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A tríplice fronteira do governo Trump

Do Rebelión, 25 de julho 2026
Por LISZT VIEIRA*




A corrosão do apoio interno gerada pela guerra no Irã e a ofensiva econômica contra o Brasil revelam as contradições e os limites do projeto global da extrema direita

Guerra, petróleo, inflação, tarifaço

A guerra entre Estados Unidos e Irã tem repercussões econômicas e políticas muito além do Oriente Médio. O principal canal de transmissão é o mercado de petróleo, já que o Golfo Pérsico concentra uma parcela expressiva da produção mundial e o Estreito de Ormuz é uma das principais rotas marítimas para exportação de petróleo e gás, concentra 20% do comércio mundial de petróleo. A intensificação dos ataques e das ameaças à navegação elevou a incerteza nos mercados e provocou alta nos preços do petróleo.

Quando há risco de interrupção da oferta, investidores e compradores pagam mais pelo barril de petróleo. Gasolina, diesel, querosene de aviação e gás natural tornam-se mais caros, elevando os custos de transporte e logística. Como praticamente todos os bens dependem de transporte e energia, alimentos, produtos industriais e serviços ficam mais caros, gerando inflação.

Nos EUA, o aumento dos preços da gasolina e do diesel teve peso importante no índice de preços ao consumidor. Com inflação mais elevada, o banco central tende a manter juros altos por mais tempo, o que reduz investimentos e desacelera o crescimento econômico. Em todo o mundo os efeitos foram significativos. A Europa enfrenta aumento dos custos de energia e de produção industrial. Países importadores de petróleo, como Japão e Índia, sofrem maior pressão sobre suas balanças comerciais. Economias emergentes, incluindo vários países da América Latina, registram aceleração da inflação e dificuldades adicionais para reduzir as taxas de juros.

Para o Brasil, há um efeito ambíguo: como exportador de petróleo, o país pode aumentar suas receitas externas e a arrecadação de royalties. Por outro lado, combustíveis mais caros pressionam os custos do transporte, dos alimentos e da indústria, dificultando o controle da inflação.

Em termos políticos, a inflação decorrente da guerra representa um desafio para Donald Trump. Durante a campanha e no início de seu governo, ele prometeu reduzir os preços da energia e controlar a inflação. O aumento dos combustíveis diminui o poder de compra das famílias, afeta a confiança dos consumidores e contribui para a queda de sua popularidade. Diante das críticas, Donald Trump chegou a ordenar investigações sobre os preços da gasolina, enquanto defendia que sua política energética reduziria os custos no longo prazo.

Em síntese, a guerra no Irã tende a produzir um efeito semelhante ao observado em outras grandes crises do petróleo: energia mais cara, inflação mais alta, juros elevados, menor crescimento econômico e aumento da instabilidade política. Caso o conflito se prolongue ou haja uma interrupção significativa do fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, os impactos sobre a economia mundial poderão ser ainda mais severos.

Com o objetivo de contrabalançar os efeitos negativos de suas guerras, entre outras razões, o governo de Donald Trump baixou tarifaços para aumentar o superávit comercial dos EUA. No caso do Brasil, porém, o argumento não se sustenta, uma vez que os EUA já têm superávit na balança comercial com o Brasil. Tudo indica que as razões políticas visando enfraquecer o governo Lula, em ano eleitoral, tiveram mais peso do que as econômicas.

Perda de apoio político interno

A guerra no Irã, que Donald Trump não conseguiu terminar em condições vantajosas para os EUA, o que na prática significa uma derrota política, é um dos principais fatores a explicar a queda no apoio interno de Donald Trump, colocando em risco sua estabilidade política após a eleição de mid term em novembro próximo.

A perda de apoio político interno de Donald Trump nos Estados Unidos parece ser um fenômeno real, mas desigual entre diferentes segmentos do eleitorado. Embora ele mantenha um núcleo de apoio muito fiel entre os republicanos, pesquisas recentes mostram uma queda consistente na aprovação entre independentes e em alguns grupos que foram decisivos para sua vitória.

Pesquisas nacionais divulgadas em julho de 2026 situam a aprovação de Donald Trump entre 35% e 38%, enquanto a desaprovação oscila entre 59% e 61%, um dos piores índices de seu segundo mandato. A avaliação de sua gestão econômica atingiu um dos níveis mais baixos desde o início do mandato. O aumento do custo de vida, dos combustíveis e a percepção de desaceleração econômica reduziram o apoio de eleitores independentes.

Outras pesquisas indicam que muitos americanos avaliam negativamente a guerra com o Irã, aumentando a preocupação com o risco de uma escalada militar e seus efeitos econômicos. No que se refere à questão da imigração, embora continue sendo um tema forte para sua base, parte do eleitorado moderado demonstrou desconforto com algumas operações de deportação e com episódios de violência envolvendo ações do ICE.

Quanto ao apoio dentro do Partido Republicano, Donald Trump continua exercendo forte influência. A maioria dos candidatos republicanos ainda busca seu endosso, e seus aliados dominam grande parte das disputas internas. Entretanto, dirigentes republicanos começam a manifestar preocupação de que sua insistência em alegações de fraude eleitoral e seu estilo de campanha possam prejudicar o partido nas eleições legislativas de novembro de 2026. Na Geórgia, por exemplo, líderes republicanos temem que esse discurso reduza a participação de eleitores conservadores.

Também há sinais de perda de apoio em segmentos específicos do eleitorado, como jovens, mães e famílias suburbanas, eleitores independentes, parte dos republicanos moderados e de grupos religiosos tradicionais. Ao mesmo tempo, Donald Trump preserva um núcleo eleitoral altamente mobilizado, suficiente para manter sua liderança dentro do Partido Republicano, o que demonstra que sua base permanece sólida, embora insuficiente para compensar a perda em outros segmentos.

Em síntese, o cenário atual é de desgaste político significativo, especialmente perante o eleitorado nacional e os independentes, mas não de colapso de sua liderança no Partido Republicano. O principal desafio para Donald Trump é transformar a lealdade de sua base em uma maioria eleitoral ampla. As eleições de meio de mandato de 2026 serão um teste decisivo para medir se a queda de popularidade afetará efetivamente a força eleitoral dos republicanos.

O jornalista Seymour Hersh denunciou que Donald Trump, além das decisões já conhecidas para manipular os distritos eleitorais, prepara o uso de força militar para intimidar eleitores e forçar a abstenção. Enquanto isso, segundo ele, o Partido Democrata está mais assustado com o crescimento da esquerda dentro do partido do que com as manobras eleitorais de Donald Trump.

Rede internacional de extrema direita

A articulação de uma rede transnacional de movimentos e lideranças conservadoras e de extrema direita tem sido um movimento recorrente no cenário internacional, no qual o presidente Donald Trump e figuras ligadas ao seu círculo, nos EUA e no exterior, exercem forte influência.

Analistas de relações internacionais apontam que, mais do que uma estrutura formal única nos moldes de antigas organizações partidárias internacionais, o movimento se consolida por meio de alianças pragmáticas, fóruns de cooperação ideológica, redes de desinformação, financiamentos cruzados e apoio político mútuo entre líderes globais (como Javier Milei na Argentina, Viktor Orbán na Hungria e o bolsonarismo no Brasil).

Essa rede costuma se organizar em torno de agendas comuns, tais como oposição a pautas progressistas e aos direitos de minorias, discursos contra a imigração em massa, combate ao que denominam “globalismo” ou influência de instituições multilaterais tradicionais e alinhamento em disputas digitais e narrativas nas redes sociais.

No entanto, especialistas divergem sobre o grau de coesão formal desse bloco: a Casa Branca, sob a liderança de Donald Trump, busca ser um verdadeiro “epicentro” ou polo aglutinador de uma coalizão global de direita e extrema direita, mas os interesses nacionais e o nacionalismo econômico de cada país muitas vezes entram em conflito, limitando a criação de uma organização internacional institucionalizada e coesa.

É inegável que o governo de Donald Trump e seus aliados buscam fortalecer uma rede internacional de movimentos e partidos conservadores e nacionalistas. O que há de concreto é que o governo de Donald Trump tem promovido encontros internacionais com governos e lideranças alinhados à sua agenda política. Um exemplo recente foi a conferência organizada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, com representantes de mais de 60 países para discutir o que a administração define como “terrorismo da extrema esquerda”, procurando criar cooperação internacional nessa área.

O governo de Donald Trump também tem apoiado financeiramente organizações conservadoras no exterior, especialmente na Europa, o que foi interpretado por críticos como uma tentativa de fortalecer forças políticas ideologicamente próximas ao trumpismo. Paralelamente, organizações privadas próximas ao universo político de Donald Trump, como a CPAC (Conservative Political Action Conference), expandiram suas atividades para países da Europa e da América Latina, reunindo líderes como Viktor Orbán, Javier Milei e Jair Bolsonaro, entre outros. Esses encontros funcionam como espaços de articulação política e intercâmbio de estratégias entre movimentos conservadores e nacionalistas.

Embora não exista, pelo menos ainda, uma organização internacional oficial, criada por Donald Trump, com estatuto, membros e estrutura permanente equivalente, por exemplo, à Internacional Socialista, Donald Trump e seus aliados parecem estar incentivando a consolidação de uma rede internacional de partidos, governos, think tanks e movimentos da direita e extrema direita populista e nacionalista, utilizando conferências, apoio político e cooperação entre organizações.

Os ventos soprados pelo governo Donald Trump influenciaram diversos países europeus que passaram a reprimir e caçar imigrantes sem documentos, “restringindo o acesso ao asilo, acelerando deportações e facilitando o repatriamento de migrantes considerados ilegais” (Caça aos Estrangeiros – Celso Japiassu – Fórum 21 – 20/7/2026).

Na América Latina, a pressão política do governo de Donald Trump vem surtindo efeito, como vimos nas recentes eleições vencidas pela direita no Peru e na Colômbia. Com a atitude de perseverar numa política externa autônoma e independente, temos hoje, praticamente, apenas o Brasil, México e Uruguai.

Nesse contexto, a eleição no Brasil se reveste de uma importância estratégica para o xadrez geopolítico de Donald Trump. Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia, afirmou que a ofensiva dos Estados Unidos contra o sistema brasileiro de pagamentos protege interesses de grandes empresas, tenta preservar a hegemonia do dólar e revela resistência à inovação tecnológica. Segundo ele, o ataque de Donald Trump ao Pix é guerra contra o futuro e fortalecerá Lula.

Tudo indica que o candidato de Donald Trump, envolvido em graves denúncias de corrupção e acusado de defender os interesses dos EUA contra o Brasil, não terá fôlego político e densidade eleitoral para se eleger Presidente nas próximas eleições. Ao anunciar seu objetivo de suprimir o Pix e lançar tarifaços contra o Brasil, Donald Trump tende a produzir efeitos contraproducentes, enfraquecendo seu intermediário, o candidato Flavio Bolsonaro, e fortalecendo Lula, ao colocar em seu colo a bandeira da defesa da soberania nacional.

O ex-embaixador Roberto Abdenur por exemplo, chegou a fazer um ataque direto: declarou que, se eleito, Flávio Bolsonaro entregaria o Brasil aos EUA de bandeja, de graça, sem obter nada. Assim, entre Sila e Caribdis, o candidato de Donald Trump no Brasil, se escapar da punição pelos crimes que cometeu, embora continue Senador, caminhará para o ostracismo depois das eleições.

*Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor, entre outros livros, de A democracia reage (Garamond). [https://amzn.to/3sQ7Qn3]

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