Por GUILHERME RODRIGUES*
![]() |
Frame de "Síndrome da Apatia", dirigido por Alexandros Avranas / Divulgação |
Do macaco datilógrafo à IA generativa: será a literatura apenas um acaso bem treinado ou há nela um estranhamento que o algoritmo não alcança?
Para J. R., pois o amor é uma companhia
1.
Num artigo publicado em 1913, o matemático francês Émile Borel buscava explicar o “milagre da chance” por meio de uma teoria da probabilidade que enfrentava uma questão urgente na filosofia da natureza de então: com as recentes discussões e descobertas da radioatividade, as teorias newtonianas da mecânica se mostravam insuficientes para explicar certos fenômenos – sabemos como, às voltas desta época mesma, Albert Einstein desenvolve sua própria teoria geral da relatividade e abala as estruturas da teoria do conhecimento, retomando algumas discussões sobre a natureza do espaço e do tempo que remontam ao século XVIII entre filósofos como Isaac Newton e Leibniz.
Para demonstrar sua teoria da probabilidade, Émile Borel sugere: “Concebamos que um milhão de macacos foram treinados para digitar aleatoriamente nas teclas de uma máquina de escrever e que, sob a vigilância de capatazes iletrados, estes macacos datilógrafos trabalham com ardor dez horas por dia com um milhão de máquinas de escrever variadas. Os capatazes iletrados juntam as folhas enegrecidas e as encadernam em volumes. E ao fim de um ano, estes volumes conteriam a cópia exata de livros de toda natureza e de todas as línguas conservados nas mais ricas bibliotecas do mundo”.[i]
O exemplo do francês parece borgeano, e, podemos dizer assim, ecoa na “Biblioteca de Babel” das Ficções do escritor argentino: uma biblioteca infinita de livros infinitamente aleatórios. Nesta concepção infinitesimal da aleatoriedade, podemos conceber que um macaco eventualmente escreveria a Odisseia, outro o Dom Quixote e, ainda, outro a poesia completa de Carlos Drummond de Andrade.
Este exemplo que parte de um problema matemático tem, para um bom observador, uma consequência fundamental na teoria da literatura, veja bem, numa época em que esta mesma teoria começa a ganhar ares mais sistemáticos com os formalistas na Rússia. Viktor Chklóvski e Roman Jakobson formulariam, ainda neste primeiro quarto do século XX, como a literatura possuiria algo diferente da linguagem automatizada do cotidiano, uma espécie de “estranhamento” próprio que lhe dá uma singularidade, uma literariedade.
Isso é, haveria algo singular na literatura que a diferencia de outros usos da linguagem, que seriam, grosso modo, automatizados pelo uso comum, não puramente aleatórios, é verdade – afinal, a linguística já explicava pelo menos desde Ferdinand Saussure que há uma série de ordenamentos da linguagem em geral –, mas sobretudo automáticos, enquanto a literatura seria elaborada com uma racionalidade constituída por uma série de torções deste uso comum.
Poderíamos dizer que a literatura compreenderia, neste sentido, um acréscimo de racionalidade. Enquanto a linguagem comum se monta através da sucessão de termos que montam o discurso na medida em que se fala, a literatura se constituiria, se quiséssemos ser aristotélicos, por uma relação de causas e efeitos do discurso que é previamente pensado e montado como uma possibilidade, afinal “a função do poeta não é contar o que aconteceu mas aquilo que poderia acontecer, o que é possível, de acordo com o princípio da verossimilhança e da necessidade”.[ii]
Daí justamente que a poesia é diferente de outros discursos como o da história; o que a faz mais próxima da filosofia por este acréscimo de racionalidade, tornando-a uma expressão do universal, e não somente do particular, como faz a história – ou, se quisermos, a linguagem comum.
Coloque-se assim: eu posso dizer, por um lado, que sofro de saudades da pessoa que eu amo; mas o poeta escreve que “a saudade dói como um barco, / que aos poucos descreve um arco / e evita atracar no cais”,[iii] eu posso dizer que estou apaixonado e que penso na pessoa que eu amo toda hora, mas o poeta escreve que
“O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
(…)
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
(…)
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio”.[iv]
Segundo a teoria formalista, é esta peculiaridade que faz a literatura, a literariedade que estranha a linguagem e expressa este universal humano. Um dizer que não é comum, e, sobretudo, não é aleatório ou automático, mas é uma racionalidade complexa que propositalmente estranha a linguagem. Poderíamos nos perguntar se digitar aleatoriamente numa máquina de escrever seja um ato que possa nos dar esta singularidade literária.
2.
Ainda podemos colocar a questão nos seguintes termos: a arte, como o amor, são raros no mundo. Em sua admiração declarada, Carlos Drummond uma vez escreveu um belo poema dedicado a seu amigo Manuel Bandeira, publicado no Claro enigma, em que o eu lírico, diante da imagem envelhecida do poeta que “já não criava, simples criatura / exposta aos ventos da cidade”, pergunta-lhe “(numa esperança que não digo) / para onde vai – a que angra serena, / a que Pasárgada, a que abrigo?”. A resposta do poeta acentua aquilo que seria um sentimento peculiar à literatura: conseguir caminhar de maneira nada trivial num mundo de trivialidades, e sentir profundamente as coisas; ter a capacidade singular de escutar aquilo que os outros ignoram:
“E foi-se para onde a intuição,
o amor, o risco desejado
o chamavam, sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado”.[v]
Afinal de contas, é possível escrever versos, tocar alguns acordes num violão, dar algumas pinceladas numa tela. Mas é raro escrever um poema como Ana Cristina Cesar, compor uma sinfonia como Gustav Mahler, pintar um quadro como Frida Kahlo.
Mas, à mesma maneira do amor, é difícil dizer por que isso acontece exatamente. Afinal, podemos até gostar de alguém, mas se apaixonar a ponto de nos expormos à vulnerabilidade que é própria do amor; se entregar mesmo diante deste risco desejado, isso é raro e exige, sobretudo, uma sensibilidade que está para além daquilo é comum, das trivialidades absolutamente banais daqueles que dizem palavras que pouco significam para si mesmos.
O amor, como a arte, é raro; e a sua raridade é de difícil acesso, pois parece que a nossa racionalidade automatizada resiste aos movimentos que nos exigem se desmontar. E a arte, enfim, tem essa capacidade: desmontar a nossa sensibilidade automatizada, e nos recordar de um universal que ainda nunca aconteceu, ainda que necessário.
3.
O que o exemplo dos macacos datilógrafos de Émile Borel impõe para a teoria da literatura que nasce nesta época é um problema que não é pequeno. Se é possível conceber que, ao datilografar aleatoriamente, um macaco possa fazer surgir A paixão segundo G.H., então qual seria a diferença entre a obra racionalizada poeticamente de Clarice Lispector e as folhas datilografadas aleatoriamente do símio treinado? A teoria da literatura, em especial entre os anos 1970 e 1990, com a crise do estruturalismo e do pós-estruturalismo, se debateu com algo desta natureza; sugerindo que não há essência literária, e que, diferente do que pensavam os formalistas, não há nada no centro da literatura: não há essência literária.
O problema pareceria, em certo sentido, ter sido deixado de lado, entre outros motivos pelo fato de a teoria da literatura ter caído em desuso e ter dado espaço ao que se chama hoje genericamente de estudos culturais; além de hoje se dar mais importância à psicanálise e à ética do que à estética, que parece um velho objeto largado num cômodo de velharias abandonadas. Mas, como sempre, problemas mal resolvidos tendem a vir à tona reformulados e repotencializados. Pois digamos o seguinte: o que são as inteligências artificiais generativas se não macacos datilógrafos muito bem treinados?
E diante desta questão surge o seguinte ponto: se oferecermos um prompt a uma Inteligência artificial desta natureza, para que ela “embeleze”, “elabore” ou “revise” um texto, e esta mesma Inteligência artificial redige um poema, um capítulo de um romance, um conto, uma peça de teatro, então qual é a diferença entre entre de um romance como Ao farol de Virginia Woolf e este texto gerado pela Inteligência artificial?
Ora, a questão não é trivial, nem mesmo pequena; ela mobiliza inicialmente questões que são da ordem da ética, sem dúvida – que inclusive anda a braços com os debates com a ecocrítica –, mas a questão também é estética, no sentido profundo do termo, como queriam os setecentistas: há algo na sensibilidade aqui que se poderia pensar. Uma Inteligência artificial pode gerar um poema como aqueles escritos por Rimbaud impactado pela comuna de Paris em 1871? Ou um romance que tentou traçar uma busca por sentido num mundo em derretimento nos anos 1920 como A montanha mágica de Thomas Mann?
Recentemente, a vencedora do prêmio Nobel da literatura, Olga Tokarcuzk, não somente admitiu o uso de Inteligência artificial generativa na produção de seus textos como se mostrou um tanto entusiasmada pela ferramenta, que a ajudaria a embelezar e aprimorá-los. Outros escritores dizem usar a ferramenta para revisar suas produções – quando foi justamente no longo e delicado processo de revisão que foram escritos romances como A ilustre casa de Ramires, Em busca do tempo perdido e A montanha mágica.
Para além de questões que envolvem a ética, a ecocrítica e a política – que reputo como fundamentais neste debate, mas a deixo para aqueles que entendem melhor sobre a profundidade do problema que envolvem as Big Techs que dominam este mundo –, pode-se pensar esteticamente a questão. Há algo em nossa sensibilidade que compreende este processo? E se dermos a importância devida à sensibilidade e como ela modificou estruturas complexas em momentos que viram mudanças na poética, na Arte e em suas concepções, notaremos como ela participa da maneira como se partilha o mundo.
Poderíamos, talvez, pensar se não somos hoje os capatazes iletrados que juntam folhas enegrecidas datilografadas aleatoriamente para encaderná-las a fim de que ocupem as estantes de uma versão infernal da biblioteca de Babel.
*Guilherme Rodrigues é professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo (USP).
Notas
[i] BOREL, Émile. Le hasard. Paris: Librairie Félix Alcan, 1920, p. 164.
[ii] Arist. Poét. 1451b.1-3.
[iii] BUARQUE, Chico. “Pedaço de mim”. in: Chico Buarque. Rio de Janeiro: Philips, 1978.
[iv] PESSOA, Fernando. Obra completa de Alberto Caeiro. Rio de Janeiro: Tinta da China Brasil, 2018, p. 79.
[v] ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1973, p. 253.

Nenhum comentário:
Postar um comentário