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Pausas para hidratação

Do A Terra É Redonda, 20 de junho 2026
Por MARCO BETTINE*


Imagem: Jean-Philippe Delberghe

Sob o verniz irrefutável da proteção à saúde dos atletas, as novas paralisações no futebol escancaram a colonização de uma prática cultural pela lógica voraz da publicidade

1.

As pausas para hidratação introduzidas na Copa do Mundo de 2026 parecem representar uma resposta simples a um problema objetivo: a necessidade de proteger os atletas diante das altas temperaturas observadas em diversas sedes do torneio. A justificativa oficial apresentada pela FIFA está associada ao bem-estar dos jogadores e aos riscos crescentes decorrentes do aquecimento global. Em documentos institucionais, a entidade sustenta que a medida integra um conjunto de protocolos voltados à proteção da saúde dos atletas em condições climáticas extremas (FIFA, 2026).

Entretanto, a repercussão da medida na imprensa internacional sugere que estamos diante de uma questão sociologicamente mais complexa. O debate produzido por jornais, atletas, treinadores e especialistas revela uma disputa entre diferentes racionalidades que buscam definir o significado e a legitimidade dessas interrupções. Sob essa perspectiva, as pausas para hidratação constituem um caso exemplar para analisar as transformações contemporâneas do futebol global.

Max Weber, em Economia e sociedade, descreve o agir racional com respeito a fins (Zweckrationalität) como uma ação orientada pelo cálculo dos meios mais adequados para alcançar determinados objetivos. O que chama atenção no debate atual é que diferentes atores mobilizam racionalidades finalísticas distintas para justificar ou criticar a mesma medida.

A primeira delas é a racionalidade médica. Seu objetivo é proteger os atletas. A saúde aparece como valor prioritário diante do aumento das temperaturas globais. A própria FIFA argumenta que as pausas são necessárias para reduzir riscos fisiológicos associados ao calor excessivo (FIFA, 2026). Na mesma direção, especialistas ouvidos pela Associated Press observaram que a combinação entre esforço físico intenso e temperaturas elevadas aumenta significativamente os riscos de desidratação, exaustão térmica e queda de desempenho, ainda que alguns pesquisadores considerem insuficiente o tempo atualmente previsto para as interrupções (Associated Press, 2026). Sob essa racionalidade, o futebol deve adaptar-se às novas condições ambientais produzidas pelas mudanças climáticas.

2.

A segunda é a racionalidade esportiva. Diversos jogadores e treinadores manifestaram preocupação com os efeitos das pausas sobre a dinâmica do jogo. Reportagens da Reuters registraram críticas de atletas que argumentam que as interrupções modificam a fluidez histórica do futebol, fragmentando uma experiência esportiva construída ao longo de mais de um século em torno da continuidade temporal da partida (Reuters, 2026a).

A questão central não é a saúde, mas a preservação da lógica interna do jogo. O futebol deixa de ser percebido apenas como uma atividade física e passa a ser compreendido como uma tradição cultural cuja identidade estaria ameaçada por intervenções externas. Essa percepção não decorre apenas de uma resistência conservadora às mudanças, mas da própria natureza histórica do futebol como prática social.

Ao longo do século XX, o esporte consolidou-se em torno de uma temporalidade relativamente estável: dois tempos contínuos de jogo, poucas interrupções e uma dinâmica marcada pela imprevisibilidade dos acontecimentos em campo. Essa estrutura temporal tornou-se parte constitutiva da experiência futebolística, moldando expectativas de jogadores, torcedores, treinadores e espectadores.

Nesse contexto, as pausas para hidratação passam a simbolizar uma tensão mais ampla entre tradição e modernização. Para seus críticos, elas representam um movimento semelhante ao observado em outros processos de transformação do esporte contemporâneo, em que os sistemas poder e dinheiro interferem na dinâmica do próprio jogar.

É justamente nesse ponto que a crítica esportiva se aproxima da crítica habermasiana da colonização do mundo da vida. O que aparece inicialmente como uma intervenção técnica destinada à proteção da saúde pode ser interpretado, por determinados sujeitos, como um sinal de que mecanismos sistêmicos vinculados ao dinheiro e à lógica comercial começam a reorganizar dimensões centrais da experiência esportiva.

A defesa da fluidez do jogo, portanto, não expressa apenas uma preferência estética ou nostálgica. Ela representa uma tentativa de preservar a autonomia simbólica de uma prática cultural diante da expansão de racionalidades que lhe são externas.

Mas é a terceira racionalidade que concentra as maiores controvérsias: a racionalidade econômica.

Em junho de 2026, reportagens da Reuters, do The Guardian e do Business Insider passaram a questionar se a universalização das pausas poderia ser explicada exclusivamente por razões médicas (Reuters, 2026a; The Guardian, 2026; Business Insider, 2026). Os veículos observaram que as interrupções criam oportunidades inéditas para inserções publicitárias durante as transmissões televisivas. Em determinadas emissoras norte-americanas, as pausas foram acompanhadas por blocos completos de publicidade, transformando momentos originalmente destinados à recuperação dos atletas em novos ativos econômicos para patrocinadores e detentores de direitos de transmissão.

3.

Sob essa perspectiva, a pausa para hidratação não aparece apenas como instrumento de proteção da saúde, mas também como mecanismo de valorização comercial do espetáculo. Cada interrupção gera novos espaços para exposição de marcas, ampliação da audiência e monetização das transmissões.

A dimensão econômica da controvérsia ganhou força quando veículos como New York Post, TalkSport, Yahoo Sports e Insider Sport passaram a estimar os ganhos potenciais gerados pelas pausas para hidratação. Segundo cálculos amplamente repercutidos na imprensa, a emissora norte-americana Fox teria à disposição cerca de 832 novas inserções publicitárias ao longo da Copa do Mundo, resultado de duas pausas de três minutos por partida em um torneio com 104 jogos.

Considerando valores que variam entre US$ 200 mil e US$ 750 mil por anúncio, a receita adicional poderia alcançar entre US$ 250 milhões e US$ 333 milhões. Para efeito de comparação, a Fox desembolsou aproximadamente US$ 485 milhões pelos direitos de transmissão da Copa nos Estados Unidos, levando alguns analistas a sugerir que as novas janelas comerciais poderiam recuperar mais da metade desse investimento.

O ex-executivo da ESPN John Kosner chegou a afirmar que a medida transforma simbolicamente o futebol em um esporte disputado em “quatro quartos”, criando dois intervalos comerciais de elevado valor agregado em cada partida. Na mesma direção, o El País observou que as pausas acrescentam mais de dez horas de espaço publicitário ao longo do torneio. Embora esses números não indiquem um ganho direto da FIFA sobre cada interrupção, eles evidenciam como uma medida apresentada em nome da saúde dos atletas produz simultaneamente um ativo econômico extremamente valioso para o ecossistema comercial que sustenta o futebol global.

O que para a racionalidade médica é uma medida preventiva, para a racionalidade econômica representa uma oportunidade de expansão dos fluxos de receita associados ao evento.

É precisamente nesse ponto que a teoria social de Jürgen Habermas oferece ferramentas analíticas importantes.

Em Teoria do agir comunicativo, Jürgen Habermas distingue duas formas fundamentais de integração social: a integração comunicativa, vinculada ao mundo da vida, e a integração sistêmica, associada aos mecanismos do dinheiro e do poder. O mundo da vida corresponde ao universo dos significados compartilhados, das tradições culturais e das formas cotidianas de entendimento mútuo. Os sistemas econômicos e administrativos, por sua vez, operam por meios não linguísticos, coordenando comportamentos por intermédio de incentivos monetários ou estruturas de poder.

4.

O futebol constituiu-se como uma prática profundamente enraizada no mundo da vida. As regras, os rituais, as rivalidades, as identidades coletivas e as formas de pertencimento que cercam o jogo dependem de processos permanentes de reconhecimento e compartilhamento de significados. O futebol é muito mais do que uma atividade econômica; trata-se de uma prática cultural dotada de sentido para milhões de pessoas.

Entretanto, Jürgen Habermas argumenta que a modernidade produz processos de colonização do mundo da vida quando mecanismos sistêmicos passam a reorganizar esferas da vida social anteriormente reguladas por consensos culturais e formas comunicativas de entendimento.

O debate sobre as pausas para hidratação pode ser interpretado precisamente nessa chave. A linguagem da saúde surge como justificativa legítima e socialmente aceita para uma transformação que produz simultaneamente benefícios econômicos significativos. Não se trata de negar a realidade do aquecimento global, nem a necessidade de proteger os atletas. O problema sociológico consiste em compreender como uma medida apresentada como resposta a uma necessidade médica pode também funcionar como instrumento de expansão da lógica econômica dentro do próprio jogo.

Nesse sentido, o futebol torna-se um espaço privilegiado para observar aquilo que Jürgen Habermas denomina “colonização do mundo da vida”. O tempo da partida, que tradicionalmente pertencia à lógica esportiva, passa a ser reorganizado por demandas associadas à publicidade, aos contratos de transmissão e à economia da atenção. O jogo continua sendo futebol, mas sua temporalidade passa a incorporar crescentemente necessidades externas à própria prática esportiva.

A reação da imprensa internacional revela, contudo, que esse processo não ocorre sem resistência. A cobertura crítica realizada por veículos como The Guardian, Reuters, Associated Press, Business Insider e El País demonstra o funcionamento da esfera pública como espaço de problematização das justificativas institucionais.

Em Mudança estrutural da esfera pública e posteriormente em Uma nova mudança estrutural da esfera pública e a política deliberativa, Jürgen Habermas atribui à esfera pública a função de submeter decisões e discursos de poder ao escrutínio crítico dos cidadãos. É exatamente isso que ocorre quando jornalistas e comentaristas questionam se as pausas são motivadas exclusivamente pela proteção dos atletas ou se também respondem a interesses econômicos ligados à indústria do entretenimento esportivo. A esfera pública torna visíveis dimensões que poderiam permanecer ocultas sob uma narrativa puramente técnica.

5.

Talvez o aspecto teoricamente mais interessante do debate esteja na relação entre agir comunicativo e agir estratégico. Jürgen Habermas define o agir comunicativo como uma forma de interação orientada ao entendimento mútuo. Já o agir estratégico busca influenciar o comportamento dos outros para alcançar determinados objetivos. O problema surge quando uma ação estratégica se apresenta discursivamente como ação comunicativa.

Nesse contexto, a expressão “pausa para hidratação” merece atenção especial. Trata-se de uma formulação linguisticamente poderosa porque mobiliza um valor praticamente incontestável: a proteção da saúde. Quem poderia ser contra a hidratação dos atletas em condições de calor extremo? A força normativa da expressão produz legitimidade imediata. Mas é justamente aí que emerge a suspeita da sociologia crítica.

Caso a medida produza simultaneamente ganhos comerciais relevantes, o discurso da saúde pode funcionar como aquilo que Jürgen Habermas denomina uma forma de ação estratégica oculta (verdecktes strategisches Handeln). A linguagem do cuidado permanece verdadeira e socialmente válida, mas passa a desempenhar também a função de legitimar interesses sistêmicos vinculados ao dinheiro e ao mercado.

A questão, portanto, não é decidir se as pausas são boas ou ruins. Tampouco se trata de negar os desafios impostos pelo aquecimento global. O ponto central é compreender como diferentes racionalidades disputam a definição legítima do futebol contemporâneo. A Copa do Mundo de 2026 oferece um exemplo particularmente revelador dessa tensão. A racionalidade médica busca proteger os corpos dos atletas. A racionalidade esportiva procura preservar a lógica histórica do jogo. A racionalidade econômica busca ampliar receitas e oportunidades de monetização. A esfera pública, por sua vez, procura tornar visíveis essas disputas e submetê-las à crítica.

Mais do que uma discussão sobre temperatura, as pausas para hidratação revelam um conflito mais amplo sobre os rumos do futebol global. Trata-se de uma disputa entre saúde, tradição e mercado; entre mundo da vida e sistemas; entre agir comunicativo e agir estratégico. Em última instância, trata-se de decidir quem define o significado do jogo em uma era cada vez mais marcada pela expansão da lógica econômica sobre as práticas culturais.

*Marco Bettine é professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP).

Referências

ASSOCIATED PRESS. Experts question whether three-minute hydration breaks are enough in extreme heat. 2026.

BUSINESS INSIDER. Critics say World Cup hydration breaks may be as much about commercials as player welfare. 2026.

FIFA. Player welfare measures and hydration breaks at the FIFA World Cup 2026. Zurique: FIFA, 2026.

HABERMAS, Jürgen. Teoria do Agir Comunicativo. Vols. 1 e 2. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012 [1981].

HABERMAS, Jürgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública. São Paulo: Unesp, 2014 [1962].

HABERMAS, Jürgen. Uma Nova Mudança Estrutural da Esfera Pública e a Política Deliberativa. São Paulo: Unesp, 2023 [2022].

REUTERS. Hydration breaks heat up World Cup debate with players and coaches split on new rule. 15 jun. 2026.

REUTERS. Mexico coach Aguirre backs hydration breaks amid World Cup heat concerns. 18 jun. 2026.

THE GUARDIAN. Hydration breaks and adverts: the commercialisation of World Cup stoppages. 12 jun. 2026.

WEBER, Max. Economia e Sociedade. Brasília: Editora UnB, 1999 [1922].

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