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América do Sul: a Doutrina Donroe nas urnas

O resultado eleitoral no Peru, sétimo país da região a sucumbir à ingerência trumpista, consolida um bloco fragmentado. Quais os riscos à integração e autonomia regional – já há tempos instável e incapaz de responder aos problemas estruturais locais?



De Outras Palavras, 20 de julho 2026
Por Andres Ferrari e João Pedro Castro Correia



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O texto a seguir integra o número 18 (julho de 2026) do boletim do Observatório do Século XXI, parceiro editorial de Outras Palavras. A edição, na íntegra, pode ser baixada aqui.

A eleição de Keiko Fujimori no Peru, em 29 de junho de 2026, e a vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia uma semana antes confirmam uma alteração no equilíbrio político sul-americano. Com esses resultados, a direita passa a governar sete dos doze países da região.

O presidente dos EUA, Donald Trump, abertamente explicitou seu envolvimento nessas eleições, em particular a colombiana, chamando de la Espriella de líder “inteligente, forte e determinado” e a seu oponente Iván Cepeda de um “marxista de esquerda radical”. Ademais, afirmou que a manutenção entre ambos os países dependia do candidato que endossava. Mais que isso, o subsecretário de Estado Christopher Landau coordenou uma campanha de desinformação contra o candidato governista colombiano, que o secretário de Estado Marco Rubio justificou necessária como proteção aos interesses do seu país nos processos democráticos da Colômbia.

Longe de ocultar esta intromissão, Trump faz questão de expressar que assim serão as relações com os países latino-americanos, tendo seu ápice na detenção de Nicolás Maduro, mas também com sua aberta intromissão nos processos eleitorais na Argentina, no Equador, no Chile e, agora, no Brasil. Lentes estreitas enfocam esses fatos na personalidade do Trump, mas na verdade é que constitui uma visão arraigada dos Estados Unidos: “América” vai do polo norte ao sul, sem consideração pelas “soberanias” existentes.

Isso ficou claro quando Monroe anunciou sua doutrina em 1823, quando nenhum Estado do continente foi sequer consultado nem informado da mesma — e foi, na realidade, uma expressão estadunidense feita a quem considerava seus interlocutores, os europeus. A expectativa americana, como tinha expressado Thomas Jefferson, era criar um ‘Império da Liberdade’, deixando claro que seus amplos limites geográficos eram indefinidos e se estendiam ao longo do continente americano — o que ficaria claro no Destino Manifesto.

A vitória sobre o México deteve as pretensões territoriais diretas pela indisposição de incorporar populações latinas e católicas. A metade mexicana que não foi incorporada aos EUA passaria a ser
tutelada indiretamente pelos mecanismos de intromissão, pressão econômica, diplomática e política, e intervenção militar, no estilo da união aduaneira sob sua arbitragem política que propuseram na
Conferência Pan-Americana de 1889. Theodore Roosevelt atualizaria a visão de tutelagem continental afirmando que os EUA interveriam em qualquer país que “não se comportasse corretamente” no que
ficou conhecido como seu Corolário à Doutrina Monroe.

Consolidou-se, assim, a percepção de que a projeção de poder sobre o continente constituía elemento central da estratégia norte-americana de afirmação internacional. Ao todo, se calculam mais de 40 intervenções diretas e cobertas. O ex-presidente Woodrow Wilson, grande promotor de muitas delas, declarou em 1913 sua insatisfação com resultados eleitorais na região e que ia ensinar aos latino-
americanos a “escolher bons homens”. Quando a resistência latino-americana e a Grande Depressão tornaram o intervencionismo mais custoso, os EUA adotaram a Política da Boa Vizinhança, optando por
métodos mais suaves de ação — mas sem abandonar os preceitos básicos: América Latina deve estar alinhada às determinações dos EUA.

A Guerra Fria reativou a intervenção direta. Embora os EUA também agissem sobre países de outros continentes, na América Latina a percepção era de que se tratava de uma região não disputável, mas da sua exclusividade de ingerência — noção acendida pela Revolução Cubana. Enquanto na América Central e no Caribe os EUA fizeram intervenções militares diretas ou por meio da CIA, na América do Sul isso somente se observou na Venezuela e no Chile. No resto dos países, fundamentalmente através da Operação Condor, promoveram golpes militares, salvo Colômbia e Peru, mas se somariam à lista posteriormente — o primeiro fortemente por meio da “guerra às drogas”. Após a queda da União Soviética, a globalização projetou os instrumentos econômicos de intervenção, através do Consenso de Washington, do FMI, do Banco Mundial e, posteriormente, de mecanismos de cooperação em segurança, como o Plano Colômbia.

Trump está acelerando a velocidade dessa tutelagem, ademais de explicitar a mesma à transparência aberta. Na sua compreensão, o crescimento da presença econômica chinesa nas últimas décadas
na região deve ser revertido rapidamente — em especial, dados os vários reveses que os EUA vêm sofrendo em outras partes do mundo.

Para isso, é preciso desarticular as aspirações recentes de maior autonomia na América do Sul neste século. Assim, aponta a candidatos que continuem desacreditando e enfraquecendo institucionalidades como a UNASUL e o MERCOSUL, para promover que essa cooperação multilateral se converta em uma soma de vínculos bilaterais com Washington. Não por acaso, a rede de lideranças alinhadas ao trumpismo com Bukele, Milei, Kast, Noboa, de la Espriella, Fujimori e potencialmente ao próximo presidente brasileiro ataca qualquer forma de integração regional latino-americana. Ao mesmo tempo, essas figuras políticas valorizam a relação estreita com os Estados Unidos — e até com a própria pessoa do Trump — como única solução para superar os problemas domésticos, como desempenho econômico, desgaste governamental e fragmentação partidária.

Paradoxalmente, essa dinâmica revela que, sem a ação de agentes domésticos, pouca ou nenhuma mudança ocorreria. Daí que Trump faz questão de expressar como deve ser especificamente a dinâmica eleitoral de cada país. Mas isso se sustenta com base em uma percepção negativa das capacidades e possibilidades desses processos políticos internos.

Uma visão global desses processos em seu conjunto revela os efeitos do neoliberalismo e seus impactos deletérios para o funcionamento democrático, não só na América Latina, mas em grande parte do mundo governado sob essa visão. Em 2024, o maior ciclo eleitoral da história em termos populacionais, dezenas de governos incumbentes foram derrotados, consequência dos efeitos políticos da pandemia e das instabilidades econômicas anteriores a ela, como a inflação, a desaceleração econômica e o aumento da desigualdade. A pesquisa do Pew Research Center em 34 países indicou que 54% se declararam insatisfeitos com o funcionamento da democracia. Na América Latina, a situação é mais agravante. O Informe Latinobarómetro de 2023 registrou queda de 15 pontos no apoio à democracia entre os latino-americanos desde 2010, caindo a 48%.

Assim, é nesse contexto que parte da nova direita sul-americana, influenciada pela ascensão do trumpismo, resolveu adotar métodos, como os discursos maniqueístas, antissistema e forte presença nas plataformas digitais estrangeiras. Sob expectativas impossíveis de não serem frustradas, impulsionam políticas domésticas alinhadas aos desejos abertamente explicitados por Trump. Mas a realidade de fundo revela sua força quando se observa que também essas novas direitas enfrentam dificuldades para responder às condições estruturais que favoreceram sua ascensão. Como não é uma visão ideológica ou verdadeira visão de mundo que está detrás de sua vitória nas urnas, sua base de sustentabilidade é fraca e dificilmente perduram mais de um mandato.

O cenário que surge, então, é de contínua alternância recorrente, e vitórias nas urnas milimétricas, que, ademais, favorecem as denúncias de fraudes. A recente vitória de Fujimori demonstra um caso extremo dessa dinâmica: em um país com oito presidentes desde 2016, ela venceu por conta do acúmulo de insatisfação causado por uma instabilidade que o fujimorismo contribuiu para criar. A eleição brasileira é a próxima a enfrentar esse desafio, seguida pela Argentina em 2027 e pelo Paraguai em 2028. Os demais tiveram, em geral, eleições fortemente divididas e circunstâncias disputadas até sobre o resultado final — enquanto aVenezuela se encontra num impasse formalmente indefinido.

Enquanto se foca na figura do Trump e nas vicissitudes internas de cada país para explicar seus resultados políticos, persiste a influência e intervenção — agora mais explícita, agora menos — dos EUA promovendo visões e estruturas econômico-sociais acordes aos seus interesses. Ao fim, que a América Latina consiste numa região para seu benefício, poucos o expressaram tão abertamente como em 2013 o tido liberal, progressista, defensor ambiental, promotor de direitos civis e humanos, e ex-secretário de Estado de Barack Obama, John Kerry: “O Hemisfério Ocidental é o nosso quintal. É fundamental para nós.”

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