Por LUIZ EDUARDO SIMÕES DE SOUZA*
Comentário sobre a nova edição, recém-lançada, do livro organizado por Rafael Araujo, Karl Schurster e Omar Vázquez Heredia
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Imagem: Wolfgang Hasselmann |
Comentário sobre a nova edição, recém-lançada, do livro organizado por Rafael Araujo, Karl Schurster e Omar Vázquez Heredia
1.
Em 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos invadiram a Venezuela, bombardearam Caracas e prenderam seu presidente eleito. A mídia corporativa brasileira chamou isso de “intervenção”, como se intervir fosse uma palavra neutra para descrever aviões de guerra sobrevoando uma capital latino-americana. Donald Trump chamou de libertação.
A oposição venezuelana, que durante anos exigiu exatamente isso, comemorou. E o mundo, que havia passado décadas debatendo se Hugo Chávez e Nicolás Maduro eram ou não ditadores, descobriu que a resposta de Washington para a questão democrática na América Latina continuava sendo, como sempre foi, o mesmo: as próprias bombas.
É nesse contexto que chega às mãos do leitor De Chávez a Maduro: democracia, poder e crise na Venezuela. A obra, segunda edição ampliada de um volume de 2015, com 29 capítulos em português e espanhol, tem o mérito raro de ter chegado ao mundo com o objeto de estudo ainda em chamas. O prólogo foi escrito depois da invasão, e é o texto mais urgente do volume.
Omar Vázquez Heredia, sociólogo venezuelano radicado no Brasil, abre o livro com um conceito que vale o preço da obra: “perplejidad”. Não a perplexidade passageira de quem se surpreendeu com o noticiário, mas a condição epistemológica de quem percebe que os instrumentos analíticos disponíveis não dão conta do que está diante dos olhos. Vázquez Heredia recusa o caminho fácil: nem celebrar a queda de Nicolás Maduro como se democracia pudesse chegar de paraquedas com insígnia norte-americana, nem fingir que o governo bolivariano não havia acumulado contradições sérias que precisam ser nomeadas. Essa honestidade intelectual é necessária, mas o leitor deve estar advertido de que a perplejidad não pode se converter em equidistância. E o livro, em seu conjunto, ora resiste a essa armadilha, ora cede a ela.
Porque há um fato que nenhuma perplejidade deveria obscurecer: a Venezuela foi invadida. Não entrou em colapso. Não implodiu espontaneamente. Foi invadida por uma potência estrangeira que, há mais de um século, trata a América Latina como quintal e o petróleo latino-americano como propriedade natural de suas corporações. A sequência histórica importa: bloqueio econômico, sanções financeiras, boicote ao ouro venezuelano, tentativas de golpe em 2002 e 2019, guerra econômica sistemática, e, afinal, a operação militar de 2026.
Chamar a crise venezuelana de fracasso do bolivarianismo sem colocar esse contexto no centro da análise é o mesmo que diagnosticar anemia numa pessoa que está sangrando por um ferimento externo e receitar vitamina C.
2.
Não que o livro ignore esse ponto. O capítulo de Ana Livia Araujo Esteves sobre a parceria Rússia-Venezuela depois de 2022 documenta com precisão como Moscou e Caracas foram empurradas uma para a outra por sanções ocidentais simultâneas. O de Lolola Hernández sobre o PetroCaribe reconstrói o projeto bolivariano de usar o petróleo como instrumento de soberania regional: ALBA, UNASUR, Banco do Sul, e sua deterioração sob a pressão financeira internacional. E o prólogo de Vázquez Heredia é explícito: a Venezuela de 2026 não é um país que saiu de um ditador para a liberdade. É um país cujo futuro será decidido em Washington, e não por seus cidadãos.
O capítulo mais original da coletânea é o de Wallace dos Santos de Moraes, que propõe o conceito de “capitalismo de las calles” para descrever o que o chavismo foi de fato: nem a ditadura socialista que a direita proclamava, nem o socialismo do século XXI que a esquerda mais entusiasmada celebrava. O argumento recusa as simplificações de ambos os lados, e nisso tem valor.
Mas o leitor deve manejá-lo com cuidado, porque o risco é que o conceito, ao descrever o bolivarianismo pelo que ele não conseguiu ser, acabe obscurecendo o que ele foi: um processo de soberania popular e redistribuição que funcionou enquanto o imperialismo não completou seu cerco. A categoria “capitalismo de Estado” descreve uma fotografia, e fotografias não capturam o movimento.
O bolivarianismo não colapsou porque era capitalista. Operou por anos nas brechas que o capital internacional ainda não havia fechado, e foi sendo estrangulado à medida que essas brechas se fechavam, por sanções, por bloqueio ao ouro, por exclusão do sistema financeiro internacional, por sabotagem sistemática da PDVSA. Quando as brechas se fecharam todas, vieram os aviões. O capitalismo de las calles diz o que o chavismo era. Não diz o que lhe fizeram.
O livro é mais rico quando desce das categorias para os sujeitos. O capítulo de Irama La Rosa sobre o feminismo bolivariano é o mais incomum: escrito em primeira pessoa, analisa a autodeclaração de Chávez como feminista com a seriedade que o tema merece e a honestidade que seus limites exigem. O artigo 88 da Constituição de 1999, que reconhece o trabalho doméstico não remunerado como atividade econômica produtora de valor, algo que a Constituição brasileira de 1988 não fez, é uma conquista real que o antichavismo nunca quis ver.
O capítulo sobre o movimento sindical documenta os avanços e as tensões da relação entre os trabalhadores organizados e um governo que os incorporou institucionalmente sem ceder-lhes autonomia. Esses capítulos lembram que o bolivarianismo não foi apenas Hugo Chávez no palanque: foi gente real construindo poder real em condições reais.
3.
Para o leitor brasileiro, o eixo Venezuela-Brasil tem urgência própria. Um capítulo documenta como o governo Bolsonaro transformou a chegada de mais de 400 mil venezuelanos ao Brasil em problema de segurança pública, como se as pessoas que fugiam de um país sob bloqueio econômico fossem uma ameaça, e não vítimas de uma política que o próprio governo brasileiro aplaudia.
Outro capítulo acompanha os Warao, povo indígena do Delta do Orinoco, chegando a Teresina sem falar português, sem reconhecimento jurídico adequado, sem qualquer preparação do Estado brasileiro para recebê-los. São as consequências humanas de uma guerra econômica que não aparece nos noticiários como guerra, mas que mata devagar e expulsa sistematicamente.
Há uma lacuna no livro que precisa ser nomeada: o colapso econômico do período madurista, incluindo a hiperinflação, o desmantelamento da PDVSA e a crise humanitária, é tratado de forma dispersa, sem o capítulo estrutural que o tema exige. Isso é um problema analítico sério, e não apenas porque o sofrimento venezuelano merece ser examinado com rigor.
É um problema porque sem compreender a dinâmica interna da crise: o que foi produto do bloqueio, o que foi produto de erros de gestão, o que foi produto da própria estrutura rentista que o bolivarianismo nunca superou, fica impossível distinguir o que a esquerda deve aprender do que a direita quer que ela acredite.
O livro não resolve essa tensão. Mas a coloca em campo com honestidade suficiente para que o leitor a enfrente por conta própria. Em tempos em que a Venezuela serve de argumento para justificar desde austeridade fiscal até intervenção militar, um livro que recusa as simplificações de ambos os lados sem cair na equidistância confortável já é uma contribuição política além de acadêmica.
Na dedicatória, os organizadores reproduzem uma consigna das ruas de Caracas: “Yo quiero un sueldo digno pa’ quedarme en mi país“. É a frase que resume o que o bolivarianismo prometeu, não inteiramente cumpriu, e o imperialismo norte-americano destruiu o direito de tentar. O grito não é contra Hugo Chávez. Não é contra Nicolás Maduro. É contra a condição de um país que não pode errar, aprender e corrigir em paz, porque Washington não deixa.
*Luiz Eduardo Simões de Souza é professor de história na Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
Referência
Rafael Araujo, Karl Schurster e Omar Vázquez Heredia (orgs.). De Chávez a Maduro: democracia, poder e crise na Venezuela. Recife, EDUFPE, 2026, 774 págs.

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