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Desafios nos tristes trópicos

Do A Terra É Redonda, 20 de julho 2026
Por LUIZ MARQUES*


Imagem: Daniel Malinkovich

Das ruínas da financeirização aos abalos climáticos, a vulnerabilidade dos trópicos expõe o preço de se governar para o lucro e contra a soberania

1.

Claude Lévi-Strauss integra o grupo de professores franceses convidados para a formatação da primeira universidade brasileira, a USP, na década de trinta. Relata a experiência em um livro famoso, Tristes trópicos, publicado na França em 1955 e traduzido para o português em 1996. No capítulo 11, a obra compara a arquitetura urbana nas Américas com cidades da Europa, objetos para uma contemplação e não simples instrumentos de decoração.

As cidades tropicais mudam de fisionomia sem deixar vestígios da passagem do tempo. Logo suas fachadas descascam, a chuva e a fuligem desenham sulcos, as rachaduras estruturais irrompem, estilos saem de moda. O ordenamento primitivo desaparece sob demolições movidas pela impaciência. A evolução obedece a um curtíssimo período de festas e sonhos.

Ao visitar Nova York ou Chicago em 1941 e ao chegar em São Paulo em 1935 não é o aspecto novo, mas a precocidade dos estragos que instiga a futura celebridade. Afinal, as cidades além-mar adormecem suavemente na morte; as urbes do Novo Mundo sofrem febrilmente da doença crônica típica dos jovens no território.

“Não me surpreendeu que a essas cidades (selvagens) faltassem uns dez séculos, impressionou-me que tantos bairros já tivessem cinquenta anos; e que, sem pejo, alardeassem tais estigmas visto que o encanto a que poderiam aspirar seria apenas o de uma juventude fugaz”, arremata o perspicaz antropólogo.

Evidentemente catástrofes naturais fazem o ruim, pior. A tragédia na Venezuela, com terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 na escala Richter, em 24 de junho corrente, tem o epicentro nos estados de Yaracuy, afetando Caracas, e no estado de La Guaira onde 80% dos prédios colapsam. Quatro mil pessoas são mortas, milhares permanecem desaparecidas sob os escombros, dezessete mil amargam o desabrigo. O prejuízo de U$ 37 bilhões equivale a 6% do PIB do país sequelado.

Em meio a tristeza e o desespero humano, a lição adveio do bairro Fuerte Tiuna, em Caracas, onde as casas e os conjuntos habitacionais de um projeto arquitetônico em cooperação com a Belarus, a Rússia e a China sobreviveram aos abalos na fronteira das placas tectônicas do Caribe e da Sul América. A iniciativa intitulada Missão Habitacional Venezuela remonta à época do previdente chefe de governo Hugo Chaves. A boa notícia, segundo os peritos, é de que 100% dessas edificações passaram incólumes pela terrível provação. Sem avarias estruturais, seguem habitáveis.

O método adotado na construção evita novos lutos. A tecnologia antissísmica comprovada em climas extremos da Ásia e do Leste Europeu se mostra resistente. A combinação de investimentos sociais, conhecimento estrangeiro especializado em engenharia e qualidade dos insumos funciona a contento, garantindo às moradias o direito a uma velhice lenta. O costume que leva ao emprego de materiais precários para maximizar os lucros não é um destino incontornável. Quando os governantes têm amor à pátria e os empresários agem com responsabilidade, outra cultura se estabelece na sociedade.


2.

Também o capital especulativo provoca mudanças paisagísticas. A dita destruição criativa não nutre respeito pelo passado. Alavancada pelo mercado imobiliário, a financeirização multiplica as ruínas em nome do etarismo que considera démodé o que cruza a fatídica linha da juventude. O preconceito se estende, facilmente, das molduras de concreto aos idosos.

No Brasil, a direita e a ultradireita privatizam o que é comum a todos: o gás, a água, a energia elétrica, e desguarnecem a proteção ambiental. No ápice da viralatice, o governador Tarcísio de Freitas põe à venda o Palácio Bandeirantes, o Instituto Butantan e o Hospital de Clínicas; dado o escândalo, recua. O esforço diuturno para apagar os rastros das instituições na esfera pública é a marca de um servilismo corrupto dos rastaqueras às “elites” entreguistas.

A novidade serve de justificação à ação devastadora das retroescavadeiras. O antigo Largo da Forca, em que escravizados eram executados e libertos habitam no pós-Abolição, recebe os imigrantes japoneses a partir de 1912. Hoje parece que o Bairro Liberdade, em São Paulo, sempre teve aqueles inconfundíveis traços nipônicos.

Os paulistas que se vangloriavam de construir uma casa, por hora, mantêm o ritmo na era dos edifícios, o que torna inviável editar um mapa da metrópole a menos que se lance edições semanais. Em paralelo, o comércio assume a tarefa de limpar social e racialmente as vias públicas pela exposição de mercadorias nas calçadas e sob os viadutos. O padre Júlio Lancelotti conhece de cor as artimanhas eugênicas do poder para implementar uma gentrificação livre de pedras hostis.

A propósito, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS) denuncia a demolição irregular de um imóvel no Centro de Pelotas, incluído no inventário do Patrimônio Histórico do município. O Ministério Público pede a condenação dos responsáveis e uma indenização condizente por danos difusos para o Fundo Municipal de Reconstituição de Bens Lesados. A transferência de terreno depende agora da reparação pecuniária depositada antes. Better late than never.

Por igual, conquanto no caso sem razão, os Estados Unidos enfrentam o contexto de crise cobrando indenizações por supostos danos na balança de pagamentos, com a imposição de tarifas escorchantes sobre as importações. Em simultâneo, escondem e idealizam o passado com uma mitomania condensada na sigla MAGA (“Make America Great Again”), incapazes de frear a marcha da multipolaridade no mundo. O presidente Donald Trump manipula o ressentimento frente as promessas de paz e prosperidade não cumpridas pela democracia liberal.

Ao contrário, em defesa da soberania nacional, o estadista Lula da Silva confronta a arrogância estadunidense e rechaça as ameaças imperialistas da fera ferida em sua vaidade desproporcional à realidade dos fatos. Cada um tire as conclusões objetivas da situação e faça uso dos direitos políticos para reinventar a esperança individual e coletivamente. Tal é o desafio nos tristes trópicos. A luta continua nas urnas.

*Luiz Marques é professor de Ciência política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ex-Secretário de Estado da Cultura (Governo Olívio Dutra).

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