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Pepe Escobar aponta derrota estratégica dos Estados Unidos na guerra contra o Irã

Qualquer acordo assinado por Donald Trump representaria o reconhecimento da resistência iraniana diante da ofensiva militar de Washington


Do Brasil 247, 13 de junho de 2026
Por Redação Brasil 247


(Foto: Brasil 247)

247 – O jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar afirmou que os Estados Unidos sofreram uma derrota estratégica na guerra contra o Irã e que um eventual acordo entre Washington e Teerã se tornou politicamente quase impossível para Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. A análise foi feita em seu programa semanal Pepe Café, no YouTube.

Segundo Escobar, Trump está diante de um impasse histórico: se assinar um entendimento com o Irã, reconhecerá, na prática, que a ofensiva norte-americana não conseguiu submeter Teerã; se não assinar, prolongará uma crise militar, energética e econômica com efeitos globais. "Conceitualmente, tudo isso é impossível por uma razão muito simples. Qualquer coisa que ele assine significará, na prática, por mais que ele venda isso, uma derrota estratégica americana na guerra que ele começou", afirmou.

Trump diante de um impasse

Na avaliação de Escobar, a Casa Branca tenta apresentar o impasse diplomático como resultado de uma suposta demora iraniana em aceitar um acordo. Para o analista, porém, o que está em jogo é a recusa de Teerã em aceitar imposições que significariam sua rendição estratégica.

"O que ele está dizendo é que o Irã levou uma quantidade enorme de tempo para não aceitar suas imposições", disse Escobar, ao comentar a postura de Trump diante das negociações.

O jornalista afirmou que o presidente norte-americano já teria tido em mãos rascunhos de um possível entendimento com o Irã, mas não conseguiu avançar porque qualquer assinatura seria lida como reconhecimento da força iraniana no novo equilíbrio do Oeste Asiático. "Ele já teve em mãos um rascunho preliminar, um rascunho, ou um rascunho quase completo de um possível acordo entre os Estados Unidos e o Irã, que ele só precisava assinar", afirmou.

Para Escobar, esse é o centro da crise: Trump não pode aceitar formalmente um acordo sem admitir que a estratégia militar de Washington fracassou. Ao mesmo tempo, a ausência de acordo amplia o risco de uma escalada regional ainda mais grave.

Mediação paquistanesa tenta evitar guerra total

Escobar afirmou que, até recentemente, ainda havia uma possibilidade de entendimento por meio de uma mediação conduzida pelo Paquistão. Segundo ele, esse caminho poderia envolver uma assinatura em Islamabad entre Trump e o presidente iraniano Masoud Pezeshkian, com apoio de atores regionais interessados em estabilizar o Oeste Asiático.

O analista citou o Conselho de Cooperação do Golfo, a Turquia e, em especial, a Arábia Saudita como parte de um campo favorável a uma normalização mais ampla na região. No entanto, destacou que os Emirados Árabes Unidos estariam fora desse bloco, em razão de sua posição durante o confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã.

"Durante a guerra pesada dos primeiros quarenta e poucos dias entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, os Emirados Árabes Unidos estiveram francamente do lado americano-israelense contra o Irã", declarou.

Segundo Escobar, fontes paquistanesas avaliam que Abu Dhabi poderá, em algum momento, reconhecer sua derrota estratégica e se acomodar ao novo quadro regional, no qual o Irã aparece como a principal potência do Oeste Asiático.

Resposta iraniana muda o cálculo militar dos EUA

Um dos pontos centrais da análise de Escobar é que o Irã demonstrou capacidade e disposição para responder diretamente a ataques norte-americanos. Ele afirmou que, após a retomada da ofensiva dos Estados Unidos e o rompimento do cessar-fogo, Teerã respondeu atingindo bases militares americanas em diferentes pontos do Oeste Asiático.

Entre os alvos citados pelo jornalista estão instalações na Jordânia, no Bahrein e no Kuwait. Escobar deu destaque especial ao ataque contra o quartel-general da Quinta Frota dos Estados Unidos no Bahrein, que descreveu como uma demonstração de ousadia estratégica iraniana.

"Se vocês nos atacarem, nós responderemos. Se vocês nos atacarem de novo, responderemos não da mesma forma, mas 1,5 vez mais severamente", disse Escobar, resumindo a mensagem que, em sua avaliação, o Irã transmitiu a Washington.

Para o analista, a resposta iraniana mostrou que as bases norte-americanas espalhadas pela região deixaram de ser ativos intocáveis. Ao contrário, passaram a integrar o mapa de retaliação de Teerã em caso de novos ataques.

Eixo da Resistência amplia risco de escalada

Escobar afirmou que uma nova ofensiva contra o Irã poderia provocar uma resposta não apenas de Teerã, mas de todo o chamado Eixo da Resistência. Ele citou milícias iraquianas, o Hezbollah e o Ansarallah, no Iêmen, como parte dessa rede político-militar.

"Qualquer ataque a um dos nós do Eixo da Resistência é considerado um ataque contra toda a resistência", afirmou.

Segundo o jornalista, essa doutrina altera profundamente o cálculo de Washington e de seus aliados. Um ataque limitado contra infraestrutura iraniana, como pontes ou instalações elétricas, poderia desencadear uma resposta regional ampla, com impactos diretos sobre a economia global, o mercado de petróleo, os fertilizantes, o hélio, os títulos da dívida e as rotas de comércio.

Escobar alertou que a economia mundial já opera sob forte tensão e que novas ações militares poderiam produzir consequências imprevisíveis. Para ele, a tentativa de impor ao Irã uma derrota estratégica pode acabar acelerando o desgaste da própria posição norte-americana.

Soberania iraniana e acordo nuclear

No programa Pepe Café, Escobar também afirmou que as exigências iranianas foram claras ao longo das últimas semanas. Segundo ele, Teerã exigiria, antes de qualquer entendimento, o fim das guerras contra o Irã e contra o Eixo da Resistência.

A partir daí, haveria espaço para discutir a situação do Estreito de Hormuz e uma possível modalidade de acordo nuclear semelhante ao pacto de 2015, o JCPOA, firmado em Viena e posteriormente ratificado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

"As exigências de respeito à soberania iraniana foram mais do que claras por semanas", afirmou Escobar.

O analista disse ainda que a posição iraniana se tornou mais dura diante da escalada. Segundo ele, informações atribuídas à mediação paquistanesa indicariam que Teerã poderia abandonar o Tratado de Não Proliferação Nuclear caso os Estados Unidos continuem ultrapassando seus limites.

Derrota estratégica norte-americana

Para Escobar, o ponto essencial é que a guerra iniciada por Washington não produziu o resultado esperado. Em vez de isolar e enfraquecer o Irã, a ofensiva teria consolidado Teerã como ator central do Oeste Asiático e reforçado sua capacidade de dissuasão.

"Se ele não assinar nada, seu caminho para o fundo do poço continuará", afirmou o analista, referindo-se a Trump.

Na avaliação do jornalista, a derrota estratégica dos Estados Unidos não se resume ao campo militar. Ela também se expressa na incapacidade de Washington de impor seus termos diplomáticos, controlar a escalada regional e impedir que o Sul Global observe a crise como mais um sinal de declínio da ordem unipolar.
Rússia, China e o Sul Global

Escobar conectou a crise no Oeste Asiático à escalada da guerra na Ucrânia e à crescente tensão entre Rússia e União Europeia. Segundo ele, as elites europeias caminham perigosamente para um cenário de confronto militar direto com Moscou, recusando-se a discutir seriamente qualquer possibilidade de paz.

O jornalista afirmou que as ofensivas contra Irã, Rússia e, em última instância, China fazem parte de uma mesma lógica estratégica. Para ele, os três países sabem que enfrentam uma pressão coordenada e que o desfecho desse processo será decisivo para o futuro do Sul Global.

"É uma guerra, mais uma vez, travada contra o Irã, contra a Rússia e, em última instância, contra a China", afirmou.

Escobar também contrastou esse cenário de guerra com a construção de uma ordem multipolar. Ele citou sua passagem recente por China e Rússia e o Fórum de São Petersburgo, que, segundo ele, reuniu representantes de mais de 120 países e expressou a força crescente do Sul Global em torno de uma agenda de cooperação, comércio e multipolaridade.

Crítica à política de Trump e à Copa do Mundo

Na análise, Escobar também criticou a organização da Copa do Mundo nos Estados Unidos, México e Canadá. Ele acusou a administração Trump 2.0 de adotar práticas discriminatórias contra representantes do Sul Global, incluindo equipes, árbitros, técnicos e torcedores.

"Este governo Trump 2.0 já arruinou a Copa do Mundo antes mesmo de ela começar", afirmou.

Para o jornalista, o tratamento dado por autoridades norte-americanas a cidadãos de países do Sul Global reflete a mesma lógica imperial que orienta as guerras em curso. Ele comparou essa postura com a recepção oferecida pelo México, que descreveu como muito mais civilizada e solidária.

Ao final, Escobar afirmou que o mundo vive uma confluência histórica extremamente perigosa, marcada pela possibilidade de expansão simultânea dos conflitos no Oeste Asiático e na Ucrânia. Para ele, Irã, Rússia e China terão papel decisivo na contenção de uma escalada ainda maior.

"Depende dos três salvar todos nós no Sul Global do que poderia ser uma quarta guerra mundial", disse.

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