Por PEDRO DAMAZIO FRANCO*
A escassez de perspectivas divergentes nas ciências sociais exige uma investigação atenta às dinâmicas de exclusão acadêmica, superando a frágil justificativa do demérito intelectual
A ciência avança por meio da crítica. Todo pesquisador tem uma dívida com seus críticos. Em seus melhores momentos, a crítica nos ajuda a refinar nossas ideias ao apontar argumentos que não havíamos considerado, referências que não conhecíamos e dados que desafiam nossas hipóteses. Mesmo quando erra o alvo, ela ainda pode ser benéfica, pois nos obriga a esclarecer melhor nossas posições, corrigir ambiguidades e evitar novas confusões.
Ao longo das últimas semanas, venho mantendo com o professor Luis Felipe Miguel um debate em torno de uma questão delicada: por que haveria menos conservadores em certas áreas da universidade, especialmente nas ciências sociais? Em seu primeiro artigo, Luis Felipe Miguel contesta a ideia de que a direita esteja ausente na universidade e sugere que, onde posições conservadoras têm menos espaço, isso refletiria sobretudo a menor capacidade explicativa dessas perspectivas diante do mundo social. Ele sugere também que, se existem mecanismos de exclusão ideológica na universidade, eles provavelmente se aplicam em medida semelhante à esquerda e à direita.
Em minha resposta, argumentei que antes de atribuir a distribuição ideológica do corpo docente apenas ao mérito relativo das teorias em disputa, seria prudente investigar também mecanismos de seleção, custos reputacionais, conformidade disciplinar e exclusão informal. Argumentei também que o grau e diferença entre exclusões à direita e à esquerda é uma questão empírica que precisa ser confrontada com estudos disponíveis. O debate, portanto, não é apenas sobre a presença de conservadores na universidade, mas sobre como aplicamos, ao analisar esse problema, os critérios críticos e metodológicos que usamos para compreender outras assimetrias sociais.
Fico feliz que o professor Luis Felipe Miguel tenha dedicado mais um artigo a essa questão, desta vez respondendo diretamente ao meu último texto. Ainda assim, para que o nosso debate fosse mais produtivo, eu gostaria que ele tivesse partido de uma representação mais fiel das minhas posições, evitando rebater teses que eu não apresentei no meu texto – e das quais eu mesmo discordo. Um engajamento direto com meus reais argumentos e as referências que apresentei elevaria a qualidade da nossa interlocução.
De toda forma, agradeço a resposta, pois ela me oferece a oportunidade de esclarecer o que realmente quis dizer. Na intenção de que minha crítica incida sobre posições efetivamente defendidas, procurarei seguir o mesmo procedimento adotado no primeiro artigo, inspirado nas regras de Rapoport: reproduzir da forma mais fiel possível os argumentos do interlocutor, explicitar os pontos de concordância e aprendizado e, só então, oferecer uma crítica. Esse esforço não decorre apenas de educação ou cortesia, mas porque refletem um dever elementar do debate intelectual – mesmo quando não é plenamente retribuído.
“Meritocracia”
O primeiro ponto a esclarecer é em torno da “meritocracia”. Sinto que isso talvez seja um ponto tangencial em relação aos temas principais do pluralismo acadêmico, mas, além de tratá-lo como se fosse central, Miguel apresenta minha posição de forma tão distante do que eu de fato propus em meu artigo original que esclarecimentos se fazem necessários.
Luis Felipe Miguel sugere no seu primeiro artigo que uma das qualidades intelectuais que confere vantagem à esquerda sobre a direita na universidade é a adoção de uma visão crítica das estruturas sociais, o que implica rejeição (ou ao menos suspeita) de explicações “meritocráticas” de desigualdades sociais. Sugere, portanto, que um dos motivos pelos quais conservadores estão ausentes nas ciências sociais é justamente sua falta de traquejo com essa “pegada crítica”.
No meu artigo, eu sugiro que o próprio Luis Felipe Miguel parece perder um pouco de traquejo crítico ao explicar a ausência de conservadores nas ciências sociais unicamente por questão de mérito. Sugiro também que, dada a natureza delicada desse tema, deveríamos tentar ser um pouco mais rigorosos – e “críticos” – ao explorar a questão.
Segundo ele, no entanto, eu teria dito que quem rejeita a meritocracia como explicação da sociedade não pode, sem contradição, falar sobre mérito em sentido algum, inclusive mérito epistêmico, melhores argumentos ou critérios de validade acadêmica. Em outras palavras, ele sugere que eu não acredito ser possível considerar a visão meritocrática da sociedade empiricamente incorreta e desprovida de valor heurístico e, ao mesmo tempo, defender o rigor na ciência. Com certeza seria um argumento estranho de se fazer – se eu o tivesse feito.
Imagino que parte da confusão talvez decorra da possibilidade de estarmos usando o termo “meritocracia” em sentidos ligeiramente distintos. Vale então esclarecer o sentido que eu empreguei. Para começar, proponho distinguir uma concepção normativa e uma concepção descritiva de meritocracia.
No sentido normativo, meritocracia é a crença de que posições, recompensas e reconhecimento devem corresponder a alguma medida de mérito ou excelência. No sentido descritivo (ou explicativo), meritocracia pode designar a crença de que o mundo real já é assim: isto é, que posições, recompensas e reconhecimento correspondem, na prática, ao mérito de seus detentores.
Aderir à meritocracia no sentido normativo não implica aderir a ela no sentido descritivo. Nisso concordo plenamente com Luis Felipe Miguel. Por exemplo, eu posso acreditar que existem ideias, trabalhos ou produtos melhores e piores, e que os melhores deveriam ter mais espaço que os piores – e ao mesmo tempo acreditar que no mundo social concreto, prestígio, autoridade, renda ou espaço institucional frequentemente não são distribuídos segundo o mérito real de seus detentores. É justamente isso que muitos consideram uma “visão crítica” da sociedade: a adoção de um ideal de mérito normativo, aliada à suspeita de que ele não se realiza no mundo real.
Ao longo do meu argumento, presumi que Luis Felipe Miguel defende justamente esse tipo de visão crítica. Em outras palavras, presumi que, como cientista social, ele rejeita ou no mínimo suspeita do uso descritivo da noção de meritocracia, que supõe que as assimetrias e desigualdades sociais são resultado apenas de méritos reais. Nunca presumi que ele rejeita ou deveria rejeitar qualquer noção de mérito como ideal normativo.
Em resumo, jamais afirmei que quem critica a noção de meritocracia não pode falar em mérito. Apontei apenas que alguém sensível ao peso causal de estruturas sociais, e treinado para suspeitar de explicações puramente meritocráticas, deveria também desconfiar de explicações puramente meritocráticas para assimetrias dentro da academia – inclusive quando consideramos os grupos em questão objetivamente mais ou menos meritosos que outros.
Para o crédito de Luis Felipe Miguel, no seu segundo artigo encontramos algumas hipóteses adicionais para a escassez de conservadores nas ciências sociais. Ele admite, por exemplo, que diferentes carreiras podem atrair pessoas com perfis distintos e que a docência no ensino superior talvez seja menos atraente para certos grupos. O ponto é relevante, mas parece não levar em consideração as referências que eu mobilizei no meu primeiro artigo, onde encontramos um debate já bastante desenvolvido sobre autosseleção, tipificação da carreira acadêmica e formação de preferências profissionais.
Literatura especializada
Isso me leva a outro ponto importante: apesar das diversas afirmações e suposições que lança nos seus artigos, Luis Felipe Miguel não se engaja explicitamente com o debate especializado sobre o tema em questão. No meu texto, apresentei uma série de referências e estudos empíricos – uma pequena amostra de um amplo campo de pesquisa, consolidado há décadas, sobre o perfil ideológico do corpo docente superior.
É verdade que esse campo ainda engatinha no Brasil, que os estudos disponíveis certamente não são definitivos (nullius in verba!), e que generalizações devem ser feitas com cautela. Mas se trata de uma bibliografia extremamente informativa, que nos ajuda a formular hipóteses e diagnósticos mais rigorosos e, portanto, mais úteis para o debate público.
Em sua resposta Luis Felipe Miguel optou por não dialogar com nenhuma dessas referências ou oferecer justificativa para descartá-las. Seu diagnóstico permaneceu apoiado em observações gerais sobre concursos, disciplinas e correntes teóricas, além de algumas anedotas pessoais que, embora relevantes, não substituem investigação sistemática.
Se estamos tratando do perfil ideológico do corpo docente como um legítimo campo de investigação científica, é razoável começar aqui a exigir certos critérios de rigor e validação. A boa prática científica tipicamente favorece estudos sistemáticos acima de impressões pessoais. Ignorar o debate especializado sem justificativa explícita, por outro lado, parece contradizer os critérios de validação acadêmica que Miguel diz estar defendendo, ao mesmo tempo em que sugere que eu pretendo relativizar esses mesmos critérios. Voltarei a esse ponto mais abaixo.
Métodos e classificações
Talvez Luis Felipe Miguel pudesse responder que alguns dos estudos que mobilizo dependem excessivamente da autodeclaração ideológica dos docentes – método que ele parece considerar problemático. Seria uma objeção legítima. Categorias como “direita”, “esquerda” e “conservadorismo” variam entre contextos e não se deixam capturar plenamente por uma única pergunta de survey. Um relatório recente da Heterodox Academy sobre diversidade política no corpo docente discute justamente as limitações desse e outros métodos aplicados no campo.
Existem estudos que recorrem a medidas alternativas de afinidade ideológica como, por exemplo, produção acadêmica, orientações bibliográficas, atividade pública em redes sociais e comportamento político-eleitoral. Nenhum desses métodos resolve completamente o problema, é claro. Todos têm suas limitações. Porém, notavelmente, todos tendem a convergir na direção contrária ao diagnóstico de Miguel, que afirma que a suposta ausência de conservadores na universidade é um “espantalho” que “falseia a realidade”.
Resta perguntar se algum ceticismo metodológico também pode se aplicar ao diagnóstico de Luis Felipe Miguel. Para entender como ele conclui que a escassez conservadora na universidade é um mito, é válido indagar o que ele, afinal, considera um “conservador”.
Em seus dois artigos, Luis Felipe Miguel mobiliza diferentes registros dessa categoria. Ele afirma que, por exemplo, em áreas como economia, direito, ciência política e relações internacionais, “visões conservadoras” são majoritárias, pois os modelos predominantes seriam “individualistas, estáticos, desistoricizantes”. Em outro registro, sugere que professores podem ser conservadores não apenas por posições políticas declaradas, mas por manejarem modelos “desprovidos de pegada crítica”.
Também são incluídos em um balde de conservadores pensadores tão diversos quanto Hayek, Schumpeter e Nozick; as “visões institucionalistas” que supostamente predominam em sua disciplina; a “neutralidade axiológica” qualificada como conservadora; além de expressões mais explícitas da direita política e intelectual, como olavismo, escola austríaca, fundamentalismo cristão e bolsonarismo. Em dado momento, no extremo oposto do que muitos considerariam o espectro político tradicional, Luis Felipe Miguel inclui até mesmo a militância identitária, “no frigir dos ovos”, como um fenômeno “conservador”.
Não estou sugerindo que exista uma única definição correta do termo, nem que as definições adotadas por Luis Felipe Miguel estejam “erradas”. Mas não nos deve surpreender que uma definição suficientemente expansiva de “conservadorismo” nos levará à conclusão de que a universidade está repleta de conservadores.
Na falta de critérios metodológicos explícitos ou de diálogo mais direto com trabalhos existentes no campo, temos o direito de suspeitar que o diagnóstico de Miguel se sustenta menos em evidências empíricas do que em uma conceitualização abusivamente ampla de “conservadorismo”. Os estudos que mencionei acima são claros sobre suas definições e honestos sobre suas limitações. Se Miguel apresenta um diagnóstico tão discrepante, no mínimo cabe adotarmos semelhante cautela metodológica.
Por que a ausência de conservadores importa?
Mais uma confusão é sinalizada quando Luis Felipe Miguel parece me incluir entre “vozes que clamam por mais direitistas na universidade”. O problema, de novo, é que nunca apresentei essa demanda. Ao contrário, deixei absolutamente claro que engenharias sociais destinadas a produzir determinada proporção ideológica no corpo docente me parecem temerárias.
Entendo que é fácil confundir a atenção a uma assimetria social com um clamor para que ela seja “corrigida”, então esclareço mais uma vez: a meu ver, o problema não é a ausência de conservadores enquanto tal. O ponto central é saber se essa assimetria resulta apenas do mérito relativo das perspectivas em disputa ou se envolve também mecanismos de exclusão informal, custos reputacionais, autocensura, conformidade disciplinar, suspeição ideológica, formas sutis de preconceito e perseguição explícita.
Importa saber também se esses mecanismos afetam não só indivíduos de direita, mas pessoas de outras matrizes ideológicas – inclusive muitas que possam ter sido injustamente rotuladas como “conservadoras”, “neoliberais”, “reacionárias” ou “fascistas” por meio de taxonomias abusivamente flexíveis que circulam na universidade.
Interessa saber também como tudo isso afeta a qualidade geral do trabalho acadêmico e da educação superior, seja ao desencorajar temas de pesquisa relevantes, seja ao empobrecer debates importantes. É certo que ainda faltam dados no Brasil para cravar diagnósticos mais precisos, mas já podemos travar uma discussão relativamente informada – e, como argumentei no último artigo, a relutância em tratar desse tema como um legítimo campo de investigação científica não deixa de ser um dado relevante em si mesmo. Enfim, não precisamos considerar a ausência de conservadores como um problema significativo em si mesmo para entendê-la como um sintoma de algo que pode ser significativo.
Cotas para terraplanistas!
Outro tópico de discussão de Miguel foi o Manifesto pelo Pluralismo e Pela Liberdade Acadêmica, iniciativa da qual faço parte. Ele parece supor que nossa proposta é que a universidade deva abrigar posições vinculadas a valores políticos divergentes “como se isso fosse um objetivo em si mesmo”. Para ele, essa posição opera com base em um relativismo científico que, se levado às últimas consequências, resultará no ridículo lamento de que faltam terraplanistas no departamento de geologia.
Concordo que tratar a diversidade de valores dentro da universidade como um fim em si mesmo traria consequências nefastas e caricatas. O problema é que o manifesto não propõe nada disso. E admito que – muito embora o reductio ad absurdum dos “terraplanistas na geologia” já tenha sido amplamente discutido, debatido, e rebatido – esse ainda é um mal-entendido comum. Como o tema é recente no debate brasileiro, cabe aqui um esclarecimento curto e simples.
A diversidade de qualquer perfil intelectual ou ideológico no corpo docente jamais deve ser considerado um bem final, mas apenas um bem instrumental. Em outras palavras, essa diversidade só tem valor na medida em que contribui para a atividade-fim da universidade, isso é, a excelência no trabalho acadêmico. Os benefícios educacionais e científicos de ambientes plurais são bem conhecidos, mas – e nisso eu concordo plenamente com Luis Felipe Miguel – esses benefícios só ocorrem em um ambiente acadêmico estruturado e orientado por critérios próprios de rigor e excelência.
Pluralismo e integridade acadêmica
Por último, quero me aprofundar na relação entre pluralismo e rigor acadêmico. Como vimos, Miguel sugere que a defesa do pluralismo ameaçaria critérios autônomos de validade científica ao supostamente tratar a diversidade de posições como um fim em si mesmo. Assim, argumenta ele, critérios de excelência acadêmica ficariam subordinados a critérios de conveniência política.
A essa altura talvez seja oportuno perguntar: o que são, afinal, critérios de excelência acadêmica e rigor científico? A discussão tem sido um pouco abstrata quanto a isso até agora. Se tantas ameaças rondam esses princípios, seria bom tentar defini-los com mais precisão. Proponho, então, listar alguns exemplos que podem ajudar a ancorar nossa discussão na realidade da práxis científica.
Entre alguns critérios de rigor e excelência amplamente reconhecidos por praticantes da ciência estão: representar da forma mais fiel possível a perspectiva dos críticos; argumentar com base em dados e estudos disponíveis; manter-se a par do debate especializado em torno dos temas que se propõe a discutir, mesmo quando isso nos exige sair da nossa zona de conforto teórico ou ideológico; explicitar nossos pressupostos e aceitar submetê-los à crítica; evitar diagnósticos precipitados com base em simpatias ou antipatias ideológicas; resistir à tentação de rotular oponentes antes de compreender seus argumentos; aplicar métodos e critérios de validação com consistência e isonomia, mesmo que levem a conclusões politicamente inconvenientes; admitir possíveis erros de interpretação e se dispor a corrigi-los.
Esses critérios não são exaustivos. Ofereço uma lista pequena e provisória só para deixar claro que critérios de mérito acadêmico existem, sim, dentro da proposta pluralista. Mas esses méritos não se medem por aderência prévia a esta ou aquela orientação teórica, e muito menos a esta ou aquela orientação política. Medem-se pela capacidade de sustentar, diante de críticos reais, os hábitos intelectuais que tornam a ciência possível. Sem um ambiente plural que nos exponha a críticos reais, esses hábitos naturalmente tendem a se atrofiar. E sem esses hábitos, um ambiente plural não florescerá.
Assim como em nossa discussão sobre a “meritocracia”, podemos tentar distinguir o pluralismo acadêmico em sua dimensão descritiva e sua dimensão normativa. Quando tentamos expressar descritivamente o que queremos dizer com pluralismo, tipicamente falamos de um estado de coexistência produtiva de diferentes valores, pressupostos e tradições intelectuais.
Já em sua dimensão normativa, o pluralismo nos exige falar de algo como uma ética intelectual que inclui, entre outros componentes, as práticas que listei mais acima. Da mesma forma que uma sociedade “meritocrática” se desfaz quando seus membros não são capazes de sustentar – ainda que imperfeitamente – um ideal meritocrático, o pluralismo também perde a sua substância quando não é sustentado por uma ética intelectual pluralista.
Este artigo oferece uma definição inevitavelmente incompleta dessa ética, mas suspeito que todo pesquisador saberá reconhecê-la como elemento constitutivo da vida acadêmica. Isso porque o pluralismo não é, como se argumenta, um princípio externo a ser imposto à força sobre a ciência. Afinal, estamos falando do conjunto integrado de práticas, princípios, e hábitos intelectuais – ou virtudes, se preferir – que tornam o desacordo intelectualmente produtivo. Sem isso, não existe ciência.
Sei bem que a presença de perspectivas divergentes pode produzir crítica disciplinada por um lado, e também relativismo, polarização e faccionalismo por outro. O que nos leva ao primeiro caminho e não ao segundo é justamente a presença de uma ética intelectual pluralista. É na ausência dessa ética que vemos prosperar um clima de moralismo intelectual persecutório e anticientífico, onde charlatões, negacionistas e obscurantistas encontram terreno fértil para se entrincheirar em departamentos acadêmicos.
O que lamento, portanto, não é a ausência de terraplanistas nos cursos de geologia. O que lamento é a ausência, cada vez mais visível em nossas universidades, de uma ética intelectual pluralista. A julgar pelos signatários do Manifesto pelo Pluralismo Acadêmico, muitos também lamentam. Felizmente, há cada vez mais pesquisadores dispostos a trabalhar para restaurá-la.
*Pedro Damazio Franco é doutorando em psicologia social e organizacional na Columbia University.
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Imagem: Chris Weiher |
A escassez de perspectivas divergentes nas ciências sociais exige uma investigação atenta às dinâmicas de exclusão acadêmica, superando a frágil justificativa do demérito intelectual
A ciência avança por meio da crítica. Todo pesquisador tem uma dívida com seus críticos. Em seus melhores momentos, a crítica nos ajuda a refinar nossas ideias ao apontar argumentos que não havíamos considerado, referências que não conhecíamos e dados que desafiam nossas hipóteses. Mesmo quando erra o alvo, ela ainda pode ser benéfica, pois nos obriga a esclarecer melhor nossas posições, corrigir ambiguidades e evitar novas confusões.
Ao longo das últimas semanas, venho mantendo com o professor Luis Felipe Miguel um debate em torno de uma questão delicada: por que haveria menos conservadores em certas áreas da universidade, especialmente nas ciências sociais? Em seu primeiro artigo, Luis Felipe Miguel contesta a ideia de que a direita esteja ausente na universidade e sugere que, onde posições conservadoras têm menos espaço, isso refletiria sobretudo a menor capacidade explicativa dessas perspectivas diante do mundo social. Ele sugere também que, se existem mecanismos de exclusão ideológica na universidade, eles provavelmente se aplicam em medida semelhante à esquerda e à direita.
Em minha resposta, argumentei que antes de atribuir a distribuição ideológica do corpo docente apenas ao mérito relativo das teorias em disputa, seria prudente investigar também mecanismos de seleção, custos reputacionais, conformidade disciplinar e exclusão informal. Argumentei também que o grau e diferença entre exclusões à direita e à esquerda é uma questão empírica que precisa ser confrontada com estudos disponíveis. O debate, portanto, não é apenas sobre a presença de conservadores na universidade, mas sobre como aplicamos, ao analisar esse problema, os critérios críticos e metodológicos que usamos para compreender outras assimetrias sociais.
Fico feliz que o professor Luis Felipe Miguel tenha dedicado mais um artigo a essa questão, desta vez respondendo diretamente ao meu último texto. Ainda assim, para que o nosso debate fosse mais produtivo, eu gostaria que ele tivesse partido de uma representação mais fiel das minhas posições, evitando rebater teses que eu não apresentei no meu texto – e das quais eu mesmo discordo. Um engajamento direto com meus reais argumentos e as referências que apresentei elevaria a qualidade da nossa interlocução.
De toda forma, agradeço a resposta, pois ela me oferece a oportunidade de esclarecer o que realmente quis dizer. Na intenção de que minha crítica incida sobre posições efetivamente defendidas, procurarei seguir o mesmo procedimento adotado no primeiro artigo, inspirado nas regras de Rapoport: reproduzir da forma mais fiel possível os argumentos do interlocutor, explicitar os pontos de concordância e aprendizado e, só então, oferecer uma crítica. Esse esforço não decorre apenas de educação ou cortesia, mas porque refletem um dever elementar do debate intelectual – mesmo quando não é plenamente retribuído.
“Meritocracia”
O primeiro ponto a esclarecer é em torno da “meritocracia”. Sinto que isso talvez seja um ponto tangencial em relação aos temas principais do pluralismo acadêmico, mas, além de tratá-lo como se fosse central, Miguel apresenta minha posição de forma tão distante do que eu de fato propus em meu artigo original que esclarecimentos se fazem necessários.
Luis Felipe Miguel sugere no seu primeiro artigo que uma das qualidades intelectuais que confere vantagem à esquerda sobre a direita na universidade é a adoção de uma visão crítica das estruturas sociais, o que implica rejeição (ou ao menos suspeita) de explicações “meritocráticas” de desigualdades sociais. Sugere, portanto, que um dos motivos pelos quais conservadores estão ausentes nas ciências sociais é justamente sua falta de traquejo com essa “pegada crítica”.
No meu artigo, eu sugiro que o próprio Luis Felipe Miguel parece perder um pouco de traquejo crítico ao explicar a ausência de conservadores nas ciências sociais unicamente por questão de mérito. Sugiro também que, dada a natureza delicada desse tema, deveríamos tentar ser um pouco mais rigorosos – e “críticos” – ao explorar a questão.
Segundo ele, no entanto, eu teria dito que quem rejeita a meritocracia como explicação da sociedade não pode, sem contradição, falar sobre mérito em sentido algum, inclusive mérito epistêmico, melhores argumentos ou critérios de validade acadêmica. Em outras palavras, ele sugere que eu não acredito ser possível considerar a visão meritocrática da sociedade empiricamente incorreta e desprovida de valor heurístico e, ao mesmo tempo, defender o rigor na ciência. Com certeza seria um argumento estranho de se fazer – se eu o tivesse feito.
Imagino que parte da confusão talvez decorra da possibilidade de estarmos usando o termo “meritocracia” em sentidos ligeiramente distintos. Vale então esclarecer o sentido que eu empreguei. Para começar, proponho distinguir uma concepção normativa e uma concepção descritiva de meritocracia.
No sentido normativo, meritocracia é a crença de que posições, recompensas e reconhecimento devem corresponder a alguma medida de mérito ou excelência. No sentido descritivo (ou explicativo), meritocracia pode designar a crença de que o mundo real já é assim: isto é, que posições, recompensas e reconhecimento correspondem, na prática, ao mérito de seus detentores.
Aderir à meritocracia no sentido normativo não implica aderir a ela no sentido descritivo. Nisso concordo plenamente com Luis Felipe Miguel. Por exemplo, eu posso acreditar que existem ideias, trabalhos ou produtos melhores e piores, e que os melhores deveriam ter mais espaço que os piores – e ao mesmo tempo acreditar que no mundo social concreto, prestígio, autoridade, renda ou espaço institucional frequentemente não são distribuídos segundo o mérito real de seus detentores. É justamente isso que muitos consideram uma “visão crítica” da sociedade: a adoção de um ideal de mérito normativo, aliada à suspeita de que ele não se realiza no mundo real.
Ao longo do meu argumento, presumi que Luis Felipe Miguel defende justamente esse tipo de visão crítica. Em outras palavras, presumi que, como cientista social, ele rejeita ou no mínimo suspeita do uso descritivo da noção de meritocracia, que supõe que as assimetrias e desigualdades sociais são resultado apenas de méritos reais. Nunca presumi que ele rejeita ou deveria rejeitar qualquer noção de mérito como ideal normativo.
Em resumo, jamais afirmei que quem critica a noção de meritocracia não pode falar em mérito. Apontei apenas que alguém sensível ao peso causal de estruturas sociais, e treinado para suspeitar de explicações puramente meritocráticas, deveria também desconfiar de explicações puramente meritocráticas para assimetrias dentro da academia – inclusive quando consideramos os grupos em questão objetivamente mais ou menos meritosos que outros.
Para o crédito de Luis Felipe Miguel, no seu segundo artigo encontramos algumas hipóteses adicionais para a escassez de conservadores nas ciências sociais. Ele admite, por exemplo, que diferentes carreiras podem atrair pessoas com perfis distintos e que a docência no ensino superior talvez seja menos atraente para certos grupos. O ponto é relevante, mas parece não levar em consideração as referências que eu mobilizei no meu primeiro artigo, onde encontramos um debate já bastante desenvolvido sobre autosseleção, tipificação da carreira acadêmica e formação de preferências profissionais.
Literatura especializada
Isso me leva a outro ponto importante: apesar das diversas afirmações e suposições que lança nos seus artigos, Luis Felipe Miguel não se engaja explicitamente com o debate especializado sobre o tema em questão. No meu texto, apresentei uma série de referências e estudos empíricos – uma pequena amostra de um amplo campo de pesquisa, consolidado há décadas, sobre o perfil ideológico do corpo docente superior.
É verdade que esse campo ainda engatinha no Brasil, que os estudos disponíveis certamente não são definitivos (nullius in verba!), e que generalizações devem ser feitas com cautela. Mas se trata de uma bibliografia extremamente informativa, que nos ajuda a formular hipóteses e diagnósticos mais rigorosos e, portanto, mais úteis para o debate público.
Em sua resposta Luis Felipe Miguel optou por não dialogar com nenhuma dessas referências ou oferecer justificativa para descartá-las. Seu diagnóstico permaneceu apoiado em observações gerais sobre concursos, disciplinas e correntes teóricas, além de algumas anedotas pessoais que, embora relevantes, não substituem investigação sistemática.
Se estamos tratando do perfil ideológico do corpo docente como um legítimo campo de investigação científica, é razoável começar aqui a exigir certos critérios de rigor e validação. A boa prática científica tipicamente favorece estudos sistemáticos acima de impressões pessoais. Ignorar o debate especializado sem justificativa explícita, por outro lado, parece contradizer os critérios de validação acadêmica que Miguel diz estar defendendo, ao mesmo tempo em que sugere que eu pretendo relativizar esses mesmos critérios. Voltarei a esse ponto mais abaixo.
Métodos e classificações
Talvez Luis Felipe Miguel pudesse responder que alguns dos estudos que mobilizo dependem excessivamente da autodeclaração ideológica dos docentes – método que ele parece considerar problemático. Seria uma objeção legítima. Categorias como “direita”, “esquerda” e “conservadorismo” variam entre contextos e não se deixam capturar plenamente por uma única pergunta de survey. Um relatório recente da Heterodox Academy sobre diversidade política no corpo docente discute justamente as limitações desse e outros métodos aplicados no campo.
Existem estudos que recorrem a medidas alternativas de afinidade ideológica como, por exemplo, produção acadêmica, orientações bibliográficas, atividade pública em redes sociais e comportamento político-eleitoral. Nenhum desses métodos resolve completamente o problema, é claro. Todos têm suas limitações. Porém, notavelmente, todos tendem a convergir na direção contrária ao diagnóstico de Miguel, que afirma que a suposta ausência de conservadores na universidade é um “espantalho” que “falseia a realidade”.
Resta perguntar se algum ceticismo metodológico também pode se aplicar ao diagnóstico de Luis Felipe Miguel. Para entender como ele conclui que a escassez conservadora na universidade é um mito, é válido indagar o que ele, afinal, considera um “conservador”.
Em seus dois artigos, Luis Felipe Miguel mobiliza diferentes registros dessa categoria. Ele afirma que, por exemplo, em áreas como economia, direito, ciência política e relações internacionais, “visões conservadoras” são majoritárias, pois os modelos predominantes seriam “individualistas, estáticos, desistoricizantes”. Em outro registro, sugere que professores podem ser conservadores não apenas por posições políticas declaradas, mas por manejarem modelos “desprovidos de pegada crítica”.
Também são incluídos em um balde de conservadores pensadores tão diversos quanto Hayek, Schumpeter e Nozick; as “visões institucionalistas” que supostamente predominam em sua disciplina; a “neutralidade axiológica” qualificada como conservadora; além de expressões mais explícitas da direita política e intelectual, como olavismo, escola austríaca, fundamentalismo cristão e bolsonarismo. Em dado momento, no extremo oposto do que muitos considerariam o espectro político tradicional, Luis Felipe Miguel inclui até mesmo a militância identitária, “no frigir dos ovos”, como um fenômeno “conservador”.
Não estou sugerindo que exista uma única definição correta do termo, nem que as definições adotadas por Luis Felipe Miguel estejam “erradas”. Mas não nos deve surpreender que uma definição suficientemente expansiva de “conservadorismo” nos levará à conclusão de que a universidade está repleta de conservadores.
Na falta de critérios metodológicos explícitos ou de diálogo mais direto com trabalhos existentes no campo, temos o direito de suspeitar que o diagnóstico de Miguel se sustenta menos em evidências empíricas do que em uma conceitualização abusivamente ampla de “conservadorismo”. Os estudos que mencionei acima são claros sobre suas definições e honestos sobre suas limitações. Se Miguel apresenta um diagnóstico tão discrepante, no mínimo cabe adotarmos semelhante cautela metodológica.
Por que a ausência de conservadores importa?
Mais uma confusão é sinalizada quando Luis Felipe Miguel parece me incluir entre “vozes que clamam por mais direitistas na universidade”. O problema, de novo, é que nunca apresentei essa demanda. Ao contrário, deixei absolutamente claro que engenharias sociais destinadas a produzir determinada proporção ideológica no corpo docente me parecem temerárias.
Entendo que é fácil confundir a atenção a uma assimetria social com um clamor para que ela seja “corrigida”, então esclareço mais uma vez: a meu ver, o problema não é a ausência de conservadores enquanto tal. O ponto central é saber se essa assimetria resulta apenas do mérito relativo das perspectivas em disputa ou se envolve também mecanismos de exclusão informal, custos reputacionais, autocensura, conformidade disciplinar, suspeição ideológica, formas sutis de preconceito e perseguição explícita.
Importa saber também se esses mecanismos afetam não só indivíduos de direita, mas pessoas de outras matrizes ideológicas – inclusive muitas que possam ter sido injustamente rotuladas como “conservadoras”, “neoliberais”, “reacionárias” ou “fascistas” por meio de taxonomias abusivamente flexíveis que circulam na universidade.
Interessa saber também como tudo isso afeta a qualidade geral do trabalho acadêmico e da educação superior, seja ao desencorajar temas de pesquisa relevantes, seja ao empobrecer debates importantes. É certo que ainda faltam dados no Brasil para cravar diagnósticos mais precisos, mas já podemos travar uma discussão relativamente informada – e, como argumentei no último artigo, a relutância em tratar desse tema como um legítimo campo de investigação científica não deixa de ser um dado relevante em si mesmo. Enfim, não precisamos considerar a ausência de conservadores como um problema significativo em si mesmo para entendê-la como um sintoma de algo que pode ser significativo.
Cotas para terraplanistas!
Outro tópico de discussão de Miguel foi o Manifesto pelo Pluralismo e Pela Liberdade Acadêmica, iniciativa da qual faço parte. Ele parece supor que nossa proposta é que a universidade deva abrigar posições vinculadas a valores políticos divergentes “como se isso fosse um objetivo em si mesmo”. Para ele, essa posição opera com base em um relativismo científico que, se levado às últimas consequências, resultará no ridículo lamento de que faltam terraplanistas no departamento de geologia.
Concordo que tratar a diversidade de valores dentro da universidade como um fim em si mesmo traria consequências nefastas e caricatas. O problema é que o manifesto não propõe nada disso. E admito que – muito embora o reductio ad absurdum dos “terraplanistas na geologia” já tenha sido amplamente discutido, debatido, e rebatido – esse ainda é um mal-entendido comum. Como o tema é recente no debate brasileiro, cabe aqui um esclarecimento curto e simples.
A diversidade de qualquer perfil intelectual ou ideológico no corpo docente jamais deve ser considerado um bem final, mas apenas um bem instrumental. Em outras palavras, essa diversidade só tem valor na medida em que contribui para a atividade-fim da universidade, isso é, a excelência no trabalho acadêmico. Os benefícios educacionais e científicos de ambientes plurais são bem conhecidos, mas – e nisso eu concordo plenamente com Luis Felipe Miguel – esses benefícios só ocorrem em um ambiente acadêmico estruturado e orientado por critérios próprios de rigor e excelência.
Pluralismo e integridade acadêmica
Por último, quero me aprofundar na relação entre pluralismo e rigor acadêmico. Como vimos, Miguel sugere que a defesa do pluralismo ameaçaria critérios autônomos de validade científica ao supostamente tratar a diversidade de posições como um fim em si mesmo. Assim, argumenta ele, critérios de excelência acadêmica ficariam subordinados a critérios de conveniência política.
A essa altura talvez seja oportuno perguntar: o que são, afinal, critérios de excelência acadêmica e rigor científico? A discussão tem sido um pouco abstrata quanto a isso até agora. Se tantas ameaças rondam esses princípios, seria bom tentar defini-los com mais precisão. Proponho, então, listar alguns exemplos que podem ajudar a ancorar nossa discussão na realidade da práxis científica.
Entre alguns critérios de rigor e excelência amplamente reconhecidos por praticantes da ciência estão: representar da forma mais fiel possível a perspectiva dos críticos; argumentar com base em dados e estudos disponíveis; manter-se a par do debate especializado em torno dos temas que se propõe a discutir, mesmo quando isso nos exige sair da nossa zona de conforto teórico ou ideológico; explicitar nossos pressupostos e aceitar submetê-los à crítica; evitar diagnósticos precipitados com base em simpatias ou antipatias ideológicas; resistir à tentação de rotular oponentes antes de compreender seus argumentos; aplicar métodos e critérios de validação com consistência e isonomia, mesmo que levem a conclusões politicamente inconvenientes; admitir possíveis erros de interpretação e se dispor a corrigi-los.
Esses critérios não são exaustivos. Ofereço uma lista pequena e provisória só para deixar claro que critérios de mérito acadêmico existem, sim, dentro da proposta pluralista. Mas esses méritos não se medem por aderência prévia a esta ou aquela orientação teórica, e muito menos a esta ou aquela orientação política. Medem-se pela capacidade de sustentar, diante de críticos reais, os hábitos intelectuais que tornam a ciência possível. Sem um ambiente plural que nos exponha a críticos reais, esses hábitos naturalmente tendem a se atrofiar. E sem esses hábitos, um ambiente plural não florescerá.
Assim como em nossa discussão sobre a “meritocracia”, podemos tentar distinguir o pluralismo acadêmico em sua dimensão descritiva e sua dimensão normativa. Quando tentamos expressar descritivamente o que queremos dizer com pluralismo, tipicamente falamos de um estado de coexistência produtiva de diferentes valores, pressupostos e tradições intelectuais.
Já em sua dimensão normativa, o pluralismo nos exige falar de algo como uma ética intelectual que inclui, entre outros componentes, as práticas que listei mais acima. Da mesma forma que uma sociedade “meritocrática” se desfaz quando seus membros não são capazes de sustentar – ainda que imperfeitamente – um ideal meritocrático, o pluralismo também perde a sua substância quando não é sustentado por uma ética intelectual pluralista.
Este artigo oferece uma definição inevitavelmente incompleta dessa ética, mas suspeito que todo pesquisador saberá reconhecê-la como elemento constitutivo da vida acadêmica. Isso porque o pluralismo não é, como se argumenta, um princípio externo a ser imposto à força sobre a ciência. Afinal, estamos falando do conjunto integrado de práticas, princípios, e hábitos intelectuais – ou virtudes, se preferir – que tornam o desacordo intelectualmente produtivo. Sem isso, não existe ciência.
Sei bem que a presença de perspectivas divergentes pode produzir crítica disciplinada por um lado, e também relativismo, polarização e faccionalismo por outro. O que nos leva ao primeiro caminho e não ao segundo é justamente a presença de uma ética intelectual pluralista. É na ausência dessa ética que vemos prosperar um clima de moralismo intelectual persecutório e anticientífico, onde charlatões, negacionistas e obscurantistas encontram terreno fértil para se entrincheirar em departamentos acadêmicos.
O que lamento, portanto, não é a ausência de terraplanistas nos cursos de geologia. O que lamento é a ausência, cada vez mais visível em nossas universidades, de uma ética intelectual pluralista. A julgar pelos signatários do Manifesto pelo Pluralismo Acadêmico, muitos também lamentam. Felizmente, há cada vez mais pesquisadores dispostos a trabalhar para restaurá-la.
*Pedro Damazio Franco é doutorando em psicologia social e organizacional na Columbia University.

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