Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR*
Ao reduzir séculos de experiência a bancos de dados preditivos, o avanço tecnológico oculta o trabalho histórico para impor a pressa como norma
1.
O ensaio de Jaldes Meneses, “Da máquina do mundo à máquina de tudo”, postado no site A Terra é Redonda, oferece uma formulação poderosa para compreender a inteligência artificial para além da velha imagem da automação industrial. Não estamos mais diante apenas de uma máquina que prolonga o braço, amplia a força física ou substitui uma sequência repetitiva de gestos.
A máquina contemporânea recolhe palavras, imagens, estilos, composições, argumentos, formas de raciocínio e vestígios deixados por gerações. Ela não se limita a observar o trabalho vivo em ato; vasculha o arquivo histórico da espécie. Apropria-se do que foi produzido na ciência, na arte, na filosofia, na música, no ensino, na literatura e no cotidiano, converte esse acúmulo em dado e o reinsere no circuito da valorização. Jaldes Meneses nomeia esse processo com precisão: a inteligência artificial tornou-se uma “máquina de tudo”, uma engrenagem extrativista capaz de transformar o patrimônio criativo da humanidade em matéria-prima algorítmica.
A força de sua formulação está em retirar a inteligência artificial do campo estreito da eficiência técnica. A questão já não é apenas saber quantos postos de trabalho desaparecerão, quais profissões serão atingidas ou em que tarefas a máquina se revelará mais rápida que o ser humano. Tudo isso importa, mas é insuficiente. O problema mais profundo reside na apropriação das objetivações humanas acumuladas.
A máquina aprende com o que não produziu. Alimenta-se de obras, descobertas, estilos, arquivos e linguagens que resultaram de durações históricas imensas. Cada resposta aparentemente instantânea repousa sobre uma multidão de autores, tradutores, professores, pesquisadores, trabalhadores, artistas e leitores. Ela parece autônoma porque apaga as condições de sua própria possibilidade. Quanto mais lisa é a superfície da resposta, mais invisível se torna o chão histórico que a sustenta.
É aqui que nossa formulação começa. Jaldes Meneses mostra o que a máquina captura. Nós perguntamos: o que existe dentro daquilo que foi capturado? Não existem apenas dados. Existem tempos de vida. Há anos de formação dentro de um conceito, décadas de pesquisa dentro de uma fórmula, gerações de tentativa dentro de uma técnica, séculos de memória dentro de uma língua.
Uma biblioteca não é um conjunto neutro de textos. É trabalho humano sedimentado. Um estilo musical não é apenas uma combinação formal reconhecível. É experiência social, território, sofrimento, festa, transmissão e luta. Uma teoria não nasce pronta: ela atravessa hesitações, erros, leituras, encontros, rupturas, recusas e retornos. Quando tudo isso é convertido em banco de dados, o que se captura não é somente informação. Captura-se duração humana objetivada.
2.
A máquina respondeu em um segundo, mas esse segundo não é vazio. Ele está saturado de passado. Dentro dele há noites sem dormir, cadernos abandonados, experiências que fracassaram, idiomas desaparecidos, bibliotecas queimadas, manuscritos corrigidos à mão, salas de aula, oficinas, laboratórios, conversas e vidas inteiras. A velocidade algorítmica não elimina a duração; ela a concentra e a oculta. Seu milagre repousa sobre uma operação ideológica: apresentar como instantâneo aquilo que exigiu séculos para ser produzido. A resposta aparece sem percurso. O resultado surge sem história. O presente oferece-se como se tivesse prescindido do passado.
Por isso, não basta dizer que a inteligência artificial acelera processos. É preciso perguntar de onde vem essa aceleração. Ela vem da apropriação de uma lentidão anterior. A máquina é rápida porque milhares de seres humanos demoraram. Ela combina em segundos aquilo que a humanidade levou séculos para produzir. A instantaneidade não é ausência de tempo; é tempo acumulado, comprimido e tornado invisível. A técnica aparece como potência própria precisamente quando desaparece o trabalho histórico que lhe deu conteúdo.
Essa invisibilização altera o modo como a sociedade percebe a criação. Quando o resultado pode ser obtido quase imediatamente, o percurso passa a parecer dispensável. A leitura longa parece obsoleta; a elaboração, atraso; a hesitação, incompetência; a repetição, desperdício; o silêncio, improdutividade. A máquina não apenas entrega rapidamente. Ela redefine o que se considera uma velocidade aceitável para os vivos. Sua temporalidade torna-se medida exterior da atividade humana. E é nesse ponto que a questão tecnológica se converte em questão histórica.
Sob o domínio do capital fictício, a velocidade técnica não retorna ao sujeito como tempo livre. O minuto economizado não se transforma em descanso; transforma-se em nova tarefa. A hora liberada não amplia a experiência; encurta o prazo. A capacidade aumentada não reduz a exigência; multiplica-a. O capital apropria-se do ganho temporal e o devolve como comando. A tecnologia promete poupar tempo, mas a forma social que a organiza impede que esse tempo permaneça com quem o produziu. A produtividade cresce, mas a duração da vida continua comprimida. Faz-se mais em menos tempo, e o “menos tempo” deixa de ser vantagem para tornar-se obrigação.
3.
A inteligência artificial entra, assim, numa sociedade que já aprendeu a roubar o tempo. Ela não inaugura essa lógica, mas a leva a um novo patamar. Desde muito antes dos sistemas generativos, o capital buscava reduzir o tempo socialmente necessário, ampliar a intensidade do trabalho, antecipar rendimentos e subordinar o presente a expectativas de valorização futura. O capital fictício radicaliza esse movimento porque transforma o futuro em exigência imediata.
O que ainda não foi produzido já aparece comprometido; o rendimento esperado comanda a atividade presente; a promessa de valor pressiona a vida antes que o valor exista. A inteligência artificial encontra aí sua forma histórica mais adequada: uma máquina capaz de converter o acúmulo do passado em antecipação produtiva do futuro.
É por isso que a relação entre inteligência artificial e capital fictício não é externa. Não se trata de uma tecnologia neutra que depois seria utilizada por interesses financeiros. Sua expansão ocorre precisamente num regime de valorização baseado em expectativas, plataformas, ativos intangíveis, monopólios de dados e promessas de produtividade futura.
As empresas valem pelo que se imagina que poderão dominar; os investimentos são mobilizados pela antecipação de mercados ainda incompletos; a pesquisa é orientada pela possibilidade de captura futura; a universidade é convocada a alimentar a inovação; o trabalho intelectual é pressionado a adaptar-se à nova régua. A máquina de tudo torna-se também uma máquina de antecipar tudo.
Nessa forma histórica, o futuro já não aparece como campo aberto de possibilidades. Ele é colonizado por projeções, métricas e compromissos financeiros. A promessa técnica de que tudo poderá ser feito mais rapidamente converte-se em imposição social: tudo deverá ser feito mais rapidamente. A passagem da possibilidade à obrigação ocorre quase sem ruído.
Primeiro, a ferramenta auxilia; depois, a instituição redefine o prazo; em seguida, o trabalhador é avaliado como se a aceleração estivesse naturalmente disponível; por fim, a demora humana transforma-se em falha individual. O comando mais eficaz é aquele que se apresenta como simples atualização técnica.
A universidade oferece um campo privilegiado para observar esse deslocamento. A inteligência artificial chega cercada por duas reações insuficientes. De um lado, o entusiasmo empresarial, segundo o qual toda resistência seria atraso. De outro, a condenação moral abstrata, que imagina ser possível proteger a formação apenas proibindo a ferramenta. Ambas deixam escapar a questão central: em que regime temporal a inteligência artificial é introduzida? Quem controla o tempo economizado? Que atividades são ampliadas? Quais são eliminadas? O que acontece com a duração necessária à leitura, à pesquisa, à escrita e ao ensino?
4.
Uma universidade submetida à lógica da produtividade tende a utilizar a inteligência artificial para aprofundar a compressão que já existia. O professor não recebe menos tarefas porque uma parte delas pode ser acelerada. Recebe mais relatórios, mais pareceres, mais formulários, mais mensagens, mais orientandos, mais demandas e prazos menores.
O pesquisador não ganha tempo para pensar. Ganha condições para produzir um número maior de resultados no mesmo intervalo. O estudante não é libertado do trabalho mecânico para aprofundar sua formação. Frequentemente, é treinado a apresentar respostas antes de ter construído perguntas. A ferramenta, organizada pela instituição, incorpora-se ao mecanismo da avaliação.
Este é um dos pontos em que nossa impressão digital precisa aparecer com nitidez: a formação exige duração. Ninguém se forma instantaneamente. Formar não é entregar uma resposta correta; é transformar-se no percurso que torna uma resposta possível. Há conhecimentos que só adquirem sentido depois da repetição, da dúvida, do erro e da convivência.
Há livros que precisam permanecer abertos durante anos dentro de uma pessoa. Há conceitos compreendidos apenas quando uma experiência posterior ilumina uma leitura antiga. Há ideias que não amadurecem sob comando. A formação não é simples transmissão de informação, porque envolve memória, julgamento, linguagem, sensibilidade e capacidade de produzir alternativas.
Quando o tempo da formação é comprimido, pode-se conservar a aparência da aprendizagem e perder seu conteúdo. O estudante apresenta o texto, mas não atravessou o problema. O professor conclui a aula, mas não houve tempo para a pergunta. O programa cumpre metas, porém já não sabe o que formou. A instituição exibe indicadores de desempenho enquanto o pensamento se torna mais raro. Nesse sentido, a inteligência artificial não ameaça apenas substituir uma atividade. Ela pode tornar aceitável uma educação organizada sem duração.
A máquina responde. A formação demora. Essa diferença não deve ser convertida numa oposição romântica entre o humano puro e a técnica impura. O ser humano sempre se formou por mediações técnicas. A escrita, o livro, a imprensa, a fotografia, o cinema, o computador e a internet alteraram profundamente a memória, a percepção e o conhecimento. O problema não está na existência da mediação, mas na forma social que a organiza e nos fins que ela serve.
A mesma ferramenta pode ampliar o acesso, favorecer a tradução, apoiar pessoas com deficiência, auxiliar a pesquisa e abrir caminhos de criação. Mas pode também acelerar a exploração, concentrar propriedade, homogeneizar linguagens e impor uma temporalidade exterior aos sujeitos. A questão decisiva não é aceitar ou rejeitar a técnica em abstrato. É disputar sua forma histórica.
5.
Jaldes Meneses encontra em Carlos Drummond de Andrade uma imagem extraordinária para essa disputa. Em “A máquina do mundo”, o viajante recebe a oferta de uma totalidade pronta. Diante dele se abre uma máquina que parece conter todas as respostas, todos os ciclos, todas as razões. Ainda assim, ele recusa. Não porque a máquina seja falsa, mas porque sua completude elimina o caminho. A totalidade oferecida já não exige experiência, descoberta ou espanto. O mundo aparece concluído antes que o viajante o percorra.
A recusa drummondiana interessa-nos porque protege o inacabamento. O viajante preserva a possibilidade de continuar andando. Em vez de aceitar um cosmos inteiramente revelado, escolhe o chão imperfeito, a estrada escura, o conhecimento parcial e a pergunta ainda sem resposta. Jaldes mobiliza esse gesto contra a fantasia contemporânea de uma inteligência capaz de conter tudo. Nós o prolongamos em outra direção: recusar a totalidade pronta significa defender o direito à duração.
A duração não é simples lentidão cronológica. É a espessura do processo no qual algo se transforma em experiência. Duas horas podem ser vazias; um minuto pode alterar uma vida. O que importa não é apenas a quantidade de tempo, mas a possibilidade de habitá-lo. O capital comprime a duração quando fragmenta a atenção, antecipa a cobrança, multiplica tarefas e impede que o sujeito permaneça tempo suficiente diante de um objeto, de uma pessoa ou de uma pergunta. A inteligência artificial pode aprofundar essa compressão ao produzir a ilusão de que o conhecimento coincide com o acesso imediato ao resultado.
Por trás dessa ilusão há uma violência silenciosa. A máquina apresenta a rapidez como evidência de superioridade, e o ser humano começa a olhar para seus próprios ritmos como defeito. O corpo cansa; a máquina não. O sujeito hesita; a máquina continua. A memória falha; o arquivo permanece disponível. A pessoa precisa dormir, esquecer, afastar-se, elaborar; o sistema responde a qualquer hora. A comparação é construída para humilhar o vivo. Mas ela é falsa, porque transforma em falha aquilo que constitui a condição humana: finitude, corpo, limite, experiência, necessidade de pausa.
A inteligência artificial não sofre a pressão do tempo porque não possui uma vida cuja duração possa ser roubada. Ela não envelhece na fila, não perde a infância, não chega exausta em casa, não adia o encontro com um filho, não abandona um livro por falta de horas. Sua velocidade só pode tornar-se norma porque há corpos humanos obrigados a obedecê-la. O problema não é que a máquina seja rápida. É que sua rapidez seja usada para negar aos vivos o direito de demorar.
6.
Nesse ponto, a pergunta sobre a inteligência desloca-se. Não basta indagar se a máquina pensa. É preciso perguntar que sociedade precisa afirmar que pensar equivale a produzir rapidamente uma resposta plausível. A redução da inteligência ao desempenho operacional interessa a uma ordem que mede o conhecimento pelos resultados imediatamente utilizáveis. Pensar, porém, inclui interromper a sequência, suspeitar da pergunta, recusar a alternativa oferecida, reconstruir o problema e permanecer diante do que ainda não tem nome. A inteligência humana não se define apenas por encontrar respostas. Define-se também pela capacidade de transformar a pergunta.
A máquina trabalha com o arquivo do possível já objetivado. Mesmo quando combina elementos de maneira inédita, ela opera sobre registros disponíveis. O sujeito histórico, ao contrário, pode confrontar as condições dadas, negar finalidades impostas e lutar por uma possibilidade que ainda não existe socialmente. Aqui se encontra a categoria da alternativa. A alternativa não é mera escolha entre opções previamente enumeradas. Ela exige consciência das circunstâncias, posição diante do mundo e ação capaz de alterar o campo do possível. A máquina seleciona. O ser social pode decidir romper.
Essa distinção não autoriza qualquer celebração abstrata do humano. A história está cheia de decisões brutais, submissões voluntárias e destruições produzidas conscientemente. O ser humano não é emancipador por natureza. Sua capacidade de alternativa pode ser bloqueada, domesticada ou orientada para a barbárie. Justamente por isso, a formação, a política e as instituições importam. A possibilidade de criar o novo depende de condições sociais que preservem tempo, linguagem, memória, conflito e imaginação. Quando tudo é comprimido pela urgência, o campo da alternativa se estreita.
A submissão normalizada nasce nesse estreitamento. O sujeito já não precisa acreditar plenamente na ordem. Basta não encontrar tempo, energia ou linguagem para enfrentá-la. Ele percebe que algo está errado, mas responde à próxima mensagem. Sabe que o prazo é absurdo, porém tenta cumpri-lo. Reconhece que a avaliação empobrece o trabalho, mas adapta seu projeto ao formulário.
A inteligência artificial pode tornar-se uma mediação poderosa dessa submissão quando ajuda o sujeito a sobreviver à pressão que simultaneamente aprofunda. Usa-se a máquina para dar conta da carga; a instituição percebe que a carga pode aumentar; o auxílio transforma-se em novo padrão; a dependência completa o circuito.
7.
A contradição é cruel. A ferramenta que permite suportar o tempo roubado pode tornar-se instrumento de um roubo ainda maior. O professor recorre à inteligência artificial porque não dispõe de horas suficientes para responder a tudo. Ao fazê-lo, demonstra involuntariamente que é possível responder a mais demandas. A solução individual confirma a reorganização institucional. Não há culpa moral nisso. Há uma estrutura que converte estratégias de sobrevivência em produtividade adicional.
Por isso, a crítica precisa abandonar tanto o moralismo quanto o deslumbramento. Não se trata de culpar quem utiliza a ferramenta, nem de tratá-la como sujeito soberano. A questão é revelar as relações sociais que a atravessam. Quem possui os modelos? Quem controla os bancos de dados? Quem define as métricas? Quem se apropria do valor? Quem oferece gratuitamente sua linguagem, seu comportamento e seu trabalho para aperfeiçoar sistemas privados? Quem recebe os benefícios da aceleração e quem suporta seus custos?
Essas perguntas tornam-se ainda mais importantes nas formações dependentes. A inteligência artificial não chega à periferia do capitalismo em condições de igualdade. Os grandes modelos, as infraestruturas de computação, os centros de dados, as patentes e o poder de investimento concentram-se em poucas empresas e países. À periferia cabe fornecer usuários, dados, mercados, trabalho de moderação, recursos naturais, energia e adaptação institucional. Importamos sistemas e, junto com eles, importamos prioridades, idiomas dominantes, critérios de relevância e regimes de velocidade.
A dependência tecnológica é também dependência temporal. As instituições periféricas passam a reorganizar-se segundo ritmos produzidos nos centros. Universidades com carência de financiamento são cobradas para acompanhar a fronteira tecnológica; professores sobrecarregados devem incorporar novas ferramentas; sistemas educacionais marcados por desigualdades profundas recebem a ordem de inovar; recursos públicos são direcionados a soluções privadas enquanto faltam bibliotecas, laboratórios, assistência estudantil e condições elementares de trabalho. A promessa do salto tecnológico pode ocultar o aprofundamento da subordinação.
A máquina de tudo não contém tudo. Contém aquilo que pôde capturar, organizar e tornar rentável. Sua aparência universal esconde uma memória hierarquizada. O que foi menos digitalizado, traduzido ou reconhecido corre o risco de desaparecer outra vez, agora não pelo silêncio dos arquivos, mas pela eloquência estatística da resposta.
Jaldes Meneses mostra a máquina que recolhe o patrimônio criativo da espécie. Nós introduzimos nessa máquina os séculos que ela oculta e a forma histórica que se apropria deles. Entre a máquina de Drummond e a máquina de tudo, colocamos a duração: o tempo sedimentado transformado em dado, a velocidade convertida em comando e a formação humana ameaçada pela obrigação de responder antes de compreender.
A máquina possui o arquivo. O mundo, porém, ainda não está pronto.
*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP].

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