Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR*
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Imagem: Adil Dahmani |
1.
É possível vencer uma eleição e não conquistar o direito de governar. A contradição desaparece quando se abandona a imagem infantil da democracia como uma cena encerrada na contagem dos votos. O povo escolhe, a Justiça Eleitoral proclama o resultado, o candidato sobe a rampa e o poder muda de mãos.
A história, porém, não cabe nessa cerimônia. O governo muda de endereço; o poder, nem sempre. Pode continuar alojado na propriedade concentrada, no sistema financeiro, no controle do orçamento, nas grandes plataformas digitais, nos meios de comunicação, nas corporações que atravessam o Estado e nas relações internacionais que delimitam o horizonte de uma economia dependente.
A eleição abre a porta do governo. Não assegura que estejam abertas as passagens por onde uma sociedade poderia caminhar em direção a outro futuro. Em 2026, o Brasil poderá reencontrar essa velha diferença. Uma candidatura democrática poderá vencer nas urnas e descobrir, já no dia seguinte, que sua vitória está cercada por forças que não receberam votos, mas conservam a capacidade de determinar o que pode ou não acontecer.
Nada disso diminui a importância das eleições. Em certas conjunturas, votar é interromper uma marcha em direção ao abismo. Quando o autoritarismo deixa de ser apenas opinião extremista e se transforma em linguagem cotidiana, organização social e programa de poder, derrotá-lo eleitoralmente é uma necessidade histórica. A urna protege vidas, direitos, instituições e a possibilidade de continuar disputando o sentido da sociedade. O erro começa quando a necessidade é confundida com suficiência.
Vencer o autoritarismo nas urnas não dissolve as condições que o produziram. Ele pode perder a Presidência e continuar vivo nas polícias, nos quartéis, nas igrejas convertidas em máquinas eleitorais, nas escolas militarizadas, nas redes digitais, nas famílias partidas pelo ressentimento e nas empresas que aprenderam a tratar a democracia como um custo. Pode permanecer forte no Parlamento. A derrota o afasta do centro formal do Executivo, mas não o retira da sociedade. Por isso, a vitória democrática já nasce com uma tarefa maior do que a celebração: sobreviver ao cerco de tudo aquilo que perdeu sem desaparecer.
2.
As eleições de 2026 não decidirão apenas a Presidência. Renovarão a Câmara, os governos estaduais e dois terços do Senado. Um presidente pode receber dezenas de milhões de votos e iniciar o mandato diante de um Congresso cuja maioria possui outro programa e outra concepção de país. Não é preciso romper a ordem institucional. Basta controlar a pauta, fragmentar o orçamento, convocar ministros, produzir comissões de investigação, bloquear nomeações, fabricar crises e converter cada votação em nova transferência de recursos e poder.
A governabilidade deixa de ser o esforço legítimo para formar maioria e passa a funcionar como nome elegante de uma expropriação. O Executivo vence, mas precisa recomprar todos os dias o direito de executar o programa que recebeu votos para realizar. A soberania popular é reconhecida na noite da apuração e submetida, na manhã seguinte, a um sistema de pedágios.
Durante muito tempo, o presidencialismo de coalizão foi descrito como uma engenharia necessária à pluralidade partidária brasileira. A descrição institucional era correta, mas envelheceu. O Congresso ampliou sua capacidade de apropriar-se da formulação, da distribuição e da execução de parcelas decisivas do orçamento. Não estamos diante de um detalhe contábil.
O orçamento é o momento em que uma política abandona o discurso e ingressa na vida. Por ele se constroem escolas, funcionam hospitais, sobrevivem universidades, se planejam obras e se dá continuidade a programas nacionais. Quando frações crescentes desses recursos são distribuídas por circuitos fragmentados, pouco transparentes e eleitoralmente apropriáveis, o Estado perde capacidade de planejar e o território nacional se transforma num arquipélago de clientelas.
Uma emenda parlamentar pode atender a uma necessidade real. Uma ambulância, uma unidade de saúde ou uma estrada local não se tornam ilegítimas por terem sido viabilizadas por um deputado. O problema aparece quando o planejamento universal é substituído por concessões territorialmente fragmentadas e politicamente personificadas. O cidadão deixa de reconhecer o serviço público como direito e passa a recebê-lo como favor.
O parlamentar surge como proprietário simbólico de um recurso que pertence à sociedade. O município, dependente da transferência, aprende que sobreviver não significa integrar um projeto nacional, mas manter aberta a porta do gabinete certo. O orçamento se converte em tecnologia de fidelização. A República conserva seus ritos, porém fala a língua do favor: o que deveria chegar como direito vem marcado pelo nome de quem o entregou.
3.
Uma eventual vitória democrática encontrará esse mecanismo fortalecido. O governo apresentará seu programa, mas grande parte da capacidade estatal estará comprometida por despesas obrigatórias, vinculações, serviço da dívida, regras fiscais e apropriações parlamentares. Entre a promessa e a execução haverá uma passagem estreita. Cada política pública será submetida a negociações que raramente discutem apenas o seu mérito.
O preço de uma medida social poderá ser uma concessão administrativa; o preço de uma votação econômica, a liberação de recursos; o preço da estabilidade, a aceitação de que o governo governe menos. Surge então o paradoxo: quanto mais ameaçada estiver a democracia, mais o Executivo dependerá de alianças com forças que não compartilham seu projeto. Em nome de evitar o retorno do autoritarismo, poderá acomodar interesses que reduzem a capacidade de realizar as mudanças cuja ausência alimenta o próprio autoritarismo. A defesa da democracia corre o risco de virar administração das condições sociais que a enfraquecem.
O cerco começa também na economia. Um governo pode vencer prometendo emprego, investimento, proteção social, ciência e reconstrução dos serviços públicos. Antes de executar qualquer medida, será julgado por uma instância que não aparece na Constituição: a reação dos mercados. A expressão é vaga de propósito. Os mercados não possuem uma única voz, mas seus interesses mais poderosos se apresentam como se fossem a própria razão econômica.
Uma política que amplie direitos será traduzida em impacto fiscal; um investimento público, em risco; uma elevação do salário mínimo, em pressão inflacionária; a tributação dos mais ricos, em ameaça à confiança. O capital fala em nome do futuro porque controla instrumentos capazes de desorganizar o presente. Juros, câmbio, fuga de capitais, preços de ativos e expectativas funcionam como mecanismos disciplinares. A eleição escolhe o governo; a finança procura escolher os limites de sua escolha.
Uma taxa de juros muito elevada não é apenas um número técnico. Ela encarece o crédito produtivo, desestimula investimentos, aumenta o custo da dívida pública e transfere renda aos detentores de ativos financeiros. O Estado arrecada da sociedade e devolve parcela desses recursos à riqueza rentista. Ao mesmo tempo, cada gasto social precisa provar que merece existir. A dívida quase nunca é interrogada com a mesma severidade quando remunera patrimônio.
Há uma assimetria moral no debate econômico: o recurso destinado ao pobre deve justificar-se; o rendimento apropriado pela riqueza aparece como consequência natural das leis da economia. Essa naturalização é uma forma discreta de poder. Bloqueia alternativas antes mesmo que sejam formuladas, pois ensina a sociedade a considerar irresponsável tudo o que ameaça a duração dos privilégios.
4.
Há ainda uma disputa pelo tempo. Um governo eleito dispõe de quatro anos. Os poderes que o cercam vivem em outro calendário. O capital financeiro opera continuamente, o Congresso negocia todos os dias, as plataformas modulam a atenção a cada segundo e os grandes grupos econômicos planejam sua reprodução por décadas.
O governo começa a ser julgado antes de tomar posse. Precisa produzir resultados imediatos, responder a crises herdadas, recompor instituições destruídas, formar maioria e preparar a eleição seguinte. Sua duração é curta; a das estruturas, longa. Essa desigualdade favorece quem pode esperar.
Uma política educacional exige anos. Uma universidade não recupera laboratórios, pesquisadores e projetos em poucos meses. Uma política industrial precisa de continuidade. O sistema de bloqueio, porém, exige resultados rápidos e oferece instabilidade permanente. Quando os efeitos não aparecem logo, anuncia-se o fracasso.
A vitória bloqueada é também uma vitória sem duração. Recebe mandato para iniciar uma mudança, mas não o tempo histórico necessário para completá-la. Cada medida deve provar sua eficácia antes de amadurecer. Cada programa social é ameaçado por uma nova regra fiscal. Cada investimento depende da permanência de uma coalizão instável. Cada instituição recomposta teme a eleição seguinte. O futuro deixa de ser campo de construção e se converte em prazo de validade.
Governa-se sob a sensação de que tudo poderá ser interrompido. Essa insegurança produz prudência e, aos poucos, paralisia. O governo aprende a evitar conflitos, reduzir expectativas e apresentar como conquista aquilo que conseguiu impedir que fosse destruído. A política democrática assume posição defensiva. Em vez de prometer transformação, promete evitar que a sociedade piore. Essa função pode ser indispensável, mas não pode constituir o horizonte permanente de uma democracia.
Quando a democracia oferece apenas proteção contra a catástrofe, o autoritarismo ganha o privilégio de representar a mudança. Pouco importa que sua mudança seja destrutiva. Ele aparece como força, ruptura e decisão, enquanto o campo democrático é associado à cautela, à gestão e à repetição. O ressentimento encontra então uma linguagem pronta.
Trabalhadores submetidos à insegurança, pequenos empresários endividados, jovens sem perspectiva e famílias exaustas são convidados a dirigir sua raiva contra professores, mulheres, negros, indígenas, imigrantes, pessoas LGBTQIA+, servidores e movimentos sociais. O conflito entre capital e trabalho é convertido em guerra entre os que vivem formas diferentes da mesma precariedade. O autoritarismo protege o poder econômico enquanto oferece os vulneráveis como culpados pela desordem.
5.
Derrotá-lo eleitoralmente sem alterar as condições que alimentam sua linguagem significa adiar seu retorno. Ele continuará esperando a próxima crise, o próximo escândalo, a próxima alta de preços, o próximo erro. Não precisa manter maioria social estável. Precisa apenas impedir que a democracia transforme esperança em experiência concreta. Cada promessa frustrada será usada para dizer que as instituições são inúteis.
Cada negociação obscura provará, na narrativa autoritária, que todos são iguais. Cada política bloqueada aparecerá não como resultado do bloqueio, mas como incapacidade de quem tentou realizá-la. O poder que impede o governo de governar acusa-o de não ter governado. Essa talvez seja a peça mais eficiente do mecanismo: produzir a impotência do adversário e depois transformá-la em argumento para voltar.
As plataformas digitais ocupam posição decisiva nesse processo. Não são simples meios por onde opiniões circulam. São empresas que organizam a visibilidade, selecionam prioridades e convertem atenção em mercadoria. Seus algoritmos não precisam ter ideologia própria para produzir efeitos políticos. Basta que premiem aquilo que mantém o usuário conectado: medo, indignação, simplificação, escândalo, hostilidade.
A democracia exige tempo para argumentar; a plataforma recompensa a reação instantânea. A política pública precisa explicar mediações; a mentira oferece culpados. A realidade é contraditória; o vídeo curto apresenta certeza. Quem governa democraticamente responde pelo conjunto da sociedade. Quem pretende destruí-la escolhe um inimigo por dia.
O Estado brasileiro não é uma máquina vazia que passa integralmente às mãos de quem vence a eleição. Possui camadas históricas, burocracias, corporações, regras e interesses sedimentados. Há servidores comprometidos com a legalidade e o interesse público, sem os quais o país não funcionaria. Há também estruturas que desenvolveram projetos próprios de poder.
A tentativa de golpe mostrou que parcelas do aparelho estatal podem deixar de reconhecer a soberania popular quando o resultado contraria suas convicções ou seus interesses. A defesa da democracia exige, por isso, algo maior que lealdade circunstancial: uma cultura republicana em que nenhuma corporação se imagine tutora da sociedade. A legalidade, sozinha, não corrige essa fissura; é preciso democratizar por dentro aquilo que se pretende defender por fora.
Há também o limite externo. O Brasil escolhe dentro de uma economia mundial hierarquizada. Fluxos de capital, cadeias produtivas, propriedade tecnológica, patentes, agências de risco, organismos multilaterais e decisões tomadas nos centros financeiros reduzem a autonomia dos países dependentes. Nenhum governo pode ignorar essas determinações. Reconhecer limites, porém, não é convertê-los em destino.
6.
A dependência se torna mais poderosa quando deixa de ser nomeada e aparece como simples adaptação ao mundo. O país é aconselhado a oferecer segurança ao investidor, flexibilidade ao capital, disciplina ao orçamento e paciência à população. A soberania nacional parece anacrônica, embora as grandes potências mobilizem seus Estados para proteger empresas, tecnologias, moedas e interesses estratégicos. Aos centros, política industrial. À periferia, obediência fiscal.
Uma vitória democrática continuará bloqueada se aceitar como realismo a administração permanente dessa assimetria. Governar não é negar a inserção internacional, mas impedir que ela defina sozinha o futuro. Isso exige ciência, tecnologia, indústria, universidades públicas, infraestrutura, integração latino-americana e capacidade estatal de planejamento.
Exige enfrentar a estrutura tributária que protege patrimônio e consumo de luxo enquanto pesa sobre a renda baixa e o consumo popular. Sem deslocar recursos, não há política estrutural. Sem enfrentar privilégios, a democracia distribui apenas o espaço deixado por aqueles que nunca submetem sua riqueza à decisão coletiva. A conciliação pode ser necessária em certos momentos. Quando vira princípio, transforma-se em método de conservação.
Negociar é inevitável. O problema é negociar sem acumular força social para alterar os termos da negociação. Um governo progressista que dependa apenas de acordos parlamentares ficará prisioneiro daqueles com quem precisa acordar. Para não ser bloqueada, uma vitória eleitoral deve tornar-se presença organizada na sociedade.
Sindicatos, movimentos populares, universidades, associações profissionais, coletivos culturais, comunidades religiosas democráticas e organizações de bairro não podem ser convocados apenas durante a campanha ou em momentos de crise. A democracia precisa de infraestrutura social permanente. Sem ela, o governo fala em nome do povo, mas negocia sozinho diante dos poderes organizados. O cidadão vota, retorna à vida privada e espera. Os grupos econômicos não voltam para casa. Permanecem organizados todos os dias.
Ganhar tempo é necessário. A pergunta é: para quê? Em 2022, a democracia brasileira ganhou tempo ao interromper a continuidade imediata de um projeto autoritário. Esse intervalo permitiu recompor políticas, recuperar instituições, reconstruir relações internacionais e deter parte da destruição. Mas o tempo político não se acumula sozinho.
Quando não é convertido em organização, consciência e transformação material, volta a ser capturado pelas forças derrotadas. O autoritarismo usa o intervalo para reorganizar sua linguagem, escolher novos representantes, ampliar presença territorial e reaparecer como novidade. A democracia, ocupada apenas com a administração cotidiana, pode descobrir tarde que protegeu as instituições sem renovar as bases sociais de sua legitimidade.
7.
A tarefa de 2026 não será apenas vencer. Será impedir que a vitória se reduza a uma autorização temporária para administrar o que já existe. Isso não significa exigir rupturas retóricas sem correlação de forças. Significa reconhecer que a correlação de forças não é fotografia imóvel. Ela muda por meio de decisões, conflitos, pedagogias públicas e experiências coletivas.
Uma política que melhora concretamente a vida organiza consciência. Uma escola pública fortalecida produz cidadania. Uma universidade presente no território amplia o horizonte social. Um trabalho protegido permite que o sujeito levante os olhos da urgência e pense o futuro. A participação não nasce de apelos abstratos. Nasce quando as pessoas percebem que sua ação modifica a realidade.
A vitória deixa de estar bloqueada quando o governo não apenas ocupa o Estado, mas ajuda a sociedade a reconhecer o poder que possui. Isso exige transparência, comunicação direta e coragem para nomear conflitos. Não há transformação sem adversários. A tentativa de governar como se todos os interesses pudessem convergir termina favorecendo os interesses mais fortes, porque são eles que já possuem os meios de impor sua vontade.
Uma democracia madura não precisa fabricar inimigos, mas deve revelar antagonismos. Precisa explicar por que determinado privilégio impede determinado direito; por que a riqueza de poucos custa o tempo de muitos; por que uma política foi bloqueada; quem ganha e quem perde com cada decisão. Quando o conflito é escondido, a população vê apenas o resultado incompleto e atribui ao governo toda a responsabilidade por sua incompletude.
Talvez essa seja a pergunta decisiva de 2026: quem governará no dia seguinte à vitória? A resposta formal indicará um presidente, ministros, deputados e senadores. A resposta histórica dependerá de outra coisa. Governarão os votos ou os vetos? O programa apresentado à sociedade ou a soma dos limites impostos por poderes que não se submetem às urnas? A esperança organizada ou o medo de perder a próxima votação?
A democracia brasileira não precisa apenas de uma vitória eleitoral. Precisa recuperar a capacidade de transformar o voto em direção, a direção em política e a política em duração histórica. O Brasil poderá derrotar novamente o autoritarismo. Será uma conquista de valor incalculável. Mas a celebração não deve esconder o perigo. Uma vitória que não enfrenta seus bloqueios começa a preparar, sem desejar, a próxima derrota.
O futuro não será protegido apenas impedindo que o pior retorne. Será protegido quando a maioria puder experimentar, na vida cotidiana, que a democracia não serve somente para escolher quem administra o presente, mas para conquistar o direito de produzir outro tempo. A urna abre a passagem. A história começa quando o povo consegue atravessá-la.
*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP].

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