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Da mística à ciência

Do A Terra É Redonda, 22 de julho 2026
Por PIETRO REDONDI*



Imagem: Takafumi Yamashita

Introdução à nova edição da obra póstuma de Alexandre Koyré
Da filosofia aos sistemas de pensamento

1.


A publicação desta coletânea de cursos e seminários de Alexandre Koyré (1892-1964), aqui apresentada em nova edição revista e ampliada, remonta a 1987. Ela foi lançada na ocasião de um grande colóquio internacional intitulado “Ciência: o renascimento de uma história”, organizado no ano de 1986 em homenagem a Alexandre Koyré pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS).

Desde então, outros colóquios, outros livros e novas pesquisas alimentaram a reflexão sobre esse autor universalmente reconhecido como o historiador das ciências mais inovador e influente de seu século. Tamanha riqueza de análises – bem como de críticas – em torno das interpretações apresentadas por Alexandre Koyré em seus livros sobre o nascimento da ciência moderna tornam mais atual do que nunca o conhecimento do seu ensino. Esta coletânea nos conduz a isso pelo itinerário e pelas passagens essenciais.

Mais do que a caracterização de “revolução científica moderna”, até agora insuficientemente explorada, o legado fundamental deixado pelos seminários de pesquisa aqui reunidos diz respeito ao esforço em compreender, e não apenas explicar, os saberes científicos do passado mediante a apreensão das significações que poderiam ter sido pensadas por seus contemporâneos. Tal esforço de esquecimento de nossas verdades atuais para reconstituir as condições de possibilidade de concepções de mundo diferentes das nossas é o que fez e até hoje continua a fazer de Alexandre Koyré um “historiador revolucionário do pensamento científico”, como o designa Georges Canguilhem.

De nossa parte, para compreender o que tornou possível essa revolução metodológica na história das ciências, devemos ouvir os testemunhos contemporâneos sobre o ensino de Alexandre Koyré. Os alunos de seus seminários de história do pensamento científico fizeram chegar a nós lembranças em pequeno número de relatos, todos atestando que descobriram nos seminários um tipo de pesquisa histórica diferente das demais: “Éramos cinco, ou seis, em casos excepcionais, e seguíamos regularmente suas aulas. Tenho certeza de que ele representou para todos o exemplo encarnado daquilo que deveria ser um sábio e um homem que consagra sua vida ao conhecimento. Não direi aqui o que foram os seminários ao longo dos quais permitimo-nos ficar fascinados pela exploração de um texto difícil e pela revelação dos vínculos íntimos entre obras que, à primeira vista, pareciam díspares. Saíamos purificados e esclarecidos desses festejos de erudição e de análise. Semana após semana, ano após ano, desdobrava-se um pensamento que estava destinado a nos marcar, e cuja riqueza não se encontra inteiramente nos seus livros”.

É nesses termos que Serge Moscovici evoca os seminários de História do Pensamento Científico que, em 1954, Alexandre Koyré inaugurou em Paris com a 6ª. seção da École Pratique des Hautes Études (EPHE), a nova seção de Ciências Econômicas e Sociais criada por Lucien Febvre. Ao mesmo tempo, Alexandre Koyré continuou o seu seminário sobre História das Ideias Religiosas na Europa Moderna, que realizava desde a década de 1930 na 5ª. seção, a de Ciências da Religião da EPHE. Longe de divergirem, esses dois cursos prosseguiram em paralelo: um analisando a gênese dos princípios da física cartesiana e a de Newton, o outro explorando as ideias religiosas de Newton e Leibniz e as questões teológicas da sua controvérsia.

2.

Alguns aspectos do testemunho de Serge Moscovici merecem destaque. Em primeiro lugar, o número muito reduzido de ouvintes no exato momento em que o seminário de Alexandre Koyré incluía pela primeira vez a história da ciência entre as disciplinas ministradas na EPHE. Mais curioso ainda é que, segundo as listas de alunos publicadas nos Anuários da École, não houve migração de ouvintes entre os dois seminários que Alexandre Koyré realizou em Paris.

Podemos notar também a imagem que Alexandre Koyré atribuiu a si mesmo perante o público: a de orientador de leituras. O seu ensino surge inteiramente centrado na análise conceitual e intertextual das obras. Para ele, não havia interesse na biografia de um autor, mesmo que fosse um sábio, pois o que importava era apenas a obra, ou melhor, um corpus de obras contemporâneas, no qual a terminologia, as noções e os símbolos evidenciassem relações surpreendentes e aparentemente misteriosas entre áreas distintas do conhecimento.

A reflexão mais interessante de Serge Moscovici reside na sua lacônica constatação da riqueza dos seminários de Alexandre Koyré: uma riqueza que se encontrava apenas parcialmente em seus livros. É certo que a obra publicada de Alexandre Koyré, desde a sua tese sobre A filosofia de Jacob Boehme até a coletânea póstuma dos seus Estudos newtonianos, foi desenvolvida antecipadamente no âmbito de seus seminários parisienses sobre a História das Ideias Religiosas na Europa Moderna, bem como em universidades americanas, que o convidavam com regularidade após a Segunda Guerra Mundial.

Mas em que consistia exatamente a elevada riqueza de seu ensino? Temos outras duas lembranças pessoais, mais eloquentes quanto ao conteúdo de seus seminários.

I – Bernard Cohen, um de seus alunos norte-americanos, especificou: “[Koyré] nos ensinou a examinar as ideias científicas em relação à matriz do pensamento religioso e filosófico em que elas se enraízam. […] Ele explicou que a inteligibilidade do desenvolvimento do pensamento científico exigia que nos voltássemos para personagens menores, em vez de limitar a nossa atenção aos titãs: os Newton, os Darwin, os Einstein. Essas grandes figuras só poderiam ser plenamente compreendidas sob a condição de compreendermos o pensamento de estudiosos contemporâneos mais “ordinários”. […] Ele nos ensinou a tentar compreender quantas dessas figuras visavam solucionar problemas de acordo com seus próprios sistemas de ideias e com a filosofia considerada verdadeira em sua época, em vez de classificar seus escritos à maneira de um professor, de acordo com a sua conformidade com a ciência considerada hoje como verdadeira”.

3.

Outra testemunha, Cohen Clagett, comentando um seminário proferido por Alexandre Koyré na Universidade de Wisconsin em 1953-1954, enfatizou: “Os elementos mais importantes de sua técnica, tal como os vimos em ação em 1953, eram facilmente reconhecíveis, mas, infelizmente, difíceis de imitar sem a erudição e o talento que eram só dele: (i) um notável instinto para reconhecer problemas frutíferos e conceitos enterrados em uma complexa matriz filosófica e científica; (ii) uma leitura atenta dos textos visando compreender como este ou aquele autor concordava ou discordava de seus antecessores e de seus contemporâneos na maneira de formular esses conceitos; e (iii) uma perspectiva histórica bem refinada, permitindo que as questões fossem consideradas nos termos e no espírito com que haviam sido formuladas.

Esses testemunhos atestam a convicção de ter-se assistido, através da escuta das aulas de Alexandre Koyré, ao advento de uma história da ciência de um gênero inteiramente novo. Uma reconstrução do entrelaçamento de conceitos e linguagens pertencentes a saberes distintos: em vez de uma representação do passado compartimentada em disciplinas, uma análise sem qualquer fronteira previamente ditada por um critério de demarcação entre o que, aos nossos olhos modernos, pertence à ciência e o que definimos como não científico.

Uma exegese dos textos originais destinada a compreender o que era pensável numa cultura diferente da nossa, em vez de um relato retrospectivo do que consideramos ser cientificamente verdadeiro hoje. Um esforço meticuloso para tornar inteligíveis doutrinas esquecidas, errôneas e ultrapassadas, em vez de uma história da ciência “modernista” à maneira de Gaston Bachelard, ou uma história politicamente militante, à maneira de John D. Bernal, também muito popular na década de 1950.

Em suma, durante os seminários, os seus raros alunos aprenderam a compreender as teorias científicas e os autores do passado em relação ao mundo de outrem, e não em relação a nós, ao nosso presente. E, muito provavelmente, esse excedente de riqueza que o seu ensino oral parecia possuir em comparação com os seus livros deve ter se situado precisamente ao nível do método. Muito mais do que em seus livros, que se concentravam em grandes autores, em seus seminários aprendia-se que a ciência não era uma verdade em si, mas, isto sim, que era deste mundo e participava inteiramente da sua natureza.

É fato que, nas obras publicadas de Alexandre Koyré, as reflexões de valor metodológico geral sobre a profissão de historiador raramente aparecem, ou, então, ficam confinadas às notas de rodapé. Muitas vezes, estas trazem observações críticas relativas às simplificações ou esquematizações específicas da historiografia positivista ou marxista que então dominaram a representação do passado científico.

Entre seus artigos ou conferências, aqueles que tematizam explícita e especificamente o que significava para ele seu critério metodológico da “unidade de pensamento em suas formas mais elevadas”, bem como sua aplicação, limitam-se, por um lado, à sua conferência de 1954, em Boston, intitulada “Influência das tendências filosóficas na formulação de teorias científicas”, e, por outro lado, ao seu programa denominado “Orientações de pesquisa e projetos de ensino”, escrito em 1951, quando defendeu a criação de uma cátedra de História do Pensamento Científico no Collège de France.

4.

As páginas seguintes pretendem reunir todos os documentos do ensino de Alexandre Koyré que chegaram até nós ou, pelo menos, todos aqueles que pudemos encontrar. Dado que, ao longo da sua carreira de historiador do pensamento religioso e científico, a pesquisa e o ensino estiveram para ele unidos de forma indissolúvel, esperamos que este dossiê possa representar um complemento útil para melhor compreender o autor e, especialmente, o percurso intelectual que lhe permitiu tornar-se o historiador da ciência mais original do século XX.

Demos a esta coletânea o título Da mística à ciência por acreditarmos encontrar nessa passagem a chave para a transformação da disciplina realizada por Alexandre Koyré, que ele próprio declarou ter sido, desde o início de sua pesquisa, cada vez mais inspirada pela noção de “unidade de pensamento”, destinada a se tornar com o tempo a categoria mais característica de sua pesquisa.

Esse caráter único de Alexandre Koyré em relação a todos os outros historiadores da ciência do século XX deve-se, em primeiro lugar, ao fato de ele ter abordado o estudo da ciência do passado não a partir da ciência atual, ou da filosofia da ciência, mas a partir da história do pensamento religioso. Sabemos que Alexandre Koyré, após ter sido aluno de Edmund Husserl, Adolf Reinach e David Hilbert na Universidade de Göttingen, tomou rumo, decidindo-se a ir a Paris e especializar-se em história da filosofia religiosa medieval e moderna, tendo François Picavet e Étienne Gilson como mestres na EPHE.

O que, sobretudo, o fascinou na cultura parisiense foi, sem dúvida, a existência dessa instituição de ensino superior única no mundo, a EPHE, dedicada à formação de escritores de tese e tão adaptada à sua mente analítica, bem como à sua necessidade de se sentir livre. Sobre esse estabelecimento, onde se formou em História das Ideias e onde lecionou durante quarenta anos, ele disse num artigo publicado em 1931 no Deutsch-französische Rundschau:

Se a forma de ensino específica da EPHE foi para Alexandre Koyré a grande responsável pelo desejo de prosseguir pesquisas de novo tipo transdisciplinar, uma condição determinante para a sua realização foi a escolha por dedicar a sua tese a um tema tão antiquado como “a obra obscura, desigual e confusa” de Jacob Boehme, o teósofo luterano contemporâneo de Kepler e Galileu, considerado um dos mais inescrutáveis autores do misticismo alemão no final do Renascimento e que, no entanto, beneficiou-se de uma influência muito grande sobre a cultura filosófico-científica do século XVII, de Comenius a Henry More e Newton, até o idealismo moderno, de Novalis a Fichte e Hegel.


5.

A análise sistemática das fontes do misticismo especulativo alemão do século XVII levantou um véu e lançou luz sobre uma dimensão cultural até então insuspeitada. Em vez de ser uma forma de pensamento irracional e incompreensível, a filosofia de Boehme acabou por ser uma das inúmeras repercussões religiosas da astronomia copernicana e, por sua vez, exerceu influência sobre a ciência de Newton.

Noutras palavras, a filosofia do teosofista de Görlitz concebeu o mundo natural como a encarnação de Deus: “A substância divina, o corpus divino, a matéria divina, preenche o espaço por toda a eternidade”. Encontramos um conceito idêntico da relação entre Deus e o universo num leitor de Boehme: Newton. Na ciência de Newton, Deus também tem um caráter de espacialidade, a tal ponto que a prerrogativa divina de onipresença em todos os lugares permite a Newton basear sua física na ideia de um espaço absoluto e infinito que contém em si o universo.

Uma repercussão da teoria copernicana analisada por Koyré, radicalmente diferente, mas igualmente portadora de significado metafísico, é a da ciência de Galileu e Descartes. Eles também encaram o universo como uma criação divina, porém no sentido platônico de leis geométricas que são impostas ao estado caótico inicial da natureza. Essa ideia de um Deus arquiteto permite-nos pensar na autonomia do universo governado por suas próprias “leis naturais”.

6.

A revolução da ciência moderna, que Alexandre Koyré definiu – isso é bem conhecido – como uma transformação completa da concepção do mundo, caracterizada pela geometrização do espaço e pela ideia de um universo infinito, foi, portanto, um dos grandes caminhos pelos quais o pensamento humano tem trilhado para compreender a relação entre Deus e o mundo. Vemos isso em particular graças aos seminários que Alexandre Koyré dedica à análise da obra de Kepler, Descartes e Newton.

Desde o início, ele torna compreensível a famosa teoria das harmonias do universo que tantos sorrisos irônicos suscitou, especialmente com a ideia de que os planetas, ao circularem em velocidade angular variável em torno do Sol, “cantam” harmonias musicais cujos acordes compõem uma grande sinfonia universal.

Até então, considerávamos que essa versão musical associada por Kepler à descoberta da sua terceira lei do movimento planetário pertencia ao emaranhado de estranhas considerações místicas, primitivas e, até mesmo, francamente irracionais, com as quais esse grande astrônomo gostava de enfeitar as suas descobertas fundamentais. É o contrário que é verdade: não é a partir de observações, mas com base numa visão mística da criação divina do universo em chave geométrica que Kepler é levado a postular, em termos de relações harmônicas, a sua terceira lei dos movimentos planetários e, depois, compará-las com os dados observacionais, como Alexandre Koyré aponta:

“Coisa curiosa para nós, mas não para o Kepler, é que o cálculo das distâncias planetárias a partir das harmonias concorda quase perfeitamente com os dados empíricos (em valores relativos, é claro, ou seja, tomando o raio da órbita da Terra como unidade). A intuição de Kepler é então confirmada, e Kepler canta um hino ao Senhor que deu a ele, um indigno, a graça de penetrar no mistério da Criação”.

O caso de Descartes pareceria, à primeira vista, completamente oposto ao de Kepler. A ciência cartesiana, como sabemos, rejeita qualquer vínculo de analogia entre o universo e o seu criador. O que, no entanto, não impede Descartes de, por sua vez, estabelecer as duas leis fundamentais da sua física, quais sejam, a lei da inércia e a da conservação do movimento, com base na natureza de Deus, e, em particular, na ideia da imutabilidade divina: “Na verdade, se a ação criadora do Deus imutável é sempre igual e semelhante a si mesma, então, é a mesma quantidade de movimento que […] mantém os corpos nos seus estados de repouso ou movimento retilíneo. Pode-se argumentar que Descartes deveria ter concluído desde a imutabilidade divina até a eternidade do mundo. Ele, porém, não faz isso. Seria cautela? É possível. Mas também é possível que ele mantenha a criação no tempo por razões religiosas, assim como – apesar da imutabilidade divina – fizeram todos os teólogos cristãos antes e depois dele”.

Entre 1933 e 1936, trabalhando em sua investigação sobre as repercussões da teoria de Copérnico, Alexandre Koyré também se debruçou sobre a ciência de Galileu numa série de três seminários sobre História do Pensamento Religioso na Europa Moderna, que constituem a gestação dos ensaios reunidos alguns anos depois em seu livro Estudos galileanos. O objetivo que ele se propôs foi compreender o ponto exato de separação entre Galileu e a astronomia de Copérnico e Kepler que acabamos de ver. Em sua opinião, o que ele chamou de “revolução galileana” consistiu no fato de Copérnico e Kepler, ambos herdeiros da tradição pitagórica, basearem sua astronomia em ideais de simetria e harmonia entre as distâncias e movimentos dos planetas, enquanto a astronomia galileana ignora esse tipo de considerações a priori sobre a natureza do cosmo.

Estariam, portanto, a filosofia natural de Galileu e a sua cosmologia livres de qualquer influência do pensamento religioso do seu tempo? Alexandre Koyré voltaria a essa questão mais tarde, na década de 1950, quando suas pesquisas sobre Newton o levaram a examinar o interesse que havia sido despertado em Newton e em outros contemporâneos pela teoria da criação do universo desenvolvida por Galileu nos seus últimos trabalhos científicos. Embora o estudo desse aspecto não seja abordado em seus seminários, ele constitui o objeto de seu ensaio Newton, Galileu e Platão, publicado nos Annales em 1960.

7.

Newton é o autor em quem se observa de modo mais interessante essa interligação entre o pensamento religioso e o científico. Alexandre Koyré fez disso o objeto de uma aprofundada análise durante seus últimos seminários na 5ª. seção da EPHE. O último, realizado durante o ano letivo de 1961-1962, trata em particular da controvérsia entre Newton e Leibniz sobre a função de Deus no universo – uma polêmica extremamente útil do ponto de vista histórico, porque permitiu explicitar as convicções religiosas ligadas às noções newtonianas de espaço absoluto e tempo absoluto, como enfatizou Alexandre Koyré em seus seminários:

“[…] o espaço e o tempo são infinitos, eternos (ou sempiternos) e necessários. Porém, eles não estão “fora de Deus”; não são atributos, mas seguimentos ou consequências necessárias da existência de Deus in quo vivimur, moremur et sumus [em que vivemos, morremos e somos]. A onipresença (substancial e não apenas pelo poder) de Deus é a própria condição de sua ação; da mesma forma, o espaço vazio é absolutamente vazio, mas apenas vazio de matéria, porque Deus está presente ali em toda parte”.

Assim como Galileu, Descartes e Leibniz, Newton também considerava Deus o criador do mundo. A diferença é que, aos olhos de Newton, Deus continuou a preservar o mundo mediante sua ação providencial. Leibniz entendia que Deus era necessário para a existência do universo, pois, sem o pensamento criativo divino e imediatamente eficiente, o universo não poderia subsistir de forma nenhuma; porém, se a criação procede de Deus, a ação deste continua por si mesma, portanto não seria necessário supor uma contribuição extraordinária e constantemente renovada de Deus, que não tinha uma função precisa no mundo: “O mundo de Newton implica a existência de Deus; o de Leibniz não implica nada disso”.

Três séculos se passaram desde que, após nascer com Copérnico e Galileu, a ciência moderna atingiu seu apogeu com a física newtoniana. Com a relatividade de Einstein, o espaço absoluto e o tempo absoluto passaram a ser noções especulativas tão estranhas para nós quanto as supostas harmonias que, segundo Kepler, os planetas cantavam. Entretanto, Alexandre Koyré fez seus alunos ter condições de compreender as razões dessa diferença entre a nossa visão do mundo e a dos promotores da ciência moderna. Para eles, Deus era a medida das coisas, assim como para nós, na era da física relativista e quântica, o homem tornou-se a medida de tudo.

*Pietro Redondi foi professor de História da ciência na Universidade de Bolonha. Autor, entre outros livros, de Galileu herético (Companhia das Letras). [https://link.amazon/B0ei8Nv0a]

Referência




Alexandre Koyré. Da mística à ciência: cursos, conferências e documentos (1922-1962). Organização: Pietro Redondi. Tradução: Thomaz Kawauche. São Paulo, Editora Unesp, 2024, 462 págs. [https://link.amazon/B0h4XHdUb]

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