Por VINÍCIO CARRILHO MARTINEZ, ESTER DIAS DA SILVA BATISTA & IZABELA VICTÓRIA PEREIRA*
Longe de ser um depósito neutro de informações, o pensamento científico exige adensamento ético e rigor metodológico para desarmar a infantilização digital
O capitalismo é contraditório e isso significa dizer que produz uma ciência capaz de reduzir a fome, combater as letalidades naturais, ao mesmo tempo em que se organiza como um complexo que chamamos de “capitalismo digital”[i] – movimentando-se e se fortalecendo com o crescimento vertiginoso da indústria da morte, além do agravamento da miséria humana, da concentração de renda, do abuso sistemático das redes antissociais: criadoras de elevados níveis de infantilização moral/cognitiva e prescritivas da dessocialização, ao invés de transformarem a interatividade em interação social.
Então, a ciência produzida pelo sistema capitalista é igualmente contraditória: a ciência é um mito da modernidade e traduz um pharmakón – remédio e veneno, concomitantemente, dependendo da dosagem; tanto quanto a digitalização social é indutora da nossa subordinação e dependência tecnológica. Talvez, pela primeira vez na história da humanidade, tenhamos criado duas monstruosidades insolvíveis: (i) a vida humana depende totalmente do aprofundamento da tecnociência; (ii) criamos um problema que não somos capazes de solucionar.
Assim, a ciência é política. Tanto é ciência política[ii] quanto é política científica: o que financiar, o que pesquisar, para que, com quem, como, onde? Ou seja, não há nenhuma neutralidade – uma vez que a escolha do objeto já diz quem somos, bem como traz muitas respostas. Outra questão é a objetividade que se pretende – se e quando possível –, preferencialmente não sendo positivista, maniqueísta ou monista.
Lembremos que, quem pode e não tem organização sempre possui déficit, passivos. Quem pode e não tem objetividade nas finanças está endividado: mais de 50% das famílias brasileiras, por muitas razões, estão nessa condição.
Considerar tudo isso, a partir do impacto social (investimento ou custo?) atribuído ao desenvolvimento da ciência, da educação, do conhecimento, é uma parte significativa, fundamental, do pensamento complexo – em consonância com o processo civilizatório. Mas, se assim é ou deveria ser, por que a educação pública no país é tida como custo social?
De todo modo, é fácil afirmar que não existe complexidade fora do âmbito social, da política, dos nichos atuais e históricos do referido processo civilizatório.
2.
Vejamos com a consciência do Bom Senso: o desenvolvimento da Inteligência artificial seria mais complexo do que o combate político e epistemológico ao heliocentrismo? Hoje, não promove uma luta semelhante quem debela a ideologia da Terra plana?
Desse modo retornamos à política, à visão de mundo que temos. Se nossa visão de mundo compartilha a pluralidade, o pluralismo, então, está atenta à democracia e ao princípio do contraditório, e que é, basicamente – além da alternância do poder e da observação das regras do jogo (Bobbio, 1985) –, a capacidade de dizer não, de contradizer, de desdizer, de dizer e se indispor contra. Se no “fazer ciência” não existe esse “fazer-se política”, por óbvio, não há ciência propriamente dita.
Se persiste a opacidade como anacronismo,[iii] a negação da capacidade de se opor à hegemonia, por óbvio, só há um copiar e colar, pois, predomina a reprodução dogmática, sectária, superficial de slogans e de alguma militância, quando, ao contrário, deveria haver a fluência do princípio democrático: (a) a política, sob a bandeira democrática, não terá sempre um céu de brigadeiro para desfraldar, mas também não se moverá em uma eterna tempestade perfeita; (b) a democracia pode ser a força disruptiva do poder, se aqui tratamos de um poder autocrático; entretanto, se entendermos o poder como organização – e, neste caso, é difícil não concluir que se trata de organização social –, a autocracia é que atuará como força disruptiva do princípio democrático.
neste sentido, temos que, sumariamente, o princípio democrático é assim apresentado: “O princípio democrático não se compadece com uma compreensão estática de democracia. Antes de mais, é um processo de continuidade transpessoal, irredutível a qualquer vinculação do processo político a determinadas pessoas. Por outro lado, a democracia é um processo dinâmico inerente a uma sociedade aberta e ativa, oferecendo aos cidadãos a possibilidade de desenvolvimento integral, liberdade de participação crítica no processo político, condições de igualdade econômica, política e social […] O princípio democrático aponta, porém, no sentido constitucional, para um processo de democratização extensiva a diferentes aspectos da vida econômica, social e cultural […] A democracia é, no sentido constitucional, democratização da democracia […] O princípio democrático não elimina a existência das estruturas de domínio mas implica uma forma de organização desse domínio. Daí o caracterizar-se o princípio democrático como princípio de organização da titularidade e exercício do poder. Como não existe uma identidade entre governantes e governados e como não é possível legitimar um domínio com base em simples doutrinas fundamentantes é o princípio democrático que permite organizar o domínio político segundo o programa de autodeterminação e autogoverno: o poder político é constituído, legitimado e controlado por cidadãos (povo), igualmente legitimados para participarem no processo de organizar da forma de Estado e de governo” (Canotilho, 1990, p. 287- 288).
3.
É possível abrir mão dessa racionalidade (democrática e científica)? Cotidianamente se confunde razão com racionalização e, mais ainda, reduz-se todo o esforço humano acumulado, precisamente, na hominização e na capacidade humana de tratar sua (nossa) omnilateralidade futura (do devir) como se fosse quimera. Não é assim que apenas alimentamos ainda mais o senso comum? Pois ainda é, assim, que alguns se bastam na denúncia da inegável e hegemônica razão instrumental.[iv]
Essa difícil questão se deve a múltiplas razões e uma delas foi reduzir qualquer pretensão da teleologia[v] à falibilidade. A outra, obviamente, foi a confusão gerada pela redução da razão (racionalidade) à crítica do senso comum.
Lembremos: Razões são motivações. Algumas razões são óbvias, lógicas, claramente verificáveis, “racionalizáveis”. Outras razões, motivações, são insondáveis diante do instrumental ou da condição cognitiva que se tenha. Então, nem todas as razões (motivações, explicações) são demonstráveis ou compreensíveis diretamente, claramente. Afinal, nem todas as razões pertencem ao universo da razão.
Exemplo disso seria um paradoxo da racionalidade (inspirado em Freud) ou “paradoxo da pedra lascada”: O Processo civilizatório, a cultura, a ciência, a educação, as políticas públicas, o direito, a moral, são criações humanas, sociais, de fundamental importância. Porém, formam somente uma casca fina. Por baixo dessa casca, desse lustre e verniz, não há nada muito ilustre. Com refinamento, sutilezas, empolando-se, encontra o mesmo ser da Idade da pedra. A casca é só um dado da era polida. O fato de polirmos a pedra não a torna menos pedra.
Porém, não é por isso que podemos desprezar essas razões/motivações (inclusive porque podem ser as mais motivadoras) e muito menos descartar a Razão – seria se confundir com o irracionalismo.
Esse é o sentido de se apostar na democracia como uma resposta ao próprio princípio da perfectibilidade (originado na sabedoria da falibilidade e finitude humana), na busca por mecanismos e rotas corretivas, tendo-se em vista a continuidade e o aprimoramento do processo, da jornada: depuração, higienização, da própria democracia e de suas instituições de referência e de sustentabilidade.
4.
Veja-se o princípio do sufrágio universal, na rota do aprimoramento que apazigua a viagem, a fim de que muitos outros, “novos”, sujeitos possam se instalar e participar, refazendo-se no passeio pela política.
Se os “novos” ingressantes da nossa nau de navegação política forem somente passageiros sem envolvimento, meros espectadores, é muito provável que o capitão do barco se sentirá tão à vontade que será capaz de inovar no percurso e, por vezes, o destino pode não ser aquele planejado quando compramos a passagem do passeio político.
Aliás, sem viajantes responsáveis (politicamente), a viagem pode ter um cupom só de ida; sem dialogicidade, complementação na discordância, superação das diferenças, fatalmente, desembocaremos numa rua de mão única.
O “fazer ciência” pode/de ser militante – como é todo “saber militante” que se insurge contra o status quo abastado de mesmice, elitismo e negacionismo (na linha de Florestan Fernandes) – ou pode ser ensaístico[vi]: o que não podemos é confundir ciência, incluindo-se a popularização da ciência, com panfletagem.
Nem toda ciência, a começar da profundidade requerida ao pensamento científico – como massa crítica –, poderá ser divulgada digitalmente e menos ainda ser alvo da oportuna e necessária popularização. Não só devemos lutar pela democracia – pela “democratização da democracia” – como é urgente a democratização do acesso à ciência, como acesso à educação de qualidade. Isso é fato.
Todavia, não se confunda popularização da ciência com vulgarização conceitual. Há conhecimentos, em sua complexidade, compleição e profundidade, que não cabem num podcast. Na imensa maioria das vezes, para se falar de ciência propriamente dita, a visão de mundo requer muito lastro conceitual para se obter algum alcance cognitivo.
Essa insistência na cultura high-tech desdobra-se na popular “analfabetização”. Sua irmã gêmea é a infantilização, a alienação,[vii] a massa de manobra recorrente ao invés da insuficiente alimentação da massa crítica. O que é resultado, também, da vulgarização científica, do falseamento à verdade conhecida e minimamente reconhecida.[viii]
Em conformidade com o que vimos, onde estará a ciência com consciência? E o que será ciência, afinal de contas? E a consciência de que tanto se fala, o que será isso[ix]?
Às vezes, a ciência não conduz ao entendimento fácil; muitas vezes, e deve ser assim, primeiro, deve produzir um desentendimento, um desconforto – sobretudo para quem torce o nariz quando não se trata de uma resposta que cabe no WhatsApp ou no Google.
Isto é pensamento científico – para além do necessário conhecimento científico – e, para tal, precisa de adensamento enquanto se propugna pelo pensamento sociológico, na base da ciência. Sem dúvida que tratamos aqui da crítica e da criatividade no fazer ciência.
5.
É nesse ponto do desconforto provocado pela ciência que surge algo diferente do simples torcer o nariz ou abaixar as orelhas diante de determinadas “informações”, muitas vezes inverdades ou até mesmo verdades distorcidas tomadas como absolutas nas redes sociais.
Trata-se de um movimento de transformação e apreensão da ciência, marcado não somente pela produção de artigos, mas pelo processo de passagem do sujeito pré-científico (Bachelard, 1996) para um sujeito efetivamente científico, justamente pela incorporação da própria ciência.
Essa dinâmica é marcada também pelo tempo, uma das grandes questões da realidade contemporânea, caracterizada pela busca constante da velocidade, pelo menor desgaste possível e pela obtenção imediata de resultados, algo que Bauman relacionaria à modernidade líquida (Bauman, 2001).
Talvez isso ajude a compreender as razões pelas quais a ciência permanece, tantas vezes, aprisionada na superficialidade e naquilo que Clóvis de Barros[x] chamaria de ausência de brio, justamente por não se tratar de um depósito externo de informações, mas de uma construção interna, lenta e profundamente formativa.
Ou seja, o sujeito já não apenas produz ciência: passa a interpretar o mundo através dela. A ciência torna-se literalmente as lentes de óculos que nunca são retiradas do rosto. Isso transparece na construção do pensamento diante dos acontecimentos cotidianos, nas problematizações e até nas conversas aparentemente mais banais do dia a dia. A ciência já não se encontra somente dentro dos muros da universidade, mas na própria saliva das conversas cotidianas.
Como exemplo, podem ser observadas as chamadas narrativas de Uber do professor,[xi] em que não existe apenas um diálogo desenvolvido durante um trajeto entre a universidade e a casa, mas uma análise tão profunda da realidade que se torna visível o quanto a ciência já se encontra cimentada no sujeito, marcando falas, comentários e na própria sensibilidade da escuta.
Esse espírito permanece no indivíduo de maneira constante, por vezes até angustiante, porque passa a atravessar todas as análises, percepções e interpretações da realidade. Como uma máquina que produz continuamente e que, em determinados momentos, também pode superaquecer, assim parece funcionar a mente de um sujeito atravessado por essas lentes científicas. Nesse movimento, portanto, a ciência deixa as paredes da academia e passa a caminhar lado a lado com o sujeito como uma forma de experienciar a própria vida.
Na modernidade, observa-se uma crescente fragmentação da compreensão da realidade social, o que contribui para o surgimento e a disseminação de teorias da conspiração e outras formas de pseudociência, frequentemente associadas ao negacionismo científico. Em contraposição, a Ciências Sociais busca compreender e explicar o funcionamento da sociedade a partir de conhecimentos produzidos por métodos científicos rigorosos, fundamentados em evidências empíricas e análises racionais.
A produção do conhecimento científico somente é possível por meio da aplicação de metodologias específicas, orientadas pelo método científico. Nesse sentido, a ciência exige procedimentos sistemáticos de investigação, verificação e fundamentação teórica.
A pseudociência, por sua vez, apresenta-se como se fosse ciência, mas não atende aos critérios científicos de validação, uma vez que não se sustenta em métodos rigorosos, nem em evidências empíricas ou argumentações racionalmente fundamentadas.
Desse modo, a produção científica também pode ser compreendida como um ato político, pois está inserida em contextos históricos e sociais e produz impactos na realidade – não há nada que seja neutro, tudo é político. Assim, a ciência contribui para o desenvolvimento da consciência crítica, ao possibilitar formas de conhecimento fundamentadas em métodos científicos e comprometidas com a compreensão da realidade.
*Vinício Carrilho Martinez é professor do Departamento de Educação da UFSCar. Autor, entre outros livros, de Bolsonarismo. Alguns aspectos político-jurídicos e psicossociais (APGIQ). [https://amzn.to/4aBmwH6]
*Ester Dias da Silva Batista é licenciada em biologia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
*Izabela Victória Pereira é graduanda em filosofia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Referências
ADORNO, Theodor W. Minima Moralia. Lisboa-Portugal: Edições 70, 2001.
BACHELARD, Gaston. Formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
BARROS FILHO, Clóvis de. Motivação para estudar (BRIO). YouTube, 7 de abril de 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TRPBY_lxJfE
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BOBBIO, Norberto. A teoria das formas de governo. Brasília: Editora da UNB, 1985.
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. Lisboa: Almedina, 1990.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Brasília: Universidade de Brasília, 1979.
MARTINEZ, Vinício Carrilho. “Educação crítica à uberização”: – A era do capitalismo digital e uberização social. São Carlos: DP (https://a.co/d/0cV60SjP), 2026.
MARX, Karl & ENGELS, F. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010
MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.
Notas
[i] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação crítica à uberização*: – A era do capitalismo digital e uberização social. São Carlos: DP (https://a.co/d/0cV60SjP), 2026.
[ii] Como conhecer, falar, tratar da Política, sem conhecer a política, o realismo político (Maquiavel, 1979)? Não é possível, é o equivalente à automedicação imprópria, perigosa, nociva.
[iii] Nossa obrigação, de quem vive da/para a ciência, é distinguir a opacidade que serve ao poder, ao obscurantismo, da opacidade natural proveniente da compleição conceitual. Por exemplo: não é possível explicar o que é consciência em linguagem de senso comum como se tem nas redes sociais.
[iv] “O que a razão de Estado da todo-poderosa economia tão cinicamente declara atinge, inconfessadamente, os modos de conduta dos indivíduos […] Segundo todos os desiderata da moral privada, e ainda dos mais avançados, o rico poderia, se quisesse, ser de fato melhor do que o pobre […] A bárbara religião atual do êxito não é, pois, somente contraria à moral; o Ocidente descobre também nela um caminho para regressar aos honrosos costumes dos pais […] Toda a moral se configurou sempre pelo modelo do imoral […] A moral dos escravos é, de fato, má: é ainda sempre a moral dos senhores” (Adorno, 2001, p.191).
[v] Aliás, essa questão nem aparece mais (Marx & Engels, 2010).
[vi] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação para além da exceção*: Educação para além do capital, Educação após Auschwitz, e depois de Gaza, Educação Política, Educação em direitos humanos, Educação Constitucional. (tese sintetizada de titularidade) KDP – Amazon: São Carlos, 2025c, 709 páginas. Acesso: https://a.co/d/3upl65K.
[vii] https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/abducao-social-educar-pelo-pensamento
[viii] Demos legitimidade institucional a uma ciência sexy, como se houvesse sedução, um absurdo tentador, irresistível – e mesmo que pouco atempo atrás fosse detectado e denunciado como lascívia capitalista: https://aterraeredonda.com.br/a-tirania-do-artigo-sexy-o-novo-qualis/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novos_artigos&utm_term=2026-05-28.
[ix] Principalmente se pensarmos que a consciência está em trânsito: https://outraspalavras.net/direitosouprivilegios/as-multiplas-faces-da-acessibilidade/.
[x] BARROS FILHO, Clóvis de. Motivação para estudar (BRIO). YouTube, 7 de abril de 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TRPBY_lxJfE.
[xi] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação crítica à uberização*: – A era do capitalismo digital e uberização social. São Carlos: DP (https://a.co/d/0cV60SjP), 2026.
“A ciência deve reatar com a consciência política e ética” (Edgar Morin. Ciência com consciência, p. 10).
1.O capitalismo é contraditório e isso significa dizer que produz uma ciência capaz de reduzir a fome, combater as letalidades naturais, ao mesmo tempo em que se organiza como um complexo que chamamos de “capitalismo digital”[i] – movimentando-se e se fortalecendo com o crescimento vertiginoso da indústria da morte, além do agravamento da miséria humana, da concentração de renda, do abuso sistemático das redes antissociais: criadoras de elevados níveis de infantilização moral/cognitiva e prescritivas da dessocialização, ao invés de transformarem a interatividade em interação social.
Então, a ciência produzida pelo sistema capitalista é igualmente contraditória: a ciência é um mito da modernidade e traduz um pharmakón – remédio e veneno, concomitantemente, dependendo da dosagem; tanto quanto a digitalização social é indutora da nossa subordinação e dependência tecnológica. Talvez, pela primeira vez na história da humanidade, tenhamos criado duas monstruosidades insolvíveis: (i) a vida humana depende totalmente do aprofundamento da tecnociência; (ii) criamos um problema que não somos capazes de solucionar.
Assim, a ciência é política. Tanto é ciência política[ii] quanto é política científica: o que financiar, o que pesquisar, para que, com quem, como, onde? Ou seja, não há nenhuma neutralidade – uma vez que a escolha do objeto já diz quem somos, bem como traz muitas respostas. Outra questão é a objetividade que se pretende – se e quando possível –, preferencialmente não sendo positivista, maniqueísta ou monista.
Lembremos que, quem pode e não tem organização sempre possui déficit, passivos. Quem pode e não tem objetividade nas finanças está endividado: mais de 50% das famílias brasileiras, por muitas razões, estão nessa condição.
Considerar tudo isso, a partir do impacto social (investimento ou custo?) atribuído ao desenvolvimento da ciência, da educação, do conhecimento, é uma parte significativa, fundamental, do pensamento complexo – em consonância com o processo civilizatório. Mas, se assim é ou deveria ser, por que a educação pública no país é tida como custo social?
De todo modo, é fácil afirmar que não existe complexidade fora do âmbito social, da política, dos nichos atuais e históricos do referido processo civilizatório.
2.
Vejamos com a consciência do Bom Senso: o desenvolvimento da Inteligência artificial seria mais complexo do que o combate político e epistemológico ao heliocentrismo? Hoje, não promove uma luta semelhante quem debela a ideologia da Terra plana?
Desse modo retornamos à política, à visão de mundo que temos. Se nossa visão de mundo compartilha a pluralidade, o pluralismo, então, está atenta à democracia e ao princípio do contraditório, e que é, basicamente – além da alternância do poder e da observação das regras do jogo (Bobbio, 1985) –, a capacidade de dizer não, de contradizer, de desdizer, de dizer e se indispor contra. Se no “fazer ciência” não existe esse “fazer-se política”, por óbvio, não há ciência propriamente dita.
Se persiste a opacidade como anacronismo,[iii] a negação da capacidade de se opor à hegemonia, por óbvio, só há um copiar e colar, pois, predomina a reprodução dogmática, sectária, superficial de slogans e de alguma militância, quando, ao contrário, deveria haver a fluência do princípio democrático: (a) a política, sob a bandeira democrática, não terá sempre um céu de brigadeiro para desfraldar, mas também não se moverá em uma eterna tempestade perfeita; (b) a democracia pode ser a força disruptiva do poder, se aqui tratamos de um poder autocrático; entretanto, se entendermos o poder como organização – e, neste caso, é difícil não concluir que se trata de organização social –, a autocracia é que atuará como força disruptiva do princípio democrático.
neste sentido, temos que, sumariamente, o princípio democrático é assim apresentado: “O princípio democrático não se compadece com uma compreensão estática de democracia. Antes de mais, é um processo de continuidade transpessoal, irredutível a qualquer vinculação do processo político a determinadas pessoas. Por outro lado, a democracia é um processo dinâmico inerente a uma sociedade aberta e ativa, oferecendo aos cidadãos a possibilidade de desenvolvimento integral, liberdade de participação crítica no processo político, condições de igualdade econômica, política e social […] O princípio democrático aponta, porém, no sentido constitucional, para um processo de democratização extensiva a diferentes aspectos da vida econômica, social e cultural […] A democracia é, no sentido constitucional, democratização da democracia […] O princípio democrático não elimina a existência das estruturas de domínio mas implica uma forma de organização desse domínio. Daí o caracterizar-se o princípio democrático como princípio de organização da titularidade e exercício do poder. Como não existe uma identidade entre governantes e governados e como não é possível legitimar um domínio com base em simples doutrinas fundamentantes é o princípio democrático que permite organizar o domínio político segundo o programa de autodeterminação e autogoverno: o poder político é constituído, legitimado e controlado por cidadãos (povo), igualmente legitimados para participarem no processo de organizar da forma de Estado e de governo” (Canotilho, 1990, p. 287- 288).
3.
É possível abrir mão dessa racionalidade (democrática e científica)? Cotidianamente se confunde razão com racionalização e, mais ainda, reduz-se todo o esforço humano acumulado, precisamente, na hominização e na capacidade humana de tratar sua (nossa) omnilateralidade futura (do devir) como se fosse quimera. Não é assim que apenas alimentamos ainda mais o senso comum? Pois ainda é, assim, que alguns se bastam na denúncia da inegável e hegemônica razão instrumental.[iv]
Essa difícil questão se deve a múltiplas razões e uma delas foi reduzir qualquer pretensão da teleologia[v] à falibilidade. A outra, obviamente, foi a confusão gerada pela redução da razão (racionalidade) à crítica do senso comum.
Lembremos: Razões são motivações. Algumas razões são óbvias, lógicas, claramente verificáveis, “racionalizáveis”. Outras razões, motivações, são insondáveis diante do instrumental ou da condição cognitiva que se tenha. Então, nem todas as razões (motivações, explicações) são demonstráveis ou compreensíveis diretamente, claramente. Afinal, nem todas as razões pertencem ao universo da razão.
Exemplo disso seria um paradoxo da racionalidade (inspirado em Freud) ou “paradoxo da pedra lascada”: O Processo civilizatório, a cultura, a ciência, a educação, as políticas públicas, o direito, a moral, são criações humanas, sociais, de fundamental importância. Porém, formam somente uma casca fina. Por baixo dessa casca, desse lustre e verniz, não há nada muito ilustre. Com refinamento, sutilezas, empolando-se, encontra o mesmo ser da Idade da pedra. A casca é só um dado da era polida. O fato de polirmos a pedra não a torna menos pedra.
Porém, não é por isso que podemos desprezar essas razões/motivações (inclusive porque podem ser as mais motivadoras) e muito menos descartar a Razão – seria se confundir com o irracionalismo.
Esse é o sentido de se apostar na democracia como uma resposta ao próprio princípio da perfectibilidade (originado na sabedoria da falibilidade e finitude humana), na busca por mecanismos e rotas corretivas, tendo-se em vista a continuidade e o aprimoramento do processo, da jornada: depuração, higienização, da própria democracia e de suas instituições de referência e de sustentabilidade.
4.
Veja-se o princípio do sufrágio universal, na rota do aprimoramento que apazigua a viagem, a fim de que muitos outros, “novos”, sujeitos possam se instalar e participar, refazendo-se no passeio pela política.
Se os “novos” ingressantes da nossa nau de navegação política forem somente passageiros sem envolvimento, meros espectadores, é muito provável que o capitão do barco se sentirá tão à vontade que será capaz de inovar no percurso e, por vezes, o destino pode não ser aquele planejado quando compramos a passagem do passeio político.
Aliás, sem viajantes responsáveis (politicamente), a viagem pode ter um cupom só de ida; sem dialogicidade, complementação na discordância, superação das diferenças, fatalmente, desembocaremos numa rua de mão única.
O “fazer ciência” pode/de ser militante – como é todo “saber militante” que se insurge contra o status quo abastado de mesmice, elitismo e negacionismo (na linha de Florestan Fernandes) – ou pode ser ensaístico[vi]: o que não podemos é confundir ciência, incluindo-se a popularização da ciência, com panfletagem.
Nem toda ciência, a começar da profundidade requerida ao pensamento científico – como massa crítica –, poderá ser divulgada digitalmente e menos ainda ser alvo da oportuna e necessária popularização. Não só devemos lutar pela democracia – pela “democratização da democracia” – como é urgente a democratização do acesso à ciência, como acesso à educação de qualidade. Isso é fato.
Todavia, não se confunda popularização da ciência com vulgarização conceitual. Há conhecimentos, em sua complexidade, compleição e profundidade, que não cabem num podcast. Na imensa maioria das vezes, para se falar de ciência propriamente dita, a visão de mundo requer muito lastro conceitual para se obter algum alcance cognitivo.
Essa insistência na cultura high-tech desdobra-se na popular “analfabetização”. Sua irmã gêmea é a infantilização, a alienação,[vii] a massa de manobra recorrente ao invés da insuficiente alimentação da massa crítica. O que é resultado, também, da vulgarização científica, do falseamento à verdade conhecida e minimamente reconhecida.[viii]
Em conformidade com o que vimos, onde estará a ciência com consciência? E o que será ciência, afinal de contas? E a consciência de que tanto se fala, o que será isso[ix]?
Às vezes, a ciência não conduz ao entendimento fácil; muitas vezes, e deve ser assim, primeiro, deve produzir um desentendimento, um desconforto – sobretudo para quem torce o nariz quando não se trata de uma resposta que cabe no WhatsApp ou no Google.
Isto é pensamento científico – para além do necessário conhecimento científico – e, para tal, precisa de adensamento enquanto se propugna pelo pensamento sociológico, na base da ciência. Sem dúvida que tratamos aqui da crítica e da criatividade no fazer ciência.
5.
É nesse ponto do desconforto provocado pela ciência que surge algo diferente do simples torcer o nariz ou abaixar as orelhas diante de determinadas “informações”, muitas vezes inverdades ou até mesmo verdades distorcidas tomadas como absolutas nas redes sociais.
Trata-se de um movimento de transformação e apreensão da ciência, marcado não somente pela produção de artigos, mas pelo processo de passagem do sujeito pré-científico (Bachelard, 1996) para um sujeito efetivamente científico, justamente pela incorporação da própria ciência.
Essa dinâmica é marcada também pelo tempo, uma das grandes questões da realidade contemporânea, caracterizada pela busca constante da velocidade, pelo menor desgaste possível e pela obtenção imediata de resultados, algo que Bauman relacionaria à modernidade líquida (Bauman, 2001).
Talvez isso ajude a compreender as razões pelas quais a ciência permanece, tantas vezes, aprisionada na superficialidade e naquilo que Clóvis de Barros[x] chamaria de ausência de brio, justamente por não se tratar de um depósito externo de informações, mas de uma construção interna, lenta e profundamente formativa.
Ou seja, o sujeito já não apenas produz ciência: passa a interpretar o mundo através dela. A ciência torna-se literalmente as lentes de óculos que nunca são retiradas do rosto. Isso transparece na construção do pensamento diante dos acontecimentos cotidianos, nas problematizações e até nas conversas aparentemente mais banais do dia a dia. A ciência já não se encontra somente dentro dos muros da universidade, mas na própria saliva das conversas cotidianas.
Como exemplo, podem ser observadas as chamadas narrativas de Uber do professor,[xi] em que não existe apenas um diálogo desenvolvido durante um trajeto entre a universidade e a casa, mas uma análise tão profunda da realidade que se torna visível o quanto a ciência já se encontra cimentada no sujeito, marcando falas, comentários e na própria sensibilidade da escuta.
Esse espírito permanece no indivíduo de maneira constante, por vezes até angustiante, porque passa a atravessar todas as análises, percepções e interpretações da realidade. Como uma máquina que produz continuamente e que, em determinados momentos, também pode superaquecer, assim parece funcionar a mente de um sujeito atravessado por essas lentes científicas. Nesse movimento, portanto, a ciência deixa as paredes da academia e passa a caminhar lado a lado com o sujeito como uma forma de experienciar a própria vida.
Na modernidade, observa-se uma crescente fragmentação da compreensão da realidade social, o que contribui para o surgimento e a disseminação de teorias da conspiração e outras formas de pseudociência, frequentemente associadas ao negacionismo científico. Em contraposição, a Ciências Sociais busca compreender e explicar o funcionamento da sociedade a partir de conhecimentos produzidos por métodos científicos rigorosos, fundamentados em evidências empíricas e análises racionais.
A produção do conhecimento científico somente é possível por meio da aplicação de metodologias específicas, orientadas pelo método científico. Nesse sentido, a ciência exige procedimentos sistemáticos de investigação, verificação e fundamentação teórica.
A pseudociência, por sua vez, apresenta-se como se fosse ciência, mas não atende aos critérios científicos de validação, uma vez que não se sustenta em métodos rigorosos, nem em evidências empíricas ou argumentações racionalmente fundamentadas.
Desse modo, a produção científica também pode ser compreendida como um ato político, pois está inserida em contextos históricos e sociais e produz impactos na realidade – não há nada que seja neutro, tudo é político. Assim, a ciência contribui para o desenvolvimento da consciência crítica, ao possibilitar formas de conhecimento fundamentadas em métodos científicos e comprometidas com a compreensão da realidade.
*Vinício Carrilho Martinez é professor do Departamento de Educação da UFSCar. Autor, entre outros livros, de Bolsonarismo. Alguns aspectos político-jurídicos e psicossociais (APGIQ). [https://amzn.to/4aBmwH6]
*Ester Dias da Silva Batista é licenciada em biologia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
*Izabela Victória Pereira é graduanda em filosofia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Referências
ADORNO, Theodor W. Minima Moralia. Lisboa-Portugal: Edições 70, 2001.
BACHELARD, Gaston. Formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
BARROS FILHO, Clóvis de. Motivação para estudar (BRIO). YouTube, 7 de abril de 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TRPBY_lxJfE
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BOBBIO, Norberto. A teoria das formas de governo. Brasília: Editora da UNB, 1985.
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. Lisboa: Almedina, 1990.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Brasília: Universidade de Brasília, 1979.
MARTINEZ, Vinício Carrilho. “Educação crítica à uberização”: – A era do capitalismo digital e uberização social. São Carlos: DP (https://a.co/d/0cV60SjP), 2026.
MARX, Karl & ENGELS, F. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010
MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.
Notas
[i] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação crítica à uberização*: – A era do capitalismo digital e uberização social. São Carlos: DP (https://a.co/d/0cV60SjP), 2026.
[ii] Como conhecer, falar, tratar da Política, sem conhecer a política, o realismo político (Maquiavel, 1979)? Não é possível, é o equivalente à automedicação imprópria, perigosa, nociva.
[iii] Nossa obrigação, de quem vive da/para a ciência, é distinguir a opacidade que serve ao poder, ao obscurantismo, da opacidade natural proveniente da compleição conceitual. Por exemplo: não é possível explicar o que é consciência em linguagem de senso comum como se tem nas redes sociais.
[iv] “O que a razão de Estado da todo-poderosa economia tão cinicamente declara atinge, inconfessadamente, os modos de conduta dos indivíduos […] Segundo todos os desiderata da moral privada, e ainda dos mais avançados, o rico poderia, se quisesse, ser de fato melhor do que o pobre […] A bárbara religião atual do êxito não é, pois, somente contraria à moral; o Ocidente descobre também nela um caminho para regressar aos honrosos costumes dos pais […] Toda a moral se configurou sempre pelo modelo do imoral […] A moral dos escravos é, de fato, má: é ainda sempre a moral dos senhores” (Adorno, 2001, p.191).
[v] Aliás, essa questão nem aparece mais (Marx & Engels, 2010).
[vi] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação para além da exceção*: Educação para além do capital, Educação após Auschwitz, e depois de Gaza, Educação Política, Educação em direitos humanos, Educação Constitucional. (tese sintetizada de titularidade) KDP – Amazon: São Carlos, 2025c, 709 páginas. Acesso: https://a.co/d/3upl65K.
[vii] https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/abducao-social-educar-pelo-pensamento
[viii] Demos legitimidade institucional a uma ciência sexy, como se houvesse sedução, um absurdo tentador, irresistível – e mesmo que pouco atempo atrás fosse detectado e denunciado como lascívia capitalista: https://aterraeredonda.com.br/a-tirania-do-artigo-sexy-o-novo-qualis/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novos_artigos&utm_term=2026-05-28.
[ix] Principalmente se pensarmos que a consciência está em trânsito: https://outraspalavras.net/direitosouprivilegios/as-multiplas-faces-da-acessibilidade/.
[x] BARROS FILHO, Clóvis de. Motivação para estudar (BRIO). YouTube, 7 de abril de 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TRPBY_lxJfE.
[xi] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação crítica à uberização*: – A era do capitalismo digital e uberização social. São Carlos: DP (https://a.co/d/0cV60SjP), 2026.

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