Por Eleutério F S Prado
Eis aqui duas frases em que uma diz o mesmo que a outra de movo invertido: “A superprodução chinesa causou o déficit comercial dos Estados Unidos” e “A subprodução dos EUA causou o superávit da China”. Ambas estão erradas, mas é preciso explicar o porquê.
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Richard Baldwin [1] – Blog no Substack – 11/06/2026
Introdução
Nota para mim mesmo: não se pode estabelecer causalidade a partir de uma identidade. Todo mundo sabe disso; ora, absolutamente todo mundo sabe disso – e com certeza.
A China está produzindo produtos manufaturados em excesso e isso gera um enorme superávit comercial que o resto do mundo é obrigado a absorver. Leve-se isso em conta: se a China tem superávit comercial, alguém precisa manter um déficit comercial.
Será que ao se apontar para “todo mundo” não se está colocando a carroça na frente dos bois ao invés dos bois em frente da carroça? Será? Com certeza?
Todo mundo sabe que os EUA gastam além de suas possibilidades. Os dados mostram isso. Mas são as histórias, não as estatísticas, aquilo que convencem “todo mundo”. Os americanos não economizam muito. Tão pouco que cerca de 40% não têm poupança suficiente para cobrir uma emergência de $400 sem vender algo que possuem, e os saldos dos cartões de crédito continuam subindo.
O governo dos EUA vive acima de suas possibilidades de forma espetacular. Agora, ele está gastando mais do que arrecada em impostos e num volume que chega a quase 6% do PIB. Não só não há plano para acabar com esse excesso de gastos governamentais; na verdade, nem sequer existe um plano para tentar formular um plano.
Gastos excessivos americanos significam subprodução americana: o país compra cronicamente mais do que ganha. Então talvez seja a subprodução dos EUA que cria o déficit comercial dos EUA? E talvez isso cause o superávit da China? É preciso apenas fazer as contas: se os EUA têm déficit comercial, alguém precisa ter superávit comercial.
OK. Hora de parar com a paródia. Um ponto deve ficar claro: você não pode estabelecer causalidade baseando-se logicamente numa identidade. Não faz mais sentido dizer que a “superprodução na China causa subprodução na América” do que dizer a “subprodução na América causa superprodução na China.”
A “falácia da culpa simétrica”.
Uma identidade define uma equivalência, ela não apresenta um silogismo. Logo, a mesma identidade pode justificar culpar a superprodução de um país e a subprodução do outro de forma igual. Mas pense nisso. O fato de que se pode trocar o culpado sem quebrar a lógica é prova de que, desde o início, não se trata de um verdadeiro argumento causal.
Não, não acredito que o excesso de gastos dos EUA tenha causado o superávit comercial chinês. Acredito que a macroeconomia do mundo como um todo é um campo altamente complexo onde apenas um pouco de conhecimento é perigoso. Por isso, esse é o tema de hoje: a falácia da culpa simétrica.
Aqui está o spoiler: a China pode ter supercapacidade em setores. Mas o déficit comercial dos Estados Unidos não advém de algo que ocorre tão somente em nível industrial; ele advém de um desequilíbrio macro: os EUA gastam em consumo e investimento mais do que produzem e, por isso, têm de cobrir a lacuna mediante importações.
A identidade por trás do jogo de culpas.
A primeira tarefa é expor a narrativa mainstream sobre superprodução de forma mais construtiva. Essa seção toda contém um pouco de teoria econômica mais cabulosa. Aqui está minha paráfrase da narrativa (formato longo).O modelo de crescimento da China reprime o consumo doméstico e canaliza recursos para a manufatura e o investimento. Como resultado, a China produz mais do que consome e precisa exportar o excedente. Essas exportações geram grandes superávits comerciais que exigem que outros países, especialmente os EUA, mantenham déficits comerciais correspondentes.
A entrada de poupança chinesa nos mercados financeiros dos EUA mantém o dólar forte, tornando as importações mais baratas e a manufatura americana menos competitiva. Com o tempo, fábricas fecham, empregos industriais desaparecem e a produção se desloca para a China. Nessa visão, o déficit comercial dos EUA não é principalmente resultado das escolhas feitas pelos americanos, mas sim consequência da produção e poupança excedentes da China.Em sequência, repete-se o que foi dito acima, mas de forma mais curta: “A superprodução chinesa causou o déficit comercial dos Estados Unidos.” Ora, essa tese tem duas versões:
• Eis a versão populista: a China inundou o mundo com exportações sem intenção de comprar importações em troca.
• Eis a versão sofisticada: a China suprimiu o consumo interno, aumentando assim a poupança e criando uma situação em que o país produz mais do que compra. Essa superprodução precisa, então, ser “despejada” no resto do mundo.
A primeira, culpa as fábricas chinesas, a outra culpa a frugalidade chinesa. Mas. mantenha as duas versões separadas, porque elas falham de forma diferente.
A populista, que confia na prova aritmética, comete uma verdadeira falácia: não há flecha na contabilidade. A sofisticada, que conta uma história sobre consumo suprimido, não está cometendo essa falácia. Essa versão não está errada, mas inacabada, pois se apoia em mecanismos que não examina direito. Tenha-se, pois, essa última versão em mente.
Um esclarecimento é necessário. A falácia nomeada — baseada em interpretação de causalidade a partir de uma identidade — aponta para a versão populista. Ela diz que “a aritmética prova que a China cria o problema e que o faz de forma limpa.
A versão sofisticada fala tanto do mecanismo quanto da identidade e, por isso, não pode ser descartada de imediato por estar supostamente usando uma identidade para chegar a uma conclusão sobre causalidade.
Por mais estranho que pareça, essas versões são duas faces da mesma moeda. Para entender o motivo, é preciso algum contexto, qual seja ele, a da contabilidade nacional, sendo bem específico. O contexto vem da macroeconomia básica, o que pode ser uma repetição para os leitores que se lembram do curso de macroeconomia.
De acordo com as definições contábeis nacionais: renda nacional é igual a gastos nacionais. Essa está na linha superior do gráfico abaixo. Aqui estamos falando sobre produção e gastos de todos os bens e serviços.
O gasto nacional é dividido em consumo nacional (público mais privado), investimento nacional (público versus privado) e exportações líquidas. Isso está posto na segunda linha.
A única parte da segunda linha que exige alguma reflexão é o termo ‘exportações líquidas’. Como a produção nacional (PIB) é composta por coisas produzidas no país, as exportações aumentam os gastos com produtos produzidos internamente. Importações são gastos com produtos feitos no exterior, então precisamos compensar esses gastos mediante a produção nacional. É por isso que temos ‘exportações líquidas’ no lado dos gastos, ou seja, exportações menos importações.
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A linha mais importante aqui é aquela do balanço comercial (nomeada como o número 3). É fácil obtê-la. A terceira linha pega a produção nacional da primeira linha e usa a definição de gastos nacionais na segunda fileira para formular a terceira.
Voilà: a superprodução (no lado esquerdo da fórmula) é exatamente igual ao excedente comercial (no lado direito). Então se obtém o seguinte: a superprodução e o superávit comercial da China são dois lados da mesma moeda. Além disso, a terceira linha mostra como pode haver uma conexão causal entre a supressão do consumo (diminuição de C) e um superávit comercial (aumento de X-M). A história, contudo, precisa abordar alguns pontos em relação ao PIB e ao investimento.
A última linha simplesmente observa que a poupança nacional é, por definição, a diferença entre o PIB e o consumo nacional. Ou seja, a produção nacional que não é consumida é poupada. Eis como se pode abreviá-la: S − I = X − M.
Parece inacreditável! Como mostra o gráfico abaixo, teoria e prática coincidem exatamente neste caso. Para os EUA, trimestre a trimestre, a diferença de poupança americana (que é negativa) corresponde exatamente ao seu déficit comercial.
A correspondência exata acima utiliza a definição de contas nacionais, na qual as exportações líquidas (X − M) são, por construção, idênticas ao gap de poupança e investimento (S − I). Estritamente, a maior diferença S − I é igual ao saldo da conta corrente, não só o saldo comercial. Os dois diferem pela “renda líquida estrangeira”. Para os EUA, essa cunha é pequena e os dois se movem juntos. Vou usar ‘saldo comercial’ e ‘conta corrente’ mais ou menos de forma intercambiável a partir daqui.[ii]
Como mostram os fatos, a identidade é verdadeira. Foi verdade no último trimestre, é verdade neste trimestre, será verdade no próximo, e isso se mantém em todos os países. Mas ela não é verdadeira porque o mundo está se comportando adequadamente. É verdade porque é algo contábil.
Existe, é claro, um vasto conjunto de mecanismos econômicos interligados que alinham esses resultados aparentemente não relacionados. É disso que se trata a macroeconomia internacional, ou seja, do mundo como um todo. As causas são reais. Elas se manifestam nos comportamentos, na política, nos preços, nas taxas de juros e nas taxas de câmbio. Contudo, a identidade como tal não nomeia nenhum deles. Não é de se admirar, já que dominar os mecanismos leva alguns anos de estudo, da graduação ao doutorado.
Note que este não é um modelo novo. A contabilidade nacional existe desde a Segunda Guerra Mundial. Eu mesmo escrevi sobre isso em outra postagem, “Macro sempre vence.” Ou seja, não se pode atacar a conta corrente por meio de bombas tarifárias. Isso ocorre exatamente porque a conta corrente é idêntica à diferença entre poupança e investimento.
A poupança e o investimento macroeconômicos são determinados por fatores macroeconômicos muito poderosos, como os comportamentos da poupança das pessoas, empresas e do governo, além das decisões de investimento de inúmeras empresas que lidam com expectativas sobre crescimento, taxas de juros, taxas de câmbio e evolução dos salários reais. Tarifas não funcionam para alterar tais valores contáveis. Para dizer a coisa coloquialmente, os condutores macro são o cavalo e a conta corrente é a carroça. A identidade liga os dois.
Poupança e investimento: A realidade dos balanços comerciais
O gráfico abaixo mostra poupança e investimento como porcentagem do PIB dos EUA e da China. A diferença entre as linhas é o saldo da conta corrente.
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Vemos no gráfico acima que a China é um investidor e poupador bem maior do que os EUA; como a sua taxa de poupança é ainda maior do que a sua taxa de investimento, ela tem superávit comercial. Note-se que essas taxas são porcentagens do PIB.
Os EUA, por sua vez, economizam e investem muito menos; ademais a sua taxa de poupança é ainda menor do que a sua taxa de investimento e, em consequência, têm déficit comercial.
Crucialmente, tem-se aqui relações contábeis e não mecanismos causais explícitos. Não se pode dizer, a partir dos dados, que o déficit comercial impulsiona o déficit de poupança nos EUA e vice-versa na China.
Uma restrição mundial?
A narrativa dominante sobre a superprodução chinesa geralmente vai além da afirmação de que o consumo chinês suprimido está criando o superávit comercial chinês. Ele continua afirmando que o superávit comercial resultante da China forçou outras nações (principalmente os EUA) a correr com déficits comerciais.
De onde vem essa ideia? Bem, vem de outra identidade: o fato de que exportações mundiais equivalem às importações mundiais.
As exportações decorrem quanto um país vende bens e serviços que produz para compradores em outros países. A venda é chamada de exportação; a compra é chamada de importação. Como tudo que é vendido é comprado, as exportações mundiais igualam as importações mundiais. Claro, a coisa é um pouco mais complexa. Há discussões sobre por que as exportações e as importações que aparecem nos dados não coincidem exatamente, mas vamos deixar isso de lado por enquanto (ESCAP, 2016).
Simplificando para esclarecer, vamos trabalhar sob a suposição de que o comércio mundial entra em balanceamento.
Uma breve reflexão mostrará que isso significa que, se a China tem um grande superávit comercial, outros países terão que lidar com déficits comerciais. E essa é a segunda alavancagem de uma identidade no cerne da lógica da superprodução: a China suprime o consumo internamente; isso causa um superávit comercial; isso causa déficits comerciais americanos; e isso leva à perda de empregos na indústria transformadora nos Estados Unidos.
Mas, assim como acontece com a lacuna entre poupança e investimento e a lacuna comercial, essa identidade é verdadeira por construção. Ele registra relações contábeis que exigem um equilíbrio agregado. Não nomeia uma causa. Diz que os dois lados têm de ser iguais. Não diz nada sobre qual deles está causando o outro.
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O gráfico acima mostra os saldos da conta corrente dos EUA, China, Japão, União Europeia mais Reino Unido e o restante do mundo de 1990 a 2025 (dados da WEO do FMI). O que se deveria olhar aqui?
O fato dominante é que a barra azul está sempre no vermelho (por assim dizer): os EUA mantêm um déficit em conta corrente desde o início dos anos 1990, e ele mais que dobrou desde o primeiro mandato de Donald Trump (não se faz menções de causalidade).
O segundo grande fato é que a China tem um superávit na conta corrente há décadas, e ele cresceu significativamente desde a vitória de Donald Trump em 2024. Daí vem a narrativa dominante de que o superávit chinês causa o déficit dos EUA.
Quando se examina esse gráfico, parece que os altos e baixos das barras vermelhas positivas (China) são o principal motor das barras negativas azuis (EUA)? Ou parece que os altos e baixos das barras azuis estão fazendo muitas das barras positivas expandirem ou contraírem em sincronia?
Mais os gráficos bilaterais não deveriam deixar esquecer o seguinte: o déficit dos EUA não advém realmente da economia da China. Advém da poupança e dos gastos americanos, ponto final. Subtrai a China do mundo amanhã e os EUA ainda gatariam mais do que produzem; o déficit simplesmente seria compensado por um outro país (ou outros países) que obteria superávit. Essa é a razão mais profunda pela qual a afirmação de que “a China causou o déficit dos EUA” é totalmente incorreta: remove-se o acusado, mas o crime continua acontecendo.
Mas, é preciso repetir: não é mais correto dizer que o déficit dos EUA causou o superávit chinês do que fazer a afirmação inversa. Uma identidade não tem flecha. Inferir a causa a partir de um saldo contábil é o erro, independentemente de como a inferência ocorra.
E se isso parece familiar, não há razão porque não possa sê-lo. As alegações feitas contra a China nas décadas de 2010 e 2020 têm um eco notável nas acusações feitas contra o Japão nas décadas de 1980 e 1990.
Troque a China pelo Japão e a superprodução por “práticas comerciais desleais” e se tem o pânico dos anos 1980 quase que palavra por palavra. Um dólar forte nos primeiros anos de Reagan abriu o déficit dos EUA, o Congresso buscou sobretaxas e cotas. E, em 1985, os adultos se reuniram no hotel Plaza para mover a taxa de câmbio em vez de mudar a conta comercial. Eis que mesmo assim as pessoas sérias sabiam que o déficit era um fenômeno macro com uma face estrangeira. A culpa é atribuída a outrem. A falácia não envergonha. Ela se repete sem que nenhuma descoberta ocorra.
Resumo e observações finais.
A postagem trata da falácia da culpa simétrica. A versão ingênua, a aritmética prova que a China provocou o problema, é realmente uma falácia: uma identidade não tem flecha, e você pode rearranjá-la para fazer de qualquer uma das partes o autor. A versão sofisticada é um animal diferente. Não é uma falácia, e pode estar bem certa. O problema que tem é que é incompleta. Ela se baseia em uma cadeia de mecanismos que implicitamente assumem ‘tudo o mais igual’ quando isso não é verdade.
Para destacar isso, fiz uma pequena paródia ao afirmar que a subprodução dos EUA é o ponto de ancoragem e que o resultado é a superprodução da China. Eu não acredito nisso, mas a afirmação deveria nos fazer refletir mais sobre a alegação simplista de que a superprodução da China forçou a subprodução americana (ou seja, déficit de conta corrente).
Então aqui está minha interpretação da narrativa mais sofisticada da superprodução: a China, afirma-se, suprimiu o consumo, e isso, tudo o mais igual, aumentou a poupança, e isso, tudo o mais foi igual, levou a um superávit na conta corrente, e a produção excedente, tudo o mais igual, teve que ser “descartada” no mercado mundial. E isso, tudo o mais sendo igual, significava que os EUA estavam em déficit.
A fraqueza da narrativa não é o uso das duas identidades: exportações líquidas equivalem à diferença entre economia e investimento dentro de um país, e exportações mundiais equivalem a importações mundiais entre países. A fraqueza está em todos os aspectos pouco explorados de ‘tudo o mais igual’ que são o coração e a alma da macroeconomia de economia aberta.
Uma ressalva para que o leitor saiba que o momento de simetria não subiu à minha cabeça. O fato de que ele possa reorganizar a identidade e inverter os papéis de agressor-vítima mostra que as identidades não são juízes. Ora, as identidades parecem dizer que as duas histórias são igualmente verdadeiras!
O mundo não é simétrico; existe apenas uma América. “Que alguém precisa manter déficit para que a China possa ter superávit” – isso é, sim, verdade. Mas o ‘alguém’ não é decidido por meio de cara ou coroa. As economias excedentes dos países excedentes se acumulam no mercado de capitais mais profundo, seguro e aberto do mundo, que por acaso exibe uma bandeira estrelada.
É por isso que os EUA absorvem atualmente a maior parte dos superávits e que eles estão fazendo isso há muitos anos. Considerando que os EUA não estão dispostos ou não conseguem elevar sua taxa de poupança ao nível da taxa de investimento, continuarão a produzir menos e a manter déficit comercial.
Observações finais.
Então, como fica a narrativa de superprodução? Não cai em desgraça! Ela não é também uma lei da natureza. As pessoas que fazem o argumento perceberam algo real. Alguns de seus defensores buscaram uma identidade contábil para sustentar uma reivindicação causal, mas ela nunca foi construída para ter essa finalidade.
Não estou dizendo que a narrativa está errada. Estou dizendo que precisamos de muito mais reflexão e evidências antes de aceitar isso como verdade. Do jeito que geralmente é dito, parece óbvio. Não é.
Permita-me reformular a narrativa de um nível macro para o nível da produção industrial. Acredito que os subsídios à produção chinesa em setores específicos impulsionaram parte da história da superprodução. Painéis solares são um caso claro (OCDE, 2025). A China investiu enormes somas na fabricação de painéis solares, parte dela subsidiada. A maioria desses painéis foi instalada na própria China, mas o excedente foi exportado a preços que levaram os produtores solares do resto do mundo à falência. Isso – acho – aconteceu.
Veja-se, contudo, que tipo de história é essa! É uma história setorial. Pode valer em outros setores também, como aço, veículos elétricos e baterias. Mas trata-se de subsídios específicos em setores, não de supressão do consumo em toda a economia. Não é a afirmação abrangente, em toda a economia, de que a superprodução chinesa é a causa do déficit comercial dos Estados Unidos.
A questão setorial vale a pena ser discutida, mas indústria por indústria. A narrativa mais ampla é apenas a lacuna entre economia e investimento usando a fantasia de vilão. Ou, parafraseando Paul Krugman (Krugman, 2025), a China é um país com alta taxa de poupança e superávit na conta corrente. Chamar isso de “superprodução” dá uma conotação mercantilista que obscurece em vez de iluminar.
Referências.
Armstrong, R. (7 de fevereiro de 2025). Michael Pettis responde aos seus críticos sobre tarifas e comércio: Como resolver desequilíbrios globais.Financial Times.https://www.ft.com/content/a0d067ab-ab94-4c2f-bda3-bbac191fe652
Baldwin, R. (2024). Macro sempre vence. Sexta-feira facionista. LinkedIn.
Conselho de Governadores do Sistema da Reserva Federal. (maio de 2026).Bem-estar econômico das famílias dos EUA em 2025.https://www.federalreserve.gov/publications/files/2025-report-economic-well-being-us-households-202605.pdf
Escritório de Orçamento do Congresso. (11 de fevereiro de 2026).O orçamento e as perspectivas econômicas: 2026 a 2036.https://www.cbo.gov/publication/61882
Banco Federal do Reserve de Nova York. (2026).Relatório trimestral sobre dívida e crédito das famílias: 2025: 4º trimestre. Centro de Dados Microeconômicos.https://www.newyorkfed.org/medialibrary/interactives/householdcredit/data/pdf/HHDC_2025Q4
Fundo Monetário Internacional. (2026, abril). Perspectiva econômica mundial.
Krugman, P. (2025). Substack,Superávit Comercial da China, Parte I,
OCDE. (2025). Subsídios e a indústria de painéis solares. OECD Publishing.
Pettis, M. (21 de abril de 2025). O sistema comercial global já estava quebrado: Mas há uma maneira melhor de consertá-lo do que um regime tarifário imprudente.Relações Exteriores.https://www.foreignaffairs.com/world/global-trading-system-was-already-broken
Comissão Econômica e Social das Nações Unidas para a Ásia e o Pacífico. (2016). Assimetrias nas estatísticas do comércio internacional de mercadorias.
Notas
[i] Veja, por exemplo, FT (2025) ou Pettis (2025).
[ii] O pequeno restante é a renda que um país obtém com seus fatores produtivos empregados no exterior menos o que paga pelo uso de fatores produtivos estrangeiros. Os salários de muitos trabalhadores mexicanos nos EUA são repatriados para o México, enquanto os lucros das multinacionais americanas que operam no México são repatriados para os EUA. Esse tipo de coisa faz a diferença entre a balança corrente e a balança comercial.
[1] Richard Baldwin, Professor de Economia Internacional, IMD Business School.




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