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Quem são os brasileiros deportados dos EUA?

Do A Terra É Redonda, 16 de junho 2026
Por JÚLIO D’ANGELO DAVIES & GUSTAVO DIAS*


Imagem: Noah Wilke

O retorno forçado escancara não apenas a brutalidade da política imigratória estadunidense contra trabalhadores, mas também a cruel estigmatização que os aguarda em solo nacional

Aeroporto Internacional de Confins, Minas Gerais, outubro de 2025. A convite do Ministério de Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), o Observatório das Deportações teve a oportunidade inédita de acompanhar as operações humanitárias do “Aqui é Brasil”. O programa foi criado em agosto de 2025, como resposta ao episódio ocorrido em fevereiro do ano passado em Manaus, quando uma aeronave que transportava brasileiros deportados dos Estados Unidos precisou realizar um pouso emergencial por razões técnicas. O programa ganhou projeção nacional após imagens dos deportados desembarcando algemados repercutirem amplamente na imprensa.

Prestes a completar um ano, o Aqui é Brasil recebe semanalmente os brasileiros deportados dos EUA por meio de voos fretados pelo Immigration and Customs Enforcement (ICE). A operação de acolhida e registro dos deportados é executada pela Organização Internacional das Migrações (OIM), agência da ONU para as migrações.

A grande maioria desembarca em condições de muita fragilidade física e emocional, incluindo privação de sono, higiene e situações de maus tratos. Em respeito à dignidade, não julgamos ético fotografar os deportados recém-desembarcados, algo que a imprensa brasileira tem feito exaustivamente sem o consentimento desta população. Não devemos objetificá-los nem estigmatiza-los para narrar os fatos. Recorremos então à descrição subjetiva da imagem a partir de nosso acesso à área restrita do aeroporto de

A seguir descrevemos nossa experiência como pesquisadores a partir de quatro visitas à Operação, realizadas em outubro de 2025 e fevereiro de 2026, buscando apresentar uma narrativa alternativa à que vem sendo frequentemente fornecida por veículos de imprensa tradicionais brasileiros.

Para todos verem

Depois de cerca de 1h de espera na área restrita do Aeroporto, as portas se abriram e as equipes da OIM e MDHC entraram com os recém-chegados. O primeiro impacto é de tristeza por vê-los tão fragilizados. Ninguém chora, há uma tristeza seca, contida e compartilhada no ar que pesa. Cheira-se a necessidade física de banho, não por falta de higiene, mas por falta de dignidade a estes corpos enquanto esperaram no presídio de Alexandria, na Louisiana, até serem retornados ao Brasil.

Logo o silêncio que grita do primeiro encontro dá lugar à praticidade das vidas que seguirão. Os funcionários da Operação Aqui é Brasil dividem os beneficiados entre os que continuarão por conta própria a partir dali e os que pernoitarão no hotel custeado pelo Governo Federal. Algumas famílias e amigos esperam do lado de fora sem a confirmação segura de que de fato chegaram até o desembarque. Acontece de passageiros na lista não serem embarcados nas aeronaves por razões não totalmente esclarecidas por autoridades norte-americanas.

Uma fila de homens de diversas idades, em sua maioria pretos e pardos. Pais de família, trabalhadores, homens de bem. Senhores, homens de meia idade e garotos. Algumas poucas mulheres. A maioria veste conjuntos de moletom cinza e seguram sacos de entulho onde carregam seus poucos pertences. Chama a atenção que dentre tantos com sacos de entulho houvesse uma passageira carregando sua mala. O que explicaria uma mala entre tantos sacos? A moça fora presa ao tentar entrar em aeroporto nos EUA, mesmo tendo visto de trabalho, soubemos no dia seguinte.

Há poucos vestindo uniformes laranjas. Estes retornaram após cumprirem pena criminal em presídios, a maioria por não pagamento de pensão alimentar ou violência doméstica. Foragidos da Justiça brasileira não são atendidos pelo programa Aqui é Brasil, sendo levados pela Polícia Federal ao desembarcarem da aeronave. Há uma série de outros homens que vestiam calças manchadas de tinta. Teriam sido presos indo trabalhar na construção civil? Uma funcionária da operação confirma que sim. Foram raptados pelo ICE com a roupa do corpo a caminho do trabalho.

Seguimos com um grupo de passageiros no primeiro ônibus com destino ao hotel. No caminho compartilhavam suas experiências nos presídios, tentavam trocar entre si dólares por reais, perguntavam por carregadores de celular. Aqui o clima já era mais leve, riam e brincavam mesmo esgotados depois de 30 horas algemados. Roubos de agentes do ICE são prática comum, relatam vários passageiros. Lucas foi um dos que tiveram seus documentos roubados e precisou realizar Boletim de Ocorrência na manhã seguinte. A equipe do Aqui é Brasil leva todos nesta situação para realização de BO na estação da Polícia Civil em Confins.

Wellington, rapaz negro e natural de Ipatinga, cerca de 40 anos mostra sua canela ferida e diz “Os agentes do ICE me bateram, aqui olha! ” Danilo também relatou em conversa no corredor do hotel ter sido agredido fisicamente por agentes do ICE enquanto esteve detido. Bruno diz “celular, cordão de ouro, aliança de casamento, dinheiro! Eles pegam mesmo! Não tão nem aí! Se virem que é de ouro, eles pegam na hora! ” Por precaução das autoridades brasileiras, os pertences de cada deportado são entregues pela PF assim que desembarcam da aeronave. Os roubos já acontecem nos EUA, muitas vezes quando são transferidos entre um centro de detenção e outro durante o período de custódia.

Depois de meses comendo mal, recebem uma refeição tipicamente brasileira, com arroz, feijão, carne e batatas fritas. Em conversa no corredor Lucas[i] diz “quando eu vi um prato de comida, eu fiquei tremendo. Foram seis meses comendo pão com mortadela. Foi meu primeiro prato de comida! Ainda estou tremendo. ” Preso na Flórida, Lucas tinha placas vermelhas no rosto e perdeu 15kg durante os 3 meses que ficou sob custódia do ICE. Bruno complementa: “Eu só comia melhor no presídio porque eu trabalhava na cozinha e conseguia roubar escondido comida para mim. Tudo que sobrava eles jogavam fora e não distribuíam aos detentos, não era permitido. Quem não trabalhava na cozinha como eu, comia muito mal”.

Já alimentados, passam pela triagem da equipe da operação, onde respondem a um formulário elaborado pelo MDHC. Enquanto aguardam sentados sua vez de serem chamados, carregam celulares e recebem um kit higiene. Um rapaz nos pede remédio de dor de cabeça. No retorno ao Brasil o ICE se recusou a lhe dar o remédio, ele relata. Outro passageiro relata que também não recebeu remédio de dor de garganta.

Depois da triagem são direcionados aos quartos que compartilham com mais um ou dois beneficiados. No dia seguinte de manhã recebem café da manhã e buffet livre de almoço com comida de ótima qualidade. As equipes da OIM e MDHC fazem a refeição no mesmo restaurante. A dignidade que faltava na chegada é recuperada no dia seguinte, com higiene, repouso e alimentação. Ainda assim, muito não conseguem dormir à noite devido à adrenalina.

Todos com quem conversamos ficaram presos entre 3 e 6 meses, a maioria no Texas. O voo tinha cerca de 200 passageiros, sendo 114 brasileiros e 80 colombianos. Antes do desembarque em Confins pararam em Bogotá. Ficaram com pés e mãos algemados e sem dormir por pelo menos 30 horas. Privação de sono, banho, medicação. Práticas corriqueiras do tratamento do governo dos EUA a imigrantes, nem todos indocumentados. Mas, afinal, qual o perfil destes brasileiros detidos e deportados pelo ICE? Eram mesmo criminosos, como afirma o governo dos EUA?

O perfil dos brasileiros apreendidos e deportados

Para responder à pergunta que dá título a esta coluna, em fevereiro de 2026 produzimos o relatório inédito “Por onde estão os brasileiros? ”, que conta com dashboard interativo disponível no site oficial do Observatório das Deportações. Utilizando dados oficiais do ICE, isolamos o número de brasileiros, nos permitindo traçar um perfil nacional médio referente a 2025. Os dados foram obtidos e disponibilizados pelo Deportation Data Project, um projeto da Universidade da Califórnia que vem monitorando as políticas de deportação nos EUA. Graças ao Observatório, o Brasil é o primeiro e, possivelmente, o único país da América Latina a produzir uma radiografia de seus cidadãos sob custódia do ICE em 2025.

Considerando um total de três mil apreensões entre janeiro e outubro de 2025 (período com dados disponíveis), os brasileiros tinham em média 35 anos (um terço do total tinha entre 30 e 39 anos), com ampla maioria de homens (85%) e uma taxa média de deportação de 53%. Considerando que 45% dos casos ainda aguardavam sentença, podemos afirmar com segurança que praticamente todos os brasileiros apreendidos pelo ICE em 2025 foram deportados ao Brasil, com baixíssimas chances de êxito em pedidos de fiança para aguardar o processo em liberdade, ou ao recorrerem das decisões judiciais.

Famoso enclave de brasileiros nos EUA, o estado de Massachusetts apresentou, sozinho, metade do total de apreensões (1462 registros). Maio e setembro foram os meses com picos de apreensão de brasileiros (573 e 658, respectivamente). Não por acaso, foi justamente nestes meses que o ICE promoveu as operações Patriota e Patriota 2.0 no estado de Massachusetts. Na incursão de setembro, quase metade dos 1400 imigrantes apreendidos no estado eram brasileiros, como pudemos observar.

Enquanto metade (1512) dos brasileiros havia sido apreendida por infrações de imigração (consideradas contravenção), outros 465 tinham condenações criminais prévias. Segundo informação exclusiva que obtivemos junto à Polícia Federal via Lei de Acesso à Informação, 19 foragidos da Justiça brasileira foram retornados pelo ICE ao país em 2025 para cumprimento de sentença. Concluímos, então, que os demais 446 condenados respondiam por crimes cometidos nos EUA.

Visão geral do relatório da pesquisa “por onde estão os brasileiros?” (2026)

Portanto, contradizendo a retórica populista de Donald Trump para justificar as operações do ICE, apenas um sexto dos brasileiros apreendidos, eram criminosos de fato. Ironicamente, Donald Trump é o primeiro presidente da história dos Estados Unidos condenado pela justiça. Entretanto, sua condenação em 2024 não o impediu de candidatar-se à presidência nem de ser empossado presidente no ano seguinte.

Como observamos in loco no Aqui é Brasil e demonstramos quantitativamente com os dados do ICE, a grande maioria dos brasileiros deportados são homens pretos e pardos de classes baixas que trabalhavam na construção civil e viviam honestamente nos EUA.

Migraram em busca de uma vida melhor. Muitos dos deportados, inclusive, apoiavam Donald Trump durante a disputa eleitoral de 2024 por acreditarem que somente os migrantes criminosos seriam deportados. Essa contradição entre suas posições políticas mais conservadoras e sua migração indocumentada gera ataques xenófobos dos próprios brasileiros dos dois lados da atual polarização política.

Brasileiros identificados com ideologias de extrema direita os atacam sob a retórica de “quem mandou entrar e permanecer lá de forma irregular? Lá não é bagunça como o Brasil. ” Por outro lado, brasileiros que se enxergam como mais progressistas também os atacam: “Quem mandou apoiar o Trump? Acharam que seriam poupados do fascismo? ” Há, portanto, dois tipos de auto-xenofobia que são cometidas atualmente contra os brasileiros deportados. Ora os culpabilizando por migrarem de forma irregularizada, ora por apoiarem políticos com viés ideológico de extrema-direita com discursos xenófobos que perseguem grupos vulneráveis para emularem uma imagem de nação forte e soberana.

*Júlio D’Angelo Davies é professor de antropologia na Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES).

*Gustavo Dias é professor de sociologia na Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES).

Nota

[i] Todos os nomes foram trocados, respeitando regras de ética e confidencialidade.

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