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Brasil na mira do intervencionismo trumpista. Entrevista especial com Patricia Mechi

Brasil na mira do intervencionismo trumpista. Entrevista especial com Patricia Mechi

Eleições no Brasil estão na órbita dos interesses geopolíticos dos EUA para tentar consolidar sua influência no continente sul-americano em favor das próprias investidas contra a soberania brasileira e regional

Foto: Wirestock/Freepick


Do IHU, 
15 Julho 2026
Por: Cristina Guerini 


A história de independência real e concreta dos países latino-americanos é muito recente. Desde o fim do século XIX, toda a vez que países da América Central e do Sul tentaram uma estabilização política e uma independência econômica, viram-se diante de um inimigo poderoso que sempre buscou intervir na região. O primeiro ciclo de governos progressistas na metade central e sul do continente só se tornaria realidade na parte final do século XX em diante.

“A ‘onda rosa’ refere-se à ascensão de um conjunto de governos de esquerda ou centro-esquerda em grande parte da América Latina, também conhecidos como ‘progressistas’, entre o fim da década de 1990 e parte da década de 2010”, explica a professora e pesquisadora Patricia Mechi em entrevista por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. “A partir da crise financeira de 2008 e do fim do ciclo favorável das commodities, a margem desses governos para sustentar as políticas sociais sem entrar em conflito com as classes dominantes se estreitou muito, provocando a crise da estratégia de conciliação, contexto em que emergiu a chamada ‘onda azul’ (governos de extrema-direita)”, complementa a entrevistada.

A lógica punitivista do discurso da extrema-direita em todos os quadrantes da América Central e do Sul ganha força com a atual versão trumpista da Doutrina Monroe, que busca justificar intervenções políticas em países soberanos. Mas há algo mais nesta dinâmica. A novidade da extrema-direita, escreve a entrevistada, “não está no punitivismo em si, mas na forma como ele passa a integrar um projeto político autoritário de gestão violenta de populações cada vez mais entendidas por seus ideólogos como descartáveis”. E acrescenta: “A ofensiva contra a Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro, o recrudescimento do bloqueio e as ameaças explícitas contra Cuba, a ingerência em processos eleitorais na região, além das ofensivas diretas contra o Brasil, não deixam margem para dúvida: somos a bola da vez”.



Patricia Sposito Mechi (Foto: Reprodução Youtube/Diálogos ao sul)

Patricia Sposito Mechi é docente da Universidade Federal Latino-americana (UNILA), atuando no Ciclo Comum de Estudos e no Programa de Integração Contemporânea da América Latina (PPGICAL). Historiadora, mestra e doutora em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é integrante do grupo de pesquisa e extensão Realidades Latino-americanas desde 2015. É autora do livro Protagonistas do Araguaia (2016), vencedor do prêmio de pesquisa Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional.

Confira a entrevista.

IHU – O que foram as ondas azul e rosa no contexto da América Latina e no Caribe neste século XXI?

Patricia Mechi – A “onda rosa” refere-se à ascensão de um conjunto de governos de esquerda ou centro-esquerda em grande parte da América Latina, também conhecidos como “progressistas”, entre o fim da década de 1990 e parte da década de 2010, período que alguns autores já denominam de “primeira onda rosa”. O progressismo emergiu como força política diante da crise do neoliberalismo implementado nas décadas anteriores, buscando combater parte de seus efeitos, mas sem necessariamente abandoná-lo. Dito de outra forma, o progressismo procurou “melhorar a vida das pessoas” após a primeira onda de ajustes neoliberais na América Latina, sem que isso significasse uma ruptura com a ordem do capital e, em muitos casos, sem abandonar nem mesmo as políticas neoliberais.

O progressismo procurou “melhorar a vida das pessoas” após a primeira onda de ajustes neoliberais na América Latina, sem que isso significasse uma ruptura com a ordem do capital – Patricia Mech Tweet.

Foram governos que implementaram um conjunto de políticas públicas voltadas ao atendimento das mais urgentes demandas populares, a exemplo de programas de combate à fome, como o Fome Zero; também buscaram ampliar o papel do Estado e apostaram em políticas de transferência de renda. Estas medidas, apesar do enorme impacto nas condições de vida da população atendida, principalmente no combate à fome, no atendimento básico à saúde e na atenção à infância, não foram acompanhadas de reformas estruturais capazes de reverter as transformações promovidas pelo neoliberalismo dos anos anteriores ou que em médio e longo prazo tornassem desnecessárias tais políticas públicas. Evidentemente, houve diferenças importantes entre os casos nacionais: enquanto alguns governos assumiram posições de confronto com o neoliberalismo, como a Venezuela, outros buscaram administrá-lo e reformá-lo.

É importante frisar o impacto muito significativo sobre as condições de vida das camadas mais pobres em muitas regiões da América Latina que permitiu, pela primeira vez, que trabalhadoras e trabalhadores deixassem de se submeter a formas extremas de exploração, marcadas remunerações extremamente baixas ou inexistentes, como ocorreu em diversas regiões onde predominava o trabalho rural, como no Norte e Nordeste brasileiros, ou ainda no caso das trabalhadoras domésticas.

Apesar dos importantes avanços sociais, os governos progressistas nem sempre enfrentaram a concentração da riqueza e não alteraram as bases estruturais da dependência latino-americana. Em muitos casos, mantiveram e, em alguns, aprofundaram a reprimarização e a financeirização das economias, reforçando a inserção subordinada da região no capitalismo mundial.

A partir da crise financeira de 2008 e do fim do ciclo favorável das commodities, a margem desses governos para sustentar as políticas sociais sem entrar em conflito com as classes dominantes se estreitou muito, provocando a crise da estratégia de conciliação, contexto em que emergiu a chamada “onda azul”. Não se trata de um retorno das direitas tradicionais, mas de uma ofensiva das novas direitas latino-americanas, que combinavam, entre outros elementos, conservadorismo moral, fundamentalismo religioso, guerra cultural, ataques à ciência, à democracia, aos intelectuais, às universidades, às políticas de inclusão, difusão da ideologia do empreendedorismo, atomização social, ataque às mulheres, à comunidade LGBTQIA+, pessoas negras e aos indígenas, além da disseminação da violência política.

A partir da crise financeira de 2008 e do fim do ciclo favorável das commodities, a margem dos governos progressistas para sustentar as políticas sociais sem entrar em conflito com as classes dominantes se estreitou muito, provocando a crise da estratégia de conciliação – Patricia Mechi Tweet.

IHU – Como o neoliberalismo e a queda do Muro de Berlim nos anos 1990 desidrataram projetos autenticamente de esquerda na região?

Patricia Mechi – A queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética certamente tiveram um enorme impacto sobre as esquerdas latino-americanas. Ainda há, a meu ver, muitos aspectos desse processo que merecem maior investigação e reflexão. O papel desempenhado pela indústria cultural e pelos intelectuais que combateram, e em muitos casos ainda combatem, as esquerdas é um deles. Numa conjuntura em que os Estados Unidos se consolidaram como a única potência global e ganhava força a ideia de que não haveria alternativa ao capitalismo, tanto a indústria cultural quanto parcelas importantes da produção intelectual contribuíram para a difusão dessa ideologia. Mas é importante lembrar que a ofensiva contra as esquerdas latino-americanas é anterior ao fim da Guerra Fria.

Na segunda metade do século XX, muitos países da América Latina viviam um período de ascensão das lutas populares. Os sindicatos e partidos de esquerda, mesmo quando atuavam na clandestinidade, possuíam expressiva capacidade de mobilização, como era o caso do Partido Comunista Brasileiro, que chegou a reunir centenas de milhares de militantes. Em vários países, partidos e organizações de trabalhadores se alinharam a governos comprometidos com estratégias de fortalecimento dos capitalismos nacionais e esses processos foram interrompidos por golpes de Estado empresarial-militares apoiados pelos Estados Unidos.

Golpes de Estado

O primeiro deles ocorreu na Guatemala. Ali, a chamada Primavera Democrática, iniciada em 1944, impulsionou um conjunto tímido de reformas democratizantes, entre elas a legislação trabalhista e a reforma agrária, que atingiam diretamente os interesses da empresa estadunidense United Fruit Company. Esse processo foi interrompido pelo golpe de 1954, o primeiro organizado segundo os preceitos da Doutrina de Segurança Nacional e que se tornaria referência para outros golpes contrarrevolucionários e para o fortalecimento da estratégia contrainsurgente na região, inclusive no Brasil.

Por aqui, o golpe de 1964, que derrubou o presidente João Goulart, interrompeu um intenso processo de mobilização popular, caracterizado pela ampliação da participação política das classes trabalhadoras. O que se seguiu ao golpe foi um processo brutal de repressão por meio do terrorismo de Estado e que desarticulou partidos, organizações de trabalhadores e movimentos estudantis, lançando milhares de militantes ao exílio ou à clandestinidade, quando não à morte. Em muitos casos, diante do fechamento completo dos espaços legais de atuação política, a luta armada passou a ser a única alternativa possível.

A maior parte das organizações revolucionárias latino-americanas foi dizimada pela violência das ditaduras, que colaboravam entre si por meio da Operação Condor. Seus exércitos e demais forças repressivas foram treinados pelos Estados Unidos na Escola das Américas localizada na Zona do Canal do Panamá, onde aprenderam as mais variadas técnicas de tortura, espionagem e ações encobertas, entre outras modalidades contrainsurgentes, além de serem instruídos sobre o papel dos Exércitos latino-americanos no “combate ao comunismo”, sob a liderança estadunidense. Na guerra contra as organizações e partidos do campo da esquerda, as únicas experiências que triunfaram foram Cuba, cuja revolução ocorrera em 1959, a Revolução Sandinista, vitoriosa na Nicarágua em 1979, e a guerrilha salvadorenha, cuja luta terminou com os Acordos de Paz de 1992, sem que tivesse sido derrotada militarmente, já após o desaparecimento da União Soviética.

A maior parte das organizações revolucionárias latino-americanas foi dizimada pela violência das ditaduras, que colaboravam entre si por meio da Operação Condor – Patricia Mechi Tweet.

Esquerdas latino-americanas

Quero salientar que as esquerdas latino-americanas chegaram aos anos 1990 profundamente fragilizadas pela repressão que se abatera sobre elas e que custara a vida de parte significativa de sua militância, incluindo suas lideranças. Estima-se que cerca de 200 mil pessoas tenham sido assassinadas na Guatemala, 75 mil em El Salvador e 30 mil na Argentina, para citar alguns dos casos mais expressivos. A queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética agravaram ainda mais essa situação, já que apenas a existência de uma experiência socialista de amplo alcance como a da URSS inibia o livre desenvolvimento das formas mais nefastas do capitalismo. Com seu desaparecimento, ganhou força a construção ideológica de que o capitalismo constituía o único horizonte possível.

Nesse contexto, a disputa política deslocou-se cada vez mais para o terreno eleitoral. Em alguns países, como o Chile, o neoliberalismo foi implantado ainda durante a ditadura; em outros, como o Brasil, as reformas neoliberais foram conduzidas já sob governos civis. Foi nesse cenário, caracterizado pela hegemonia neoliberal e pela reorganização das esquerdas em torno da disputa institucional, que emergiram, no fim da década de 1990, os governos progressistas do século XXI. Em última análise, esses governos buscaram humanizar a gestão do capitalismo, funcionando como uma espécie de barreira às suas tendências mais destrutivas, sem colocar em questão seus fundamentos nem a posição dependente da América Latina na economia mundial.

Os governos progressistas buscaram humanizar a gestão do capitalismo, funcionando como uma espécie de barreira às suas tendências mais destrutivas, sem colocar em questão seus fundamentos nem a posição dependente da América Latina – Patricia Mechi Tweet.

IHU – Que papel a esquerda ocupou no contexto político e qual foi sua aposta para participar do “jogo democrático”?

Patricia Mechi – Como mencionei, a derrota das propostas revolucionárias e a consolidação do neoliberalismo na região provocaram uma mudança na estratégia das esquerdas, que passaram a migrar cada vez mais para o campo da política institucional. Há que se considerar que se tratava de uma correlação de forças extremamente desfavorável, produzida pela contrainsurgência e pelo novo cenário internacional do pós-Guerra Fria.

A reorganização de parte importante das esquerdas ocorreu em partidos legais, cuja aposta passou a ser a conquista do controle do Estado pela via eleitoral. Nos anos 1990 também ganharam grande protagonismo inúmeros movimentos sociais de camponeses, indígenas, negros, mulheres…, cujas relações com os partidos políticos eram bastante diversas, indo da colaboração ao confronto. Os partidos de esquerda organizados para disputar a institucionalidade passaram a atuar no campo da ampliação dos direitos e da redução das desigualdades, numa perspectiva de produzir mudanças graduais, visando o fortalecimento das instituições democráticas.

Essa estratégia foi responsável por conquistas importantes, como a redução da pobreza, a ampliação do acesso à educação, o fortalecimento de políticas sociais e a incorporação de novos sujeitos à esfera pública. No entanto, também implicou aceitar os limites da democracia liberal e da economia de mercado. Em grande medida, os governos progressistas buscaram construir pactos de conciliação entre capital e trabalho, preservando a estabilidade política e econômica sem enfrentar, de forma estrutural, a dependência, a financeirização e a concentração da riqueza.

A maior parte das esquerdas latino-americanas que chegou ao governo não alterou significativamente a correlação de forças que sustentava o poder econômico e político das classes dominantes – Patricia Mechi Tweet.

A maior parte das esquerdas latino-americanas que chegou ao governo não alterou significativamente a correlação de forças que sustentava o poder econômico e político das classes dominantes. A maior exceção, como já mencionei, foi a Venezuela, que tinha o diferencial de se apoiar na renda do petróleo. Enquanto o crescimento econômico permitiu compatibilizar redistribuição de renda e rentabilidade do capital, durante o boom das commodities esse arranjo mostrou-se relativamente estável. Quando essa conjuntura se esgotou, esgotaram-se também as bases que sustentavam essa estratégia.

IHU – Como o fim do boom das commodities e a crise financeira de 2008 impactaram na quebra do pacto imposto pelas classes dominantes aos governos de esquerda?

Patricia Mechi – O boom das commodities foi decisivo para a estabilidade dos governos progressistas. O crescimento da demanda internacional, especialmente por parte da China, ampliou a arrecadação dos Estados e permitiu financiar políticas sociais, reduzir a pobreza e expandir o consumo sem alterar profundamente a estrutura econômica da região, levando a compatibilizar inclusão social com rentabilidade do capital.

A crise financeira internacional de 2008 e o fim do “boom das commodities” alteraram o cenário. A desaceleração econômica reduziu a capacidade fiscal dos Estados e tornou mais difícil sustentar políticas de transferência de renda sem enfrentar os interesses das classes dominantes que, por sua vez, buscaram outros mecanismos para manter seu padrão de acumulação, o que significaria o rompimento do pacto que sustentou o progressismo e a criação de um cenário para implementar as contrarreformas. Enquanto a expansão econômica preservou os lucros, setores dominantes toleraram determinadas políticas de inclusão. Quando esse contexto desapareceu, aumentou a pressão por ajustes fiscais, privatizações, redução de direitos, com o objetivo de recompor as taxas de acumulação.

As classes dominantes deixam de ver no progressismo a capacidade de gerir os conflitos sociais, mesmo porque seu principal instrumento, as políticas de transferência de renda, estavam fragilizadas no cenário da crise. Além disso, a chamada “cidadania pelo consumo”, ou seja, a mercantilização das políticas sociais, muitas delas transformadas em algum tipo de renda ou financiamento, muitas vezes nem sequer eram percebidas como políticas públicas. Há um distanciamento entre a sensibilidade popular e as ações dos governos progressistas.

Intensificam-se então os processos de desestabilização, de judicialização da política e de lawfare, ao mesmo tempo que ganhavam terreno as pautas conservadoras e de extrema-direita.

IHU – De 2008 em diante, como se deram os sucessivos golpes de Estado que levaram a extrema-direita ao poder em diferentes países da América Latina?

Patricia Mechi – O golpe de Estado em Honduras, em 2009, inaugura uma nova onda de rupturas democráticas na América Latina. Embora Zelaya tenha sido retirado de sua residência por militares e enviado à força para a Costa Rica, o episódio já apontava para um novo padrão de desestabilização política. Diferentemente dos golpes empresariais-militares que marcaram a segunda metade do século XX, as rupturas do século XXI passaram a combinar mecanismos parlamentares, jurídicos e econômicos, preservando uma aparência de legalidade e normalidade institucional, apoiados por narrativas midiáticas que favoreciam sua aceitação por parcelas mais amplas da sociedade.

O padrão de desestabilização política reapareceu na destituição de Fernando Lugo, no Paraguai, em 2012, no impeachment de Dilma Rousseff em 2016, e no golpe contra Evo Morales, na Bolívia, em 2019 – Patricia Mechi Tweet.

Esse padrão reapareceu na destituição de Fernando Lugo, no Paraguai, em 2012, no impeachment de Dilma Rousseff em 2016, e no golpe contra Evo Morales, na Bolívia, em 2019. O caso brasileiro talvez seja o exemplo mais conhecido dessa nova modalidade de golpe. Dilma Rousseff foi afastada pelas chamadas “pedaladas fiscais”, uma prática orçamentária que não envolvia enriquecimento ilícito nem corrupção e cuja caracterização como crime de responsabilidade não tinha sustentação sólida. Na prática tratou-se de uma questão técnica, um pretexto que fez as vezes de fundamento jurídico de uma decisão absolutamente política.

A própria votação na Câmara dos Deputados é ilustrativa do absurdo desse processo. As justificativas apresentadas pela maioria dos parlamentares favoráveis ao impeachment não se referiram ao suposto crime de responsabilidade atribuído à presidenta. Mas sim faziam referências à família, a Deus, aos seus próprios filhos e esposas, ao povo, aos estados de origem e ao combate à corrupção. Em outras palavras, pouco importava o fato em si. Os argumentos morais, religiosos e políticos, que compunham grande parte do ideário mobilizado pelas extremas-direitas em seus votos eram a expressão da ofensiva contra aquela forma de fazer política, motivo real do impeachment que nada tinha a ver com crime de responsabilidade [1].

O lawfare mobilizado contra Dilma Rousseff já vinha sendo dirigido contra importantes lideranças do Partido dos Trabalhadores e teria seu ápice na prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2018. Posteriormente, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as condenações, reconhecendo a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar os processos e a parcialidade do então juiz Sergio Moro depois da série de reportagens do Intercept Brasil denominadas Vaza Jato [2]. A prisão de Lula retirou das eleições presidenciais o principal candidato à Presidência da República e abriu caminho para a vitória de Jair Bolsonaro.

IHU – Há uma particularidade dos golpes de Estado contemporâneos, pois são golpes jurídico-parlamentares, correto? Como eles se caracterizam?

Patricia Mechi – Como já mencionei, os golpes do século XXI procuram preservar uma aparência de normalidade institucional, recorrendo aos próprios mecanismos do Estado de Direito para interromper governos eleitos. O Judiciário, os parlamentos, os grandes conglomerados de comunicação, parcelas do empresariado e, em alguns casos (como no brasileiro), as próprias Forças Armadas, convergem na instrumentalização dos mecanismos legais para intervir na política. Essa politização da justiça ou judicialização da política ficou conhecida como lawfare que se caracteriza pela utilização política e seletiva do sistema de justiça para investigar, denunciar, prender ou impedir a participação política de adversários políticos.

Reafirmo que isso não significa que a violência tenha desaparecido, basta lembrar da tentativa frustrada de golpe de Estado de 8 de janeiro. Mas a violência também assume outras formas, não necessariamente com tanques nas ruas: perseguição judicial, criminalização dos movimentos sociais, campanhas permanentes de desinformação, erosão dos espaços democráticos. O objetivo permanece sendo interromper projetos políticos que ameacem interesses consolidados, restabelecendo o domínio das classes dominantes.

IHU – Como a América Central se tornou um laboratório regional do novo imperialismo dos EUA?

Patricia Mechi – A América Central ocupa um lugar importante na história do imperialismo estadunidense, já que a região, desde o século XIX, tem sofrido com a ingerência dos Estados Unidos. A Doutrina Monroe, formulada em 1823, já afirmava a pretensão de transformar o hemisfério ocidental em sua área de influência, afastando as potências europeias. Ao longo do século XIX, essa formulação foi sendo reinterpretada, especialmente a partir do Corolário Roosevelt, que passou a legitimar intervenções diretas sempre que os interesses estadunidenses fossem considerados ameaçados.

A América Central ocupa um lugar importante na história do imperialismo estadunidense, já que a região, desde o século XIX, tem sofrido com a ingerência dos Estados Unidos – Patricia Mechi Tweet.

Mas foi na América Central (e no Caribe) que a ingerência estadunidense pôde ser experimentada, já que ali as intervenções foram múltiplas e diversas. No início do século XX, Haiti, República Dominicana, Nicarágua, Honduras, Cuba e Panamá sofreram intervenções militares, principalmente invasões de fuzileiros navais; os EUA estimularam a independência panamenha da Colômbia e pouco mais de uma década depois, em 1914, iniciaram a construção do canal interoceânico. Empresas estadunidenses como a United Fruit Company, da qual eram acionistas o secretário de Estado John Foster Dulles e seu irmão Allen Foster Dulles, diretor da Central Intelligence Agency (CIA), eram proprietárias de grandes extensões de terra e de infraestrutura, influindo na política, inclusive no golpe de Estado na Guatemala contra Jacobo Árbenz, orquestrado pela CIA. O modelo experimentado ali seria o ponto de partida para intervenções semelhantes em diferentes partes da América Latina. A região também se converteu no espaço de experimentação da contrainsurgência, formando exércitos latino-americanos que se encarregariam da repressão durante as ditaduras e tinham como “campo de treinamento” as lutas guerrilheiras da Nicarágua, Guatemala e El Salvador. A sede da contrarrevolução continental era a Escola das Américas, situada na zona do Canal do Panamá, sob controle dos Estados Unidos.

Com o fim da Guerra Fria, as formas de intervenção se transformaram. O combate ao comunismo foi substituído pelo discurso da guerra às drogas, do combate ao terrorismo e às pandillas, além do controle das migrações.

Na conjuntura atual a ingerência dos Estados Unidos na América Central assumiu novas dimensões. Nas eleições de 2025, Donald Trump declarou apoio explícito ao então candidato conservador e agora presidente Nasry Asfura, do Partido Nacional, ao mesmo tempo que concedeu indulto ao ex-presidente Juan Orlando Hernández, condenado pela própria Justiça estadunidense por narcotráfico.

IHU – Por que o punitivismo se tornou a pedra de toque das políticas e campanhas da extrema-direita? Essa lógica punitivista é sintoma de que tipo de sociedade?

Patricia Mechi – O punitivismo não surgiu agora. Na América Latina, a questão social historicamente foi tratada como caso de polícia. A novidade é sua configuração contemporânea, com o aprofundamento da racionalidade neoliberal na segurança pública. Aqui vale a pena recordar que o mais famoso experimento de gestão violenta das populações, com criminalização da pobreza e encarceramento em massa, remonta à política de Tolerância Zero implementada em Nova York nos anos 1990 pelo prefeito Rudolph Giuliani, sob a lógica de que a repressão rigorosa, até mesmo contra pequenas infrações, impediria a ocorrência de crimes mais graves.

O punitivismo não surgiu agora. Na América Latina, a questão social historicamente foi tratada como caso de polícia – Patricia Mechi Tweet.

Sob a fachada do combate à criminalidade, essa política administrava os efeitos sociais do próprio neoliberalismo por meio do fortalecimento da securitização. No mesmo período na América Central, as políticas de mano dura surgiram como resposta ao crescimento das maras (gangues).

Outra inflexão fundamental para entender o cenário contemporâneo foram as políticas de segurança adotadas após o atentado ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. Sob o pretexto da “Guerra ao Terror”, o governo de George W. Bush apostou na narrativa da oposição entre privacidade e segurança. No plano internacional, ela serviu de justificativa para as primeiras guerras do século XXI. Internamente, promoveu a ampliação dos poderes dos órgãos de inteligência e dos mecanismos de monitoramento da população, restringindo direitos e liberdades individuais em nome da segurança nacional. As revelações do WikiLeaks e de Edward Snowden demonstraram que a colaboração entre governos e grandes empresas de tecnologia extrapolou e muito o combate ao terrorismo. Basta lembrar que, durante o governo Barack Obama, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) espionou a presidenta Dilma Rousseff, ministros de Estado e a Petrobras, deixando claro que o aparato criado em nome da segurança também era utilizado para fins geopolíticos, econômicos e estratégicos dos Estados Unidos. Por outro lado, no Brasil, foi durante o próprio governo Dilma que se aprovou a Lei Antiterrorismo, às vésperas dos Jogos Olímpicos de 2016, ampliando os instrumentos que possibilitavam a criminalização dos movimentos sociais e do protesto popular.

EUA – espionagem estatal e das big techs

Nos últimos anos, a capacidade de vigilância tanto dos Estados quanto das Big Techs, como Microsoft, Google, Amazon, Meta, OpenAI e Palantir, aprofundou-se significativamente. Mas, para além do monitoramento, essas tecnologias, controladas por um número ínfimo de bilionários, também passaram a influenciar processos eleitorais e vêm sendo crescentemente empregadas em conflitos armados, como demonstram as guerras contemporâneas. A novidade da extrema-direita, portanto, não está no punitivismo em si, mas na forma como ele passa a integrar um projeto político autoritário de gestão violenta de populações cada vez mais entendidas por seus ideólogos como descartáveis.

A novidade da extrema-direita não está no punitivismo em si, mas na forma como ele passa a integrar um projeto político autoritário de gestão violenta de populações cada vez mais entendidas por seus ideólogos como descartáveis – Patricia Mechi Tweet.

O caso Bukele

Nesse contexto, o caso de El Salvador merece um pouco mais de nossa atenção. Em poucos anos, Nayib Bukele se converteu em uma das principais referências da extrema-direita internacional, principalmente no que se refere à segurança pública. Com forte presença nas redes sociais e apresentando-se como outsider, transformou-se num autocrata. Sua política de segurança promoveu a redução dos homicídios no país, mas às custas da suspensão de garantias constitucionais, de milhares de detenções arbitrárias, perseguição a jornalistas e organizações sociais, num regime de exceção permanentemente. A criação do Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT) [megaprisão de segurança máxima em El Salvador], em 2023, transformou o encarceramento em massa em espetáculo midiático, desafiando consensos mundiais em torno dos direitos humanos, que repetidamente Bukele afirma que ali eles não existem.

Seu sucesso eleitoral e sua concepção de segurança pública lhe deram projeção internacional, tornando-o referência para diferentes setores da extrema-direita, a exemplo de Javier Milei na Argentina e de Tarcísio de Freitas, em São Paulo. Por aqui o endurecimento penal, a ampliação da letalidade policial, o fortalecimento da militarização da segurança pública são temas que a extrema-direita consegue mobilizar com sucesso entre amplos setores da população. O punitivismo se converte numa forma de gestão sob governos em que não existe, no horizonte, nenhuma perspectiva de combate à desigualdade, de extensão da cidadania ou de defesa dos direitos humanos.

O punitivismo se converte numa forma de gestão sob governos em que não existe, no horizonte, nenhuma perspectiva de combate à desigualdade, de extensão da cidadania ou de defesa dos direitos humanos – Patricia Mechi Tweet.

IHU – Quais têm sido os impactos políticos da extrema-direita no Brasil e quão atentos devemos estar em relação às eleições de outubro?

Patricia Mechi – A ascensão da extrema-direita contemporânea expressa a crise da democracia liberal como forma de gestão de um capitalismo também em crise. As formas democráticas, por mais limitadas que sejam, colocam alguns obstáculos à dinâmica inevitável do capitalismo, cada vez mais viabilizando a existência humana apenas no mercado. Isso parece elementar, mas é sempre surpreendente a capacidade do capital de penetrar em esferas que antes pareciam fora do seu alcance. Quem poderia imaginar há alguns anos que as Big Techs teriam acesso aos desejos que não confessamos nem a nós mesmos? Que nossas emoções seriam classificadas como doenças e medicalizadas? Que existiriam hipnóticos para tratar a insônia cujo “efeito colateral” seria a realização de compras on-line?

As formas democráticas (…) colocam alguns obstáculos à dinâmica inevitável do capitalismo, cada vez mais viabilizando a existência humana apenas no mercado – Patricia Mechi Tweet.

Além de criar mercadorias, outra frente de expansão capitalista é a renovação e o aprofundamento de formas já experimentadas de espoliação das pessoas e da natureza. A reorganização autoritária e violenta do poder, atomizando a sociedade e destruindo os laços de solidariedade onde quer que eles existam, promovida pelos projetos de extrema-direita, é uma necessidade do capitalismo na busca por formas de prolongar sua existência. Curiosamente, essa conservação do sistema é apresentada e percebida como ruptura. Isto é correto, em certa medida, já que ataca tudo aquilo que obstaculize o pleno desenvolvimento do capitalismo, o que, em última análise, implica em consumir tudo o que existe no planeta (e talvez fora dele). “Se quisermos que tudo permaneça como está, é preciso que tudo mude”, já dizia um personagem de Lampedusa.

Ao se tornarem gestores de um capitalismo em crise e operarem sob a racionalidade neoliberal, os progressismos buscaram, dentro de limites muito estreitos e numa conjuntura muito desfavorável, focar na inclusão econômica e na ampliação da cidadania e, muitas vezes, uma coisa se confundiu com a outra. Cidadania e consumo passaram, em algumas situações, a ser entendidas como a mesma coisa. Os progressismos tentaram conservar direitos, atuando na defensiva, numa conjuntura de crise. Há pouco mais de dez anos, em seu pronunciamento de posse do segundo mandato, Dilma dizia “Nenhum direito a menos, nenhum passo atrás”. A extrema-direita, por sua vez, propôs a ruptura.

De lá para cá, muita coisa aconteceu, mas o progressismo não foi capaz de dar respostas diferentes. Este já seria, por si só, um cenário extremamente delicado para as eleições de outubro. Entretanto, ele se agrava ainda mais diante da retomada de uma política externa abertamente intervencionista dos Estados Unidos para a América Latina, expressa na Estratégia de Segurança Nacional da administração Trump, conhecida como “Doutrina Trump” ou “Corolário Trump da Doutrina Monroe”, cujo objetivo é restaurar a hegemonia estadunidense no continente diante do avanço da China. No fundo, trata-se da dimensão global da mesma crise que, para nosso azar, nos colocou no radar da Casa Branca.

Brasil na mira

A ofensiva contra a Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro, o recrudescimento do bloqueio e as ameaças explícitas contra Cuba e a ingerência em processos eleitorais na região, além das ofensivas diretas contra o Brasil, não deixam margem para dúvida: somos a bola da vez.

Sob o Brasil pesam ameaças tarifárias, investigações sobre falhas no combate ao trabalho forçado, ataques ao Pix, o enquadramento do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, além das frequentes declarações sobre assuntos internos, como questionamentos às decisões do Judiciário. Também são notórias as relações do mandatário estadunidense com o clã Bolsonaro. A gravidade das tensões nas relações entre Brasil e Estados Unidos fica mais perceptível com o ofício enviado dias atrás pelo chanceler Mauro Vieira ao Congresso Nacional, no qual mencionava “possibilidade de uso de força militar dos Estados Unidos em território brasileiro” após a classificação do Comando Vermelho e PCC como organizações terroristas.

Tenho para mim que algo que já entrou para o anedotário do futebol – o pedido feito por Donald Trump à FIFA de revisão do cartão vermelho aplicado pelo árbitro brasileiro Raphael Claus ao atacante da seleção dos Estados Unidos, Folarin Balogun – não foi por acaso. Simultaneamente, representantes do Brasil e dos Estados Unidos discutiam as tarifas aplicadas sobre nosso país. Numa postura vexatória e massivamente repudiada, a FIFA submeteu-se ao capricho de Trump que, num momento de tensionamento entre os dois países, utiliza a arena desportiva para demonstrar seu poder absoluto, fazendo valer a sua vontade a despeito da existência de regras ou juízes.

Lembremos que mais grave que a revisão da punição aplicada ao jogador estadunidense foi a concessão do perdão presidencial que Trump concedeu ao ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por facilitar a entrada de 400 toneladas de cocaína nos EUA. O perdão foi concedido um dia após a eleição hondurenha, na qual Trump abertamente apoiou Nasry Asfura, do Partido Nacional, mesmo partido de Hernández, que finalmente se sagrou eleito em meio a um processo eleitoral marcado por inúmeras denúncias de fraude.

Ingerência dos EUA nas eleições

Motivos não faltam para esperarmos um cenário eleitoral de ingerência direta e aberta dos Estados Unidos, e uma parcela do eleitorado brasileiro deseja ir além da intervenção nas eleições: espera os Marines combatendo o tráfico no Brasil.

Motivos não faltam para esperarmos um cenário eleitoral de ingerência direta e aberta dos Estados Unidos, e uma parcela do eleitorado brasileiro deseja ir além da intervenção nas eleições – Patricia Mechi Tweet.

Nestas eleições, assim como todas as outras desde o golpe contra Dilma Rousseff, um conjunto de afetos se sobrepõe a outros: medo, frustração, indignação, desesperança, nostalgia, raiva, alívio, cansaço. O tema da segurança pública certamente será fartamente explorado pelas direitas e mobilizará alguns desses afetos.

As mídias digitais mudaram as formas de comunicação, esvaziando ainda mais o já difícil diálogo sobre os limites, possibilidades, atribuições e projetos representados por cada força política. Nesse terreno, o campo progressista ainda está aquém da extrema-direita. Nas redes, ganham força o espetáculo, o entretenimento, a cultura da lacração, do cancelamento e do clickbait, num público hiperstimulado e pouco atento, no qual a política assume a linguagem dos games, dos reality shows e dos memes.

A extrema-direita foi quem primeiro se apropriou dessas linguagens, cuja energia não se restringiu ao campo discursivo ou digital. Mobilizando frustrações e ressentimentos populares contra a institucionalidade, visando destruí-la, as intervenções da extrema-direita possibilitaram o surgimento de sentimentos de pertencimento, espaços de escuta, de atuação política, além da possibilidade de imaginar um retorno a um tempo, real ou imaginário, em que a vida era mais fácil, os valores ou preconceitos, não eram questionados. As esquerdas foram incapazes de esclarecer à população que as transformações nas condições de vida das pessoas decorriam das transformações que ocorreram no mundo após o desaparecimento da URSS e do avanço do neoliberalismo, com a reestruturação produtiva, a precarização do trabalho, as contrarreformas trabalhista e previdenciária etc.

Soberania versus entreguismo

Estas eleições vão se desenhando pela esquerda como uma disputa entre nação e imperialismo, tal como os intelectuais do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) pensavam o Brasil mais de 70 anos atrás. Num polo, soberania, no outro, entreguismo. Pela extrema-direita, sem consenso em torno de um candidato e sem ainda definir quais serão os eixos da campanha, talvez a única certeza esteja no alinhamento e na submissão aos Estados Unidos.

Estas eleições vão se desenhando, pela esquerda, como uma disputa entre nação e imperialismo. Num polo, soberania, no outro, entreguismo – Patricia Mechi Tweet.

Mas penso que esta é a oportunidade que o PT tem, talvez a única, de escancarar o jogo, abandonar a conciliação, apoiar-se nos movimentos sociais, dialogar com setores do empresariado que eventualmente estejam dispostos a uma mudança de rumos (se é que esse setor existe) e fortalecer a integração latino-americana. Ainda que esta pareça ser uma perspectiva datada, superada historicamente, tal como a disputa entre nação e imperialismo, talvez seja possível a partir dela imaginar um horizonte de redução do consumo de inutilidades, menos trabalho, mais descanso, mais vida comunitária, mais solidariedade, mais lazer e recuperar a capacidade de construir futuros.

Notas da entrevistada:

[1] Estudo sobre as justificativas dos votos dos deputados federais na sessão de 17 de abril de 2016 demonstra que a maior parte dos parlamentares favoráveis ao impeachment fundamentou seu voto em referências à família, a Deus, ao povo, aos estados de origem e ao combate à corrupção, enquanto os argumentos estritamente relacionados ao suposto crime de responsabilidade ocuparam posição secundária. Já os votos contrários concentraram-se na defesa da legalidade constitucional, da democracia e da inexistência de crime de responsabilidade. Ver: SOARES, Felipe Bonow; RECUERO, Raquel. A argumentação dos deputados na votação do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Estudos em Comunicação, n. 27, v. 1, p. 69-85, 2018.

[2] A denominada Vaza Jato foi uma série de reportagens publicada pelo The Intercept Brasil a partir de junho de 2019, baseada em mensagens trocadas entre integrantes da força-tarefa da Operação Lava Jato. As reportagens revelaram comunicações entre o então juiz Sergio Moro e procuradores da República, indicando colaboração incompatível com a imparcialidade judicial, além de estratégias para condução de investigações, definição de operações e repercussão pública dos processos. As revelações tiveram ampla repercussão jurídica e política e contribuíram para o questionamento da condução da Operação Lava Jato e dos processos envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ver: The Intercept Brasil. As mensagens secretas da Lava Jato. Série especial começada em 9 jun. 2019.

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