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Uruguai – entre a estabilidade macroeconômica e o desencanto político

Da Terra É Redonda, 25 de junho 2026
Por MAURICIO VÁZQUEZ CORREA & ANDRÉS DEL RÍO*


A crise de aprovação no governo Orsi ilustra o dilema regional: como equilibrar a responsabilidade de gestão com a necessidade vital de manter viva a identidade transformadora?

No meio do segundo ano do governo de Yamandú Orsi no Uruguai, os índices de aprovação de sua presidência mostram uma queda constante. De acordo com as últimas pesquisas divulgadas, o presidente mal chega a 27% e 29% de aprovação. Por outro lado, a desaprovação ficou entre 46% e 48%.[i]

O governo de Yamandú Orsi apresenta melhorias em indicadores relevantes em relação à administração anterior. Uma queda do desemprego para 6,9% e a criação de cerca de 26.000 empregos são um exemplo disso. Além disso, houve um aumento do salário real de 2,3%, ao mesmo tempo em que a inflação caiu para 3,5%. No entanto, esses avanços parecem não ser suficientes para uma parte significativa da população, particularmente entre seus próprios eleitores.

A rejeição a um governo de centro-esquerda da Frente Ampla (FA) por parte do eleitorado conservador e de direita é de se esperar; no entanto, o mal-estar em setores da esquerda tradicional e progressista assume um caráter mais complexo. O horizonte transformador que caracterizou os governos anteriores da Frente Ampla parece, sob esta gestão, cada vez mais distante. Em seu lugar, percebe-se uma orientação mais moderada, com ênfase na continuidade e no pragmatismo. Ora, quando boa parte do eleitorado votou por uma mudança de modelo, a continuidade é vista com descontentamento.

O período de “lua de mel” de Yamandú Orsi foi breve, especialmente curto com seu próprio eleitorado. As turbulências políticas, tanto em nível local quanto internacional, afetaram o presidente, revelando dificuldades de comunicação, com mensagens e sinais confusos, algo apontado por diversos analistas políticos locais.[ii]

Dois mandatos, dois estilos

Luis Lacalle Pou, representante do Partido Nacional e líder da coalizão “Compromisso pelo País”, deixou seu mandato com uma deterioração significativa na esfera social. Nesse sentido, aumentaram substancialmente a desigualdade[iii] e a pobreza, especialmente entre crianças e adolescentes: uma em cada três crianças menores de seis anos vivia abaixo da linha da pobreza.[iv] Além disso, seu governo foi marcado por uma longa série de escândalos políticos e judiciais e denúncias de abuso de poder, com membros de sua equipe diretamente envolvidos nos acontecimentos.[v] Apesar de tudo, o ex-presidente concluiu seu mandato com uma imagem positiva próxima a 58%.[vi] No entanto, isso não impediu que o candidato da Frente Ampla vencesse as eleições presidenciais no final de 2024 com 49,66% dos votos.

O contraste com Yamandú Orsi é significativo: apesar de apresentar melhorias em diversos indicadores econômicos e sociais, o atual presidente conta com apenas entre 29% e 31% de imagem positiva em pouco mais de um ano de mandato.[vii]

Essa discrepância sugere que a legitimidade política contemporânea vai além do desempenho econômico ou social de um governo. Em vez disso, ela se sustenta nas expectativas coletivas, na construção da liderança, na segurança pública e na capacidade de projetar um horizonte político claro para o eleitorado. Nesse esquema, o controle da narrativa é um fator-chave, embora não único. A isso se soma o impacto das redes sociais, cuja capacidade de criar bolhas de informação fragmenta a percepção da realidade e impõe barreiras quase impenetráveis entre os diferentes setores sociais.

Moderação, desencanto e futuro político

A administração de Yamandú Orsi parece, assim, enfrentar um paradoxo cada vez mais visível. Enquanto tenta preservar a estabilidade institucional, evitar cenários de confronto e construir amplos consensos em um contexto regional e internacional cada vez mais instável, parte importante de sua própria base social percebe essa cautela como uma renúncia programática e simbólica.

O problema não parece residir apenas nos resultados econômicos ou de gestão. De fato, vários indicadores mostram melhorias em relação ao período anterior. No entanto, em uma etapa histórica marcada por fortes disputas identitárias, polarização política, discursos de ódio e crise de representação, a moderação extrema pode se tornar também uma fonte de desgaste. Particularmente para forças políticas que construíram historicamente sua legitimidade em torno de promessas de transformação social, ampliação de direitos e confronto com determinados poderes estruturais.

Em setores da Frente Ampla, começa a se consolidar a percepção de que algumas decisões do governo – tanto na política interna quanto na internacional – expressam mais uma adaptação à ordem existente do que uma vontade real de transformá-la. Essa distância entre o discurso histórico da esquerda e a prática governamental alimenta uma crescente sensação de desencanto. O mal-estar surge sobretudo entre setores militantes, jovens e progressistas que esperavam uma guinada mais clara em relação ao governo de Lacalle Pou.

A paradoxo é ainda mais profundo se observarmos o atual cenário político global. Em grande parte do mundo, as lideranças que conseguem consolidar apoio social não são necessariamente as mais propensas ao consenso, mas aquelas capazes de construir narrativas fortes, posições claras e intensos sentimentos de pertencimento político. Nesse contexto, a busca permanente por equilíbrio, cautela e moderação pode acabar enfraquecendo a capacidade de gerar identificação política duradoura.

Nesse sentido, um dos principais desafios da Frente Ampla para o próximo ciclo eleitoral não parece ser exclusivamente econômico ou administrativo, mas fundamentalmente político e simbólico: reconstruir um horizonte de transformação capaz de mobilizar novamente seu eleitorado histórico. Isso não implica adotar uma postura ligeiramente menos moderada, mas propor uma alternativa conceitualmente diferente; uma guinada necessária para mobilizar as bases sem romper, ao mesmo tempo, os delicados equilíbrios institucionais e geopolíticos que condicionam o Uruguai contemporâneo.

A questão de fundo, então, não é apenas se Yamandú Orsi conseguirá manter níveis aceitáveis de governabilidade durante seu mandato, mas se uma estratégia baseada na moderação permanente pode continuar sendo eleitoralmente viável para uma força política de esquerda em um cenário regional e global marcado por crescentes demandas de definição, conflito e posicionamento.

O caso uruguaio parece expor, assim, um dos principais dilemas da esquerda latino-americana contemporânea: como manter a governabilidade e a inserção internacional sem que a moderação permanente acabe por corroer a identidade política e o horizonte transformador que historicamente lhes conferiu legitimidade. As experiências recentes do Chile e da Argentina mostram, além disso, que, quando os progressismos perderam a capacidade de construir identificação política e canalizar demandas de transformação, o desencanto social pode acabar sendo capitalizado por novas direitas radicalizadas, capazes de oferecer narrativas mais confrontativas, emocionais e politicamente definidas.

O tempo dirá se uma estratégia radicalmente moderada pode continuar sendo viável para as esquerdas latino-americanas, em uma época marcada por crescentes demandas de confronto, identidade e definição política.

*Mauricio Vázquez Correa é doutorando em sociologia pela Universidade da República (UDELAR), Uruguai.

*Andrés del Río é professor de ciência política na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Notas

[i] Duas pesquisas divulgadas em maio pelas empresas de pesquisa CIFRA e FACTUM apontaram, de forma coincidente, uma queda acentuada na aprovação e um aumento na desaprovação de Orsi.

[ii] “Hoje, mais do que nunca, a política é comunicação. Um governante está governando quando fala; portanto, um deslize comunicacional ou um lapso, que o obriga a se retratar, é algo ruim”, opinou o historiador e politólogo Gerardo Caetano em uma entrevista publicada no Montevideo Portal. Disponível em: https://www.montevideo.com.uy/Noticias/Gerardo-Caetano-Orsi-cometio-graves-errores-y-Lacalle-no-acierta-mucho-cuando-aparece–uc946017

[iii] De acordo com um relatório do Centro de Pesquisa em Economia e Política (CEPR), a renda dos 10% mais ricos da população aumentou 8% entre 2019 e 2022, enquanto a dos 50% mais pobres diminuiu 16% no mesmo período.

Disponível em: https://cepr.net/es/newsroom/nuevo-informe-analiza-la-economia-uruguaya-antes-de-la-segunda-vuelta-electoral/

[iv] Relatório publicado pela UNICEF em 2025. Disponível em: https://www.unicef.org/uruguay/infancia-en-datos/pobreza-infantil/dos-nuevas-mediciones-de-pobreza

[v] O Centro Latino-Americano de Análise Estratégica enumerou os dez escândalos mais marcantes durante o governo de Lacalle Pou. Disponível em: https://estrategia.la/2025/01/09/uruguay-diez-escandalos-que-sacudieron-al-gobierno-de-lacalle/

[vi] Índice de aprovação de Lacalle Pou ao final de seu mandato, de acordo com pesquisa realizada pela Equipos Mori. Disponível em: https://equipos.com.uy/noticias/Lacalle-Pou-finaliza-su-gestion-con-58-de-aprobacion-y-25-de-desaprobacion/334

[vii] Dados de aprovação de acordo com as pesquisas da Cifra e da Factum citadas anteriormente.

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