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Por uma outra globalização

Do A Terra É Redonda, 02 de julho 2026
Por FRANCISCO FOOT HARDMAN*



Imagem: Dan Cristian Pădureț

Considerações sobre o livro de Milton Santos.

1.

Da vasta produção de Milton Santos – negro, baiano e cidadão do mundo – permitam-me que ressalte, aqui, a importância de seu último livro, Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal, editado no Brasil no ano 2000, um ano antes, portanto, de seu falecimento.

Considero este pequeno grande livro uma verdadeira obra-prima, por sua atualidade impressionante em face dos desafios do mundo contemporâneo, neste século XXI e, igualmente, por seu caráter premonitório acerca da necessária e possível resistência global dos movimentos populares de todos os continentes, contra o capitalismo financeiro, contra os senhores da guerra e contra a destruição do nosso planeta como “casa comum do bem-viver” (valho-me aqui de uma imagem usual entre muitos povos originários da América Latina, inclusive do Brasil, que certamente Milton Santos concordaria em adotar).

Isso posto, ressaltarei, aqui, trechos selecionados da referida obra, que pode ser tomada como um testamento geopolítico do autor, legando a sua esperança para as gerações que o sucederam neste século de tantos desafios. Chamo a atenção, de início, para o importante prefácio da economista portuguesa e exilada no Brasil, Maria da Conceição Tavares, professora titular da Unicamp e da UFRJ, que acompanhou a primeira edição do livro (2000). Seguindo a reflexão de Milton Santos, se a globalização do “pensamento único” pode ser vista como perversidade e fábula, pode, também, dialeticamente, abrir-se à utopia de uma nova civilização planetária.

Maria da Conceição Tavares resume assim esse último aspecto: “O seu caráter globalmente destrutivo acaba, porém, sendo contraditório, levando à resistência parcelas crescentes da humanidade a partir de seus distintos ‘lugares’. O velho otimismo do grande geógrafo baiano reaparece em relação às cidades, como espaço de liberdade para a cultura popular em oposição à cultura midiática de massas, como espaço de solidariedade na luta dos ‘de baixo’ contra a escassez produzida pelos ‘de cima’. A visão de uma nova horizontalidade na luta dos oprimidos contra a verticalidade dos opressores é comovedora e estimulante, já que conduz a uma nova utopia”. (p. 2-3).[i]

Se Milton Santos nos lega esperança e nos convoca à luta, em toda a sua obra e perspectiva crítica, em toda a sua vida e postura ética podem-se localizar múltiplos exemplos desse chamado “a uma outra globalização”. Na sequência do livro, temos a própria “Introdução Geral” do autor, muito didática como sempre, em que sintetiza o esquema geral de sua proposta: “O mundo como fábula, como perversidade e como possibilidade, isto é, o mundo tal como nos fazem crer: a globalização como fábula; O mundo como é: a globalização como perversidade; O mundo como pode ser: uma outra globalização (p. 21-26).

Mas será, sem dúvida, no último capítulo da obra, “A transição em marcha” (p. 160-197), à guisa de testamento visionário para a nossa geração, que Milton Santos desenvolve as linhas gerais dessa “nova utopia”. Desse percurso de quase 30 páginas, devemos enfatizar, aqui, a composição de seu último item, que o autor intitulou “A história apenas começa” e que se subdivide por sua vez em três partes: “A humanidade como um bloco revolucionário; A nova consciência de ser mundo; A grande mutação contemporânea (p. 193-197).

2.

No subtítulo desse livro, “do pensamento único à consciência universal”, concentram-se sinteticamente os impasses centrais do mundo global contemporâneo. A noção de “pensamento único”, por tudo que o autor desenvolve, podemos aproximá-la do próprio exercício da hegemonia capitalista que, na sua dimensão geopolítica atual, pode ser concebida como a ideia de um mundo unipolar fundado na supremacia do Ocidente pós-Segunda Guerra Mundial.

Em contraposição a esse poder que se vale de controles, expansões, guerras e domínios territoriais imperialistas, há a possibilidade aberta de contraposições e resistências no rumo do que o autor concebeu como “consciência universal”, que não se deve confundir com universalismo abstrato, com espaço físico abstrato, mas, bem ao contrário, com lugares determinados pelas culturas populares e suas configurações concretas, sejam as étnico-linguísticas, sejam as socioeconômicas, sejam, enfim, as socioambientais comunitárias. Aqui, portanto, estamos mais próximos, em se tratando do campo da geopolítica, de um mundo multipolar.

A multipolaridade, assim concebida, pode se aproximar de conjuntos propostos e atualmente em voga como o chamado Sul Global, ou mesmo, a reunião dos BRICS. Embora, seja oportuno pontuar que, inexistentes ao tempo em que o autor refletiu e escreveu sua obra, a mera nomeação desses agrupamentos não garante, por si só, seu êxito ou eficácia, como é o caso, também, da conceituação em torno de “civilização ecológica”.

Ou, ainda, formulando de outra maneira: essa consciência, para ser efetivamente “universal”, deve necessariamente reunir a humanidade com a natureza, isto é, com todos os outros seres vivos planetários, animais e vegetais. Nesse sentido, a geografia humana de Milton Santos pode se articular dialeticamente com a história social: nesse processo, os vetores de espaço-tempo devem se mostrar integrados. Assim, concepções antigas de comunidades humanas rurais, tradicionais ou originárias podem ser reunidas nessa antevisão: vida comum; comunidade do bem-viver; a própria ideia central de “civilização ecológica”; etc.

3.

Milton Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, pequena cidade na belíssima Chapada Diamantina, a cerca de 600 Km de Salvador. Com altitudes médias em torno de 900 m, chega a ter clima serrano. Hoje, segundo censo do IBGE de 2022, sua população não ultrapassa 12 mil habitantes. Quando o autor lá nasceu, de família pobre (seu avô paterno tinha sido escravo), não havia escola primária na cidade.

Mudou-se depois para Alcobaça, no litoral sul baiano, cidade também pequena que hoje terá cerca de 25 mil habitantes. Mas seus pais e avós maternos eram professores primários e, assim, ele foi alfabetizado em casa. Depois, já na idade do ensino fundamental, estudou no Instituto Baiano de Ensino, onde viveu como aluno interno por sete anos. Formou-se em Direito, já em Salvador, na UFBA (1948).

Começou sua carreira profissional e intelectual como jornalista de A Tarde, inicialmente em Ilhéus, depois na capital. Após o golpe militar de 1964, foi perseguido e preso e, como milhares de sua geração, teve que buscar o exílio fora do Brasil. Foi aí que começou sua carreira acadêmica internacional. Poucos anos antes, já havia concluído seu doutorado na Universidade de Estrasburgo, França (1958). Era docente concursado na Universidade Católica de Salvador (1956) e, em 1960, tornou-se livre-docente em geografia humana pela UFBA.

Viveu exilado por cerca de 13 anos, na Europa, América do Norte, América Latina e África. Sempre atuando como pesquisador e professor universitário. O detalhe é que, após sua prisão em Salvador, em 1964, os militares não autorizaram sua saída do Brasil. Foi necessária a intervenção do serviço diplomático francês para que pudesse sair do país. Seu currículo acadêmico internacional é dos mais expressivos entre os maiores intelectuais brasileiros.

Na França, foi professor na Universidade Toulouse-Jean Jaurès, na Universidade de Bordeaux e na Universidade Sorbonne-Paris. No Canadá, ensinou na Universidade Toronto. Nos EUA, deu aulas no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), onde conheceu e se tornou amigo do linguista Noam Chomsky. Foi ali, também, que iniciou suas pesquisas que deram origem a uma de suas futuras grandes obras, O espaço dividido, editado no Brasil em 1979. E nos EUA, ainda, foi docente na Universidade Columbia-New York.

Já na América Latina, atuou como pesquisador da ONU e da OEA na Venezuela, sendo também professor de Economia na Universidade Central-Caracas. No Peru, foi pesquisador da OIT e professor da Universidade Nacional de Engenharia-Lima. Já na África, foi o responsável pela organização da pós-graduação em geografia da Universidade Dar es Salaam, na Tanzânia.

Finalmente, a partir de 1977, com seu retorno ao Brasil, foi professor na UFRJ, antes de se tornar professor titular em geografia na USP (1984), onde ficou e ensinou até sua aposentadoria (1997), permanecendo, depois, na FFLCH, como professor colaborador, até seu falecimento. Recebeu, ao longo de sua brilhante trajetória, cerca de 20 títulos como Doutor Honoris Causa, dois terços dos quais concedidos por universidades brasileiras e um terço por universidades estrangeiras. Ressalte-se que, em 1994, foi agraciado, na França, com o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, maior honraria mundial na área, sendo, até hoje, o único geógrafo da América Latina a recebê-lo.

4.

Na relação dos grandes intérpretes do Brasil, é urgente, mais do que nunca, reunir as visões agudas e premonitórias de Milton Santos às contribuições igualmente decisivas de dois outros intelectuais nordestinos aos quais o autor de Por uma outra globalização sempre declarou seu reconhecimento e afinidades: Josué de Castro (Recife, 1908-Paris, 1973), autor, entre outros livros-chave, de Geografia da fome (1946); e Paulo Freire (Recife, 1921-São Paulo, 1997), notável referência de uma pedagogia crítica mundial e autor, entre outras obras-primas, de Pedagogia do oprimido (1968).

No caso do segundo autor, pode-se considerar que Paulo Freire e Milton Santos são da mesma geração. E ambos foram perseguidos pela ditadura militar e tiveram que construir suas carreiras acadêmicas, em grande parte, no exílio. Diríamos que, se Milton Santos enxerga no espaço dividido a prevalência de lugares onde pode nascer uma nova resistência, uma nova centralidade da periferia que conduza a uma outra globalização, em Paulo Freire, será a partir de uma educação libertadora, contraposta ao que chamou de “educação bancária”, que se desencadeará o processo capaz de levar os “de baixo” a uma nova consciência de “estar no mundo” e de atuar coletivamente na sua transformação revolucionária.

Já com relação a Josué de Castro, de uma geração anterior, é o próprio Milton Santos, quem, em vários depoimentos ao longo de sua vida pública, reconheceu sua dívida e influência intelectual para com o médico, geógrafo, nutricionista e escritor recifense, também exilado e perseguido político, futuro presidente da FAO-ONU (1952-1956), organismo das Nações Unidas dedicado à Alimentação e Agricultura no Mundo. Sua atuação impecável lhe fez jus ao Prêmio Internacional da Paz, concedido pelo Conselho Mundial da Paz, em 1954.

Começando ainda no ginásio, Milton Santos disse que a noção de “movimento” era o que mais lhe agradava e influenciava, ainda, no banco escolar, ao estudar, no livro didático publicado por Josué de Castro, em 1939: Geografia humana: estudo da paisagem cultural do mundo, as paisagens humanas em trânsito…

E sobre se Geografia da fome o influenciou, responde assim o nosso autor: “Muito”: “Esse, vamos dizer assim, aprendizado da generosidade que aparece em Josué de Castro, e essa vontade de oferecer uma interpretação não conformista, isso cala no espírito do menino, do jovem, essa vontade de buscar outra coisa. Acho que teve sobre mim uma influência extremamente grande”.[ii]

5.

Vamos rastrear, agora, alguns possíveis elos de afinidade entre a obra de Milton Santos e a do grande geógrafo chinês Yi-Fu Tuan (Tianjin, 1930 – Madison, 2022), ambos os autores pertencentes à mesma geração. No que considero um feliz acaso, poucos dias antes de iniciar a preparação desse texto de celebração do centenário do geógrafo baiano, a editora universitária da Universidade de Pequim (PKU Press) lançava um livro-homenagem a Yi-Fu Tuan, que desenvolveu toda a sua carreira acadêmica em universidades dos EUA, em especial na Universidade de Wisconsin-Madison, com uma passagem, também, pela Universidade de Toronto, no Canadá, entre 1966-68, três anos antes de Milton Santos lá chegar…

Este livro, que tenho em mãos, se intitula Geography: from 1947 to 2022 – A Travelogue (edição bilíngue chinês-inglês), e traça uma viagem intelectual pela vida e obra de Yi-Fu Tuan, desde seus 17 anos até seu falecimento. Indo atrás desse percurso, noto que, no Brasil, temos pelo menos três de seus mais importantes livros traduzidos: Topophilia: a Study of Environmental Perception, Attitudes and Values, surgido em 1974 (Topofilia: Um Estudo da Percepção, Atitudes e Valores do Meio Ambiente), que teve tradução pioneira no Brasil, pela Difel, em 1980; Space and Place: the Perspective of Experience (Espaço e Lugar: A Perspectiva da Experiência), surgido em 1977 e que conheceu, entre nós, uma tradução, também pela Difel, em 1983; e Landscapes of Fear (Paisagens do medo), que teve tradução mais recente, em 2006, pela Editora Unesp. E tanto Topofilia quanto Espaço e lugar conheceram novas edições no Brasil pela Eduel, respectivamente, em 2012 e 2013.

Mas quais as possíveis linhas de contato entre Milton Santos e Yi-Fu Tuan, afora a proximidade geracional, a construção de carreiras em parte fora de seus países de origem e, sem dúvida, a perspectiva de uma geografia humana, ou até “humanística”, nas propostas do geógrafo chinês? Tentando achar elos documentais na obra de Milton Santos, deparei-me com um artigo de sua autoria, datado de 1982, em que incorpora cinco ensaios de Yi-Fu Tuan em sua bibliografia, o que indica, portanto, haver, sim, afinidades teórico-práticas entre os dois geógrafos, guardadas, embora, suas diferenças teóricas. Em Milton Santos, temos uma clara aproximação do materialismo dialético marxista; já Yi-Fu Tuan navega mais ecleticamente por outras tradições humanistas, como o existencialismo, as teorias freudianas e a antropologia social.[iii]

Outra feliz confluência seria nos seus respectivos – e merecidos – reconhecimentos internacionais. Pois Yi-Fu Tuan também será ganhador do Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, em 2012, cerca de duas décadas após seu colega brasileiro.

Mas, para além dessas coincidências acadêmicas e geracionais, penso, entre várias possibilidades de aproximação, nessa vertente tão relevante da renovação do pensamento geográfico mundial, em ambos os autores, ao testarem e ensaiarem, muitas vezes com a coragem que todo pioneirismo exige, as ligações da geografia com os estudos da história e, também, das demais ciências humanas e sociais, da filosofia à antropologia, da psicologia à estética, da economia à ciência política, dos estudos culturais aos estudos ambientais.

Ambos os autores professaram, em suas práticas acadêmicas de alto nível, a multidisciplinaridade, sem falsas erudições nem dispersões inúteis. E estamos convencidos, para finalizar, que sua contribuição heterodoxa os torna extremamente relevantes em tempos atuais.

Em Milton Santos, por exemplo, a diferença entre espaço e lugar é fundamental, assim como em Yi-Fu Tuan.[iv] E penso que, finalmente, ambos os autores, em diferentes registros e estilos, atinaram de modo agudo para a urgência de uma nova utopia da humanidade neste planeta. O autor chinês, creio, mais atento à crise contemporânea do meio ambiente. E o autor brasileiro, creio, mais sensível à resistência e à luta por uma outra globalização. Na companhia de ambos, acreditamos, seria possível e urgente caminhar, solidariamente, na direção dessa “nova utopia”. Como dizemos sempre no Brasil: “a esperança é a última que morre”.[v]

*Francisco Foot Hardman é professor titular em Literatura e Outras Produções Culturais pela Unicamp. Autor, entre outros livros, de Minha China Tropical: crônicas de viagem (Unesp) [https://amzn.to/42nrjKN]

Referência



Milton Santos. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro, Record, 2000. [https://amzn.to/4uKux74]

Notas

[i] Por decisão da Editora Record, em nova reedição da obra de Milton Santos, a 32ª., de 2021, esse prefácio da economista portuguesa foi substituído por um “Prefácio à nova edição” (cf. pp. 8-14) do escritor Itamar Vieira Junior, autor, entre outros romances, de Torto arado (2019).

[ii] Apud Anna Maria de Castro, “Josué de Castro e a descoberta da fome”, coluna da Cátedra Josué de Castro no Nexo Políticas Públicas, 22/09/2021.

[iii] Cf. Milton Santos, “Para que a Geografia mude sem ficar a mesma coisa”. Boletim Paulista de Geografia. São Paulo: (59), 1982, p. 5-22.

[iv] Para quem se interessar pela trajetória desse grande cientista e professor brasileiro, recomendamos o excelente filme-documentário Por uma outra globalização, produzido pela Caliban Filmes, lançado em 2004, dirigido pelo grande cineasta brasileiro Sílvio Tendler, e que se encontra disponível no Canal YouTube. Tem 55 minutos de duração e possui entrevista gravada com o próprio Milton Santos cerca de quatro meses antes de seu falecimento.

[v] Milton Santos (Brotas de Macaúbas, 1926 – São Paulo, 2001) foi, sem dúvida, o maior geógrafo brasileiro e um dos maiores em escala mundial. A primeira versão deste texto teve como base a palestra que dei para celebrar a passagem do centenário de seu nascimento, a convite do Departamento de Estudos Portugueses e Italianos e do Núcleo da Cultura Brasileira da Universidade de Pequim, em 26/05/2026. Devo agradecer ao Prof. Wang Yuan e à Profa. Fan Xing pelo convite e oportunidade.

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