Pages

RS: As águas turvas da Corsan privatizada

Surgem os resultados de uma venda infame. Serviços deteriorados e demissões em massa para… lucros extraordinários. 44% do montante das contas d’água agora fluem direto para o bolso dos acionistas. Corporação quer mais. Que os céus poupem os gaúchos!


De OutrasPalavras, 3 de junho 2026
Por Marcos Helano Montenegro


Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Depois da privatização, a prioridade é maximizar os lucros

A receita anual dos serviços de água e esgoto que, antes da privatização, no biênio 2021-2022 havia atingido média de R$4,49 bilhões, no biênio 2024-2025 chegou a R$ 5,38 bilhões, evidenciando um aumento de 20% entre os dois períodos considerados. No mesmo período, o lucro médio anual cresceu de R$ 670 milhões para R$ 1,93 bilhões, aumentando 188%. Em 2025, o lucro da Corsan privatizada correspondeu a 44% da receita proveniente das contas de água e esgoto pagas pelos gaúchos.

A valores de dezembro de 2025, a Corsan privatizada em três anos já contabilizou lucro de R$ 4,55 bilhões, quantia que supera com folga os R$ 4,1 bilhões pagos ao Estado do Rio Grande do Sul pelo controle integral da Corsan. A privatização da estatal pelo governador Eduardo Leite foi um presente à iniciativa privada cujo custo está agora sendo pago nas tarifas cobradas dos usuários.
Para os trabalhadores, arrocho salarial e rotatividade

Com a privatização, a gestão da Corsan priorizou a redução dos gastos com pessoal, implementando programa de demissão voluntária, que desligou da empresa os profissionais mais experientes e contratou mão de obra com salários menores. No biênio anterior à privatização, o gasto anual médio de pessoal foi de R$ 1,46 bilhões, enquanto no biênio 2024–2025 esse gasto caiu para R$ 656 milhões. Uma inacreditável redução de 55%.

Nos demonstrativos de uma empresa, o valor adicionado mede o acréscimo de valor realizado pelo processo produtivo, isto é, o acréscimo de valor decorrente do trabalho humano. Com o avanço dos lucros, a participação das despesas de pessoal no valor adicionado distribuído sofreu uma forte redução, caindo de um valor médio de 46% no biênio anterior à privatização para 15% no biênio 2024/2025.

São números que demonstram que a Corsan privatizada sob comando do grupo Aegea priorizou sua rentabilidade aos acionistas, com a redução das despesas com a força de trabalho sendo componente primordial para atender à prioridade do máximo lucro.
A queda na qualidade dos serviços prestados aos usuários

Conforme informam reportagens recentes, como as do Sul21, do Brasil de Fato e da Matinal, os serviços de abastecimento de água e esgoto da Corsan/Aegea estão sendo investigados em seis municípios em razão da insatisfação dos usuários,

Em Canoas, Gravataí, Viamão e Venâncio Aires, as Câmaras Municipais aprovaram a instauração de Comissões Parlamentares de Inquérito para apurar denúncias de falhas recorrentes no abastecimento, cobranças indevidas e falta de transparência nas contas d’água.

Em Esteio, foi instituída uma Comissão Especial na Câmara para fiscalizar a execução contratual. Em Alvorada, a prefeitura move ação judicial contra a Corsan/Aegea, com a baixa qualidade da água na lista de denúncias. Desde abril, moradores da Região Metropolitana reclamam do cheiro forte e gosto ruim da água, apesar de a concessionária ter garantido que a água é segura para o consumo.

Os problemas não apenas estes: conforme levantamento do Ministério Público Estadual divulgado pelo Sul21, até maio de 2026 foram registrados 198 casos envolvendo a concessionária, de ações judiciais a investigações. A Aegea atende 317 dos 497 municípios gaúchos (cerca de 64%). Os abusos da Aegea já chegaram ao ponto de o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) propor projeto de lei para coibir práticas abusivas da concessionária.
O que interessa à Aegea é conquistar novos contratos e ampliar seus lucros

Como noticiou o site Relatório Reservado em 1/12/2025, depois de assumir o controle da CORSAN em 2023, o que a Aegea quer é dominar saneamento gaúcho de ponta a ponta,por isso já fez chegar à Prefeitura de Porto Alegre seu interesse em disputar a concessão do DMAE, o Departamento Municipal de Água e Esgotos. A lei que autoriza a desestatização da autarquia foi aprovado pela Câmara de Vereadores em novembro passado. A empresa promete ir com sede ao pote, buscando dominar a operação de saneamento no estado de ponta a ponta.

Alinhado com essa expectativa, o governador Eduardo Leite pretende alavancar a privatização dos serviços municipais de saneamento por meio do Projeto RS Saneamento, que facilitará a concessão à iniciativa privada da prestação dos serviços de água e esgoto de 176 municípios que não são atendidos pela Corsan/Aegea. Este projeto está sendo estruturado pelo FDIRS, fundo gerido pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, que firmou parceria com o Estado em 2025, e para viabilizá-lo o governo estadual anunciou que vai enviar à Assembleia Legislativa, projeto de lei complementar que cria a Microrregião Única de Saneamento.

A Aegea é a grande interessada nesta iniciativa. Não por acaso o lançamento do Projeto foi marcado pela propaganda dos pretensos feitos da Corsan privatizada.

Portanto, é grande o risco de a Aegea monopolizar os serviços de saneamento no estado. Um monopólio que não favoreceria o povo gaúcho e só interessa à Aegea e a seus acionistas. De fato, com o risco de novas enchentes em razão de chuvas intensas causadas pelo El Nino, não é nada bom ter serviços públicos de saneamento priorizando o lucro e não a qualidade dos seus serviços.


Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, seja nosso apoiador e fortaleça o jornalismo crítico: apoia.se/outraspalavras

Nenhum comentário:

Postar um comentário