De OutrasPalavras, de de junho 2026
Por Rafael Oliveira
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| Foto: Gabriel de Paiva |
A canção O Meu Guri foi lançada no ano de 1981 por Chico Buarque no álbum Almanaque. Chico nos canta logo ao iniciar a música que:
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Ainda que em 2025 o Brasil tenha ocupado a nona posição entre as dez maiores economias mundiais1, nem por isso deixaram, e deixam, de nascer muitos rebentos com cara de fome em nosso país, nas quase treze mil favelas espalhadas por todo o território nacional2. Muitos destes rebentos, embora detentores de identidade civil, se tornam ao longo da vida indigentes sociais, na medida em que são socialmente marginalizados e economicamente excluídos da sociedade. Isolados nas comunidades pobres em que nascem e crescem, a possibilidade existencial desses jovens de produzirem e conservarem suas identidades e os seus corpos diminuem drasticamente, quando comparados àqueles que nascem em contextos socioeconômicos mais privilegiados.
Sendo assim, um número significativo de jovens brasileiros vivem numa condição em que se veem obrigados a deixarem a vida levá-los uma vez que lhes faltam meios e recursos que os possibilitem ter algum controle sobre a construção das suas vidas. Os rebentos brasileiros bem poderiam ser comparados a figura representada na obra Self Mad Man, da artista estadunidense Bobbie Carlyle, porém, destituídos da posse do martelo e do cinzel.
Embora dialogue com questões sociológicas e políticas, este ensaio pretende concentrar-se sobretudo na análise e na reflexão sobre as condições possíveis que os jovens periféricos brasileiros dispõem para a produção e a conservação ativa de uma identidade através da liberdade de escolha. Ao colocar isso em forma de pergunta, chega-se à seguinte questão: os rebentos brasileiros – que já nascem com cara de fome – são livres para criarem seus destinos?
Questão racial
Preto desde nascença, escuro de Sol
Racionais MC’s
De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os pretos e pardos somam quase 73% do número dos moradores das favelas brasileiras3. Não poderia ser diferente, considerando nosso passado escravocrata e o fato de nunca ter havido um esforço efetivo de reparação histórica à altura da tragédia social que foi a escravidão em nosso país, seja pelas elites econômicas, seja pelos governos constituídos. Os pretos são mantidos às margens da sociedade desde que puseram os pés aqui pela primeira vez.
Nesse sentido, os jovens brasileiros moradores de comunidades são, predominantemente, pretos e pardos. Grande parte deles vivem em casas sem acesso ao saneamento básico e à água encanada4. O número de estabelecimentos de ensino nas favelas brasileiras representa apenas 2,98% do total nacional, e são substancialmente inferiores à necessidade da população destas localidades. O mesmo se passa no âmbito da saúde, uma vez que os estabelecimentos de saúde existentes nas comunidades pobres brasileiras representam apenas 1,12% do total nacional5. Portanto, a expressiva maioria dos rebentos brasileiros nascem e crescem num contexto em que lhes falta o básico para uma vida com dignidade: moradia decente, educação e saúde.
Isto posto, é justo e necessário colocar a seguinte questão: como os jovens pretos e pardos poderão encontrar algum tipo de protagonismo social e de liberdade na sociedade brasileira se carecem das condições básicas para sua existência e sobrevivência?
Liberdade Condicionada
Na zona sul, cotidiano difícil
Sabotage
Consoante a máxima existencialista sartreana, estamos condenados à liberdade. Por isso, somos responsáveis por aquilo que nos tornamos. Embora sejamos influenciados por fatores externos, pesará sempre o fato de que somos livres para escolher. As ideias do filósofo francês parecem apropriadas e inspiradoras para um jovem brasileiro de classe média. Contudo, em se tratando dos jovens pretos e pardos moradores de favela, tais ideias soam estranhas, na medida em que as escolhas possíveis se apresentam sempre num número muito limitado. Ademais, é forçosamente necessário o reconhecimento de certos determinismos na construção da identidade dos mesmos.
Há, porém, uma escolha que os nossos rebentos fazem sem hesitação: a busca pela sobrevivência. E fazem essa escolha por uma razão muito simples: as favelas, para além do fato de que carecerem das condições materiais básicas para o bem-estar das pessoas, ainda convivem com a fome, com as drogas e com a polícia. Deste modo, aprender a sobreviver neste contexto é uma necessidade básica de todo jovem favelado.
“Toques de recolher que aprisionam centenas de milhares de pessoas em suas casas apertadas todas as noites desde o anoitecer ao amanhecer; soldados patrulhando as ruas escuras, assustados pelas próprias sombras; crianças cegadas por balas de borracha; pais humilhados e espancados na frente de suas famílias; soldados […] batendo nas portas frágeis de lata para assustar as crianças […] tiroteios e fatalidades – um certo tipo de loucura6”. Isso bem poderia ser uma fiel descrição de um dia comum numa favela brasileira, não fosse a descrição do filósofo camaronês Achille Mbembe de um contexto de guerra no continente africano. Portanto, o que é vivenciado cotidianamente nas favelas brasileiras não é muito diferente daquilo que se vê em situações de guerra mundo afora.
Sendo assim, não se pode considerar factível a hipótese de que os jovens periféricos do nosso país sejam realmente livres para construírem seus caminhos, e, por consequência, serem unicamente responsabilizados por aquilo que são. Dadas as circunstâncias em que vivem, seus projetos de vida – com exceções que não configuram a regra – acabam por incorporar a criminalidade. Uma vez envolvidos com o crime, passam ao status de “mortos-vivos”, para usar um conceito de Mbembe, na medida em que a qualquer momento suas vidas poderão ser tiradas pelos inimigos ou pelo estado.
Mortos-vivos
Desculpa mãe, por te impedir de sorrir
Facção Central
Estima-se atualmente que estejam em circulação no Brasil em torno de 16 a 17 milhões de armas de fogo7. No Rio de Janeiro, a critério de exemplo, predomina o uso de modelos de armas de guerra, como os fuzis AR-15 e AK-478. Armas, até que o contrário seja provado, produzem apenas mortes. E muitos jovens já perderam a vida no Brasil em decorrência delas.
Nessas circunstâncias, viver nas favelas brasileiras é conviver diariamente com a banalidade da morte. E quando se é jovem e preto, as chances de ser assassinado aumentam consideravelmente. Pretos e pardos – envolvidos ou não com o crime – dentro do espaço de segregação que são as favelas, estão sob constante ameaça de vilipêndio físico causado pelas armas de fogo. Mães em desespero ajoelhadas ao lado dos seus rebentos abatidos nos becos e vielas brasileiras costumam fazer parte do dia a dia dessas comunidades. Deste modo, quando sua probabilidade de estar vivo amanhã é consideravelmente menor do que a de outras pessoas que não vivem nestes espaços, como construir um projeto de vida? Como afirmar sua liberdade de querer ser alguma coisa? Muitos têm encontrado na criminalidade – saída das mais factíveis no cenário existencial em que se encontram – como meio de fazer de si alguma coisa9. Porém, o desfecho dessa tentativa, inexoravelmente, tem acabado sempre da pior forma.
O poder de matar
Se ele sacar, finado é você
Trilha Sonora do Gueto
Dois eventos sanguinolentos que aconteceram no Brasil, um em 1992 e outro mais recentemente em 2025, demonstram de modo paradigmático como o estado brasileiro, movido por uma certa opinião pública de que bandido bom é bandido morto, tem lidado com os rebentos que nascem com cara de fome. Determinadas políticas e ações de segurança pública têm sido conduzidas no país com base naquilo que Achille Mbembe chama de necropolítica, a saber, a ação de decidir quem vive e quem morre, com base em questões raciais10. Os eventos aos quais me refiro são o massacre do Carandiru e a Operação Contenção, deflagrada nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro.
No mês de janeiro, em muitas universidades públicas brasileiras é comum se reunirem nestes locais estudantes e seus familiares para verem seus nomes nas listas dos aprovados para o ingresso no ensino público superior, historicamente reservado a uma parcela privilegiada da sociedade brasileira11. Entretanto, no dia 08 de outubro de 1992, a única lista que as mães e os demais familiares dos 111 detentos aprisionados e executados na Casa de Detenção do Carandiru puderam ver, foi a lista oficial com os nomes das vítimas.
O massacre do Carandiru ocorreu no dia 02 de outubro de 1992, como consequência de uma ação da Polícia Militar de São Paulo chamada ao presídio para controlar uma briga entre detentos iniciada por motivo fútil12. De acordo com o laudo pericial de Osvaldo Negrini Neto: “Comprovamos a existência de rajadas de metralhadora a cerca de 50 centímetros do solo, o que indica que os presos foram mortos ajoelhados. Todas as marcas de bala eram de disparos numa só direção. Não havia marcas de disparos no sentido contrário, o que demonstra que não houve tiros contra os policiais”13.
Nesse contexto, o estado, representado pela Polícia Militar, decididamente escolheu quem viveria e quem morreria naquela circunstância. Movida por um poder de morte, 111 pessoas – com média de idade entre 18 e 25 anos e 84 deles sem condenação oficial – foram sumariamente executadas, violando assim todo e qualquer direito à vida e à integridade pessoal14.
No que diz respeito a Operação Contenção, realizada na cidade do Rio de Janeiro em 28 de outubro – coincidentemente no mesmo mês em que ocorreu o massacre do Carandiru – e na qual as forças de segurança do Estado do Rio de Janeiro realizaram uma operação de combate ao crime organizado no complexo de favelas do Alemão e da Maré, foram 121 “criminosos” mortos15.
Consoante relatos dos familiares e demais moradores das comunidades, existem fortes indícios de que muitos dos mortos foram executados sumariamente, mesmo depois de rendidos. Entre os mortos, 17 deles não apresentavam nenhum registro de histórico criminal16. Como um desfecho macabro disso tudo, correram imagens mundo afora de corpos – pretos e pardos – estirados sob o asfalto da Praça São Lucas, no Complexo da Penha. Ademais, em entrevista aos meios de comunicação, o Governador em exercício na ocasião, disse que a mesma havia sido “um sucesso”17.
Ambos os massacres evidenciam o fato de que o estado brasileiro tem tido “sucesso” em algumas ações cujo objetivo final é apenas a morte de corpos de jovens pretos e pardos.
A sobrevivência precede a existência
Esta é a vida de muitos em São Mateus
Consciência Humana
Isto posto, estou de acordo com Sartre quando ele afirma que “um ser é frágil quando carrega no seu ser uma possibilidade definida de não-ser”18. Neste sentido, este ensaio buscou demonstrar a fragilidade existencial na qual se encontram os jovens pretos e pardos brasileiros no que diz respeito ao exercício da liberdade. Diante das razões expostas, é possível afirmar que os rebentos brasileiros não dispõem das mesmas condições concretas de liberdade quando comparados a outros membros da sociedade brasileira.
As condições materiais nas quais se encontram e vivem hoje muitos jovens periféricos brasileiros exercem sobre eles uma influência de tal modo relevante que a sobrevivência acaba por preceder a existência. Dito de outro modo, antes de viver, a tarefa principal dos jovens pretos e pardos brasileiros é sobreviver.
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Referências
MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.
SARTRE, J.-P. (2021). O ser e o nada: Ensaio de ontologia fenomenológica (V. Gonçalves, Trad.). Edições 70.
COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, Relatório n.º 34/00: Caso 11.291 – Carandiru vs. Brasil, 2000.
CONSELHO NACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS (CNDH). Petição apresentada ao Supremo Tribunal Federal no âmbito da ADPF 635 após operação policial nos Complexos do Alemão e da Penha. Brasília, 2025.
1 https://valor.globo.com/mundo/artigo/as-maiores-economias-do-mundo.ghtml
2 https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/41797-censo-2022-brasil-tinha-16-4-milhoes-de-pessoas-morando-em-favelas-e-comunidades-urbanas
3 https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2024/11/08/pretos-e-pardos-representam-729percent-dos-moradores-de-favelas-indica-censo-mulheres-tambem-sao-maioria.ghtml
4 https://valor.globo.com/brasil/noticia/2024/11/08/meio-milhao-de-domicilios-em-favelas-no-pais-nao-tem-acesso-a-distribuicao-geral-de-agua-diz-ibge.ghtml
5 https://fiocruz.br/noticia/2025/01/saude-e-educacao-nas-favelas-desafios-semelhantes-territorios-nem-tanto
6 MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.
7 https://igarape.org.br/facilidade-para-lobos-solitarios/
8 https://www.metropoles.com/colunas/mirelle-pinheiro/fuzis-dominam-comunidades-e-viram-maior-ameaca-a-seguranca-no-rio
9 https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2025/12/07/vida-breve-nas-maos-do-crime-por-um-ano-o-globo-acompanhou-dez-adolescentes-do-trafico-seis-ja-morreram.ghtml
10 MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.
11 Cenário que têm se modificado graças à política da Lei de Cotas.
12 COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, Relatório n.º 34/00: Caso 11.291 – Carandiru vs. Brasil, 2000.
13 COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, Relatório n.º 34/00: Caso 11.291 – Carandiru vs. Brasil, 2000.
14 COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, Relatório n.º 34/00: Caso 11.291 – Carandiru vs. Brasil, 2000.
15 CONSELHO NACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS (CNDH). Petição apresentada ao Supremo Tribunal Federal no âmbito da ADPF 635 após operação policial nos Complexos do Alemão e da Penha. Brasília, 2025.
16 CONSELHO NACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS (CNDH). Petição apresentada ao Supremo Tribunal Federal no âmbito da ADPF 635 após operação policial nos Complexos do Alemão e da Penha. Brasília, 2025.
17 www.youtube.com/watch?v=8YkSjNTwyCI
18 Sartre, J.-P. (2021). O ser e o nada: Ensaio de ontologia fenomenológica (V. Gonçalves, Trad.). Edições 70.
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Rafael Oliveira
Licenciado em filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina e Mestre em filosofia da educação pela Universidade de Coimbra. Atualmente vive em Lisboa, onde é professor de humanidades no ensino profissional.
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