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Política fixada e cultura global da imagem

Do A Terra É Redonda, 9 de junho 2026
Por TALES AB’SÁBER*



A captura do Estado pelas elites corporativas e o esvaziamento da cidadania pelo consumo encontram na cultura digital da distração o terreno perfeito para a alienação política

1.


Parece evidente que o tempo é de controle estrito da vida política que importa, com a primazia policial e jurídico/corrupta de múltiplos setores empresariais sobre a gestão parlamentar e a fatura das leis, com avanços reais e permanentes do grupo sobre o orçamento de Estado e legitimação ideológica geral. O controle estrito de classes dominantes dos governos e do Estado, sem plano de nação social, é um real político que já não pode ser negado.

Esta efetiva tomada de posse da democracia liberal, arruinada por seus próprios atores e donos, em um processo de voracidade total, tem grande ascendência sobre os governos finais da centro esquerda, grupos ambíguos e desorgânicos capturados e paralisados no mesmo quadro – governos que representam o último biombo frágil de manutenção das conquistas sociais do passado.

No caso do Brasil, após a gigantesca, espetacular e efetiva manipulação ética de massas dos anos 2014 a 2018, do absoluto vale tudo contra a esquerda racional e gerencial no poder, a penetração e a possessão do Estado pela direita corrupta-empresarial dos últimos dez anos é um acelerador concreto da crise social mais ampla.

No plano da vida da política com sociedade, desde 2016 vive-se uma somatória permanente de crises, provocada também pela voracidade dos interesses privados – de empresários, do agro, das indústrias ou da bala, de pastores ou de neofascistas “securitários” – que se imprime sobre a real impossibilidade e incapacidade crítica da esquerda institucional adaptada ao jogo do Estado dos interesses. A contribuição da esquerda ao esgarçamento da vida é sua impossibilidade de formular e de sustentar socialmente alguma diferença significativa a favor dos pobres no Brasil, que ultrapasse a manutenção do Estado geral de exploração e desagregação.

Se, em termos de política social de fundo, política de opinião pública e de Estado, se insiste de forma redundante que temos 81,2 milhões de pobres endividados e inadimplentes no Brasil, além dos cronicamente desempregados e todos os precarizados, é porque os critérios políticos existentes foram deslocados para a percepção da cidadania como estrito acesso ao consumo, e não outra estrutura de direitos políticos e de vida digna.

Como observado anteriormente, este amplo processo biopolítico brasileiro, que subsumiu direitos e imaginação política aos mercados – os do mundo da vida local e os da imagem mundial – se produziu continuamente e desde o primeiro período lulo-petista, o de 2003 a 2010[i]. Hoje, com a explosão técnica dos dispositivos de cultura e ideologia conformadas diretamente ao desejo individual, o grande movimento conservador geral do que dissocia chegou ao seu paroxismo máximo.

A situação, em que pesa a tomada de choque totalizante da política por modalidades atuais de interesses do capital, tem reduzido as ações populares pela vida à fragmentação generalizada, ao ressentimento político individualizado e difuso e à autoalienação defensiva e programática, em busca de alguma segurança particular qualquer.

É a vigência regressiva do grupo e do indivíduo em um mundo político, até segunda ordem, perdido para a força geral do trabalho. A precarização real da vida do trabalho, liquidação de garantias e de direitos, a evidente derrota política universal dos pobres, se confirma na precarização interessada e produtiva da consciência coletiva.

O processo da perda de acesso ao Estado dominado mergulhou a vida política nas intensidades imediatas das identificações grupais, que tendem à fragmentação narcísica das pequenas diferenças, simultaneamente articuladas à gestão imediata da vida pela cultura total da imagem, que move tantos dos seus agentes. A política real travada dos senhores da vida alheia, do Estado, se multiplica como biopolítica do mesmo mundo, ordenando as consciências para o desejo de mercado e de imagens mercadorias em lugar de formas de justiça social e igualdade material mais amplas.

Cidadania como acesso ao consumo, resultando em cidadãos barrados agora por dívidas, e não como direito de luta política pela vida, é uma ordenação duplicada e confirmada na ocupação da cultura pelos mecanismos técnicos de multiplicação infinita da imagem. Tais mecanismos só fazem afirmar o estatuto mundial da mercadoria, como ela deseja ser. Isto se dá tanto na vida popular quanto na das elites, que, por essa perspectiva, tem esse único ponto das coisas em comum.

2.

A cultura política da técnica cotidiana funciona pela fragmentação ativa da realidade, pela multiplicação dos fragmentos fílmicos, gotas de excitação e graça em um mundo aplainado. Esta é a verdadeira terra plana, a da cultura. O mundo está unificado no psiquismo plano para o plano infinito da imagem circulando e repetindo, bolhas de baixa intensidade, cujo sentido é manter o espectador exatamente aí.

Pode-se passar horas do dia do trabalho podre sobre esse regime superficial da imagem que, de forma homóloga ao Capital contabilizando ganhos, acontece apenas entre o presente e o futuro próximo e imediato. O imediato é a natureza produtiva da cultura industrial globalmente unificada.

Não há memória utilizada ou registrada no fim do dia da presença mundial das imagens infinitas ocupantes da vida. Também não é possível nenhum espaço social concreto para qualquer coisa assemelhada à velha fruição do tempo de algum livro, daqueles narradores de todas as épocas, de Walter Benjamin, de histórias e de filosofias. Não há sujeito de compromisso com nenhum dado do passado. Tudo que é sólido desmancha no ar de modo matematicamente elevado: só o gozo agora e por vir em seguida, de fato existem.

Essa multiplicação unificada do eu no nada da imagem infinita, sujeito aplainado da terra plana da imagerie mundial, permite que a ideia da realidade, de sua estrutura imaginária mais profunda e minimamente permanente, seja constituída como sistema delirante, deslocado de qualquer evidência histórica.

Enquanto se vive na excitação interessada – duplo do sistema mundial dos mercados, da experiência que tudo está à venda – que ocupa de fato todo o tempo disponível da vida, se entende história e política como um fato ficcional qualquer, como funciona todo o resto no circuito infinito das imagens.

Sem lastro com nenhum passado, sem compromisso com a história e a consciência da própria opressão, os precarizados totais deste mundo podem responder à política com uma estrutura paranoica arcaica, resto básico do humano – projeção do ataque e da agressividade, posição esquizo-paranoide, diziam os psicanalistas Freud, Melanie Klein e Wilfred Bion – de forma a ficcionalizar o sentido como projeção e incorporar a própria excitação como política.

Os neofascistas, que dominam as suas redes de massa de propaganda fascista na internet, trabalham com essa política: da superfície do agora sem passado, do excesso de gozo ficcional, na chave do sadismo primitivo como realidade sem história.

Se a vida unificada na política do comum e do compromisso, história e consciência de classes, foi anulada na vida técnica do “produssumo” universal da nova barbárie, os milhões de filmes diários de segundos, ocupando a performance da vida do Tik tok mundial, que se renovam a cada minuto; o cinema das massas é esta história do vínculo fragmentado com a consciência mundial, que integra a todos nessa prática.

Esvaziamento da dimensão histórica da consciência política, vida no aqui e agora plano da próxima imagem, fragmentação da unidade da experiência pelo múltiplo espetáculo de baixa intensidade, total, e integração mundial de hiper-massas, que tudo que sabem é que todos os demais vivem da mesma forma. São as condições culturais técnicas de fundo e de base de todo neofascismo, a ficção política paranoica e violenta que pode se articular, de forma imanente, ao regime universal da superfície multiplicada e rápida da imagem.

*Tales Ab’Saber é professor do Departamento de Filosofia da Unifesp. Autor, entre outros livros, de O soldado antropofágico (Hedra) [https://amzn.to/4ay2e2g]

Nota

[i] Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica, São Paulo, Hedra, 2011. [https://amzn.to/4aBcXdC]

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