Por IAEL DE SOUZA*
O rebaixamento do rigor acadêmico sob o pretexto da vulnerabilidade social nega à classe trabalhadora o acesso pleno ao conhecimento, perpetuando a mesma desigualdade que a educação deveria combater
1.
Um contingente considerável das(os) educadoras(es) formados em pedagogia (ainda bem que há exceções) terminam tratando as(os) estudantes filhas(os) da classe trabalhadora –mais precisamente dos segmentos subalternos e populares, dado que também há estratificação dentro desta classe de acordo com as posições ocupadas dentro da divisão social-técnica-hierárquica do trabalho – como vítimas, além da própria vitimização feita pelos(as) próprios(as) estudantes, subestimando seu potencial humano de criar as condições objetivas (procedimentos, métodos de estudo, disciplina psicofísica) e subjetivas (esforço, trabalho intelectual sistemático, persistência, paciência, etc.) para lidar e alargar seus limites atuais a partir do momento que tomam consciência e reconhecem, via ensino e aprendizagem, o que é historicamente necessário fazer para explorar e desenvolver seu potencial cognitivo, intelectual, propiciando um posicionamento político-social de qualidade infinitamente mais elevada perante a realidade.
Não se trata, por outro lado, de superestimar, mas sim de ter ciência de que mesmo que as(os) filhas(os) da classe trabalhadora provenientes das camadas subalternas e populares precisem enfrentar, cotidianamente, condições, situações e circunstâncias adversas, como: questões domésticas, maternidade/paternidade precoce, jornadas de trabalho exaustivas e em condições precárias, deslocamentos em rede de transporte precário, etc., isto não permite justificativas para a falta de compromisso, rigor, método, radicalidade e seriedade com a sua formação e maturação cognitiva/intelectual e, por conseguinte, espiritual, já que tanto os sentimentos quanto as emoções têm base existencial/material.
Utilizar das dificuldades relativas às condições de vida e trabalho das(os) filhas(os) da classe trabalhadora como forma de rebaixar as exigências imanentes e inerentes ao trabalho intelectual rigoroso, metódico, sistemático, radical, capaz de construir uma análise histórico-social-dialética (pensar “por” contradição) de conjunto (totalidade) da realidade, estabelecendo as mediações (e não representações/interpretações) entre os fenômenos e fatos microssociais e macrossociais e vice-versa, conforme às necessidades postas e respostas exigidas, é completamente nocivo à sua formação e humanização, pois conserva-as(os) no mesmo nível em que efetivamente estão, como defendido por Antonio Gramsci, adaptando a educação às limitações impostas pela própria forma de organização social.
2.
Por isso mesmo que Antonio Gramsci entendia que aos(as) filhos(as) da classe trabalhadora devem ser pressupostas, e não apenas garantidas, as condições materiais para seu estudo e jamais facilitações burocrático-culturais. Estas últimas correspondem, por exemplo, à simplificação dos conteúdos escolares, à flexibilização indefinida de critérios de avaliação, à transformação das dificuldades relacionadas às condições de vida e trabalho em justificativas permanentes para o esvaziamento das exigências imanentes ao trabalho intelectual. Isto culmina com a reprodução da desigualdade que se afirma pretender combater. A elevação cultural-moral (Gramsci) das(os) estudantes não se efetiva, confirmando-as(os) à posição social em que já se encontram.
Como diz o educador/pesquisador Dermeval Saviani, os(as) filhos(as) da classe trabalhadora precisam dominar aquilo que os dominantes dominam. Dominar o que os dominantes dominam é condição para a sua emancipação. Caso contrário, acaba-se produzindo uma pedagogia da condescendência, onde as determinações econômicas, sociais, culturais dos(as) estudantes aparecem como absolutas, quando, na verdade, são historicamente determinadas e não absolutamente determinantes. Partir da realidade dos(as) estudantes não significa ficar aprisionado nela. Ademais, o conhecimento do educando em sua concreticidade “não se limita, para o caso da atividade educativa, ao conhecimento do que ele é, mas também ao conhecimento do que pode vir-a-ser”, o que “implica um posicionamento em favor de algumas das possibilidades desse vir-a-ser e, consequentemente, contra outras” (Duarte, 2007, p. 39).
Essas premissas expõem o fato de que muitos(as) educadores(as) falham miseravelmente quando “passam a mão na cabeça” das(os) estudantes das camadas subalternas e populares, deixando de cumprir a sua tarefa, que é ensinar, de modo sistemático, metódico, científico, histórico, rigoroso, o que foi produzido e acumulado pela humanidade, possibilitando que o indivíduo social se torne humano e se humanize ao se apropriar do que foi fixado e transmitido (comunicado) (Leontiev) nessas produções.
Isto nos leva a uma outra questão, que vem acontecendo no ensino universitário nos últimos tempos, em maior intensidade nas faculdades de educação, onde se formam as(os) pedagogas(os)/educadoras(es). As juventudes que compõem o seguimento estudantil dessa faculdade em específico e perfazem as camadas subalternas e populares são a expressão manifesta e sintomática do contágio do modus operandi da extrema-direita nos seus modos de posicionamento político, principalmente aquela parcela engajada em algum dos “novos” movimentos sociais. As análises se fundamentam no campo das narrativas, interpretações e representações e não no campo das mediações e contradições que perpassam os fatos e fenômenos sociais, inseridos em um contexto histórico-social mais amplo, macrossocial, que também precisa ser considerado.
3.
A universidade, espaço educativo e cultural por excelência, que tem na ontoepistemologia (Duarte, 2006, p. 14) sua essência e centralidade, lugar do diverso – pensado razoável e concretamente (concreto pensado) –, vem tendo essa sua atividade descaracterizada e atacada através de ações de intimidação de estudantes, invariavelmente ligados a algum tipo de organização social (movimentos, partidos, coletivos, etc.), a docentes que tem a coragem de se posicionar histórica e cientificamente nas discussões, reflexões, problematizações efetuadas nos espaços e atividades acadêmicos, portanto, um posicionamento objetivo, factual, sistemático, rigoroso e metódico, como é exigido da produção científica, histórica, social e dialética, colocando-se ao lado daqueles que apresentam a apreensão cognitiva mais elevada possível, cujo critério é beneficiar o gênero humano, ou seja, toda a humanidade, e não esta ou aquela classe, este ou aquele grupo, mas todos, para além das classes e de todos os marcadores sociais.
Hoje o medo e o temor em relação as ações dos(as) estudantes (reclamações na coordenação e ouvidoria – parece um colégio –, processos administrativos, etc.) espreita os docentes universitários, que acabam “passando pano” para atitudes e comportamentos que deveriam ser refletidos e repensados pela comunidade acadêmica, terminando em permissividade, gerando impunidade e, inconscientemente, a sensação de que os estudantes podem tudo, pois foram oprimidos e impedidos de se expressar e falar por tanto tempo, então é necessário compreender e “dar a outra face”, eles são o elo mais fraco da corrente.
Enquanto isso, o que vai sendo naturalizado e normalizado na academia é a autovigilância permanente dos docentes e o silenciamento para não “polemizar”, não “entrar em atrito”, evitar “conflitos”, manter a “paz” e a “paz de espírito” e assim por diante. A qualquer momento, a depender de uma fala descontextualizada, de uma frase tergiversada, ou qualquer outra coisa semelhante, alguém pode ser levianamente acusado de racista, misógino, homofóbico, machista, etc..
Hoje, basta uma palavra mal colocada, ou mal interpretada, para fazer cessar uma conversa ou qualquer possibilidade de diálogo. O outro, por mais próximo que esteja no campo das ideias, torna-se um inimigo a ser destruído. (…) Hoje, vários ataques partem de certa esquerda moralista e identitária. (…) os ataques são direcionados a pessoas que deveriam figurar como aliados nas lutas contra todas as formas de opressão. (…) Mesmo em ambientes acadêmicos, instaura-se um regime de terror voltado ao pensamento. Algo muito semelhante ao anti-intelectualismo que marca os regimes autoritários de direita (nazifascistas, neoliberais). Mínimas contradições ou frases descontextualizadas são percebidas como microagressões. Em vários ambientes, o direito de falar passou a exigir autorização segundo o gênero, a cor da pele ou a classe da pessoa. Distorce-se, com frequência, a ideia de “lugar de fala” para fazer dela uma justificativa à interdição do debate e à intimidação inclusive de professores. (…) busca-se propagar tanta culpa quanto possível e, quase sempre, “essencializar” as pessoas. A complexidade de cada indivíduo desaparece para que ele possa ser rotulado de inimigo das causas progressistas por um único ato. (…) (Proliferam) posturas identitárias que têm como principal efeito político a fragmentação do campo dos oprimidos. Hoje, as mentalidades inquisitoriais, tanto à direita como à esquerda, recorrem a manuais de comportamento que estabelecem as condutas esperadas dos “militantes perfeitos” e as penas cruéis a serem impostas aos “impuros”. Se as regras do manual não são rigorosamente seguidas, dá-se a demonização do “infrator”. (…) Ao seguir estes “manuais da militância” as pessoas tornam-se acríticas e perdem a potência criativa. Impossível construir coletivamente algo comum, se inexiste autonomia. Quem quiser mudar a sociedade precisa abandonar esses discursos padronizados que só fazem sucesso entre os iniciados no ativismo e na militância (Casara, 2024, p. 148, 149, 152 e 153).
4.
Os(as) estudantes “engajados”, ao invés de politizar as situações geradoras de desentendimentos e conflitos, buscar investigar e construir todas as mediações necessárias para compreender os fatos e seus desdobramentos, tendem a utilizar as mesmas táticas da extrema-direita: espetacularizar a situação; produzir frases de efeito para conseguir adesão dos demais estudantes, produzindo o “efeito rebanho”; caluniar e difamar; incitar “cancelamentos”; fazer provocações e assim sucessivamente. Com isso, gera-se uma guerra entre aqueles que estão do mesmo lado e são, no final das contas, aliados, não inimigos.
Porém, transformados em inimigos(as), alimenta-se o ódio em relação a eles(as), produzindo e disseminando uma imagem deturpada daquele(a) que foi transformado(a) em réu(ré). Guerra entre nós, paz aos senhores! Reina a dissonância cognitiva.
Não podemos tolerar entre nós, estudiosos(as), pesquisadores(as), educadores(as) e estudantes, atitudes semelhantes às da extrema-direita. No campo intelectual, educativo e cultural o ponto de partida é o dissenso, as divergências, afinal, como esclarece Saviani (2007), o objetivo da educação é convencer e não vencer. Para isso é necessário se apropriar do e sistematizar o conhecimento da realidade, histórica, científica e filosoficamente, para poder argumentar com conhecimento de suas causas, que são variadas.
Ainda que se discorde do outro, é preciso ter a coragem de ouvi-lo, prestando atenção e buscando compreender sua argumentação a fim de identificar sua concepção e posicionamento de mundo, pois só então será possível uma réplica, ou mesmo refutação, razoavelmente adequada.
O espaço universitário é o local de pensamentos divergentes, e não do pensamento único. Consensos não são pressupostos, nem ponto de partida, mas construtos das reflexões radicais, rigorosas e de totalidade da realidade. Nesse sentido, muitas são as divergências de concepções e posicionamentos de mundo, que devem ser fundamentadas histórica, científica e filosoficamente para que possa haver convergências. O critério para averiguar a razoabilidade das ideias são os fatos histórico-sociais, condicionados espaço-temporalmente, daí a necessidade de sua apropriação adequada.
5.
A postura e atitude daqueles(as) que buscam um conhecimento científico, rigoroso e radical (ir até a raiz das coisas) da realidade deve ser outro perante os debates, diálogos, reflexões, problematizações e demais atividades educativas. A guerra deve ser declarada e realizada entre os senhores, e não entre nós. Caso contrário, estaremos fortalecendo nossos verdadeiros inimigos.
As mutações econômicas do sistema capital dos últimos quarenta anos produziram, por correspondência, mutações na conformação das subjetividades (Sennett, 2012), que incorporaram a “razão cínica” (Safatle, 2008) no seu modo de ser, pensar, sentir. Robson Ribeiro, em matéria publicada no Instituto Humanitas Unisinos, “Quando o discurso do sucesso despreza a formação”, é totalmente assertivo quando diz que vivemos hoje uma “deformação antropológica que afeta diretamente a maneira como compreendemos educação, trabalho e autoridade”.
Frente a essas contradições, nós, educadores(as), professores(as) não podemos legitimar uma pedagogia da condescendência e naturalizar ações e comportamentos moralistas-identitários. O enfraquecimento da formação intelectual tendencialmente acarreta a substituição da análise/reflexão estrutural por reações morais imediatas. É preciso que os(as) professores(as)/educadores(as) tenham coragem para desenvolver e cumprir sua tarefa de transmissão-assimilação de conhecimento, entendidas como exigindo ato ativo, e não passivo, do educando e compromisso, por parte deste último, com o rigor e a sistematização metódica de sua formação e elevação intelectual-moral.
Por fim, deve-se lembrar a toda a comunidade acadêmica que este espaço é o lugar da análise, da discussão, da reflexão, do debate, da problematização, da dialogicidade, desde que estejam, sempre, mediados pela historicidade dos fatos histórico-sociais, pela racionalidade que busca a verdade objetiva do real, que não é neutra nem imparcial, ainda mais em sociabilidades erigidas sob desigualdades sociais estruturais que possibilitam a dominação, exploração e variadas formas de opressão de um ser humano por outro.
Enfim, conflui-se com Robson Ribeiro: “sociedades intelectualmente frágeis são particularmente vulneráveis à manipulação, ao superficialismo e à erosão de qualquer compromisso sério com a verdade, com o trabalho e com a formação humana”.
*Iael de Souza é professora do Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Referências
CASARA, Rubens. A Construção do Idiota – o processo de idiossubjetivação. Apresentação Marcelo Semer. Rio de Janeiro: Da Vinci Livros, 2024.
DUARTE, Newton. Vigotski e o “aprender a aprender” – crítica às apropriações neoliberais e pós-modernas da teoria vigotskiana. Campinas, SP: Autores Associados, 2006.
DUARTE, Newton. Educação Escolar, Teoria do Cotidiano e a Escola de Vigotski. Campinas, SP: Autores Associados, 2007.
LEONTIEV, Alexis. O Desenvolvimento do Psiquismo. São Paulo: Editora Moraes.
SAFATLE, Vladimir. Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo, 2008.
SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia: teoria da educação, curvatura da vara, onze teses sobre a educação política. Campinas: Autores Associados, 2007.
SENNETT, Richard. A Corrosão do Caráter – o desaparecimento das virtudes com o novo capitalismo. Trad. Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: BestBolso, 2012.
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| Imagem: Falco Negenman |
1.
Um contingente considerável das(os) educadoras(es) formados em pedagogia (ainda bem que há exceções) terminam tratando as(os) estudantes filhas(os) da classe trabalhadora –mais precisamente dos segmentos subalternos e populares, dado que também há estratificação dentro desta classe de acordo com as posições ocupadas dentro da divisão social-técnica-hierárquica do trabalho – como vítimas, além da própria vitimização feita pelos(as) próprios(as) estudantes, subestimando seu potencial humano de criar as condições objetivas (procedimentos, métodos de estudo, disciplina psicofísica) e subjetivas (esforço, trabalho intelectual sistemático, persistência, paciência, etc.) para lidar e alargar seus limites atuais a partir do momento que tomam consciência e reconhecem, via ensino e aprendizagem, o que é historicamente necessário fazer para explorar e desenvolver seu potencial cognitivo, intelectual, propiciando um posicionamento político-social de qualidade infinitamente mais elevada perante a realidade.
Não se trata, por outro lado, de superestimar, mas sim de ter ciência de que mesmo que as(os) filhas(os) da classe trabalhadora provenientes das camadas subalternas e populares precisem enfrentar, cotidianamente, condições, situações e circunstâncias adversas, como: questões domésticas, maternidade/paternidade precoce, jornadas de trabalho exaustivas e em condições precárias, deslocamentos em rede de transporte precário, etc., isto não permite justificativas para a falta de compromisso, rigor, método, radicalidade e seriedade com a sua formação e maturação cognitiva/intelectual e, por conseguinte, espiritual, já que tanto os sentimentos quanto as emoções têm base existencial/material.
Utilizar das dificuldades relativas às condições de vida e trabalho das(os) filhas(os) da classe trabalhadora como forma de rebaixar as exigências imanentes e inerentes ao trabalho intelectual rigoroso, metódico, sistemático, radical, capaz de construir uma análise histórico-social-dialética (pensar “por” contradição) de conjunto (totalidade) da realidade, estabelecendo as mediações (e não representações/interpretações) entre os fenômenos e fatos microssociais e macrossociais e vice-versa, conforme às necessidades postas e respostas exigidas, é completamente nocivo à sua formação e humanização, pois conserva-as(os) no mesmo nível em que efetivamente estão, como defendido por Antonio Gramsci, adaptando a educação às limitações impostas pela própria forma de organização social.
2.
Por isso mesmo que Antonio Gramsci entendia que aos(as) filhos(as) da classe trabalhadora devem ser pressupostas, e não apenas garantidas, as condições materiais para seu estudo e jamais facilitações burocrático-culturais. Estas últimas correspondem, por exemplo, à simplificação dos conteúdos escolares, à flexibilização indefinida de critérios de avaliação, à transformação das dificuldades relacionadas às condições de vida e trabalho em justificativas permanentes para o esvaziamento das exigências imanentes ao trabalho intelectual. Isto culmina com a reprodução da desigualdade que se afirma pretender combater. A elevação cultural-moral (Gramsci) das(os) estudantes não se efetiva, confirmando-as(os) à posição social em que já se encontram.
Como diz o educador/pesquisador Dermeval Saviani, os(as) filhos(as) da classe trabalhadora precisam dominar aquilo que os dominantes dominam. Dominar o que os dominantes dominam é condição para a sua emancipação. Caso contrário, acaba-se produzindo uma pedagogia da condescendência, onde as determinações econômicas, sociais, culturais dos(as) estudantes aparecem como absolutas, quando, na verdade, são historicamente determinadas e não absolutamente determinantes. Partir da realidade dos(as) estudantes não significa ficar aprisionado nela. Ademais, o conhecimento do educando em sua concreticidade “não se limita, para o caso da atividade educativa, ao conhecimento do que ele é, mas também ao conhecimento do que pode vir-a-ser”, o que “implica um posicionamento em favor de algumas das possibilidades desse vir-a-ser e, consequentemente, contra outras” (Duarte, 2007, p. 39).
Essas premissas expõem o fato de que muitos(as) educadores(as) falham miseravelmente quando “passam a mão na cabeça” das(os) estudantes das camadas subalternas e populares, deixando de cumprir a sua tarefa, que é ensinar, de modo sistemático, metódico, científico, histórico, rigoroso, o que foi produzido e acumulado pela humanidade, possibilitando que o indivíduo social se torne humano e se humanize ao se apropriar do que foi fixado e transmitido (comunicado) (Leontiev) nessas produções.
Isto nos leva a uma outra questão, que vem acontecendo no ensino universitário nos últimos tempos, em maior intensidade nas faculdades de educação, onde se formam as(os) pedagogas(os)/educadoras(es). As juventudes que compõem o seguimento estudantil dessa faculdade em específico e perfazem as camadas subalternas e populares são a expressão manifesta e sintomática do contágio do modus operandi da extrema-direita nos seus modos de posicionamento político, principalmente aquela parcela engajada em algum dos “novos” movimentos sociais. As análises se fundamentam no campo das narrativas, interpretações e representações e não no campo das mediações e contradições que perpassam os fatos e fenômenos sociais, inseridos em um contexto histórico-social mais amplo, macrossocial, que também precisa ser considerado.
3.
A universidade, espaço educativo e cultural por excelência, que tem na ontoepistemologia (Duarte, 2006, p. 14) sua essência e centralidade, lugar do diverso – pensado razoável e concretamente (concreto pensado) –, vem tendo essa sua atividade descaracterizada e atacada através de ações de intimidação de estudantes, invariavelmente ligados a algum tipo de organização social (movimentos, partidos, coletivos, etc.), a docentes que tem a coragem de se posicionar histórica e cientificamente nas discussões, reflexões, problematizações efetuadas nos espaços e atividades acadêmicos, portanto, um posicionamento objetivo, factual, sistemático, rigoroso e metódico, como é exigido da produção científica, histórica, social e dialética, colocando-se ao lado daqueles que apresentam a apreensão cognitiva mais elevada possível, cujo critério é beneficiar o gênero humano, ou seja, toda a humanidade, e não esta ou aquela classe, este ou aquele grupo, mas todos, para além das classes e de todos os marcadores sociais.
Hoje o medo e o temor em relação as ações dos(as) estudantes (reclamações na coordenação e ouvidoria – parece um colégio –, processos administrativos, etc.) espreita os docentes universitários, que acabam “passando pano” para atitudes e comportamentos que deveriam ser refletidos e repensados pela comunidade acadêmica, terminando em permissividade, gerando impunidade e, inconscientemente, a sensação de que os estudantes podem tudo, pois foram oprimidos e impedidos de se expressar e falar por tanto tempo, então é necessário compreender e “dar a outra face”, eles são o elo mais fraco da corrente.
Enquanto isso, o que vai sendo naturalizado e normalizado na academia é a autovigilância permanente dos docentes e o silenciamento para não “polemizar”, não “entrar em atrito”, evitar “conflitos”, manter a “paz” e a “paz de espírito” e assim por diante. A qualquer momento, a depender de uma fala descontextualizada, de uma frase tergiversada, ou qualquer outra coisa semelhante, alguém pode ser levianamente acusado de racista, misógino, homofóbico, machista, etc..
Hoje, basta uma palavra mal colocada, ou mal interpretada, para fazer cessar uma conversa ou qualquer possibilidade de diálogo. O outro, por mais próximo que esteja no campo das ideias, torna-se um inimigo a ser destruído. (…) Hoje, vários ataques partem de certa esquerda moralista e identitária. (…) os ataques são direcionados a pessoas que deveriam figurar como aliados nas lutas contra todas as formas de opressão. (…) Mesmo em ambientes acadêmicos, instaura-se um regime de terror voltado ao pensamento. Algo muito semelhante ao anti-intelectualismo que marca os regimes autoritários de direita (nazifascistas, neoliberais). Mínimas contradições ou frases descontextualizadas são percebidas como microagressões. Em vários ambientes, o direito de falar passou a exigir autorização segundo o gênero, a cor da pele ou a classe da pessoa. Distorce-se, com frequência, a ideia de “lugar de fala” para fazer dela uma justificativa à interdição do debate e à intimidação inclusive de professores. (…) busca-se propagar tanta culpa quanto possível e, quase sempre, “essencializar” as pessoas. A complexidade de cada indivíduo desaparece para que ele possa ser rotulado de inimigo das causas progressistas por um único ato. (…) (Proliferam) posturas identitárias que têm como principal efeito político a fragmentação do campo dos oprimidos. Hoje, as mentalidades inquisitoriais, tanto à direita como à esquerda, recorrem a manuais de comportamento que estabelecem as condutas esperadas dos “militantes perfeitos” e as penas cruéis a serem impostas aos “impuros”. Se as regras do manual não são rigorosamente seguidas, dá-se a demonização do “infrator”. (…) Ao seguir estes “manuais da militância” as pessoas tornam-se acríticas e perdem a potência criativa. Impossível construir coletivamente algo comum, se inexiste autonomia. Quem quiser mudar a sociedade precisa abandonar esses discursos padronizados que só fazem sucesso entre os iniciados no ativismo e na militância (Casara, 2024, p. 148, 149, 152 e 153).
4.
Os(as) estudantes “engajados”, ao invés de politizar as situações geradoras de desentendimentos e conflitos, buscar investigar e construir todas as mediações necessárias para compreender os fatos e seus desdobramentos, tendem a utilizar as mesmas táticas da extrema-direita: espetacularizar a situação; produzir frases de efeito para conseguir adesão dos demais estudantes, produzindo o “efeito rebanho”; caluniar e difamar; incitar “cancelamentos”; fazer provocações e assim sucessivamente. Com isso, gera-se uma guerra entre aqueles que estão do mesmo lado e são, no final das contas, aliados, não inimigos.
Porém, transformados em inimigos(as), alimenta-se o ódio em relação a eles(as), produzindo e disseminando uma imagem deturpada daquele(a) que foi transformado(a) em réu(ré). Guerra entre nós, paz aos senhores! Reina a dissonância cognitiva.
Não podemos tolerar entre nós, estudiosos(as), pesquisadores(as), educadores(as) e estudantes, atitudes semelhantes às da extrema-direita. No campo intelectual, educativo e cultural o ponto de partida é o dissenso, as divergências, afinal, como esclarece Saviani (2007), o objetivo da educação é convencer e não vencer. Para isso é necessário se apropriar do e sistematizar o conhecimento da realidade, histórica, científica e filosoficamente, para poder argumentar com conhecimento de suas causas, que são variadas.
Ainda que se discorde do outro, é preciso ter a coragem de ouvi-lo, prestando atenção e buscando compreender sua argumentação a fim de identificar sua concepção e posicionamento de mundo, pois só então será possível uma réplica, ou mesmo refutação, razoavelmente adequada.
O espaço universitário é o local de pensamentos divergentes, e não do pensamento único. Consensos não são pressupostos, nem ponto de partida, mas construtos das reflexões radicais, rigorosas e de totalidade da realidade. Nesse sentido, muitas são as divergências de concepções e posicionamentos de mundo, que devem ser fundamentadas histórica, científica e filosoficamente para que possa haver convergências. O critério para averiguar a razoabilidade das ideias são os fatos histórico-sociais, condicionados espaço-temporalmente, daí a necessidade de sua apropriação adequada.
5.
A postura e atitude daqueles(as) que buscam um conhecimento científico, rigoroso e radical (ir até a raiz das coisas) da realidade deve ser outro perante os debates, diálogos, reflexões, problematizações e demais atividades educativas. A guerra deve ser declarada e realizada entre os senhores, e não entre nós. Caso contrário, estaremos fortalecendo nossos verdadeiros inimigos.
As mutações econômicas do sistema capital dos últimos quarenta anos produziram, por correspondência, mutações na conformação das subjetividades (Sennett, 2012), que incorporaram a “razão cínica” (Safatle, 2008) no seu modo de ser, pensar, sentir. Robson Ribeiro, em matéria publicada no Instituto Humanitas Unisinos, “Quando o discurso do sucesso despreza a formação”, é totalmente assertivo quando diz que vivemos hoje uma “deformação antropológica que afeta diretamente a maneira como compreendemos educação, trabalho e autoridade”.
Frente a essas contradições, nós, educadores(as), professores(as) não podemos legitimar uma pedagogia da condescendência e naturalizar ações e comportamentos moralistas-identitários. O enfraquecimento da formação intelectual tendencialmente acarreta a substituição da análise/reflexão estrutural por reações morais imediatas. É preciso que os(as) professores(as)/educadores(as) tenham coragem para desenvolver e cumprir sua tarefa de transmissão-assimilação de conhecimento, entendidas como exigindo ato ativo, e não passivo, do educando e compromisso, por parte deste último, com o rigor e a sistematização metódica de sua formação e elevação intelectual-moral.
Por fim, deve-se lembrar a toda a comunidade acadêmica que este espaço é o lugar da análise, da discussão, da reflexão, do debate, da problematização, da dialogicidade, desde que estejam, sempre, mediados pela historicidade dos fatos histórico-sociais, pela racionalidade que busca a verdade objetiva do real, que não é neutra nem imparcial, ainda mais em sociabilidades erigidas sob desigualdades sociais estruturais que possibilitam a dominação, exploração e variadas formas de opressão de um ser humano por outro.
Enfim, conflui-se com Robson Ribeiro: “sociedades intelectualmente frágeis são particularmente vulneráveis à manipulação, ao superficialismo e à erosão de qualquer compromisso sério com a verdade, com o trabalho e com a formação humana”.
*Iael de Souza é professora do Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Referências
CASARA, Rubens. A Construção do Idiota – o processo de idiossubjetivação. Apresentação Marcelo Semer. Rio de Janeiro: Da Vinci Livros, 2024.
DUARTE, Newton. Vigotski e o “aprender a aprender” – crítica às apropriações neoliberais e pós-modernas da teoria vigotskiana. Campinas, SP: Autores Associados, 2006.
DUARTE, Newton. Educação Escolar, Teoria do Cotidiano e a Escola de Vigotski. Campinas, SP: Autores Associados, 2007.
LEONTIEV, Alexis. O Desenvolvimento do Psiquismo. São Paulo: Editora Moraes.
SAFATLE, Vladimir. Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo, 2008.
SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia: teoria da educação, curvatura da vara, onze teses sobre a educação política. Campinas: Autores Associados, 2007.
SENNETT, Richard. A Corrosão do Caráter – o desaparecimento das virtudes com o novo capitalismo. Trad. Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: BestBolso, 2012.

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