiência numa forma que pode obscurecer suas determinações. O sofrimento é real. A comunidade é real. A esperança é real. A explicação religiosa pode deslocar as relações históricas responsáveis pela produção do sofrimento.
Há nessa imaginação um conteúdo utópico efetivo: desejo de proteção, reconhecimento, comunidade e futuro. Reconhecer esse conteúdo não equivale a atribuir ao Brasil avivado um caráter emancipatório. Permite compreender a fonte de sua força.
A distinção blochiana entre utopia abstrata e utopia concreta é útil para avançar. A utopia abstrata projeta uma vida melhor sem reconstruir as condições materiais de sua realização. A utopia concreta articula esperança, possibilidades históricas e ação transformadora.
No Brasil avivado, a superação da exploração converte-se frequentemente em prosperidade individual. A emancipação coletiva torna-se vitória pessoal. O antagonismo social é traduzido como guerra entre o bem e o mal. A transformação histórica é transferida para a intervenção divina ou para a moralização do governo. A questão crítica consiste em descobrir qual conteúdo social é expresso por essa esperança, quem organiza sua linguagem e qual direção política lhe é atribuída.
5.
A noção de “revolta na ordem”, desenvolvida por João Bernardo, oferece outra chave interpretativa. A revolta na ordem mobiliza insatisfação social, disposição para a ruptura e linguagem antissistema, direcionando essa energia para a recomposição autoritária das hierarquias existentes.
Sua forma é insurgente; seu conteúdo, restaurador. Há revolta contra governos, tribunais, partidos e elites políticas. Permanecem preservadas a propriedade capitalista, a exploração do trabalho, a autoridade patriarcal e a desigualdade.
O Brasil avivado fornece materiais especialmente eficazes para essa operação. O mal-estar é verdadeiro: abandono, insegurança, humilhação e ausência de futuro. A extrema direita reconhece esse mal-estar e lhe oferece uma causalidade moral e religiosa. A nação teria sido corrompida. A família estaria sob ataque. Os cristãos seriam perseguidos. As instituições estariam ocupadas por inimigos.
A energia da revolta é preservada, enquanto seu alvo é deslocado. No lugar das relações sociais que produzem precariedade e insegurança aparecem inimigos morais, culturais, religiosos e sexuais.
O 8 de Janeiro tornou essa combinação visível. A ocupação de edifícios públicos, a ruptura da legalidade, as orações, os louvores e o sentimento de participação num acontecimento histórico compunham uma forma insurrecional colocada a serviço da restauração de uma autoridade derrotada e da convocação da tutela militar.
A extrema direita não triunfa exclusivamente pela destruição da esperança. Consegue capturá-la, reorganizá-la e conferir-lhe um destino restaurador.
A força do livro está em tornar esse terreno inteligível. Sua ambição, contudo, também o expõe a problemas teóricos e metodológicos que precisam ser examinados. O primeiro está contido no próprio título. André Castro critica a antiga inteligência nacional por representar o povo a partir de fora, convertendo-o em matéria de seus projetos. A expressão “eis aí”, porém, repõe a posição daquele que aponta, seleciona e anuncia qual povo deve ser reconhecido como historicamente decisivo.
O povo evangélico não se apresenta sozinho. É recortado pelo crítico e elevado à condição de figura central do país. O conteúdo da representação muda, enquanto a estrutura do ato intelectual permanece próxima da tradição criticada. O livro supera o mecanismo nacional-popular de representação do povo ou apenas substitui o povo do samba, da literatura e do sindicalismo pelo povo evangélico?
6.
Essa questão conduz a outra. André Castro talvez permaneça preso ao paradigma da formação que pretende superar. A estrutura interpretativa continua reconhecível: identifica-se uma forma cultural popular, atribui-se a ela a capacidade de expressar a experiência nacional e encontra-se nela a antecipação de um projeto de país.
Antes, a literatura e a canção prefiguravam o Brasil formado. Agora, a experiência evangélica prefiguraria o Brasil avivado. O objeto se altera, enquanto permanece a procura por uma forma cultural capaz de revelar o sentido histórico da nação. O Brasil avivado rompe efetivamente com o paradigma da formação ou constitui sua versão religiosa e conservadora?
O enquadramento nacional traz ainda outro limite. O evangelicalismo contemporâneo é atravessado por circuitos transnacionais: teologia da prosperidade, indústria musical gospel, modelos empresariais de igreja, sionismo cristão, redes missionárias, plataformas digitais e organizações políticas conservadoras.
O Brasil avivado pode ser também uma tradução periférica de redes transnacionais do “capitalismo religioso”. A nação é o princípio organizador efetivo do fenômeno ou o efeito local de circuitos globais?
O conceito de povo, por sua vez, exige maior determinação de classe. O campo evangélico reúne trabalhadores precarizados, pequenos proprietários, policiais, militares, profissionais liberais, empresários e dirigentes religiosos milionários.
A expressão “povo evangélico” pode encobrir uma coalizão vertical em que interesses de proprietários e gestores religiosos aparecem como vontade comum da comunidade. A pergunta decisiva talvez não seja como o povo evangélico pretende governar, e sim quem governa em nome desse povo. Quem formula o programa? Quem fornece sua base social? Quem se apropria institucional e economicamente da mobilização?
Há também uma assimetria na forma de tratar os objetos. O livro aplica suspeita à antiga inteligência nacional e compreensão ao mundo evangélico.
Chico Buarque, Caetano Veloso, Petra Costa e a esquerda secular são examinados a partir de sua posição de classe, de sua distância social, de sua nostalgia e de sua impotência política. A produção evangélica recebe uma reconstrução de sua lógica interna, o reconhecimento de sua densidade existencial e uma atenção cuidadosa à sua capacidade de produzir comunidade e futuro. A primeira é desmistificada. A segunda é compreendida.
Uma análise mais equilibrada precisaria aplicar aos dois campos os mesmos critérios: forma, posição de classe, propriedade, circulação, interesse, eficácia política e contradições internas. Sem essa simetria, corre-se o risco de conceder ao evangelicalismo uma hermenêutica generosa e reservar à esquerda uma crítica da ideologia.
7.
A assimetria reaparece na apropriação de Roberto Schwarz e do método imanente. Em Roberto Schwarz, “matéria brasileira” não significa qualquer tema socialmente relevante. Uma contradição histórica torna-se matéria quando se organiza formalmente numa obra.
O fato de o evangelicalismo ser decisivo no Brasil contemporâneo não demonstra que toda música, pintura, pregação ou narrativa que trate dele formalize a nova matéria brasileira. A relevância sociológica do tema não garante a descoberta formal.
A pergunta metodológica decisiva é saber se o Brasil avivado foi descoberto pela forma dos objetos ou se já estava conceitualmente formulado antes deles.
Em vários ensaios, a hipótese parece anteceder a análise. Os objetos confirmam sucessivamente a mesma tese. Raramente a limitam, desorganizam ou obrigam o conceito a mudar. Produz-se uma possível inversão do método imanente: em vez de o objeto revelar algo ainda desconhecido pelo crítico, o conceito prévio seleciona os elementos que tornam o objeto legível como expressão do Brasil avivado.
A mesma cautela deve ser aplicada à distinção entre falar sobre uma experiência e falar a partir dela. Falar a partir de uma experiência pode produzir conhecimentos inacessíveis a quem está fora. Também pode reproduzir clichês, naturalizações e formas de consciência imediata.
A proximidade social não garante verdade formal. A distância não produz necessariamente falsificação. Machado de Assis não revela a sociedade escravista por falar desde a experiência dos escravizados. A força crítica de sua obra resulta da organização objetiva da forma, inclusive contra os limites sociais e as intenções conscientes do autor.
O critério mais consistente não seria a origem social da voz, e sim sua capacidade formal de tornar visíveis contradições que a consciência imediata tende a ocultar.
Por fim, o livro corre o risco de repetir, em sentido invertido, a polarização que Roberto Schwarz criticou em Alfredo Bosi. De um lado, aparece uma intelectualidade apartada, melancólica e incapaz de imaginar o futuro. De outro, surge o povo evangélico das periferias, historicamente vivo, produtor de comunidade, esperança e projeto.
8.
André Castro não atribui ao segundo polo uma superioridade moral explícita. Confere-lhe uma superioridade de vitalidade histórica. A oposição entre racionalismo de elite e humanidade da devoção popular reaparece como oposição entre elite sem futuro e povo religioso produtor de futuro.
O emaranhado contemporâneo é provavelmente mais contraditório. A “esquerda” ainda produz vínculos, expectativas e práticas de transformação. O mundo evangélico também administra, acumula, disciplina e reproduz hierarquias. Reconhecer a potência da imaginação religiosa não exige transformar a antiga inteligência em ruína homogênea nem converter o povo evangélico em portador privilegiado do sentido nacional.
Essas objeções não anulam a contribuição de Eis aí, o povo brasileiro. Indicam a força do problema colocado pelo livro. André obriga a crítica a deslocar seu lugar de observação e a examinar materiais que foram durante muito tempo tratados como inferiores, exteriores ou intelectualmente indignos.
É preciso retornar, então, ao cálice. Diante dele, existem duas reações insuficientes. A primeira consiste em afastá-lo porque seu conteúdo está quente demais ou porque sua forma parece vulgar. A segunda consiste em sacralizá-lo, como se o fato de ter sido produzido nas periferias lhe conferisse uma verdade imediata.
A crítica precisa sustentar o recipiente pelo tempo necessário para compreender de onde vem seu calor. Precisa reconhecer a esperança contida nele e investigar as relações materiais que a produzem. Precisa perceber sua dimensão comunitária e examinar as hierarquias que a organizam. Precisa identificar o desejo de transformação e compreender sua captura por projetos restauradores.
A questão que permanece é saber se o Brasil avivado constitui uma descoberta formal da nova matéria brasileira ou uma totalização produzida pelo crítico a partir de fenômenos reais, embora heterogêneos.
A resposta depende de sabermos se o conceito consegue ser modificado pelos objetos, se o povo pode ser pensado sem ocultar as classes que o compõem e se a esperança pode ser compreendida sem idealizar seus produtores.
O mérito do livro está em mostrar que esse terreno existe. Ele é produzido diariamente nas músicas, nas pregações, nos testemunhos, nas igrejas e nas plataformas.
O cálice está diante de nós. Seu conteúdo permanece quente. Resta decidir se vamos afastá-lo, adorá-lo ou compreender as relações sociais que aquecem aquilo que ele contém.
*Gabriel Teles é doutor em sociologia pela USP. Autor, entre outros livros, de Análise marxista dos movimentos sociais (Edições Redelp). [https://amzn.to/4aGpTzF]
Referência

André Castro. Eis aí, o povo brasileiro. São Paulo, Editora e-galáxia, 2026, 188 págs. [https://link.amazon/B08qPxJPW]

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